Olhos De Dante
11 Memórias
Faltavam apenas algumas horas para o sinal bater. Batendo o pé na mesa de metal branca, olhava para o relógio da parede, apreensivo. Não estava muito apressado, mas se fosse antes, poderia evitar me encontrar com certas pessoas desagradáveis no trajeto. Peguei meus livros e saí da sala quando o professor ainda estava em seu prolongado discurso sobre alguma coisa que parecia não ser importante. Ele não me impediu, provavelmente sabia de meus problemas e achou melhor ignorar, afinal, não era o único ali com eles.
Os corredores daquela pequena escola no subúrbio de Brooklyn eram intimidadores, quase sempre escuros devido à falta de iluminação, com as paredes envelhecidas e as portas fechadas. Corri depressa para a saída, passando por todos os cartazes no mural, as vidraças quebradas e as lixeiras vazias repletas de sujeira ao redor. Andei pelo piso xadrez até a porta inicial da escola. Reunidos na escadaria principal eu os encontrei. Pensei em voltar correndo para a sala de aula, mas seria vergonhoso encarar todos novamente depois de ter saído sem falar nada. Se pulasse pela janela do banheiro feminino eu poderia conseguir fugir pelo beco lateral da escola e chegar em casa sem confronto algum, talvez com algumas fraturas pela queda. Por isso, decidi arriscar um afronte. Havia garotos maiores no meio do grupo da sexta série e eu os reconheci de longe.
Estavam tão envoltos na conversa que não me perceberam. Pareciam nem se importar com o que havia acontecido dias atrás. Eu sabia que não era culpado, apenas fiz o que deveria ser feito, mas eles não pensavam assim, e mesmo com medo de qualquer represália, eu deveria ficar calado e continuar frequentando a escola quando não fosse mais possível inventar desculpas para minha mãe. Sempre evitava qualquer tipo de proximidade. Chegava atrasado e dava um jeito de sair antes do sinal bater. Não saia das classes nos intervalos.
O motivo disso tudo aconteceu uma semana antes e, naquele momento, um garoto se encontrava gravemente ferido no hospital. Eu me culpava por me sentir bem com isso, mas o medo também não ajudava o esquecimento. Só de lembrar que tudo isso começou por um relógio... Um maldito de um relógio! Pensei em voltar no tempo para entregar logo a ele, fingindo que nada acontecia. Não era grande coisa, eu sei que poderia viver sem um, mas minha mãe iria notar a falta, e pra ela, isso era algo importante. O relógio era de meu avô, de prata, mas ninguém nunca tinha mostrado interesse por aquela velharia, era antiquado e impercebível. O usava mais para agradar minha mãe que queria manter a memória de meu pai, que por sinal, nunca conheci.
Assim, que atravessei a porta principal, abaixei a cabeça e a cobri com o capuz da blusa, torcendo para que não chamasse a atenção. Ao passar por eles, ouvi cochichos. Não consegui decifrar o que diziam com clareza, mas fiquei pensando se era sobre mim. Poderia ser apenas paranoia. Nos últimos dias, minha imaginação estava mórbida, repleta pensamentos horríveis que me faziam voltar para aquela noite. Assim que passei pelo canteiro da entrada, suspirei aliviado, mas foi esse sentimento que causou a ironia a seguir. No mesmo momento, senti uma dor excruciante em minha nuca. Ajoelhei-me no chão e olhei para o objeto, pegando-o com as mãos, assustado. A pedra não era grande, mas havia me ferido, pois senti algo molhado escorrer por minhas costas. Abaixo da escadaria, fitei o agressor nos olhos apático.
— Onde acha que vai nessa pressa toda? — disse o garoto do meio, brincando com outra pedra entre as mãos.
Não sei em que momento da frase em que a emoção e o efeito do perigo me fizeram agir. Só sei que corri. Em minha cabeça, vi que me encontrava vivendo algo parecido, como se estivesse preso num loop eterno de um mesmo momento. O acidente estava se repetindo em minha cabeça e, talvez por isso, falhei desta vez, parando para não cair após o fraquejar de meus joelhos. Não demorou muito e me alcançaram. Recebi o puxão pelo pescoço conformado, esperando que terminasse logo.
Seguiu-se uma sucessão de golpes e pontapés. Tentei desvencilhar as agressões no rosto, mas eram muitos sobre mim e eu pude sentir o gosto de sangue em meus lábios que se cortaram no chão áspero misturado com as lágrimas de desespero. Eles gritavam xingando e não via ninguém à vista ou atravessando a rua deserta. Assim que pararam, depois de eternos minutos, deram meia volta resmungando alguma coisa e logo sumiram do lugar em que me encontrava estirado.
Não demorei pra me levantar e fitar o estrago. Estava realmente dolorido, mas conseguia andar, e nossa casa não era tão longe para que as dores fossem um empecilho. Se tardasse a chegar, os hematomas se tornariam mais evidentes, e eu não queria inventar mais desculpas para minha mãe.
Como eles tinham ido para a direita, tomei a direção oposta e por isso tive que andar mais do que necessário. Em pouco tempo cheguei em casa, uma típica do Brooklyn, com a escada de tijolos na entrada e a porta avermelhada, semelhante a todas do bairro. Abri a porta com cuidado, selecionando bem as chaves que eram muito semelhantes, e assim que a destranquei, ouvi um gemido abafado do interior. Entrei fitando a sala que estava uma zona. Achei estranho até encontrar manchas avermelhadas pela escada e pegadas. Num lampejo de desespero corri para os aposentos superiores, olhando todos os cômodos até chegar ao quarto de minha mãe, encontrando o que nunca queria ter visto em minha vida.
A enorme mancha de sangue corria o quarto e se direcionava à cama, onde nos lençóis, já vermelhos, ela se encontrava. Minha mãe, Emelie, estirada com profundos cortes no abdome e amordaçada. Estava pálida e os cabelos lhe cobriam o rosto que não consegui reconhecer de imediato. Torci em vão para que não fosse ela, mesmo sabendo que era uma sorte que não teria. Corri em sua direção berrando seu nome meio aos soluços desesperados e a sacudi, sentindo o cheiro enjoativo e metálico do sangue, esperando que ela reagisse, mesmo que naquele momento isso não fosse possível. Desamarrei o lenço de sua boca, mas não fui forte o bastante para prosseguir sem temer. Relutante e tremendo, toquei a lateral de seu pescoço ferido, vendo que a pulsação arterial não se encontrava mais presente. Estirado em seu corpo tentei ouvir em seu peito os batimentos que haviam cessado. Não digeri bem o ocorrido ao levantar chorando. Ainda atordoado, me apoiei na parede prestes a vomitar, mas nada veio à garganta, que se fechava de aflição. O pouco de consciência que tive naquele momento de tensão visual se foi com a vertigem e a queda que se sucedeu.
Quando acordei no hospital não consegui me lembrar de muita coisa até que fosse atendido com a verdade explícita nos olhos da enfermeira. Minha reação se manteve neutra na hora, quase indiferente. Agora vejo que este fora o dia de duas mortes importantes. Uma delas, a do meu antigo eu.
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