Oh, Dammit! [A SER REESCRITA]
11 Eu não sou esse merda que vocês acham que eu sou!
Notas iniciais

Nico
A segunda-feira chegou rápido e só vi Reyna no intervalo antes do recreio, quando ela foi lá na minha sala tentar me convencer pela milionésima vez a entrar no time. Eu não costumava a sair da sala logo que ela acabava, geralmente ficava enrolando com Leo e às vezes com Thalia até o último segundo de intervalo.
Vi-a parada na porta da sala encarando o local a minha procura. Thalia havia arrastado Leo para ir a secretária porque ela precisava resolver uns negócios e ele disse que me encontraria na aula de química, então eu estava sozinho escutando música e com os pés em cima da minha mesa, nada fora do normal.
– Por favor? – ela disse já em um tom cansado quando parou em frente a minha mesa. Mesmo com os fones eu pude ouvir sua suplica, mas tirei-os para saber o que ela diria a seguir.
Os cabelos castanhos escuros que viviam em uma trança estavam soltos, completamente bagunçados e sem vida. Os olhos tinham olheiras profundas denunciando noites mal dormidas. Sem contar sua expressão que era de completa exaustão. Fiquei imaginando porque ela estaria assim, tão acabada desse jeito.
– Nossa, você está bem? Parece um zumbi – eu disse de forma divertida e ela revirou os olhos castanhos.
– Só tenho passados as noites planejando treinos e exercícios para os meninos – ela disse abanando a mão como se não fosse nada demais.
Então ela era uma assistente do treinador dedicada? Não sabia dessa dedicação toda ao time, mesmo não sendo a treinadora oficial.
– Não que isso seja importante por agora. Então... Topa? Por favor.
– Quem foi que te enviou aquele vídeo? — perguntei arqueando uma sobrancelha.
– Não posso falar – ela disse firme – Prometi que não iria.
– Então não entro no time – disse colocando os braços atrás da cabeça, inclinando um pouco a cadeira, e sorrindo de forma vitoriosa. – Prometo que entro no time se você me fala quem gravou e te mandou. Acredite, você precisa mais de mim do que eu de você.
Apenas fiquei encarando-a com um sorriso no rosto. Sua expressão de indecisão ela cômica. Eu tinha colocado-a contra a parede, ela não tinha outra saída a não ser me contar, isso se ela realmente quisesse que eu fizesse parte do time.
– Vou considerar isso como um "não posso contar" – eu disse tirando minhas pernas de cima de mesa e me levantei passando por ela para sair da sala.
Porém, antes que eu pudesse atravessar a sala, ela me segurou pelo pulso. Virei em sua direção e a vi com a cabeça abaixada. Senti um pouco de pena dela, ela parecia que faria de tudo para que eu entrasse no time e fazer com que ela quebrasse uma promessa fazia com que eu me sentisse um pouco mal, mas também sabia que se eu não fizesse isso, nunca descobriria quem anda, pelo jeito, me stalkeando.
– Foi o Percy – ela disse baixinho e eu fechei a cara. – Foi ele quem gravou e me mandou. Satisfeito? Vai entrar para o time? Por favor, não me diga que você me fez quebrar uma prome...
– Eu vou entrar – eu disse calmo mesmo sentindo raiva daquele bastardo do Percy.
– Nico, por favor, você tem que... Espera ae – ela parou subitamente e arregalou os olhos – Vai entrar mesmo?
– Eu prometi que iria entrar caso você me contasse quem tinha me filmado, não prometi? Eu cumpro minhas palavras – eu disse sorrindo ao ver seu rosto se iluminar.
– Meu Senhor, muito obrigada – ela disse pulando em meus braços, me abraçando apertado – Não tem nem como eu te recompensar por isso, sério mesmo.
– Calma garota – eu disse rindo – Eu não jogo tão bem assim. Aquele vídeo que o Percy gravou foi o pior jogo da minha vida. Não sei como se impressionou com aquilo.
Ela parou de pular agarrada mim para me encarar incrédula.
– Tá brincando que você joga melhor que aquilo? – ela disse ainda sem acreditar e eu franzi o cenho.
– Bem, sim... Percy me pegou em um dia ruim – eu disse e só depois percebi o quanto estranho soou aquela frase.
Corei imediatamente com a cena que me veio a cabeça e me xinguei mentalmente por pensar uma besteira daquelas. Se eu tivesse falando isso para Mírian... Cara, mesmo não a conhecendo direito, sei que ela leva tudo para o lado malicioso e as coisas que ela faria comigo por causa daquela frase eram inúmeras, tenho certeza.
– Isso é perfeito! – ela quase gritou e o sinal bateu – A partir dessa semana tem treino todos os dias depois da aula e semana que vem começaremos a treinar de noite em um clube aqui das redondezas.
– Calma, esses treinos no clube eu dispenso, nas segundas terças e quintas – eu disse abanando a mão – Meus treinamentos são esses dias.
– Sem problemas, contanto que recompense nos outros – ela disse animada. Mal entrei no time e ela já está exigindo demais de minha pessoa. – Fico impressionada como alguém da sua altura consegue jogar tão bem.
– Ei! Tá me chamando de baixinho? – eu disse com um pouco de raiva. Odiava quando as pessoas falavam que eu não poderia jogar basquete por ter apenas 1,68cm de altura! Isso era um completo absurdo!
– Bem, garotos com a sua estatura não fazem muitas cestas – ela disse meio sem graça – Mas pelo visto há exceções e fico feliz que você seja uma delas.
Não falei nada. Eu até poderia dizer um “Obrigado” ou um “Valeu”, mas eu simplesmente fiquei encarando-a como se ela fosse um alien. Na verdade, minha cabeça estava longe o suficiente para eu não pensar no que poderia responder a ela.
– Então vou indo – eu disse tacando meu caderno e meu estojo na mochila e me encaminhando pra sala de química, mas Reyna me interrompeu.
– Última coisa – ela disse, fazendo com que eu virasse para encará-la – Porque está corado? – ela riu chegando perto de mim e passando o dedão na minha bochecha.
Dei um passo para trás, afastando-me dela e cocei a nuca rindo nervosamente. A verdade era que a cena do Percy me dando "uns pegas" ainda estava sendo martelada na minha mente.
– É... Esse... Esse ca-calor né? – continuei rindo e me afastando – Bem, te vejo no treino.
Então sai correndo para fora da sala, ignorando a risada que Reyna dava e algo que ela dizia, que eu tinha quase certeza que era um “Mas não está fazendo calor”, o que era verdade. Eu sou um idiota.
Ao chegar na sala de química desabei na mesa ao lado de Leo, virando o rosto para olhá-lo. Ele me lançou um sorriso simpático, o sorriso que ele sempre me lança e percebi que nunca tinha reparado o quanto Leo era bonito e tinha um sorriso encantador. Será que ele... Ficaria comigo?
Espera ae. Acelera o trem que eu quero pular e ter uma morte rápida. Que porra é essa que eu acabei de pensar? Não, não pode ser! Eu não podia estar pensando esse tipo de coisa sobre meu melhor amigo, até porque nos dois eramos héteros, Leo nunca ficaria comigo.
Claro que eu não tinha preconceito algum sobre a opinião sexual dos outros, realmente não ligo, mas um cara que pegou um número relativamente bom de garotas estar se perguntando se um cara ficaria com ele? Percy e Jason devem estar me passando essa gayzisse por osmose, só pode.
– Ei cara – disse Leo ainda sorrindo – O que houve?
Será que ele vai rir de mim se eu contar o que anda acontecendo comigo?
– Percy e Jason – eu disse virando o rosto para ele não me ver corando.
– O que eles fizeram dessa... – Leo foi interrompido pela entrada da professora na sala.
– Bom dia alunos, abram seus livros na página 340 – disse a professora enquanto colocava aqueles trocentos livros que ela carrega em cima da mesa.
Logo tiramos nossos livros e cadernos da mochila e eu arranquei uma folha, escrevendo um bilhete para ele.
"Se eu te contar um negócio, promete que não vai rir nem dar esparro?", deslizei a folha sobre a mesa para frente de Leo, já que era apenas uma mesa grande para dois alunos. Ele leu a folha rapidamente e escreveu algo, repetindo meu movimento para que eu pudesse ler a folha.
" Prometo não dar esparro, mas rir é outros quinhentos :D"
Olhei para ele e ele sorriu abertamente. Revirei os olhos e respondi.
" Não seja ridículo... O assunto é sério" passei o bilhete para ele
" Tá bom, tá bom. Vou tentar não rir"
Respirei fundo e soltei o ar rapidamente para depois soltar um longo suspiro. Se eu estava tentando enrolar? Não imagina. Depois de um tempinho me preparando psicologicamente para contar a Leo, fechei os olhos fortemente e e escrevi após abri-los.
"Percy e Jason me agarraram... Não para dar porrada e sim pra me beijar. E não foi apenas uma vez" corei furiosamente com o que escrevi e passei o bilhete virando o rosto.
Assim que Leo leu, escutei um sussurro vindo dele, então virei o rosto rapidamente para ver sua reação. Ele estava paralisado, encarando-me com os olhos castanhos arregalados.
– Eles o que? – ele disse em um sussurro para logo depois apagar a minha frase com um corretivo e escrever abaixo sua resposta.
É por isso que eu amava o Leo. Ele sabia exatamente a gravidade das coisas e sabia o que fazer quando o assunto era bem sério. Eu não precisava dizer para ele guardar segredo ou apagar o que eu escrevi, pois ele faria isso de qualquer forma.
"Como assim eles te agarraram? Quantas vezes? Porque isso? Eu pensei que eles te odiavam, então... Meu Deus! Nico, porque não me contou isso antes, seu viado? Me conte os detalhes, quero saber de tudo! Ainda não estou acreditando, mas... Senhor!" Leo parecia aquelas garotas fofoqueiras de nossa escola, mas não o repreendia por isso... Afinal, era um notícia de certa forma, bombástica e chocante
"Te conto no intervalo" escrevi e passei pra ele.
Minha resposta teve o efeito que eu imaginava: um Leo completamente frustrado e curioso, então eu pude me divertir um pouco com a sua expressão. Claro que ele não encheu meu saco, pois sabia muito bem que eu não iria dizer nada, não estava ansioso para tal, então importava mais a ele do que a mim de fato. Mas ele também não deixou de levantar uma questão interessante.
"Vai contar para Thalia?"
"Nem em sonho"
Thalia era minha melhor amiga, assim como Leo, mas certas coisas eu teria que deixar escondido dela e esse fato era uma delas. Ela nem podia sonhar que Jason ou Percy tinham me agarrado e confesso que não sei o que ela faria, então é melhor ninguém saber dessa historia a não ser Leo, pelo menos por minha parte.
Logo o intervalo chegou e demos uma desculpa qualquer a Thalia para que eu pudesse contar a Leo os ocorridos. Sentamos embaixo de uma árvore grande, onde não tinha muito movimento naquele horário, e eu me encostei no tronco com Leo sentado a minha frente com um sorriso maroto. Ficamos em silencio por uns segundos, até eu quebrá-lo por causa do medo que seu sorriso estranho estava me causando.
– Porque está me olhando assim?
– Você gostou mais de qual beijo? – ele disse sem cerimônias e eu senti meu rosto ficar vermelho.
– Que espécie de pergunta é essa? – eu disse envergonhado, principalmente porque eu estava pensando no assunto.
Qual dos dois eu tinha mais gostado?
– Está na sua cara que você gostou, então pulei a pergunta "você gostou dos beijos?" – ele disse fazendo aspas com as mãos para logo depois rir da minha desgraça. Filho da tia.
– Sua puta mal comida – resmunguei revirando os olhos e cruzando os braços. Leo não se abalou com meu xingamento e continuou rindo.
– Vamos logo, me conte o que aconteceu – ele disse após se recuperar da crise de risos.
Não tinha mais volta, sem contar que disse que iria contar nesse intervalo. Então desabafei com ele, contei tudo que estava acontecendo, desde a minha suposta ficada com a Bianca, a aposta com Percy, a chantagem dele, os dois caras que eu até então pensava que me odiavam dando em cima de mim, a súbita vontade do Jason de ser meu amigo e o final de semana que ele me pegou no meu quarto.
Ai que coisa horrorosa, não acredito que admiti que Jason tinha me pegado.
– Uau, sua vida está agitada, hein colega? – ele riu e eu revirei os olhos – Uma coisa de cada vez, primeiro, não acredito que você realmente pegou a gostosa da sua irma, mas como Percy tem fotos e esta te chantageando com isso, eu acredito... Segundo, esses caras são tudo gay enrustido e você esta indo pelo mesmo caminho!
– Eu não sou gay, Valdez – eu disse irritado.
Mas se bem que ter alguns pensamentos que eu estou tendo com Jason e Percy não se pode dizer que é uma atitude de hétero, mas vamos relevar essa parte.
– Relaxa, irmãozinho – ele disse rindo – Eu já passei por isso, quero dizer, quando eu tinha 14 anos eu achava que gostava de garotos, até fiquei com alguns, mas depois vi que era só uma fase e que eu realmente gostava de garotas – deu de ombros e sorriu pra mim, enquanto eu esboçava uma cara incrédula. Como aquele viado nunca me contou uma coisa dessas? – Pode ser que aconteça o mesmo com você, então apenas relaxe e deixe essa fase rolar que ela já já passa. Logo, logo você estará pegando o dobro de meninas que esta acostumado.
Ele terminou de falar com um sorriso e eu fiquei pensando um pouco, chegando a conclusão de que Leo estava certo. Era só uma fase e bastava eu deixar rolar e ver no que dá mais pra frente. Encarei Leo com uma rápida expressão de "obrigado" para depois pular em cima dele, imobilizando-o no chão.
– Não acredito que você não me contou uma coisa dessas! – eu disse segurando suas mãos acima da cabeça – Achei que fossemos melhores amigos!
– Oras essa, você nunca me perguntou se eu tinha ficado com algum menino – ele riu e me empurrou para o lado com o corpo, invertendo as posições – Você precisa malhar mais um pouco, di Angelo!
– Você sabe que força de vontade pra isso eu tenho de sobra – revirei os olhos para logo depois escutar um grito feminino que, infelizmente, eu conhecia bem.
– NÃO ACREDITO QUE VOCÊ TEM MAIS UM SEME GOSTOSO – gritou Mírian em alto e bom som.
Corei completamente e tentei tirar Leo de cima de mim, mas como o esperado, não consegui. O mundo e sua mania de ser mais forte que eu. Mírian se aproximou e analisou a cena com os olhos vermelhos para logo depois colocar a mão no nariz, que estava sangrando.
– Quem é a mina? – Leo perguntou sem tirar os olhos dela – Ela é gata e gostosa.
Sabe quando você se arrepende amargamente da sua curiosidade extrema? Então, eu estava sentindo aquilo ali mesmo. Depois da chegada de Mírian e daquela língua super louca que ela estava falando, decidi pesquisar na internet o que se tratava daquelas palavras. Claro que não consegui escrevê-las de primeira, mas o bom e velho Google me ajudou com isso.
Descobri que ela tinha me achado fofo, até ai tudo bem. Mas também descobri que ela e uma viciada em homossexuais do sexo masculino e que eu tinha cara de passivo para ela, enquanto Jason e Percy seriam os meus ativos.
Meu rosto deve ter ficado mais vermelho ainda
– O que você esta fazendo aqui? – perguntei tentando me soltar de Leo, que estava completamente hipnotizado por ela – Sai de cima, Valdez!
Consegui empurrá-lo por conta da sua distração. Mírian tirou um lenço da bolsa e limpou sua mão e seu nariz que ainda tinham sangue, para logo em seguida chegar mais perto de nós com aquele sorriso maníaco que ela tem e se sentar ao meu lado, me abraçando.
– O radar de fujoshi nunca falha! – ela disse apertando a lateral da minha cabeça contra seus peitos. Eu teria gostado se não estivesse me sufocando.
– Ei, ei, você vai me matar! – tentei exclamar e ela me soltou.
– Leo, essa é Mírian Turner, melhor amiga do Percy – eu disse apontando pra morena ao meu lado, que sorriu e acenou com a mão rapidamente – Mírian, esse é Leo Valdez, meu...
– Seme... Quero dizer, mais um deles – ela disse e riu
– Você me chamou de que? – Leo perguntou rindo, mas com uma cara curiosa ao mesmo tempo.
– Ah, seme é... – antes mesmo que ela completasse a frase tampei sua boca com uma mão e segurei a parte de trás da sua cabeça com a outra.
– Nada, não é nada! – exclamei rindo nervoso
– Ué, você sabe o que isso significa? – ela tirou minha mão de sua boca e me encarou sorrindo.
– Infelizmente... A curiosidade é parte do meu ser – eu disse suspirando – O que exatamente você está fazendo aqui?
– Ah, Percy esqueceu sua roupa para o treino e me pediu pra trazê-la pra ele – ela disse levantando a bolsa que Percy sempre levava nos dias de treino com suas roupas, não que eu tenha notado alguma vez. – E falou que eu podia ficar para assistir o treino de basquete de vocês!
Nesse momento eu gelei um pouco e Leo me encarou confuso.
– Mas Nico não joga no colégio – ele disse semicerrando os olhos
– Naaah, a treinadora deles conseguiu convencê-lo a entrar! Percy logo me contou – ela riu e eu bati a mão na própria testa. Como Reyna era rápida em espalhar as noticias hein? – Bom, deixa eu ir la, tenho que achar o meu peixinho fora d'água.
Ela me deu um beijo demorado em minha bochecha e um na bochecha de Leo, para depois se levantar e se despedir. Assim que ela se afastou, Leo me olhou com um sorriso de canto.
– Time de basquete né? – ele disse de forma debochada – Com Percy e Jason...
– Me erra – revirei os olhos cortando sua frase, sabia que viria merda.
– Quero os detalhes depois – ele disse se levantando e me ajudando.
Assim que fiquei de pé, o sinal tocou e fomos cada um para sua respectiva sala, já que não teríamos mais horários juntos.
Sentia que aquela tarde seria a mais longa da minha vida.
[...]
Fui o primeiro a chegar ao ginásio. Ele ainda estava com as luzes apagadas, então estava um pouco escuro, sendo fracamente iluminado pela luz do sol que atravessava um pouco os vidros opacos dos portões do local. Estava deitado em uma das arquibancadas mexendo em meu celular.
Não queria trocar de roupa no mesmo horário que aqueles neandertais e os pervertidos do Percy e do Jason, então fui mais cedo justamente para trocar de roupa, já que o treino começava uma hora e meia depois do fim das aulas.
Quando o relógio do meu celular marcou 13h20, as luzes do ginásio foram acesas e Reyna apareceu junto de Percy e Jason, ambos falando alguma coisa para ela enquanto a mesma revirava os olhos e parecia tentar ignorar. Um pouco atrás, Mírian estava analisando o ginásio com os olhos, distraída demais da discussão que os três estavam tendo.
– Ah, você está ai! – ela exclamou após me ver – Pronto, ele veio, agora dá pra parar de encher meu saco?
O loiro e o moreno olharam para mim e sorriram maliciosamente. Apenas semicerrei os olhos e voltei a mexer em meu celular, que quase caiu na minha cara umas trocentas vezes desde que eu cheguei.
– Fico feliz que tenha vindo – disse Percy sentando ao meu lado
– Porque diabos você foi ao meu treino, gravou um vídeo do meu jogo e mostrou para Reyna? – ignorei sua fala completamente e disparei com as minhas perguntas – Já não é sacrificante o bastante ter que ficar com você em casa, quer que eu fique no treino também? Qual o seu problema?
Ele pareceu espantado com a minha raiva. Qual é, o motivo principal para eu estar lá era ele! Tudo isso era culpa dele!
– Ora eu... – a fala de Percy foi cortada por um loiro que apareceu ao meu lado.
– Olá Nico – ele disse sorrindo maliciosamente
– Oi Jason – eu disse tentando parecer simpático, mesmo com um pouco de hesitação.
Então senti meu rosto corar fortemente assim que lembrei das cenas dos finais de semana que antecederam aquele dia e as palavras de Leo hoje mais cedo. Eu teria apenas que deixar rolar... É, deixar rolar...
Percy encarou Jason mortalmente e o loiro lhe lançou o mesmo olhar. Os dois se encaravam como se estivessem brigando e eu, na minha pura inocência, apenas olhava ora pra um, ora pra outro na tentativa de entender o que estava se passando.
– Ei Nico, não sabia que você jogava basquete – disse Jason sem tirar os olhos de Percy.
– É, eu... – fui brutalmente interrompido pelo moreno.
– Ele joga! E muito bem alias.– ele disse de forma vitoriosa – Eu o vi jogando e até joguei com ele, aposto que te derrota facilmente.
Franzi o cenho, estranhando as palavras de Percy. Nenhum dos dois olhavam para mim e pareciam estar em uma briga interna além da verbal, isso se aquilo pudesse ser chamado de briga, estava mais para uma competição besta entre primos.
– Duvido que ele seja tão bom assim, sem querer ofender. – disse Jason e eu lhe encarei com raiva. Ele estava me subestimando?
Poderia começar a me arrepender de ter dado uma chance pra ele?
– Ele me ganhou em um mano a mano – disse Percy firme, como se aquilo fosse legal para ele. Jason apenas riu.
– Vamos combinar, não é muito difícil ganhar de você, priminho.
– Idiotas – sussurrei revirando os olhos e voltando a deitar com minha atenção para o celular. Foda-se o que Percy estava fazendo no meu treino.
– Torce pra que time? – perguntou Jason olhando para mim. Desviei a atenção do meu celular e levantei.
– Houston Rockets – eu disse começando a me interessar pelo assunto – E você?
– Jogaço contra os Lakers – comentou – Torço para o Dallas Mavericks.
– Com certeza, um dos melhores jogos da temporada – eu disse sorrindo – Nasceu em Dallas? – perguntei arqueando uma sobrancelha.
– Na verdade não, apenas gosto do time e o acho bastante forte. E você? Nasceu no Texas?
– É... Mais precisamente em Houston – eu disse dando de ombros – Ainda sonho em voltar pra lá.
Enquanto conversávamos, Percy ficava apenas nos olhando com raiva tentando dizer alguma coisa, provavelmente tentando acabar com a conversa, mas quando ele pareceu encontrar as palavras certar, Reyna o interrompe.
– Ei, seus putos, vão trocar de roupa! – gritou ela lá embaixo, na quadra.
Os dois apenas se encararam mortalmente e olharam para mim.
– Você vem? – os dois disseram juntos.
– Já estou pronto – eu disse me levantando, relevando a regata vermelha escura larga com o número 11 na frente em branco, que eu usava, e os shorts até o joelho pretos, com meus maravilhosos tênis vermelhos.
Então coloquei minha mochila em um ombro e sai de lá, deixando os dois. Desci os degraus aos pulos, chegando até Reyna e Mírian, vendo os idiotas do time entrarem no ginásio se empurrando e fazendo brincadeiras típicas de idiotas.
– Vou providenciar o novo uniforme do time hoje mesmo, quer escolher o número? – disse Reyna com a prancheta em mãos
– Número 11 esta disponível? – perguntei enquanto ajeitava as minhas munhequeiras pretas. Onze era meu número da sorte, não podia jogar com outra camisa se ela não tivesse o número 11 na camisa,sempre perdia quando inventava de usar outro número.
Larguei minha mochila em um canto perto do banco que tinha encostado na parede e tentei alcançar meus pés para poder alongar.
– Sim, claro! – ela disse aninada anotando na prancheta.
Senti seus olhos em minhas costas e veio a pergunta que eu esperava vir dela.
– Ghost King? – ela disse. Virei meu rosto para encará-la e ela estava sorrindo.
– Ah... No meu antigo colégio me chamavam assim por causa de um truque... Ai pegou quando eu me mudei pra cá. Essa camisa é de lá. – dei de ombros ainda alongando e ela assentiu.
– O que a princesinha rebelde mal comida está fazendo aqui? – zombou Luke com um sorriso maroto no rosto. Levantei e o vi chegando perto de nós com o resto do time – E quem é a gostosa?
– Se você ainda quiser jogar basquete, não me chame de gostosa, ou eu posso fazer você nunca mais ter filhos ou andar – ameaçou Mírian com aquele sorriso maníaco. Luke tremeu um pouco e ficou calando, olhando para Reyna como se pedisse uma resposta.
– Não fale assim com ele – repreendeu Reyna – Nico é o nosso novo jogador.
Ao ouvir suas palavras, Luke começou a rir, acompanhado do resto do time. Apenas revirei os olhos e sorri maroto. Agora que eu coloco esses filhos de uma puta no lugar deles.
– Você joga basquete? Com essa altura? – Luke riu da minha cara – Aposto que nem acertar a tabela você consegue.
Peguei a bola que estava nos pés de Reyna e lancei a bola da metade da quadra com uma mão só e sem olhar, acertando a tabela, mas não fazendo a cesta. Logico que era minha intenção não fazê-la.
Luke apenas olhou para a bola e vi que ele hesitou um pouco antes de esboçar um sorriso maleficio e olhar pra mim.
– Nada mal -–ele disse – Mas cesta que é bom...
Ele pegou a bola e imitou o que eu fiz, porém, fazendo a cesta. Senti que aquilo foi apenas um golpe de sorte.
Reyna apenas nos encarava, mas decidiu parar com a palhaçada de Luke, mandando-o para o vestiário, junto com o resto do time.
– Nos vemos em quadra, princesa – ele disse ameaçadoramente perto de mim. Apenas lhe lancei meu melhor sorriso.
–Cai dentro – desafiei e ele se afastou
– Luke pode virar um monstro quando quer, se eu fosse você não o desafiava – alertou Reyna e eu dei de ombros.
– Não me importo com nada disso... Quero dizer, ganhar ou perder pra mim não faz diferença.
Reyna me encarou incrédula. Mas é a mais pura verdade, só jogo basquete porque gosto, ganhar é consequência. Não sou nem um pouco competitivo, mas quando me desafiam, quando duvidam da minha capacidade... Ai sim eu mostro minhas reais habilidades.
Percy e Jason foram os primeiros a sair e pude sentir o olhar repreendedor de Reyna em cima do moreno, como se ele tivesse feito algo de errado. Os dois não disseram nada, apenas me olhavam com expectativa.
Depois de alguns minutos, o restante do time voltou com suas devidas roupas de treino. Não usavam uniforme, apenas roupas para melhor flexibilidade e liberdade dos movimentos. Eles firam zombando de mim enquanto eu ficava ao lado de Reyna com os braços cruzados e encarando o chão com a cabeça virada para o lado. Só estava imaginando o quão bom seria calar a boca de todos eles.
– Como vocês podem ver, temos um novo integrante no time – disse Reyna após todos se sentarem ao seu redor. Procurei em volta, procurando o treinador e não o vi.
– Onde está o treinador? – perguntei olhando para ela.
– Eu sou a treinadora – ela disse sorrindo. Uau, achei que ela era assistente do treinador.
– Você? Achei que fosse assistente – eu disse meio espantado.
– Ei, meninas também podem ser treinadoras – disse Mírian que até então estava calada.
– Quem é essa? – perguntou algum menino lá no fundo.
– Sou Mírian Turner, amiga e treinadora do Jason e do Percy e árbitra do Intercolegial – ela disse e deu um sorriso quando todos arregalaram os olhos, inclusive Reyna.
– Veio nos ajudar a treinar para o Intercolegial? – disse Reyna esperançosa
– Mas é claro que não, sou completamente neutra nesse campeonato. Só vim assistir ao treino mesmo – disse Mírian dando de ombros.
– Ah... – disse Reyna decepcionada – Bem, continuando... O Nico vai entrar no time e...
– Ele vai afundar o time mesmo no banco! – disse algum menino interrompendo-a e os outros riram. Cerrei o punho.
– Calem a boca! — disse Reyna autoritária e eles se calaram – Nico será titular.
Ai sim que as reclamações começaram. Luke exclamava que eu não podia jogar, outro dizia que eu não ia levar o time a lugar nenhum, enquanto Percy me defendia e Jason ficava me encarando com aquela cara de paisagem que ele costuma ter.
– Qual o seu problema, Jackson? – perguntou Luke encarando o moreno – Você sempre o odiou e o humilhou. Está do lado dele agora porque?
Acredite, meu caro miolo mole, eu quero saber a mesma coisa.
– Eu não... – começou Percy
– Calem a boca! – gritou Reyna interrompendo o moreno.
Sua voz ecoou um pouco, dando tempo para todos pararem de falar e olharem para ela espantados.
– O Nico esta no time e ponto. – disse ela sem paciência – Ele tomará o lugar Michael e por causa disso, terei que mexer um pouco nas posições.
Ninguém reclamou, apenas se ouviu as palavras de Reyna.
– Percy, devido ao seu baixo desempenho durante esses dias... – ela disse encarando-o de forma reprovadora. – Você não será mais o capitão do time. Esse cargo ficará com Luke agora.
– O que? Mas Reyna... – ele começou e fez uma carinha fofa de cachorrinho que caiu da mudança.
– Sem mais. Precisamos de um capitão mais centrado no jogo, coisa que você não tem demostrado desde algumas semanas. Você é lerdo de nascença, mas sua distração excessiva está atrapalhando o jogo. Espero que não tenha que te colocar no banco.
Senti um pouco de pena de Percy e fiquei me perguntando o que se passava em sua cabeça para ele estar tão avoado nos treinos. Por um segundo pensei que fosse por minha causa, mas logo descartei a ideia, não podia ser isso.
Luke parecia querer explodir de felicidade, mas acho que só não o fez por causa de Reyna, que aparentava irritada. Caminhei lentamente para perto do time, porém dando uma certa distância do mesmo, ficando de frente para Reyna.
A garota deu os avisos relativos aos jogos do Intercolegial, sobre os novos uniformes e os treinos da semana que vem em um clube qualquer, que eu não prestei atenção por não participar desses treinos e porque uma coisa estava martelando em minha cabeça.
– Com a entrada do Nico no time, terei que mudar algumas posições. Jason passará a ser pivô, Luke armador principal, Percy vai ser líbero e Will lateral. E quem reclamar será substituído – ela disse enquanto olhava em sua prancheta – Agora alonguem-se e formem duplas, vamos treinar passada – disse a morena assim que terminou de dar os avisos.
Peguei uma bola que estava na sacola perto de seus pés e assim que me levantei, senti duas presenças atrás de minha linda pessoa.
– Nico, eu vou com você – as vozes de Percy e Jason soaram atrás de mim, fazendo meu corpo arrepiar com o nervosismo e meu coração acelerar um pouco.
– Eu vou fazer dupla com ele, eu que o coloquei no time – disse Percy, provavelmente encarando Jason ameaçadoramente
– Não, eu vou fazer dupla com ele! — disse Jason
Virei para eles e os vi se matarem com o olhar. Assim que perceberam que eu virei para eles, os dois me olharam e disseram:
– Quem você escolhe?
Apenas suspirei e deixei meus ombros caírem.
Aquele, definitivamente, iria ser um longo treino.
Levantei a cabeça, vendo que os dois pararam de me encarar para poder se encararem de forma mortífera. Ainda não entendia qual era o problema daqueles dois comigo, mas eu definitivamente queria saber. Isso não era normal, ainda mais vindo dos dois.
Percebendo que eu os encarava, os dois primos olharam para mim, com olhares de expectativa. Apenas respirei fundo e voltei meu olhar para Jason, que sorriu minimamente, para depois encarar Percy, que deu um sorriso vitorioso.
– Percy, eu... – comecei, mas fui interrompido pela mão dele me puxando para longe de Jason.
– Vamos logo! – ele disse de forma aninada.
Fiquei sem entender sua atitude, então puxei meu pulso de sua mão, fazendo-o me soltar e voltei para perto de Jason, encarando Percy de forma curiosa. Será que ele achou mesmo que eu iria escolhê–lo só por que eu olhei para ele?
– O que foi? Você me encolheu, vamos começar logo – ele disse tentando segurar meu pulso novamente, mas eu desviei
– Percy, eu ia dizer que vou escolher o Jason – eu disse da forma mais neutra que eu conseguia, estava tentando ao máximo esconder meu nervosismo..
O moreno arregalou os olhos, encarando-me incrédulo, enquanto o loiro me olhava de forma vitoriosa e maliciosa. Cadê o sorriso gentil que ele tinha ontem no rosto? Revirei os olhos com esse pensamento.
– Vem, vamos An... – começou Jason me segurando pela cintura, mas eu o interrompi saindo de seu braço e mandando-o calar a boca antes que Percy escutasse o apelidinhoridículo que ele me dera.
Peguei no braço do loiro, puxando-o para um lugar mais afastado dos outros.
– Não me chame de Anjo, ouviu bem? Já falei várias vezes!– disparei assim que parei
– Qual é, Anjo! Esse apelido combina completamente com você– ele disse me lançando um sorriso inocente.
– Mas não me chame assim perto dos outros! – eu disse vermelho de raiva e de vergonha.
– Tudo bem, Anjo – ele disse se divertindo – Vamos alongar.
Jason tirou a bola de minha mão e a depositou perto de seus pés. Então ele virou meu corpo, fazendo com que eu ficasse de costas para ele e começou a levantar meus dois braços.
– Ei, eu posso me alongar sozinho! – eu disse tentando me soltar, mas é claro que não obtive sucesso.
– Admita, ser alongado por outra pessoa é mais gostoso – ele sussurrou em meu ouvido de forma sexy, o que deixou os pelos de minha nuca arrepiados
O loiro pareceu perceber que aquilo me afetou, pois soltou uma risada sexy e deu um beijo rápido em meu pescoço, me deixando completamentevermelho.
– N-não faça isso em público! – gaguejei
– Então quer dizer que as escondidas pode né? – ele sorriu de forma sacana – Você é quem manda.
– Para! — exclamei com raiva
– Relaxa, todos nós nos alongamos assim, veja.
Então parei para reparar nos outros jogadores e era realmente verdade, todos estavam em duplas alongando seus parceiros sem nenhum pingo de maldade. Olhei para Mírian e ela estava simplesmente hipnotizada vendo um bando de homens se tocando inocentemente para fazer os alongamentos. Mas Percy, Jason e eu sabíamos o que ela estava pensando.
Mesmo assim, além de uma pontinha de raiva que sentia de Jason, a raiva verdadeira era de mim, por estar correspondendoerroneamente aquelas atitudes provocativas. Jason largou meus braços e inclinou meu corpo para o lado, alongando a lateral do tronco.
– Está sentindo alongar? – eleperguntou passando a mão delicadamente na lateral do meu corpo e apertando minha cintura. Apenas assenti em resposta. – Reyna fala que dá mais resultado quando você é alongado por outra pessoa.
O mais estranho de tudo era que eu estava gostando daqueletoque de Jason, entãonão reclamei. Iria seguir o conselho de Leo e deixar rolar aquela situação, por mais estranha, constrangedora e comprometedora que ela seja.
Jason estava tao perto de mim que eu podia sentir seu cheiro natural característico misturado com o perfume que ele sempre usava. Sua respiração batia em minha nuca, causando-me arrepios.
Eu estava de cabeça abaixa, provavelmente mais vermelho que pimenta, e me repreendi ao olhar para cima. Meus olhos encontraram os de Percy, que estava com a expressão de que iria matar alguém lenta e dolorosamente enquanto era alongado por Luke, que notou o olhar do moreno sobre mim e Jason. Desviei o olhar e Jason inclinou meu corpo para o outro lado, forçando-o para baixo. O pior de tudo era que ele tinha razão, ser alongado por alguém era mais gostoso e me parecia mais eficaz.
Estávamos em silêncio e Jason parecia concentrado demais em meu corpo para reparar que Percy estava nos encarando. Depois de fazer mais alguns alongamentos comigo, invertemos as funções e ele quebrou o silêncio.
– Empurra o mais forte que der – Jason sentou-se no chão de costas para mim com as pernas esticadas.
– Okay – eu disse
Ajoelhei-me atrás de Jason, pousando as duas mãos em suas costas, sentindo os seus músculos bem definidos. Empurrei seu tronco, como havia pedido, e o vi tentar alcançar seus pés.
– Obrigado por fazer companhia para mim ontem, eu realmente me diverti – eu disse descontraidamente enquanto empurrava mais e mais, ouvindo os gemidos de dor dele.
– Ah, não foi nada – ele disse em meio a um engasgo de dor – Pode me chamar a qualquer momento, Anjo.
Apenas assenti com a cabeça e continuamos a nos alongar até Reyna nos mandar começar a fazer os exercícios de passada. Bem ou mal, Jason era uma boa dupla e também fazia belas cestas.
Ás vezes deixava a bola cair só para os babacas acharem que eu era realmente ruim, ai só depois mostraria as minhas habilidades.
Após o treinamento de passada, fomos treinar os lances e mais uma vez errei quase todos de proposito.
– Porra Reyna, quer mesmo esse cara no time? – reclamou Luke enquanto fazia o rebote da cesta que eu errei.
– Cala a boca e treina, Luke – ela disse calmamente.
Mírian apenas assistia e sussurrava algumas coisas para Reyna que apenas assentia. Fiquei curioso em saber o que Mírian estava fofocando com Reyna. Na fila para fazer o rebote, Jason falou que esse não era o treino que Reyna passava, que estava sendo mais leve e ele achava que era por minha causa.
– Muito bem, vamos para o jogo agora. – disse Reyna.
– Ué, não vamos correr hoje? – perguntou Percy estranhando.
– Hoje não, quero mais tempo de jogo – ela respondeu. – Luke e Will escolherão os times.
Os dois se posicionaram na frente e tiraram no par ou ímpar quem encolheria primeiro. Will ganhou e escolheu Percy. Logo Luke escolheu Jason e eu vi que aquilo não ia prestar. Os dois já estavam se bicando há semanas, jogarem em times diferente ia dar problema.
Os times foram sendo montados até que finalmente sobrou eu, que fui obrigado a ir para o time do Will e jogar com Percy. Como Will ganhou, o time adversário teve que ficar com aqueles coletes mal cheirosos que provavelmente nunca são lavados, o que era bom para nós.
Achei super estranhos eles não se reunirem para escolher quem iria marcar quem, qual seria a estratégia de jogo e essas coisas, então fiquei calado e apenas segui o fluxo, afinal, era a primeira vez que eu jogava com eles, não sabia como funcionava o basquete para esse povo.
– Vão ser quatro quartos de 10 minutos cada e o jogador da equipe vencedora que se destacar mais, escolherá as cores do uniforme. – disse Reyna no centro da quadra com a bola laranja e um apito em mão.
Jason e Will, que eram os mais altos, estavam no meio para ver que pegava a bola primeiro. Reyna jogo-a para cima e Jason conseguiu dar um tapa nela antes de Will, fazendo com que seu time tomasse posse da bola primeiro.
Luke a pegou e veio para cima sozinho para a nossa área, porém Percy conseguiu tirar a bola dele rapidamente e foi sozinho também para o outro lado. Eu fiquei tão incrédulo com aquilo que apenas parei de correr e olhei pra Reyna com se dissesse “Sério mesmo que vocês jogam sozinhos?” fazendo um gesto com as mãos para dar mais enfase na minha “pergunta”.
O jogo foi se passando e ninguém passava a bola para mim, então eu ficava correndo igual um palhaço tentando fazer os idiotas me passarem a bola, mas eles simplesmente jogavam sozinhos, como se o time não existisse ou não servisse para porra nenhuma.
O primeiro quarto acabou e estava 10 a 6 para eles. Sentei no banco ao lado de Mírian pegando minha garrafa e tomando um gole.
– Então, o que você achou? – perguntou Reyna chegando mais perto.
– O que eu achei? Não tenho que achar nada – eu disse ríspido. Realmente estava irritado com a falta de trabalho de equipe desses caras, mas como sou eu, e eu não costumo falar o que penso, deixei baixo.
– Mas o que? Você tem que dar sua opinião sobre o jogo! – ela exclamou.
– Não tenho nada a declarar – eu disse tomando mais um gole de água e ela se afastou bufando.
– Falta de trabalho em equipe, é isso que te incomoda, certo? – perguntou Mírian sem me encarar.
– Basquete não se joga sozinho. Se é pra ser atleta sozinho, vai fazer atletismo ou natação... – eu disse realmente revoltado – Desde pequeno aprendi que trabalho em equipe é tudo e o basquete só reforçou isso. Acho que não chegaremos nem nas oitavas de final trabalhando desse jeito.
– Concordo totalmente com você, mas como eu não posso dar palpite nenhum sobre isso, sugiro que você fale o seu pensamento para Reyna, com certeza irá ajudar – ela disse.
– Perder ou ganhar, pra mim não importa, então não me importo se minha opinião vá fazer com que ganhemos.
Mírian deu de ombros.
– Bem, você é quem sabe... Só acho que surtiria algum efeito se você mostrasse a eles e a ela que trabalho em equipe é a base do basquete.
– Não me importo – eu disse levantando – Mas se é pra jogar sozinho, vamos jogar sozinho.
Reyna apitou e voltamos para quadra repetindo o processo de posse de bola que fizemos inicialmente, só que desse vez, Will conseguiu dar o tapa primeiro, fazendo ela vir direto em minha direção.
– Não! – ele gritou – Passa a bola! Passa a bola!
Ignorei os gritos dele e corri para a área adversária. Driblei todos os jogadores facilmente e quando finalmente cheguei em Luke me senti como se pudesse fazê-lo engolir todas as suas palavras.
– Tá com medo, princesa? – ele disse em posição de defesa enquanto eu quicava a bola na sua frente.
– Nem um pouquinho – eu sussurrei com um sorriso sádico no rosto e o driblei fingindo ir para a direita, mas indo para a esquerda com um giro. Dei os três passos necessários e lancei a bola, fazendo-a entrar perfeitamente na cesta.
Todos estavam paralisados com os pontos que eu fiz, o único som que era ouvido era da bola que eu acabara de arremessar quicando no chão.
– Ele... – começou Luke – Você... Como você fez isso?Não pode ser! – ele gritou fazendo birra.
– Aceita que doí menos, babaca – eu disse ameaçadoramente e ele me pegou pela gola da blusa, levantando-me.
– Você me chamou de que, seu filho da puta? – ele disse com o rosto colado ao meu.
Podem me xingar do que for, mas quando colocam minha mãe e minha irmã no meio... Você pode se preparar para morrer.
– Puta é a sua... – comecei, mas logo fomos afastados pelos caras.
– Eu vou acabar com a tua raça, di Angelo – Luke ameaçou.
– Estou esperando, idiota – eu disse fazendo um gesto de “pode vir” com as mãos.
Jason, que tinha me segurado, me encarava completamente incrédulo.
– Se eu fosse você, contratava um segurança – ele disse – Luke é convicto em suas ameaças. E você cutucou bastante a fera.
– Ele que se foda! – eu disse alto – Venha me bater, eu acabo com ele!
– Nico, vamos combinar que você não pode acabar com ele com esse tamanho e essa força...
– Você está me chamando de fracote? Porque todo mundo acha que eu sou fraco? Que não consigo fazer porra nenhuma? Eu vou provar pra todos vocês que eu não sou esse merda que vocês acham que eu sou! – eu gritei irado.
Caminhei até o banco, pegando minha mochila e a jogando nas costas.Passei por Reyna e Mírian para poder atravessar o ginásio e ir embora, mas Reyna gritou antes que eu cruzasse o meio da quadra.
– Aonde você vai?
– Vou embora daqui – rosnei – Não venham atrás de mim e não volto mais hoje.
Então terminei de cruzar a quadra e subi as arquibancadas que davam para os portões. Sai rapidamente de lá, indo para o estacionamento para pegar meu carro e sair daquela porra de colégio.
Aquela situação realmente me emputeceu, mas eu ia me vingar. Ia provar para aquele bando de filhos da puta mal comida que eu posso ser alguém que eles nunca imaginariam.
[…]
Assim que cheguei em casa, fui direto para o banho, pois estava grudento com aquele suor seco pelo ar condicionado do carro. A água quente relaxou meus músculos e eu sentia que estava começando a ficar mais calmo, porém as imagens me viram novamente a cabeça, fazendo eu me enraivecer novamente e dar um soco na parede do box.
Aposto que eu seu fosse lutador não teria doído, mas como estamos falando de um jogador de basquete, senti minha mão toda doer por causa do impacto. Deixei ela um pouco na água fria, mas não adiantou muita coisa, teria que colocar gelo mesmo.
Sai do banheiro e troquei de roupa rapidamente, pois a minha vontade era de socar, chutar e quebrar tudo, mas depois desse acidente no banheiro preferi descontar minha raiva nas coisas macias de meu quarto. Chutei e soquei com a outra mão tudo que era macio e tenho que confessar que quase agredi o Sr. Bigodes que estava dormindo inocentemente no puffe.
Assim que meu ataque de raiva acabou, desci para a cozinha para pegar gelo para a minha mão que ainda estava doendo, eu não podia quebrá-la, senão não teria treino para mim durante um mês.
A cozinheira perguntou o que eu queria e expliquei a situação pra ela, inventando uma história qualquer para que eu pudesse pegar o gelo. Falei para ela não se preocupar que eu poderia me virar e pedi para que fizesse um sanduíche simples de queijo e presunto. Fiz a compressa de gelo, esperei meu sanduíche ficar pronto e voltei para o meu quarto.
Coloquei a compressa na mão e a enfaixei firmemente com uma atadura que havia na minha caixa de primeiro socorros. Fiquei com o gelo na mão até derreter todos os cubinhos, enquanto isso eu comia e via televisão para tentar esfriar a mente, o que funcionou. Deixei o saco de água em qualquer lugar e fui estudar, pois, por incrível que pareça, estudar também me acalma, principalmente biologia.
Claro né? Quem quer fazer medicina tem que gostar de biologia.
Então fiquei estudando até dar a hora do meu treino lá no clube. Com a mesma atadura, enfaixei minha mão para que ficasse um pouco imobilizada para não dar problema mais tarde. Meu treinador sempre mandava nós fazermos isso quando machucamos e geralmente funcionava.
Arrumei rapidamente minha bolsa, vesti-me e sai de casa sem falar com ninguém. Percy e Jason já deveria ter chegado e eu tinha dado graças a Deus que eles não foram me perturbar.
Chegando lá, atrasado como sempre, fui cumprimentado por todos os meus colegas de time, que me perguntaram o que eu tinha feito na mão.
– Ah, minha irmã bateu a porta na minha mão – inventei a história rapidamente – E acreditem, a Bianca é forte pra caramba.
– Mas vai conseguir jogar hoje? – perguntou Chris, nosso pivô.
– Claro que vou, não foi nada demais – eu disse sorrindo.
– Eu ficou sabendo que nós... – ele foi interrompido pelas portas do ginásio sendo abertas.
Olhamos para lá e não acreditei quando vi o time de basquete da escola entrando no local.
O mundo só pode estar conspirando contra mim, não é possível! Já não bastava eu ter que aturá-los todos dia no colégio, aturar dois pervertidos em casa vinte e quatro horas, agora vou ter que aturá-los onde eu achava que finalmente teria um pouco de paz? A única coisa que pensei antes de eles me virem foi:
– Oh, droga...
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