Olhos De Dante
10 Incrédulo
A estação da Central das Almas, como sempre movimentada, recebia a cada instante mais e mais almas que saiam de centenas de tribunais diferentes e recorriam a seu destino já decidido. As que conseguiam pontuação positiva para completar a passagem, deveriam ascender pelos elevadores panorâmicos na Central em um caminho sem volta para o Paraíso, ficando em seus respectivos andares celestes situados em uma realidade diferente da acostumada por muitos. A subdivisão do Paraíso é tema para outra hora, por isso, adiaremos tais descrições.
Era estranho para Maria fazer uma viagem sem noção de seu destino final. Ela não conseguia imaginar como seria sua área, mas uma ceifa subterrânea de almas condenadas a esperava e a ideia pareceu absurda inicialmente. Sempre acostumada a fazer viagens com malas enormes, ela estava tentando se acostumar com sua nova realidade. Nada do que possuía em vida teria algum uso necessário ali.
Beatrice seguiu com ela para as plataformas. Ao todo, 10 trilhos eram dispostos e distribuídos nas 10 plataformas da estação para o subtérreo, todos interligavam as milhares de áreas infernais em ramificações. Ao lado deles, várias almas seguiam com seus guias para sua plataforma específica.
― Em qual delas eu devo esperar? ― Maria perguntou desvencilhando-se da multidão.
― Você vai pra plataforma n° 1. Dentro do metrô, deverá achar a cabine com o número de sua área, 999, situada em algum dos vagões, e assim aguardar com as outras almas. Pra cada área haverá uma cabine diferente.
— Haverá muitas pessoas indo comigo para a mesma área?
— Não posso afirmar nada. Algumas vezes dezenas, outras vezes só você.
— Quantas áreas existem no total? — Maria perguntou curiosa.
— Não saberia te dizer com precisão, mas o número de áreas se encontra nas casas dos milhões.
— Milhões? — assustou-se erguendo a sobrancelha.
— Sim, são muitas, e o número de áreas cresce numa constante significativa, nunca para de crescer. Por razões óbvias, todas essas áreas estão espalhadas num espaço infinito abaixo desse solo para abrigar a demanda de almas ao longo dos tempos. Numa estimativa média, morrem por dia 150 mil pessoas. Todas elas vem pra cá, segundo após segundo. Em poucos dias, novas áreas são criadas, áreas recentes, mas com almas relocadas, almas em ascensão e em trajetórias diferentes.
— Como sou da área 999, não achei que fossem tantas.
— Você é pertence a área 999 de acordo com o dia de hoje. Amanhã, a área 999 será outra, e assim se alterna por todos os 365 dias do ano. Que dia é hoje?
— 5 de Agosto.
— Então, sendo mais específica, você foi designada para a área 999 do dia 5 de Agosto, o dia de sua morte. Hoje, dez mil áreas foram disponibilizadas e a numeração de cada uma se dá de melhor para pior. Ou seja, num grau de negatividade de 1 a 10, você não fica com mais do que 1. Não queira imaginar o que os outros nas últimas áreas presenciarão.
— O que encontraria se fosse para alguma delas?
Beatrice não respondeu.
— Ok, entendi. Jamais imaginei que eu fosse tão... Insignificante.
— Não é. Todos nós provamos isso com tempo.
***
Do outro lado da estação, eu e Norman aguardávamos a chegada de Félix, encarregado de guardar o corpo. No saguão das plataformas, compridos bancos se disponibilizavam ao longo do trajeto. Algumas almas, acompanhadas de seus guias, sentavam-se esperando a chegada dos metrôs em partida para as áreas infernais. Outros se espalhavam em reações diversas com o que estava prestes a ocorrer. Alguns se encontravam em prantos, outros visivelmente tristes se isolavam em algum lugar e oravam silenciosamente em tentativas de súplicas e perdão por algo já decidido. Havia pessoas de todas as idades, sexos, etnias e crenças naquele lugar. Todos sentindo na pele o quão estranho era ver o resultado do que apostaram em vida. Muitos estavam assustados, dentre eles, crianças de até no mínimo oito anos. Elas se mantinham com seus guias, sempre curiosas e eram as mais neutras com a situação. Almas imaturas que não atingiram o Paraíso eram enviadas para internatos situados em áreas infernais e neles viveriam até o amadurecimento espiritual. Grande parte delas estava ali por culpa de terem nascido em locais onde a verdadeira religião não era difundida, onde elas não poderiam ter acesso às sagradas escrituras ou serem batizadas. Crianças de menor idade e bebês, nascidos ou não, eram enviados ao Paraíso, sob tutela de um “guia babá”.
— Isso é inacreditável — disse Norman, pousando a cabeça sobre as mãos — Nada disso pode existir, não existe explicação. O que está acontecendo? Eu devo ter pirado de vez.
— Não vê a resposta por que está cego. Seu ceticismo é tão forte que mesmo presenciando a quase morte não consegue acreditar no que vê.
— Eu só estou fora de mim! — disse berrando, cobrindo as mãos na face.
— Literalmente — ri mordaz olhando para ele sério.
— Isso tudo é absurdo, eu prefiro não acreditar. Olhe esse lugar... —apontou para sua volta. — Crianças não merecem passar por isso. É cruel. Eu já achava que a ideia do Inferno era perturbadora, mas só de ver todas essas pessoas aqui, já me sinto mal — arrepiou-se.
— Por que, meu caro? Não se pode mudar um sistema que funciona perfeitamente, é questão de costume. Sempre foi assim e sempre será — brinquei com sua mente.
— São apenas crianças! — gritou exasperado — Todos nós fomos crianças um dia. Não há cabimento nisso. Elas erram, mas não podem ser culpadas pela ignorância!
— Não questione as leis vigentes deste mundo, Norman. Não é necessário que você as entenda para que as aceite. Só o fato de ser quem você é, já te impõe isso.
Norman continuou calado, aceitando sua incredulidade e se preparando para ver o resto da viagem. Ele sabia que não era uma pessoa boa aos parâmetros da sociedade, havia se corrompido, se tornara odiável e, o Inferno, para ele, lhe pareceu uma espécie de aviso, uma segunda chance. Olhando para o passado, ele estabeleceu vários pontos decisivos e todos influenciaram seu eu final. Se tudo pode ser justificável, até mesmo coisas absurdas que desconhecemos, o que o levou a se tornar o homem que era?
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