Olhos De Dante
16 999
Definitivamente eles não esperavam encontrar aquilo. Não sei os motivos já que Inferno é totalmente relativo, mas a área 999 não era tão incomum assim, mesmo para uma área infernal, e sendo tão importante como qualquer outra, ainda haviam piores. As áreas infernais variam de intensidade e cada uma se preza em alguma tarefa, seja ela por utilidade ou apenas por tortura. As mais inferiores vão se tornando mais e mais cruéis até que se chegue a última área infernal. A pior de todas, onde apenas as almas mais perversas tem entrada.
O choque das novas almas à sua nova morada não foi tão negativo assim, para ser sincero, eles esperavam coisa pior, e nunca se sentiram tão humanos ao fitar o horizonte do que se encontrava adiante. O toque de surpresa sempre acontece de uma forma ou outra. A deles foi por ser inesperado, não algo tão desumano às vistas, mas estranho, caótico, surreal.
Sendo a primeira a sair pela porta da cabine, Maria pisou no solo do exterior um pouco cambaleante pela viagem e fitou todo o ambiente abismada sob o monte rochoso em que estava. O trilho de ferro seguia adiante, onde a cabine tomaria seu rumo, e sua área encontrava-se abaixo. Era acima de tudo escuro por se tratar de um recinto subterrâneo, pelo teto alto e cavernoso e pela escassa iluminação de tochas nas paredes rochosas à volta, mas com uma estranha nebulosidade cinza que surgia no ar. Era como se a noite fosse eterna ali, já que o dia se encontrava à milhares de metros acima.
A área infernal em sua totalidade lhe surpreendeu pelo excesso de detalhes. Era enorme, não sendo possível achar o seu fim, pois o horizonte se estendia quilometricamente por todos os cantos e sumia de vista com a penumbra quando o fogo, resultante das crateras que o expeliam nas paredes das construções, já não se faziam mais visíveis. Para Maria, as estruturas da área a lembravam países pobres e abandonados por governos tiranos e corruptos na forma de uma cidadela antiga, rodeada de maquinários e moradias simples sobrepostas. “Favelas...” pensou. Os maquinários, de maioria mecânicos, se distribuíam pela cidade, fundidos nas estruturas da mesma, transportando caixotes gigantescos. Era uma visão diferente da que imaginou que encontraria. No canto esquerdo, fora dos limites da área, uma floresta de árvores secas se fazia visível e ocupava boa parte do ambiente escuro.
As áreas infernais se dividiam por funções. Todas apresentavam suas próprias situações, leis e políticas, mas todas devendo conferir ao sistema suas obrigações em comum: serventia e ordem. A área 999 não fugia dessa regra.
Do lado de fora, milhares de almas vagavam por entre os corredores das moradias altas. A maioria se encontrava encarregada de diversas funções dentro dos estabelecimentos próprios, onde o verdadeiro trabalho acontecia exaustivamente. Pela falta de vento, o lugar era realmente quente, e o calor desagradável não fora realmente acolhedor para todos.
— Uau, parece que nos encontramos no fim do mundo, literalmente — disse Maria rindo de sua situação.
— Você nem imagina o que tem depois dessa área, garota, eu não diria isso se fosse você. O fim do mundo está longe de ser esse — respondeu 476.
— Fiquei curiosa. O que se encontra depois daqui?
— Nem queira saber.
Dito isso, a cogere saiu da cabine acompanhando-a.
— Qual o nome de vocês? Apresentem-se. Precisaremos nos comunicar daqui pra frente.
— Maria, prazer — disse a loira sarcasticamente.
— Alice.
— Dimitri.
— Norman.
— Já que fomos devidamente apresentados, podemos prosseguir.
A cogere começou a seguir pela pequena trilha de pedra, na escadaria que se seguia adiante, quando notou que faltava uma ao encontro de todos. Alice ficara pra trás. Se recusara a sair. A garota não entendia os motivos de descer para aquele lugar estranho. Iria pra qualquer lugar, menos para aquele que se estendia a sua frente. Andar de metrô para Alice era mais do que uma rotina em sua vida, era uma vívida lembrança de seu último momento. Não era tão irônico quanto continuar ali, paralisada, sem reação evidente, apenas fitando os outros, pensativa. Sempre achara que por ser pobre e prostituta, nada de ruim poderia acontecer se já havia acontecido, mas estava enganada neste ponto. O destino sempre surpreende. Estava de volta à sua triste realidade, ou assim pareceu a ela. Tamanha era a coincidência. Ruim ou não, aquilo lhe pareceu cruel.
— Não vai descer? — questionou a cogere.
— Não.
— Então descerá à força — e dizendo isso, 476 a pegou pelos braços e a puxou, levando-a histérica derradeira abaixo, acompanhada dos outros que seguiram calados.
— Não precisa me levar — dizia enquanto se afastava — Sei andar por mim mesma! — gritou.
— Acalme-se garota. Estou apenas fazendo meu trabalho. Levar vocês seguramente para a área 999. Ainda não chegamos lá tecnicamente.
— Parece uma criança — disse a mais infantil de todos, Maria — Não está vendo a diversão por aqui? Não está vendo a alegria surgir por esse ar pútrido?! Veja como é linda nossa nova casa — dizia sarcástica apontando para o horizonte, enquanto descia o morro, brincando de chutar pedras.
— Fui ao inferno com duas loucas... Pelo menos temos alguém aqui que ainda se mantem em silêncio — observou Dimitri.
Norman fitou todos com desgosto. Não sabia nem por que estava ali ainda, rodeado de almas indo para um futuro incerto. Estava pensativo se tinha feito uma boa escolha. No desespero, optara por salvar sua vida não tão viva assim. Descera ao inferno por explosões que o deixaram atordoado. Só depois de certo tempo que notou a grande burrada que havia feito.
— Não tenho nada a dizer. Eu não deveria estar aqui — disse depois de certo tempo de silêncio.
A cogere o encarou.
— Você está morto e foi julgado como todas as almas — enganou-se — É óbvio que deveria estar aqui. Se prepare para passar um bom tempo meio a esse ambiente.
— Não estou gostando do que diz. Ficaremos aqui por quanto tempo? — interpelou Maria.
— Tempo demais para pagarem por seus atos profanos — e dizendo isso, todos se calaram.
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