Olhos De Dante
28 Difundindo
Maria olhou para Norman ainda com dúvidas sobre o plano inicial. Ele estava arriscando não só a si mesmo, mas todos os envolvidos. Achava que as chances de dar errado eram consideráveis, e ela não queria ser punida novamente por atos feitos sem pensar. Entretanto, não deixou de se animar com a ideia utópica que todos tinham em mente.
— Se eles nos pegarem, nem imagina o que podem fazer... Mas eu aceito — Maria disse por fim.
— Começamos no próximo intervalo. Sejam pontuais — alertou Norman frente ao grupo que selecionara.
Evasão
Norman seguiu com uma das ideias iniciais de Tim, levar o plano de rebelião para outras áreas, para que então, todo o Inferno se voltasse contra o poder regente. Seria algo a longo prazo, mas que poderia dar certo. Queriam, por mais inútil que fosse, inverter o sentido natural daquele lugar.
Depois de horas incessantes de trabalho árduo, no soar do apito daquele intervalo, Norman virou-se para Dimitri, acenando com a cabeça para que iniciassem. Logo depois, Alice e Maria chegaram junto a eles, com mais três almas de setores diferentes que foram chamados para os acompanharem. Hugo, a alma que sofrera o acidente nas engrenagens no setor de fundição, Ágata, uma das encarregadas do armazenamento das peças, que as empilhava e enviava para o setor externo, prontos para seu destino de entrega, e Jonah, um dos responsáveis pelo descarregamento de minério na metalúrgica.
Todos foram consideravelmente rápidos ao partirem rumo ao exterior industrial, onde centenas de contêineres estavam dispostos em fileira e sobrepostos. Tinham poucos minutos para que o próximo turno de demônios vigilantes se desse por iniciado.
Os sete correram pela esplanada e logo se encontraram próximos de um contêiner aberto e vazio. A maioria entrou no interior do mesmo dispersando-se no interior. Jonah ficara do lado de fora, fora encarregado de fechar o contêiner assim que todos entrassem.
— Boa sorte — disse enquanto fechava as portas, trancafiando todos ali dentro.
A lógica por detrás do plano era bem simples. Todo o inferno era interligado por um sistema de transporte intricado, unindo as áreas em um princípio diversificado de cooperação. Sair de uma área só seria possível pelos meios de locomoção dos produtos, que naquele caso eram as peças que faziam. A provável área a que se dirigiam era a de montagem das peças, para construir algo que, até então, não tinham conhecimento.
O tempo ali trancados fez com que, a princípio, descansassem. Alice estava deitada num canto, apoiando a cabeça no colo de Maria, que sentada, encarava Ágata. Ágata era uma mulher morena de idade média que trajava um vestido simples, surrado. A mulher, morta há tempo demais para estar ali, se prestava a pensar alto.
— Eu não deveria ter feito o que fiz com minha vida quando ainda estava em terra — disse quebrando o silencio que ali havia se instaurado.
— Este é um dos propósitos de onde estamos: arrependimento — prosseguiu Hugo, do lado oposto do contêiner — Pode demorar o tempo que for, um dia o orgulho perde.
— Eu não entendo vocês. Dizem que se arrependem, mas não aceitam sofrer por aqui. Se sabem que erraram em vida, por que não aceitam a sina calados? Por que se revoltar se acham que os errados somos nós? — interpelou Maria no mesmo momento — Nem todos aqui realmente merecem isso.
— Não sei o porquê de você estar aqui, garota, mas eu carrego coisas horríveis que fiz em vida. Eu tirei vidas, usufruí de minha dádiva de viver para espalhar a morte. Sou apenas mais uma alma desgraçada com esperança de mudança — disse Ágata por fim.
— Há quanto tempo está aqui? — perguntou Dimitri curioso.
— Nesta área, há poucos anos. Não tenho uma ideia exata já que sem a luz do dia me perco contando, mas de acordo com almas recentes, cheguei ao Inferno há aproximadamente três séculos. Nesse meio tempo consegui elevar de área muitas vezes. Eu acompanhei este lugar mudar. Acredite, mocinha... — virou-se para Maria — Há lugares bem piores que esse, onde o que estamos fazendo agora seria impossível. Não estou com vocês pelo que acreditam, mas pelo imenso marasmo que é existir não fazendo outra coisa. Se um dia as coisas mudarem, não será por nós, mas por eles.
— Está aqui com a gente pelo tédio? Por que não sai daqui e volta a trabalhar, sua escrava?! — indignou-se Maria.
— Maria, ela está aqui há mais tempo que nós, pelo menos a respeite — dissera Dimitri — Como são as áreas em que esteve, Ágata?
— As primeiras, na minha época, não eram chamadas de áreas, mas círculos. O inferno se dividia em nove deles, e todos eram apenas para tortura. Lembro-me vagamente, mas sei que sofria afogando no sangue daqueles que prejudiquei. Sétimo círculo, pertencente aos pecadores por violência. Aos poucos fomos realojados com a primeira revolução das almas. A superpovoação dos círculos se deu rapidamente, e logo foram abertos novos terrenos para a ocupação. Boa parte da terra que preenchia esse lugar, eu ajudei a tirar com as próprias mãos. Na época, não tínhamos o maquinário que hoje temos disponível. Com a chegada da modernidade, as estruturas do Inferno transigiram para o que veem, e dele foi feito um perfeito sistema escravagista. O trabalho desde então vem sendo a punição mais proveitosa.
— Uau — Maria disse espantada.
— Quando cheguei aqui, há décadas atrás, o sistema já havia se instaurado — acrescentou Hugo.
O período dentro daquele ambiente fechado fez com que se envolvessem na conversa. Assim, o tempo passou rapidamente, e, horas depois, todos foram pegos de surpresa quando sentiram o contêiner se mover, instável no chão. Os maquinistas dos gigantescos guindastes, do lado de fora, foram instruídos a leva-los para o pequeno cargueiro, situado no rio próximo.
Depois de alojados, não demorou a prosseguirem viagem afluente adentro. Ficaram horas a fio esperando para que finalmente chegassem à área almejada. Novamente sentiram a instabilidade da caixa ao ser erguida e realocada. Com o baque do contato com o solo, deduziram terem chegado.
Tardou para que enfim ouvissem o ranger de metais das portas se abrindo. Do lado de dentro, todos se levantaram e fitaram as outras almas aturdidas por encontra-los ali, ao invés das usuais cargas. Eram cinco, encarregados de levar o material para a montadora, mas ao vê-los, foram expostos a uma quebra de rotina.
— Quem são vocês? — questionou uma mulher.
— Representantes da área 999 de 5 de Agosto — adiantou-se Norman — Viemos para ajudá-los.
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