Olá, estranho - OneShot
1 Olá, estranho - Capítulo Único
Notas iniciais
Após uma longa noite sem sonhos, Adam acorda. Ele se encontrava num quarto com o qual não estava familiarizado, em uma cidade que não conhecia ninguém. Por 19 anos, Adam morou com sua Avó, sua mãe o abandonou, e seu pai morreu cedo. Fora a doce senhora que cuidou dele, o único vínculo familiar que Adam conhecia era seu meio irmão paterno, após 3 tentativas fracassadas de finalizar o ginásio, sua avó o deixou morar com seu irmão, aquele seria seu primeiro dia de aula. Ele se levanta da cama e olha no pequeno espelho de cabeceira que estava em sua frente, um cabelo preto desarrumado, olheiras fundas e uma expressão de melancolia. Não havia nada de especial em Adam, tal qual no seu reflexo. Uma estatura mediana, inteligência normal, um rosto que facilmente se perderia na multidão. Ele se destacava porém, em suas notas. Todas extremamente abaixo da média, possivelmente por causa de seu TDAH, juntamente com sua personalidade depressiva.
O garoto de cabelo preto se levanta de sua cama, e olha ao redor, uma brisa fria entrava pela janela moderadamente aberta, era o início do outono no Alaska, o que significa uma incrível temperatura de 20 graus. Sua memória estava nublada, e ele estava tentando se manter de pé, quase sem sucesso. Quando recuperou o equilíbrio, se virou ao banheiro e jogou água gelada no rosto, que escorreu por suas feições. A pasta de dente sabor menta estragaria o gosto do suco laranja que seu irmão fez na cozinha, mas ele escovou mesmo assim, apesar de considerar nem sequer sair de casa. No andar de baixo, a cozinha estava vazia, apenas um prato de panquecas, o suco de laranja antes mencionado e uma nota do irmão dizendo que saiu para trabalhar mais cedo, Adam considerou se aproveitar disso e ficar em casa, mas achou melhor não. Tomou seu café pouco nutritivo e foi para seu colégio, era uma cidade pequena, então não havia necessidade de pegar um ônibus.
Em seu caminho para escola, não viu ninguém. Não havia nenhuma pessoa na cidade, achou que talvez não estivesse prestando atenção ao seu redor, então ignorou esse detalhe. A cidade era mortalmente silenciosa, ela ficava entre um lago e uma montanha branca coberta de pinheiros. Ele sorriu, aquele lugar o lembrava de Skyrim, seu vídeo game favorito.
Sua escola era um grande prédio, como era de se esperar, e, diferente da cidade em si, haviam jovens do lado de fora conversando e rindo, apesar de Adam não conseguir escutar nada do que diziam, era como se apenas fizessem barulho, sem de fato emitir algum som, foi uma sensação estranha, mas ele novamente a ignorou. Estava tentando descobrir para onde ir quando uma garota ruiva e de estatura mediana veio em sua direção.
— Olá, estranho. Bem vindo a Whittier. Sou Eve, representante de turma, vim pessoalmente te dar as boas vindas. — A garota diz em um tom feliz e compreensivo, sua voz era uma doce melodia em meio aquela cidade cinza.
— Ahm, oi. — Pela primeira vez em o que parece ser muito tempo, Adam ouviu sua própria voz, ele obviamente não estava a muito tempo sem falar, havia conversando com seu irmão na noite anterior, mas ele quase esqueceu como sua voz soava. — Acho que não é necessário você me dar as boas vindas pessoalmente, devem ter novos calouros por aqui. — Ele diz, como uma piada.
— Ah, não. É só você, sabe, as pessoas não costumam se mudar pra cá. É o rosto mais novo que vejo em séculos. Você é Adam Grey, certo? Li sobre você na sua ficha. Posso te mostrar a cidade depois da aula.
— Isso seria legal... — Ele diz, um pouco incerto. — Não é como se tivesse algum lugar pra ir.
Eve ri, como se Adam tivesse acabado de dizer a coisa mais engraçada do mundo. — Vem, quero te mostrar nossa sala de aula, por coincidência, seremos colegas esse ano. — A garota segura Adam pela mão, e o leva pela escola, mostrando todos os pontos de interesse e lugares que podiam ser úteis a ele. A biblioteca, o ginásio, a sala de química e o clube de literatura. Foi uma viagem rápida por um prédio relativamente grande, e, quando passavam, ela explicava detalhadamente o objetivo de cada sala, como se Adam nunca estivesse dentro de uma biblioteca antes. A escola era bem iluminada com luz natural, era quase como se lá dentro fosse mais claro que o ambiente externo, que estava nublado e cinza.
— Bom, acho que é isso. — Ela diz sorrindo, colocando as mãos em suas costas. — Vamos pra aula agora, já vai começar, nossa primeira aula é calculo. — Ela sorri, inocentemente.
— Odeio cálculo, haha, me dou muito melhor com biologia. — Ele diz, quase como em protesto.
— Bom, isso com certeza é uma opinião interessante. Eu não sabia disso. — Ela diz pensativa.
— O que quer dizer? Não tinha como você saber disso. — O garoto maior pergunta, intrigado
— Nada! Estava apenas pensando alto. — Eve diz, se corrigindo
Adam não entendeu a situação, mas achou que aquilo não passava de um truque de sua mente, e que ele tinha apenas perdido uma parte da conversa, então apenas aceitou. O resto do seu dia correu bem, estranhamente bem, com exceção do fato de não conseguir lembrar dos nomes de seus colegas de classe ou professores, fora Eve, era quase como se ele nunca tivesse os ouvido em primeiro lugar, o que era incomum, já que ele se lembrar de ter tido uma chamada, se lembra da sua professora escrevendo o nome na lousa, ou seria professor? Ele afastou o pensamento, com certeza estava a muito tempo sem tomar seus remédios para controlar o TDAH.
Eve, novamente, o interceptou antes que ele pudesse pisar no meio fio.
— Ei, está tentando fugir de mim? Vamos numa lanchonete.
Adam sorri, sem jeito. — Desculpe, eu tô sem dinheiro agora, talvez mais tarde, até eu conseguir um emprego aqui.
— Não tem problema, eu pago pra você. — Ela diz, se segurando em seu braço. Adam se surpreendeu, mas não iria abusar da hospitalidade de Eve, ia pedir apenas um milkshake simples.
— Certo, então tudo bem. — Ele diz, o olhar no rosto da menina ficou radiante, como se ouvisse a melhor notícia de sua vida.
A lanchonete era relativamente espaçosa, tinha um estilo dos anos 80, o que Adam adorava. A garçonete veio imediatamente, assim que ambos se sentaram.
— Posso anotar o seu pedido? — A senhora diz. Uma moça um pouco acima do peso, uma aparência cansada usando um uniforme azul claro.
— Duas cocas, e dois hambúrgueres com bacon extra, por favor. — Eve se adiantou, não deixando espaço para Adam fazer seu pedido. A garçonete anotou num pequeno bloco de notas e seguiu para a cozinha.
— Vai ficar pronto em 10 minutos. — A moça diz sorrindo.
Adam reparou na lanchonete, ele conseguia ouvir vozes conversando, mas como na escola, ele não os escutava, era como um ruído branco de uma TV tão antiga que mal tinha cores além de preto e branco.
Preto e Branco.
— Então, o que está achando de Whittier até agora, Adam? — Eve diz, rodando uma moeda de prata em sua mão, como se estivesse brincando com ela.
— É um lugar bem bonito, mas não acha muito silencioso? Pode ter sido impressão minha, mas parece que não ouvi nada além da sua voz o dia todo. — Adam diz, institivamente, sem perceber que podia ser interpretado como uma ofensa, porém Eve corou com tal comentário, como se estivesse sido atingida pelo flerte mais galanteador do mundo.
— Escuta, eu estou sozinha essa semana. — Ela diz, deixando a moda de prata na mesa, e segurando na mão de Adam. — Por que não vamos lá em casa depois, para nos conhecermos melhor? — Ela corou novamente, e esperou ansiosamente sua resposta.
Adam rapidamente retirou sua mão do controle da mão de Eve. — Desculpa, não leva isso a mal, eu estou acabando de me recuperar de um termino, eu estou tentando me interessar por outras coisas, entende? — Ele não havia pensado em sua ex em nenhum momento durante todo o dia, quase como se ela não existisse, mas, durante a investida de Eve, Adam sentiu como se tivesse desbloqueado uma memória. O barulho de conversa da lanchonete parou, todos presentes olharam para Adam, como se compartilhassem a mesma mente.
— Entendi. Eu não fiz direito. Não se preocupe, amanhã será melhor. — Ela diz com uma expressão fúnebre. Eve se levanta de sua mesa e olha fixamente para Adam por alguns segundos. Seu rosto estava encoberto por uma sombra, que não pareceu ser efeito da má iluminação do local. Adam não entendeu o que estava acontecendo, sentiu medo e terror, mas não conseguiu se mover enquanto Eve dava alguns passos em sua direção, e quando a garota parou diretamente em frente a sua cadeira, ele se sentiu completamente fraco, como se todas as forças tivessem deixado seu corpo. — Não se preocupe, meu amor. Amanhã será melhor, eu prometo. — Ela diz, colocando a mão no rosto de Adam. Ele sentiu um desespero repentino, e então desmaiou. Sons inaudíveis e formas irreconhecíveis dançavam em sua mente, como se alguém estivesse vasculhando seu cérebro.
Após uma longa noite sem sono, Adam acorda em um quarto que não era seu, em uma cidade que não conhecia ninguém. Ao se levantar da sua cama, cambaleia um pouco e se olha no espelho. “É você. Apesar de tudo, ainda é você”, ele pensa consigo mesmo, ao andar em direção ao banheiro. Era seu primeiro dia de aula, em uma pequena cidade nova. Como era mesmo o nome? Whiterun? Provavelmente estava certo. Ao descer, não encontrou seu irmão, como esperava, apenas uma xícara de café, e bacon com ovos.
Seu caminho para a escola pareceu um pouco mais barulhento que o normal. “Que o normal?” ele nunca havia feito essa caminho antes, pensou consigo mesmo, era como um deja vu que coisas diferentes aconteciam. Provavelmente haveria um termo para isso, que ele pesquisaria quando voltasse para casa.
Ao chegar na escola, percebeu jovens conversando sobre o último episódio de um anime novo. Considerou falar com eles, mas foi interrompido por um rapaz negro, relativamente mais alto que ele.
— Olá estranho. Bem vindo a Whiterun. Sou Jonah. Representante do conselho estudantil, vim aqui te dar boas vindas pessoalmente. — O rapaz diz, de forma solidária e feliz, seu sorriso era como um raio de sol.
— Era realmente necessário vir em pessoa? — Ele diz, um pouco mais bem humorado do que de costume.
Jonah mostrou toda a escola para Adam. A biblioteca, o ginásio, a sala de química e o clube de música. Que, mesmo nunca tendo estado ali, podia jurar que seria um clube de literatura. A escola estava um pouco mais escura do que Adam estava esperando, “As coisas não estavam acontecendo da forma que deveriam”, esse pensamento intruso de novo. Adam já estava ficando irritado com ele. Poderia aquilo ser um novo efeito colateral de seus remédios para TDAH? Enquanto pensava, não prestou atenção ao que o rapaz dizia.
— Oi, poderia repetir por favor? — Adam diz, sem jeito.
— Vamos pra aula, já está quase na hora da aula de biologia.
— Ah, eu adoro biologia, isso vai fazer meu dia.
O rapaz sorri, como se conquistasse uma vitória. O dia passou normalmente, mas o único porém, é que ele não lembrava o nome de nenhuma pessoa que encontrou ou conversou durante o dia, exceto, Jonah. As horas passaram como minutos, e logo era o momento de ir para casa. Adam respira o ar fresco de Whiterun, e observa o horizonte. “Não devia ter uma montanha ali? Atrás da cidade?” Aquele pensamento novamente, ele já estava cansado daquilo, não fazia sentido nenhum, e durante toda a sua vida, Adam fugiu do que não fazia sentido a ele. Quando colocou os pés no asfalto, ouviu a voz adocicada de Jonah.
— Ei, não achou que ia fugir de mim, achou? Vamos na comer alguma coisa, eu pago pra você. — O garoto maior diz, sorrindo.
— Ah, tudo bem. Não é como se eu tivesse algo para fazer. — Adam assentiu. Caminhando pela cidade com Jonah, aquele pensamento voltou de novo, e de novo e de novo. “Aquela placa não era vermelha? Não tinha uma esquina aqui? Aquele letreiro não era sobre um show?” os pensamentos não paravam de vir, e sobrecarregavam Adam. No começo era apenas um desconforto chato. Mas agora sentia seu estômago embrulhar, como se a qualquer momento fosse vomitar as panquecas.
Panquecas?
— Chegamos. A melhor pizzaria da cidade! — Jonah diz sorrindo.
— Aqui não era uma lanchonete? — Adam finalmente diz, em voz alta.
— O que? — Jonah diz, paralisado. — Como você... — Jonah é interrompido por uma torrente de vômito, Adam caiu de joelhos no chão, e observou o líquido que saiu de sua boca, era púrpura escuro, pequenos pontos brilhavam como se estrelas explodissem e se transformassem em buracos negros. Adam caiu em seu próprio vômito, sentindo um cheiro que o lembrava de tudo e de nada ao mesmo tempo. — Merda. Isso não era pra acontecer. Merda. Merda. — Jonah dizia, mas quando Adam olhou para cima, ele jurou ter visto Eve de novo. Adam desmaiou mais uma vez, enquanto a terra embaixo de si subia, e o céu acima da sua cabeça caia.
Adam acordou, mais uma vez em seu quarto, mas dessa vez, ele se lembrava de tudo. Adam gritou e tentou abrir a porta trancada, mas quando o fez, quase caiu num abismo sombrio e sem qualquer luz.
— Calma, não quer morrer, quer? Se bem que não pode fazer isso aqui. — Uma vaga voz autoritária falou. Ele não reconhecia a voz, e ela soava quase inumana. Ele se virou rapidamente para ver uma pessoa. Ele não conseguiu reconhecer se era um homem ou uma mulher, apenas uma pessoa. Adam gritou mais uma vez, e desesperado, começou a falar em tom de ameaça.
— Quem é você? Sai do meu quarto agora, ou irei chamar a polícia, eu tô falando sério.
— Eu não tenho um nome. Por muito tempo, olhei a humanidade de fora de seu universo, vi humanos se apaixonarem e desapaixonarem, vi humano morrerem e matarem pelo amor, e eu queria isso. Então eu vi você, sua melancolia singular chamou minha atenção, então, te trouxe para cá.
“Cá”. Adam olhou novamente para o vazio que se abriu a sua porta.
— Eu enlouqueci de vez. Você é... Deus? — Adam disse, de forma amedrontada.
— Eu não sei. — A figura sem nome respondeu.
— Me deixa ir para casa. — Adam disse, lágrimas escorreram do seu rosto, assim que tocaram o chão, elas se transformaram no mesmo líquido que ele vomitou mais cedo, ao menos, acha que foi mais cedo.
— Eu não posso, se você ficar aqui, posso te dar a vida que quiser, posso apagar sua memória e você pode esquecer de tudo. Eu controlo esse lugar a minha vontade, tudo pode ser perfeito.
— Então a Eve e o Jonah, eram você? — Ele diz, tentando se recompor.
— Sim, era eu. — A pessoa que era apenas uma silhueta, assumiu a forma de Eve, a garota ruiva e baixinha, e logo depois, de Jonah, o rapaz negro que era perceptivamente mais alto que Jonah. — Posso ter a forma que você quiser, tudo pode ser perfeito.
Adam balançou a cabeça para a esquerda e direita, como se estivesse tentando acordar. Ele olhou ao redor, viu uma tesoura em cima da sua mesa de cabeceira, institivamente, Adam a fincou na palma da sua mão, como se quisesse acordar pela dor. A tesoura caiu na cama, e o seu sangue purpura brilhante vazou e jorrou, sujando o chão ao seu redor
— A dor é real, porém não precisa ser duradoura. — Jonah andou até Adam, e tocou na palma da sua mão, seu sangramento foi estancado, o corte havia sido fechado e a dor havia sumido.
— Por favor, só me deixa ir embora. — O garoto disse, desesperado, quase a ponto de entrar em uma crise de ansiedade.
— Você acha que aqui é assim tão ruim? — O rapaz moreno assentiu com a cabeça, deixando claro sua falta de contentamento com o local. — Muito bem. — A figura levantou a mão até o rosto de Adam. — Meu amor. Nós nunca ficaremos juntos, mas você vai ficar para sempre no meu coração. — O rapaz com medo, desesperado, e sujo com um sangue que ele não conseguia compreender pareceu se acalmar, e então ele desmaiou.
Adam acorda abruptamente de uma noite sem sonhos, em um quarto que não era seu, em uma cidade que não conhecia ninguém. Ele se levanta, e quase escorrega na tesoura que havia deixado ali na noite anterior.
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