Oh, Dammit! [A SER REESCRITA]
16 Contra fatos, não há argumentos.
Notas iniciais
Capítulo 16: Contra fatos, não há argumentos.
Nico
Tinha acordado há poucos segundos, mas não conseguia abrir meus olhos.
Todo o meu corpo estava exausto mesmo depois de uma noite de sono. Meus membros doíam e minha cabeça parecia que ia explodir. Meus sentidos estavam falhos: não conseguia abrir os olhos, sentia uma sensação de abafada nos ouvidos, minha pele mal sentia a maciez do lençol embaixo de mim e não sentia o cheiro característico que meu quarto tinha. Minha memória era a pior de todas no momento. A sensação de enjoo e de exaustão eram grandes, então eu não me dei o trabalho de me levantar, afinal, era domingo.
O problema era que eu sabia que não conseguiria dormir novamente, nunca conseguia, então fiz um esforço dos infernos para levantar apenas meu tronco. Respirei fundo antes de esfregar meus olhos e abri-los devagar. O quarto ainda estava escuro, então demorei um pouco para notar que eu não estava no meu quarto e sim, no de Percy.
Franzi o cenho antes de olhar para o lado e ver Percy ressonando ao meu lado, os braços fortes debaixo do travesseiro e o lençol na altura de seu quadril. Eu não iria entrar em pânico. Levantei um pouco o lençol, constatando o que eu já esperava e que as dores indicavam.
— Meu Deus, não... – resmunguei antes de fechar os olhos novamente e cobrir meu rosto com as mãos.
Comecei a lembrar da noite anterior. A despedida, bebida, eu ficando com Leo, bebida, briga pelo celular com Jason, bebida, a notícia de que minha irmã está grávida de mim, desespero, mais bebida, Percy me ajudando, mais bebida, banheiro, uma bebida esquisita no armário do Percy e para completar a desgraça, minha transa com o Jackson.
Se eu queria me matar naquele momento? Talvez, mas eu não podia negar que tinha gostado de tudo o que aconteceu ontem. Eu tinha gostado de beijar Leo e tê-lo rebolando em mim como se fosse uma garota. Eu tinha gostado do modo como Jason tinha sentido ciúmes de mim com o Leo. E, acima de tudo, tinha gostado do modo que eu e Percy nos tocamos noite passada.
Não tinha mais como negar: eu era gay.
Isso deveria me preocupar, afinal, eu sempre peguei muitas mulheres em minha vida inteira e até gostava, mas nada chegou aos pés de ter ficado com Jason, Leo e Percy. Com mulheres era uma coisa totalmente carnal e que eu me preocupava mais em dar prazer a elas do que receber. Com eles, eu tanto dava, quanto recebia um prazer muito bom, além de sentir algo emocional muito maior. Então não tinha mais o que negar.
Afinal, contra fatos não há argumentos.
O meu maior problema era minha mãe. Eu realmente não sabia como ela iria reagir ao saber que seu filho é gay e que engravidou a própria irmã. Estava no fundo do poço com isso. Tudo que eu mais queria era protegê-la e dar algum motivo para ela ter orgulho de mim, mas depois disso tudo, eu teria que me formar em medicina em Harvard para era se orgulhar apenas 1% de mim.
Eu não fazia ideia de como faria para dar essas notícias à ela. Eu esperava que ela me dissesse que, independente de quem eu escolhia para trepar, ela não ligava e me amava de qualquer jeito. Realmente esperava isso e conhecendo dona Maria, era isso que ela faria. Quanto a gravidez de Bianca, eu teria que falar com ela antes de decidir contar a nossa mãe. Talvez ela não precisasse saber, mas não tinha certeza se Bia concordava com isso.
A culpa era toda minha, eu sabia.
Estava arrasado com tudo isso. Aceitava perfeitamente que eu fosse homossexual, mas não aceitaria facilmente que um cara que sempre mostrou me detestar, estar afim de mim e ter transado comigo. Isso era totalmente difícil de engolir. Assim como era difícil aceitar ser o prêmio maior na competição idiota entre Jason e Percy.
Se eu pudesse me mudar para qualquer lugar do mundo eu o faria agora mesmo.
Estaria fugindo? Com certeza, mas não teria que encarar competições e o olhar de decepção da minha mãe.
Mas no final eu sabia que teria que resolver todos esses problemas, independente do que eu fosse perder com isso tudo. Estava com muitas coisas na cabeça, precisava me organizar.
E talvez beber um pouco.
A frustração estava tomando conta de mim. Como pude deixar as coisas chegarem tão longe assim? Como pude me apegar à pessoas que eu não deveria? Não culpava ninguém pelos meus fracassos, o único culpado era eu e aquilo me deixar totalmente com raiva de mim mesmo. Eu deveria ter o controle, mas não tive. Eu não deveria ter deixado nada disso acontecer, mas deixei minhas emoções falarem mais alto e tomarem conta de mim.
Sentimentos sempre me atrapalharam e agora não estava sendo diferente.
Olhei para Percy ao meu lado. Ele ressonava tranquilo, os cabelos pretos grudados em seu rosto e a boca levemente aberta enquanto babava no travesseiro. Permiti-me sorrir antes de sair com cuidado da cama. Vesti uma blusa dele qualquer antes de ir para o banheiro catar minhas roupas, não queria que ele acordasse e me visse pelado, mesmo que já tinha visto enquanto eu estava bêbado e trepando com ele. As vesti rapidamente e deixei a blusa de Percy em cima do cesto de roupa suja.
Olhei as horas em meu celular, que estava intacto dentro do bolso da calça, e suspirei aliviado quando vi que era cedo demais para que as pessoas estivessem acordadas e pudessem me ver saindo do quarto de Percy, isso não seria bom.
Estava me esgueirando silenciosamente para a porta e assim que virei a chave, destrancando a porta, ouvi Percy me chamar com uma voz sonolenta.
— Nico? — virei-me para encarar seu rosto sonolento enquanto ele esfregava os olhos e se sentava na cama.
Não consegui pensar em nada para dizer, muito menos tive forças para sair do cômodo. Meu coração estava disparado e senti minha respiração ficar pesada enquanto os segundos iam se passando como se fosse anos. Percy finalmente acordou e me olhou com um olhar confuso.
Eu queria que ele me chamasse de Annabeth pra eu ficar puto e ter um motivo para brigar com ele. Queria poder dizer que não me lembrava de nada e não sabia o que estava fazendo ali, mas as evidencias eram difíceis de serem ignoradas. Queria dizer qualquer coisa, mas simplesmente disse:
— Você baba enquanto dorme.
Talvez eu poderia ter dito algo mais idiota que aquilo.
Nunca saberemos.
Percy me olhou envergonhado e limpou a baba que ainda estava em seu rosto. Fiquei paralisado, esperando que ele falasse alguma coisa, mas ficamos em um silêncio desconfortável.
Eu não poderia passar meu dia inteiro naquilo.
— Bom, então eu já vou indo. — disse abrindo a porta, mas me interrompi quando Percy pediu para que eu esperasse.
Virei-me para ele com minha melhor cara de indiferença e esperei que ele vestisse sua cueca e saísse da cama. Ele desceu da elevação em que ficava a cama e veio até mim de forma receosa. Parou a minha frente e ficou me olhando com aqueles maravilhosos olhos verdes.
— Você... — ele começou, coçando a nuca em forma de nervosismo. — Você se lembra claramente do que aconteceu ontem a noite?
— Sim — disse tentando manter-me sem expressão. — Claro como meu gozo que deve estar espalhado na sua cama.
Eu estava nervoso. Não me julguem por ser sarcástico num momento desses! Eu queria deixá-lo envergonhado para que eu pudesse dobrá-lo e fugir dali, mas Percy apenas franziu o cenho e deixou uma risada escapar. Maldito.
— Isso é ótimo! Não vou ter que fingir que aquilo tudo não aconteceu. — ele disse aliviado.
Chocado era eufemismo para o que eu sentia naquele momento.
— Mas eu gostaria que fingisse. — eu disse simplesmente.
— O que? Porque? — sua expressão despreocupada se foi.
— Olha, Percy, não vou fingir que não gostei. Não vou fingir que não foi uma das melhores transas da minha vida. Mas também não posso fingir que eu perdi minha virgindade anal bêbado e com alguém que me odeia.
Percy ficou levemente perdido e eu suspirei.
— Eu não posso ficar com você depois de tudo o que você fez comigo. — eu disse calmamente. — Foi boa todas as pegações e o sexo, foi, mas não estou convencido de que esse seu ódio bizarro por mim tenha passado. Eu posso pensar mil coisas a esse respeito, como uma aposta idiota, mas...
— Eu não sei o que houve contigo antes de vir para cá, mas tudo o que eu mais queria era ficar próximo de você! — argumentou Percy.
Simplesmente não acreditei naquelas palavras.
— Próximo a mim? Não seria melhor tentar uma abordagem mais... gentil? — frisei a palavra “gentil” — Desde que eu cheguei naquele colégio eu só escuto insultos vindos de você. Você fez o time de basquete se virar contra mim e ainda por cima fez com que todo o resto me tratasse como se eu tivesse uma doença contagiosa. Você acha mesmo que iria ficar mais próximo de mim se me ameaçasse sempre na frente da escola toda ou trombasse comigo para que eu derrubasse meu almoço inteiro em mim? Se fizesse pegadinhas como esconder minhas roupas nas aulas de educação física? Você sempre se virou contra mim como se eu tivesse lhe feito passar pelo seu pior pesadelo e eu ao menos sei o motivo desse ódio todo.
Percy me encarou respirando fundo. Eu não sabia o que viria a seguir, mas eu estava começando a me estressar com aquilo. Como ele tinha a audácia de dizer aquilo sendo que suas atitudes provavam completamente o contrário?
— O Jason fez a mesma coisa. E mesmo assim você ficou com ele e o aceita dessa maneira que eu quero que você me aceite. — ele disse e eu não acreditei.
Soltei uma gargalhada debochada e olhei para ele com minha melhor cara sarcástica. Eu não estava bem emocional, psicológica e fisicamente. Um misto de sentimentos e as dores físicas pelo sexo que tivemos ontem estavam me deixando um caco, mas eu não era cachorro de fugir de briga. Se era umas verdades que Percy queria, ele teria umas verdades.
— O Jason me deu um motivo para o que ele fez. — rebati — Ele me explicou porque agiu daquela forma, se arrepende e quis se redimir comigo. Você consegue ser bem persuasivo hein?
Percy ficou calado. Não conseguia decifrar sua expressão. Ele era um cara difícil de entender.
— Então? Tem um motivo plausível para esse ódio? — perguntei cruzando os braços sobre o peito. — Pois tudo o que eu vejo agora é um cara que se finge de machão para toda escola, mas que tem desejos sexuais pelo cara que odeia.
— Eu não posso contar, mas você tem que confiar em mim. — ele disse chegando perto de mim e segurando minhas mãos, ignorando totalmente a segunda parte da minha fala. — Você só precisa confiar em mim.
— Como posso confiar em você, Percy? Depois de tudo o que você fez? E ainda por cima vejo que, o que você diz sentir por mim, é apenas um joguinho com seus amigos e uma disputa com Jason. Eu não sou brinquedo para ser tratado dessa forma e não sou um prêmio que um de vocês vai levar para casa. — falei com certa raiva. Tirei minhas mãos das suas com violência.
— Mas Nico, eu prometi que não contaria! — ele rebateu, exasperado — Ao contrário de você, eu cumpro minhas promessas.
Revirei os olhos e tinha que admitir que aquele simples gesto me fez ver estrelas. Eu estava de ressaca, com a cabeça doendo e estava discutindo com Percy. Eu só queria que tudo terminasse.
— Não me importo se você prometeu ou não. Muito menos para quem. — menti. Essa parte me deixou realmente curioso. —A única coisa que posso fazer por você é deixar que você se explique, fora isso, acho melhor cortarmos toda e qualquer ligação. E já estou cansado de você dizendo que eu não cumpro minhas promessa sendo que eu não lembro de nenhuma que eu tenha feito a você para dizer isso.
Ele ficou com uma expressão confusa no rosto. Pareceu que ficou pensando no que dizer durante mil anos, mas apenas balançou a cabeça como se afastasse algum pensamento. Fiquei esperando que ele falasse alguma coisa, falasse seus motivos, mas ele apenas disse:
— Me desculpe, Nico... – ele disse sério. – Por tudo o que eu fiz, mas eu não posso contar e só peço que você me perdoe e confie em mim. Eu estou seriamente confuso, mas uma coisa eu tenho certeza: eu me sinto atraído por você de uma maneira que eu nunca fui por ninguém. Nem Annabeth.
O modo que eu me comovi veio tão rápido quanto passou. Eu estava com raiva. Com raiva de Percy, com raiva de Jason, com raiva de Bianca e principalmente, com raiva de mim mesmo. Eu não queria carregar a culpa nos ombros, não queria guardar rancor. Mas era muito mais fácil falar do que fazer.
Se eu não tivesse sucumbido aos meus sentimentos, nada disso estaria acontecendo.
Não era uma coisa meramente carnal. Tinha um resquício de algo sentimental naquela história toda, principalmente por minha parte. Eu tinha sentimentos conflitantes em relação à Percy e Jason, mas não podia deixar essa confusão me fazer tomar a decisão errada. Só porque talvez eu goste de Percy, não significava que eu iria perdoá-lo pelas coisas ruins que ele fez a mim.
E tinha o fator que eu tinha esquecido completamente: ele ainda namorava Annabeth.
Isso me deixou com certa raiva. Nunca tive nada contra a garota, ela nunca fez nada de bom ou ruim comigo, era apenas indiferente à existência dela. Porém, não podia descartar o fato de que Percy a traiu e ele poderia fazer o mesmo comigo se eu o aceitasse.
— Eu não posso te desculpar... Eu não posso... – comecei, mas Percy me interrompeu, com raiva na voz.
— Não pode ou não quer?— ele disse dando ênfase no “quer”.
Sinceridade sempre foi o meu forte.
— Realmente não quero. – disse com desdém. – Não quero alguém que não tenha uma desculpa plausível para algo que vez fazendo por meses. Do nada as coisas mudam. Do nada você começa a sentir coisas por mim, ou pelo menos diz sentir algo. O que mudou, Percy? Tudo começou quando eu fui morar na porra da sua casa. Tudo começou com a merda desse casamento. Mas eu não fui egoísta para estragar isso, pois quero ver minha mãe feliz. – desabafei. – Você não tem o que me explicar e eu não tenho porque te perdoar. E você acha mesmo que eu quero alguém capaz de cometer traição como você fez com Annabeth? Não sou obrigado a isso.
Virei-me para sair de seu quarto, mas então falou o que eu odeio ouvir. Percy jogou baixo demais.
— Você é um fraco, Nico di Angelo. Está fugindo dos seus sentimentos. Fugindo do que você sente por mim. Você sempre se mostrou fraco e... – Percy parou ao sentir meu punho acertar em cheio a sua face.
Percy virou o rosto com a mão no local acertado. Agora ele conseguiu me deixar furioso. Minha mão deveria estar doendo, mas a descarga de adrenalina não deixava que eu sentisse dor. Estava ofegando de tanta raiva. Eu queria socá-lo até ele sangrar.
Não tive autocontrole naquele momento, parti para cima dele, desferindo-lhe outro soco no rosto, fazendo-o cair no chão. Avancei em cima dele, tentando lhe socar o rosto enquanto ele desviava e tentava segurar meus punhos. Percy não gritava para que eu parasse, mas fazia de tudo para não ser acertado.
Eu estava ensandecido de raiva. Não respondia mais por mim. Minha cabeça parou de doer por causa da adrenalina e eu só conseguia ver o rosto de Percy a minha frente, com o nariz sangrando e o olho roxo, tentando não ser agredido enquanto eu estava sentando em cima dele, completamente sem controle.
Percy me acertou um soco na boca, mas isso não impediu de eu revidar imediatamente, abrindo um corte em seu supercílio. Sentia o gosto forte de ferro em minha boca. Cuspi o sangue e voltei a agredi-lo. Ele agora revidava com mais vigor, mas eu era rápido, não deixava ser acertado e acertava ele com força.
Tudo estava embaçado e sem som, tanto que não ouvi nem vi Thalia chegando alarmada, tentando me tirar de cima do seu primo. Quando ela conseguiu me tirar de cima de Percy, soltei-me de seu aperto com violência e me virei para ele, sangrando no chão com um olhar arrependido.
Cheguei meu rosto bem perto do seu.
— Quero que você e suas desculpinhas vão para o inferno chupar a rola do capeta. – eu disse pura e simplesmente. – Você não tinha o meu ódio, mas já posso dizer o contrário. Parabéns, Percy, você ganhou a guerra. Espero que você se foda e tome muito nesse seu cu para deixar de ser um enrustido de merda.
Afastei-me de Percy e sai de seu quarto sem olhar para Thalia. A casa estava silenciosa, ainda eram 7h da manhã e com a ressaca de certas pessoas, sei que não acordariam antes das 10h. Entrei em meu quarto, deparando-me com um Leo jogando em cima da minha cama, da mesma forma que o deixei na noite passada.
Bateu uma bad por não ter cuidado do meu amigo, mas estava aliviado que ele não passou mal e dormiu tranquilamente. Mas sabia que ele iria acordar tão ruim quanto eu.
Como Leo tinha um sono muito pesado, ainda mais quando estava bêbado, não liguei muito para o barulho que iria fazer no banheiro. Precisava de um banho, remédio e curativos. Entrei no banheiro e liguei a luz, deixei meu celular em cima da prateleira que minha mãe insistiu em colocar e preparei-me para tomar um banho.
Respirei fundo, fechando os olhos e sentindo todas as dores que percorriam pelo meu corpo. Minha cabeça tinha voltado a doer, sentia algumas pontadas nas costas e no tórax, minha boca estava sangrando e meu lábio inferior estava inchado e meus dedos estavam machucados pela surra que dei em Percy. Sem contar a dor incomoda em minhas partes traseiras.
Além disso, minha cabeça estava a mil.
Peguei levemente no tecido da minha camisa para poder tirá-la e assim que a peça estava fora de meu corpo, ainda em meus braços, Thalia exclamou atrás de mim:
— Uau, alguém fez um bom trabalho nas suas costas. – Thalia soltou uma risada e eu revirei os olhos, virando-me para o espelho de corpo inteiro para que eu pudesse ver as marcas que Percy havia deixado em mim.
“Mas que inferno... Isso vai demorar a sair...”, pensei. Inúmeras marcas roxas estavam cobrindo minha pele na área onde não tinham tatuagens. Além das costas, notei que haviam marcas avermelhadas pelos meus braços, pescoço e tórax. Percy iria me pagar por aquilo.
— É, tenho que agradecer pela noitada. – disse sarcástico.
— Precisa de ajuda com alguma coisa? – ela perguntou e fiquei aliviado de poder mandá-la pegar algumas coisas enquanto eu tomava banho.
— Aspirina, kit de primeiro socorros e uma garrafa de água se possível. – sorri para minha melhor amiga, que revirou os olhos sorrindo.
— Okay, vou cuidar de você, mas terá que me contar qual foi dessa merda toda com meu primo. – ela disse antes de sair.
Tirei o resto das minhas roupas, coloquei uma música qualquer no meu celular e entrei no box. Liguei o chuveiro quente e a água bateu em meu corpo, deixando-me com uma sensação relativamente boa.
Eu não queria ter pensamentos conflituosos no momento, mas eles vieram sem minha permissão, constatando uma coisa: eu estava fodido e minha vida estava virando de cabeça para baixo. Deixei que os pensamentos ruins viessem e tentei organizá-los em ordem de prioridade.
Primeiro tinha que falar com Bianca sobre a gravidez. Isso com certeza iria gerar mais uma briga e America estaria no meio dela. Ela fez certo em me contar, mas Bianca não perdoava fácil e também não podia não contar para Bianca que eu sabia sobre esse assunto. Tínhamos que resolver isso.
Estava disposto a cortar relações com Percy, mas algo ainda me puxava para ele. Uma parte masoquista de mim dizendo: “Você sempre sofrerá por amor, não custa nada deixar as coisas interessantes”. E era exatamente isso que estava acontecendo. Mesmo que eu me afasta-se, ele sempre voltava e eu tinha que dar um ponto final naquilo.
Teria que arrumar um jeito de minha mãe ficar sabendo que eu era gay sem que eu seja tão direto. Esperava qualquer reação dela, mas tinha que me preparar para o pior. Sempre para o pior, que seria ela tendo nojo de mim e me deserdando enquanto Poseidon tentava convencê-la de não fazer isso. Estava claro que meu padrasto estava cagando com isso, mas o aviso que ele me deu na despedida estava me preocupando.
Então havia Jason, eu estava disposto a pedir desculpas e dizer para que começássemos de novo e esperava que ele aceitasse minhas desculpas, pois não é todo dia que estou distribuindo perdão como se fosse panfleto de supermercado.
E tinha que me concentrar nos treinos de basquete e nos estudos para as provas que estavam chegando. Não podia deixar de estudar nem treinar por conta dessa merda toda. Não podia deixar esse inferno atrapalhar meu futuro.
Eu me sentia um bosta.
Terminei de lavar-me, toda hora eu cuspia sangue no chão, o ferimento não parava se sangrar e aquele gosto estava me deixando enjoado. Bochechei a água e cuspi, mas mesmo assim o sangue não parava. Só torcia para não ter que levar pontos. Sai do box, enxuguei-me rapidamente, amarrei a toalha na cintura e peguei outra para enxugar meu cabelo.
Entrei no meu quarto e vi Thalia puxando os cachos de Leo, desenrolando-os e soltando-os logo em seguida. O nosso elfo latino ainda dormia pesadamente. Assim que ela me viu, sorriu e pegou as coisas que lhe pedi para trazer.
Eu não tinha vergonha de Thalia. Já transamos tantas vezes que conhecíamos o corpo do outro muito bem, então nunca ligávamos em trocar de roupa ou ficar nu na frente do outro. Eu sentia falta de Thalia. Não sexualmente falando, fraternalmente falando. Ela quem me ajudaria nessas piores horas.
— Obrigada, Thals. – disse lhe dando um beijo na testa e pegando a aspirina e o copo com água que ela me estendia. Senti o gosto do sangue misturado a água descendo pela minha garganta. Ignorei o gosto e olhei para Thalia – É clichê, mas não sei o que eu faria sem você.
— Provavelmente estaria matando meu primo até agora. – ela disse rindo. – Vamos para o banheiro ajeitar essas merdas que você arrumou. Ainda está com sangue nos dentes.
Apenas assenti e fomos para o banheiro novamente. Separei os lábios na frente do espelho para ver o estrago que não tinha visto até o momento. Meus dentes estavam manchados de sangue e mais dele sabia pelo meu lábio. Cuspi mais uma vez e lavei a boca novamente, Thalia atrás de mim me observando através do espelho.
Virei-me para ela, que examinou meu lábio e fez uma cara de nojo. Thalia e sangue não combinavam muito, ela detestava o cheiro forte de ferro, principalmente do meu. Mesmo assim, ela pressionou um algodão na área ferida para estancar o sangramento. Fiquei segurando o algodão enquanto ela examinava minha mão livre.
— Até que você não está tão ruim. – ela declarou. – Tem que ver o Percy. Você arrebentou mesmo com ele.
— Ele me irritou. – eu disse dando de ombros. – Você vai cuidar dele também?
— Ele irrita todo mundo. E nem por isso saímos espancando o coitado. – ela disse passando álcool em meus cortes da mão. – E não. Mare acordou com o barulho e disse para eu deixá-lo com ela.
— Hm... – disse simplesmente.
O silêncio confortável ficou por alguns segundos enquanto ela passava um antisséptico e colocava alguns Band-Aids nos lugares mais feios. Troquei as mãos quando ela pediu e então não deixou o silêncio retornar.
— Pode ir me contando o que aconteceu. Aparentemente sua boca não está doendo para você falar.
Assenti e comecei a contar.
Sei que disse a Leo que deveríamos omitir as coisas que estavam acontecendo, principalmente pelo fato de serem o irmão e o primo dela. Não sabia exatamente se ela iria gostar de eu estar me envolvendo com eles, mas mesmo assim decidi que iria contar. Taquei o foda-se e contei a maioria das coisas, principalmente o que aconteceu ontem e explicações cruciais para entender esses acontecimentos. Ela parou de trabalha na minha mão e ficou me encarando sem expressão.
— Você só pode estar brincando. – ela disse com certa raiva. Largou minha mão e deu alguns passos para longe de mim, indignada. – Eu disse para eles não fazerem nada disso!
— Espera, o que? – perguntei confuso.
— Eu disse aos meus dois parentes babacas que ele não poderiam se envolver com você. Que você era hétero e nunca aceitaria os dois como ficantes ou seja lá o que for! – ela disse exasperada.
Franzi o cenho antes de olhá-la confuso.
— Espera ae, você não pode dizer com quem eu devo me envolver ou não. – eu disse tentando manter-me calma, mas estava um pouco difícil.
Thalia me olhou com desdém e riu. Nunca tinha reparado antes, mas Thalia me lembrava, e muito, o Percy. Ela botou as mãos na cintura e me olhou com um sorriso no rosto, totalmente sarcástico.
— E desde quando você se interessa por homens?
— Isso não importa! O que importa é que você não pode decidir nada na minha vida, Thalia.
O sorriso sarcástico de seu rosto desapareceu, suas mãos que estavam na cintura cairam ao lado de seu corpo e seu rosto tomou uma expressão séria.
— Então é verdade. – ela disse. Podia sentir a incredulidade em sua voz.
— Como assim “então é verdade”, Thalia? Eu acabei de contar que fiquei com seu irmão, seu primo e nosso melhor amigo e você ainda me olha com essa cara? Eu sou gay, Thalia. Não tem como ser mais claro que isso.
Não pude ler sua expressão naquele momento, mas também não consegui reagir quando Thalia avançou em mim e me beijou. Nossos lábios se tocaram, mas foi por questões de segundos, pois a afastei o mais rápido que pude.
— O que você está fazendo? – perguntei incrédulo, minhas mãos apertando seus ombros.
— Você não pode ser gay... Depois de todas as vezes que nos beijamos, que transamos! Nico! – ela exclamou, parecia totalmente alarmada. – Você não pode fazer isso comigo!
— Olha, eu sei que agi errado, mas você concordou em...
— Não é isso que eu quero dizer! – ela disse se soltando.
Franzi o cenho, não entendendo aonde ela queria chegar. Thalia revirou os olhos e cruzou os braços com impaciência, como se eu devesse entender o que diabos ela estava dizendo.
— Eu gosto de você, Nico. Sempre gostei e achei que aceitando sua proposta de amizade colorida faria com que você se apaixonasse por mim. Eu só precisava esperar.
— Thalia, eu... – não sabia o que dizer, aquilo realmente me pegou completamente de surpresa.
— Você ainda tem chances de desistir dessa coisa toda de ser gay e ficar comigo. Eu sei que no fundo você gosta de mim do jeito que eu gosto de você. – ela se aproximou de mim como se fosse me beijar de novo, mas a impedi antes que ela o fizesse.
— Olha, Thals. Eu te amo muito, de verdade. Mas esse amor é exatamente o que eu sinto pela Bianca... Uma coisa apenas fraternal e...
— Você pode aprender a me amar de outro jeito, Nico! Basta me dar uma chance de tentar de conquistar! – ela ia chegando mais perto de mim, mas eu não podia permitir isso.
Respirei fundo e suspirei. Meu dia não tinha como piorar.
— Thalia, desculpe. Demorou muito para eu aceitar e perceber do que realmente gosto. Eu estou afim do seu irmão...
— O que porras ele tem que eu não tenho? Hein Nico? – “um pau, talvez...”, pensei.
Eu queria ficar com raiva dela, mas tudo o que sentia era raiva de mim por não ter notado seus sentimentos e ter permitido que tivéssemos uma relação colorida. Eu tinha uma parcela de culpa, mas ela também tinha.
— Não vou te iludir. Estava parado qualquer relação sexual por aqui. – eu disse simplesmente, me afastando dela.
Thalia ficou olhando para mim estática. Não parecia acreditar que realmente estava levando um fora, ainda mais de seu melhor amigo. Antes mesmo que eu pudesse falar mais algo coisa, ela me olhou com os olhos cheios de raiva e me empurrou com seu ombro, passando por mim e saindo do banheiro. Ouvi o bater de porta e soube que ela estava com raiva.
Pelo menos ela não jogava baixo igual ao Percy.
Suspirei e revirei os olhos, não acreditando no rumo que as coisas estava levando. Tentei ignorar, concentrando-me em terminar de fazer os curativos em minha mão. Os pensamentos iriam vir a tona se Leo não aparecesse sonolento na porta do meu banheiro.
— O que aconteceu com a Lia?
— Vamos sentar, muita história para contar.
[…]
— Eu não estou acreditando que Bianca está esperando um filho seu. – disse Leo incrédulo.
Tinha contado todos os ocorridos e detalhes que ele perdera nas últimas horas. A notícia que mais chocou foi exatamente essa. Leo fizera comentários maldosos sobre a minha briga com Jason pelo celular, mas a medida que as coisas iam ficando mais sérias, ele parava de fazer comentários sarcásticos.
— Agora eu não sei o que fazer da minha vida. – disse revirando os olhos e me largando em cima da cama.
Minha dor de cabeça não tinha passado muito, então tomei mais uma aspirina que Thalia trouxera, assim como Leo, que engolira duas de uma vez assim que as viu.
Por incrível que pareça, Leo estava completamente normal comigo. Eu achava que ele iria ficar estranho após nosso beijos, mas estava totalmente errado. Estava me tratando como sempre tratou e ele se lembrava de todos os ocorridos.
— Estou aliviado por você não brigar comigo por causa do que aconteceu ontem. – comentei olhando para o teto.
— Nunca iria brigar com você por causa de uma troca de saliva inofensiva. – ele riu e se deitou ao meu lado.
Ficamos um tempão olhando o teto, em silêncio. Eu tinha lhe contado tudo e como Leo não era nada bom em conselhos, ele apenas me escutou e soltava uns “Meu Deus” ou “Que tenso” de vez em quando. Mas eu gostava de conversar com ele. Por mais que soltasse piadinhas no meio das minhas histórias, ele era um bom ouvinte.
— Tudo o que eu mais preciso agora é de você comigo, então trate de ligar para seu pai e falar que você vai dormir aqui mais uma noite. – eu disse levantando-me. Leo riu.
— Isso é muito gay, cara. – ele disse rindo e eu olhei para ele com os olhos semicerrados. – Tudo bem, tudo bem. Vou ligar.
Leo levantou-se e pegou seu celular disposto na mesinha de cabeceira. Enquanto ele falava com o pai, troquei de roupa e escolhi uma muda delas para que Leo trocasse e ficasse mais a vontade. Assim que encerrou a ligação dizendo que iria ficar, emprestei uma toalha para ele tomar banho e lhe entreguei as roupas.
Não demorou muito para que Linda nos chamasse para tomar café. Esperei Leo sair do banheiro e assim que o fez, descemos para a sala de jantar.
— Bom dia... Mãe, Leo vai dormir aqui de novo. – anunciei e ela assentiu sorridente para meu amigo.
— Bom dia queridos.
Sentamos lado a lado um pouco longe da minha mãe. Poseidon estava sentado na cabeceira, como sempre, com minha mãe em seu lado esquerdo e Tyson do direito. Logo ao lado de Tyson, um lugar vago em que Percy geralmente se sentava e depois da cadeira vazia, Thalia, Jason e Mírian estavam sentados, os dois primeiros com caras nada agradáveis e Mírian mexendo no celular. Ao lado de minha mãe, Bianca olhava para seu prato como se sua vida dependesse daquilo. O lugar ao seu lado estava vago também, o que significava que Mare ainda estava tomando conta de Percy. Ao olhar para minha irmã, lembrei que precisava ter uma conversa muito séria com as duas.
— Precisamos conversar. – eu disse em seu ouvido enquanto passava por ela. Bia pulou da cadeira e me olhou de maneira estranha, mas não disse nada.
Deixei o lugar de Mare vago e sentei com Leo nas outras duas cadeiras disponíveis, eu de frente para Jason e Leo de frente para Mírian.
Poseidon disse que não iria esperar seus filhos e que era para ser traga a comida. Mesmo que fosse quase meio dia, sábado geralmente era dia de almoçar quase às 15h. Os empregados colocaram o nosso costumeiro café da manhã na mesa: pães, bolos, ovos, bacons e tudo o que era preciso para um café excelente.
Coloquei algumas coisas em meu prato e quando fui pegar o leite, minha mão tocou na de outra pessoa e eu olhei para frente rapidamente, vendo que Jason estava me encarando com uma expressão vazia e fria. Ele voltou os olhos para nossas mãos e tirou a sua da minha, mas me olhou novamente como se perguntasse onde eu havia arrumado aqueles machucados. Não disse nada e apenas desviei os olhos.
Não demorou muito para que Percy e America descessem. Pude ver a fúria de seus olhos assim que eles entraram em contato visual com os meus, seu rosto estava vermelho e com vários curativos em vários lugares de seu rosto.
— Você fez um excelente trabalho. – comentou Leo baixinho.
Segurei a risada e voltei a olhar para Percy. Ele e Mare sentaram-se e minha mãe o olhou para ele espantada.
— Meu Deus, querido! O que aconteceu com você? – ela perguntou alarmada.
Percy me lançou um olhar rápido antes de voltar-se para minha mãe.
— Nada não, Maria... Só me meti em uma briga noite passada. – ele disse dando de ombros e pude ver a expressão confusa de Poseidon.
Era obvio a mentira. Todos os homens, exceto Tyson, sabiam. Mas as mulheres não, então ele não ligou se estava mentindo descaradamente ou não. Preferimos não comentar nada, principalmente Poseidon, que lançou um olhar interrogativo para o filho e quando não obteve resposta, desviou o olhar e voltou à seu prato de ovos com bacon.
A mesa estava silenciosa, exceto pela conversa animada entre Leo e Mírian e o barulho da TV dando os anúncios matinais. Eu sentia os olhares reprovadores em cima de mim. Sabia que eu era o motivo para a carranca da maioria das pessoas daquela mesa.
Tudo estava bem na medida do possível até ouvirmos a seguinte notícia do jornal matinal:
“Mais um país aderiu a legalização do casamento entre duas pessoas do mesmo sexo...”
— E uma pouca vergonha mesmo, não é? – começou minha mãe. – Esse mundo anda tão estranho que daqui a pouco vai ser normal fazer sexo com animais. Quero dizer, não é uma coisa natural duas pessoas do mesmo sexo juntas.
I-N-A-C-R-E-D-I-T-Á-V-E-L
Era só o que me faltava... Minha mãe ser homofóbica e eu acabar de me aceitar gay.
A mesa teria ficado em silêncio, se Mírian não estivesse nela.
— Então quer dizer que a senhora é contra? – perguntou ela.
— Mas é claro que sim! Onde já se viu? Isso é completamente antinatural. Nunca aceitaria que meu filho fosse gay. – disse minha mãe.
Eu congelei na hora. Tive vontade de fazer inúmeras coisas com relação aquilo. Mas fiquei apenas parado sem acreditar no que eu acabara de ouvir. Não podia ser verdade.
— Então quer dizer que duas pessoas se amarem é antinatural? – rebateu Mírian. Isso não estava tomando um rumo bom, mas eu também não estava gostando do modo como minha mãe estava falando.
— Ora, querida! Temos que concordar que duas pessoas do mesmo sexo não podem gerar uma criança, não podem... – começou minha mãe, mas foi prontamente interrompida por Mírian.
— Um casal de pessoas homossexuais podem dar uma vida para uma criança que foi gerada por um casal hétero e largada na sarjeta.
Podia ver a raiva nos olhos de Mírian. Nunca tinha visto ela assim, mas pareceu que minha mãe tocou em um ponto fraco.
— Deus não permite tal coisa. Está na Bíblia...
— A mesma Bíblia que não permite que comemos carne de porco. – os olhares das duas estavam saindo faíscas. – E veja só! Isso é um bacon no seu prato?
Vi minha mãe ficar vermelha de raiva, eu estava vendo o momento em que as duas iriam levantar de seus assentos e começar a trocar farpas ainda piores.
— Escuta aqui, sua... – começou minha mãe, mas Mírian se levantou e a encarou mortalmente.
— Você não é obrigada a aceitar nada. Mas é obrigada sim a respeitar as pessoas. Você desrespeitou as pessoas homossexuais pelo simples fato de não serem como você. Pessoas homofóbicas não merecem ser ouvidas. – Mírian disse.
— Saia da minha casa imediatamente! – gritou minha mãe já fumegando de raiva.
— Querida, tente se... – começou Poseidon, mas minha mãe logo gritou.
— Não venha defender essazinha ai, Poseidon! Ela me desrespeitou na minha própria casa!
— Você não é obrigada a aceitar minha presença, muito menos eu a sua. – disse Mírian. – Estou me retirando.
Então Mírian largou seu prato e subiu as escadas. Por uns segundos todos ficaram estáticos com o que acabara de acontecer, mas eu não podia ficar calado. Não podia aceitar uma coisa dessas.
— Você tinha que ser tão intolerante? – perguntei com raiva.
— Não me diga que também está defendendo ela! – gritou minha mãe se levantando e me encarando.
Levantei-me na mesma hora.
— Estou sim! Pois sua atitude foi ridícula perante uma coisa que não tem nada a ver com você! Se você não quer se casar com uma mulher, não se case! Mas não precisa empacar a vida e a felicidade dos outros só porque acha “antinatural”. – rebati.
Maria balançou a cabeça negativamente, como se tivesse desapontada comigo. Como se tivesse não, ela estava desapontada comigo.
— Pensei que criei você melhor... – ela disse mais baixo.
— E eu pensei que tinha uma mãe melhor. – cuspi as palavras e me retirei, indo atrás de Mírian. – Você é inacreditável.
Não liguei para mais nada. Não liguei para a cena que tinha feito na frente de todos. Não liguei para o que minha mãe achava.
Na verdade, tentei não ligar, mas era difícil. A pessoa que me criara e me amara era a mesma que estava condenando pessoas com quem eu me identificava agora.
“Nunca aceitaria que meu filho fosse gay”, as palavras de minha mãe ecoavam em minha mente.
Senti vontade de chorar, mas segurei o choro, deixando apenas uma solitária lágrima descer pelo meu rosto, que limpei rapidamente. Eu me senti mais bosta que nunca. Ter a dúvida de que minha mãe me aceitaria ou não do jeito que eu sou era bem melhor do que ter a certeza de que ela iria me deserdar se descobrisse.
Ela me deserdaria porque eu era gay e tinha engravidado minha própria irmã.
Queria simplesmente fechar os olhos e pensar que isso tudo não estava acontecendo.
Subi as escadas o mais rápido que meu corpo me permitia. Encontrei a porta do quarto em que Mírian estava hospedada fechado, então bati duas vezes para ver se ela abriria.
— Eu não quero conversar sobre isso, Jason. – ela disse com certa raiva no mesmo momento que abriu a porta. – Ah, Nico?
Sua expressão de espanto foi notória, o que não a culpo, pois quem são os melhores amigos dela são Percy e Jason. Conversamos umas poucas vezes, mas não estava em um grau de intimidade para correr atrás dela. Porém, sentia-me na obrigação de pedir desculpas.
— Posso entrar? – perguntei e ela prontamente abriu espaço.
Antes que pudesse me pronunciar, o celular de Mírian tocou uma música japonesa esquisita e ela fez um gesto para que eu esperasse um segundo. Ela atendeu o celular e foi para um canto do quarto.
Fiquei observando o local, que era simples e não estava nada bagunçado, até porque, ela estava fazendo suas malas. Ela iria embora mesmo por causa de uma idiotice da minha mãe. Passando os olhos pelo local, notei o mesmo porta-retratos em cima da cabeceira da cama que eu havia visto quando ela me ajudou em um certo problema.
Lembrei-me de como um dos três meninos que apareciam na foto me era familiar e a sensação não passou quando a olhei novamente.
— São meus irmãos. – disse Mírian chegando ao meu lado, já sem o celular em mãos. – Por mais que eu seja a mais velha, me tratam como se eu fosse a caçula da família.
Então ela se voltou para arrumar suas malas. Eu não sabia muito bem o que dizer naquele momento.
— Não se preocupe com isso, Nico. – ela disse de repente, colocando uma peça de roupa dentro da mala. – Lido com pessoas assim com certa frequência.
— Eu realmente peço desculpas pela minha mãe. – eu disse meio nervoso. – Não sabia que ela era tão intolerante assim.
Mírian se virou para mim com um semblante sério. Ela torceu uma peça de roupa nas mãos e jogo dentro da mala, caminhando até mim logo em seguida.
— Eu realmente não me importo. – ela disse – E por mais que não nos conhecemos tão bem quanto eu gostaria, eu me preocupo com você quanto a isso.
— O que quer dizer com isso? – perguntei franzindo o cenho. Na verdade, eu sabia exatamente o que ela queria dizer.
— Não adianta mais negar, Nico.
— Eu sei, já aceitei. Até porque, contra fatos, não há argumentos.
Ela sorriu para mim e me abraçou. Nunca me senti tão confortado por uma pessoa dessa forma. Mírian realmente era uma boa pessoa.
— É assim que fala! Mas tenho que dizer que não vai ser fácil de agora em diante. – ela disse se afastando de mim.
— Não me importo com outras pessoas... Minha maior preocupação é minha mãe. – eu disse dando de ombros.
— É exatamente dela que eu estou falando. – ela fez uma pausa. – Nico, toda mãe sabe. Porém, algumas tentam forçar os filhos a não serem algo que elas não acham certo. Ela te aceita, só não se acostumou com a ideia ainda. E lógico, ela fala isso para vê se você muda de ideia.
Pensei um pouco e cheguei a conclusão que Mírian tinha razão. Fazia todo o sentido isso, porém, ainda assim era difícil lidar com algo assim.
— Você... ahm... Passou por isso? – perguntei meio envergonhado. Mírian me olhou e sorriu.
— Não... Mas um de meus irmãos passou. – ela disse sorrindo, agora de forma triste. – Ele precisava de alguém que o apoiasse, pois nosso pai não é nada compreensivo e nossa mãe estava doente...
— Não precisa contar se não quiser, já entendi a história. – me apressei em dizer.
— Obrigada, é realmente difícil para mim falar sobre minha mãe. – ela disse secando uma lágrima que escorreu de seu olho. Abracei Mírian imediatamente.
— Eu sei como é difícil. Também perdi meu pai. – eu disse tentando confortá-la.
Ela apenas assentiu e depois de uns minutos se desfez do abraço. Ficamos algum tempo em silêncio, até eu finalmente perguntar.
— Você tem algum lugar para ficar?
— Tenho sim, não se preocupe comigo – ela disse sorrindo e bagunçando meu cabelo.
Assenti e deixei que ela terminasse de arrumar suas coisas sozinha.
[…]
Mais tarde naquele dia, Mare bateu na porta do meu quarto para que fossemos nos despedir de Mírian. Levantei rapidamente e sai do quarto quase correndo, com Leo vindo andando atrás de mim.
Todos estavam reunidos no andar de baixo, com a porta aberta onde Mírian estava parcialmente para fora da casa, abraçando Percy com força. Obviamente que não vi minha mãe ali e Bianca também não estava.
— Eu realmente sinto muito por isso, Mírian. – dizia Poseidon quando cheguei perto.
— Não é culpa sua, tio. – ela disse sorrindo e abraçando meu padastro. – Muito obrigada por me abrigar nesses dias.
— Você tem para onde ir? – perguntou Poseidon.
— Sim, sim! E Jason disse para eu ir para a casa dele quando Zeus chegasse de viagem. – ela disse dando de ombros e olhando para Jason. – Nos vemos em breve, Golden.
— Nos vemos em breve, Coelhinha. – ele disse sorrindo dando um abraço rápido em Mírian.
Quando eles se separaram, cheguei perto da garota e ela me abraçou com toda força.
— Não pense que irá se livrar de mim! – ela disse alto para depois sussurrar no meu ouvido: – Não desista de nada. E dê uma chance à eles.
— Sua loucura fará falta. – eu disse rindo e depois sussurrei: – Obrigado, Mírian.
Nos afastamos e ela me deu um beijo na bochecha antes de sair da casa e entrar em um dos carros de Poseidon. O clima entre todo mundo estava tenso e não era só por causa da partida de Mírian.
Todos se dispersaram, cada um para seus respectivos afazeres. Subo novamente conversando com Leo. Enquanto passávamos pelo corredor, notei Mare no quarto de Bianca, que estava com uma cara totalmente pálida. Entrei em seu quarto, fazendo as duas me olharem, Bianca assustada e Mare com certa raiva.
America levantou da cama e veio em minha direção.
— Ela não quer falar com você. – seus olhos verdes faiscavam de raiva.
— Isso não cabe a você dizer. – eu disse empurrando-a delicadamente para o lado e indo até Bianca. – Por que não me contou?
Vi Bianca empalidecer e levantar-se da cama alarmada. O silêncio se instalou por uns segundos, Bianca olhando para Mare e para mim como se não acreditasse que fossemos reais. Se ela estava com raiva, parecia não demonstrar. Mare me encarava como se fosse me matar com as próprias unhas. Eu queria me matar com minhas próprias unhas.
— Por que não me contou, Bi? – perguntei novamente, quebrando o silêncio. Eu estava um caco emocionalmente, então não conseguia expressar nada além de um olhar cansado.
— Não queria que você soubesse... – ela sussurrou, seus pés parecendo mais interessantes que meu rosto. – Senti vergonha, medo e nojo de tudo... Eu não...
Lágrimas escorriam a medida que ela falava. Bianca cobriu os olhos com as mãos e desabou sentada na cama. Minha primeira reação foi ir até lá consolá-la, mas Mare logo se pôs na minha frente, me empurrando e me olhando com uma fúria genuína nos olhos.
— Não encoste nela. Não chegue perto dela – ela disse ameaçadora e eu franzi o cenho.
— Ela é minha irmã! Eu posso fazer o que quiser com ela! – eu disse sendo tomado pela mesma raiva que Mare.
— Isso inclui engravidá-la? – ela disse em escárnio. – Isso foi a pior coisa que você poderia ter feito, Nico.
— Você não pode falar nada, América! Você prometeu que não iria contar! – disse Bianca com raiva. Mare arregalou os olhos para minha irmã e depois ficou com uma expressão de culpa que eu nunca pensei que veria no rosto daquela garota.
— Bia, eu fiz isso pelo seu bem.
Bianca respirou fundo e revirou os olhos, olhando para Mare depois de recuperar um pouco o fôlego, como se dissesse que elas conversariam sobre isso mais tarde. Eu sabia que estava errado, tinha consciência plena disso. Porém, não me agradava em nada ter America como mediadora da situação. Esperava que Bianca conseguisse contê-la até eu ir embora.
— Foi o pior erro que cometi na minha vida, mas eu não posso deixá-la e...
— Eu vou contar para a mamãe. – disse Bia alto o suficiente para que eu pudesse ouvir.
Olhei minha irmã perplexo.
— Você não pode fazer isso. – eu disse nervoso.
— Nico, isso está me matando. – sua voz era de pânico. – Eu não consigo viver assim! Desconfio que ela já saiba que eu estou grávida, então acho melhor falar logo a verdade.
— Você não pode fazer isso! Ainda mais que esse filho é meu! Nossa mãe vai surtar, nos deserdar e jogar a gente na sarjeta com esse bebê!
— Eu não posso mentir mais, Nico! Isso está me consumindo de uma maneira que você não tem ideia! E você só se importa com o que os outros vão pensar! Está cagando e andando para o fato de você ter engravidado sua própria irmã! Achei que você se preocupava comigo, mas agora sei que nunca o fez.
Eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo.
— Eu me importo com você mais que tudo da minha vida...
E eu estraguei tudo. Mais uma vez.
— Aaaah, por favor Nico! Não me venha com mentiras! Isso não vai aliviar o que você fez comigo nem o que estou passando! – gritou Bianca, completamente tomada pela raiva. – Eu nunca mais vou ser a mesma depois do que VOCÊ me fez passar!
— A culpa não é toda minha! Você poderia ter negado! – gritei de volta.
Bianca se retesou, olhando para mim de maneira incrédula.
— Tenho certeza que a culpa é mais sua do que dela! – disse Mare se colocando entre nós, mas Bianca desviou e veio até mim, dando-me um tapa na cara.
— Eu te amava de um jeito que eu não poderia, Nico! Eu queria ter evitado, mas meu coração infeliz não permitiu! Eu estava perdidamente apaixonada por você e depois de tudo o que fizemos antes desse acontecimento fatídico eu achei que poderia ser tudo diferente! – ela gritou – Meu maior erro foi acreditar que você pudesse me amar dessa forma.
Eu não soube responder aquilo. Estava com um misto absurdo de sentimentos: raiva, arrependimento, culpa, tristeza... Todas as piores coisas eu sentia naquele momento e não sabia reagir àquilo.
O quarto ficou em silêncio por poucos minutos até minha mãe chegar.
— O que está acontecendo? Que gritaria é essa?
— Mãe, eu estou grávida! – gritou Bianca de repente e um silêncio horroroso pairou pelo ambiente.
Não conseguia decifrar a expressão da minha mãe. Fisicamente ela parecia totalmente indiferente, mas seus olhos mostravam um brilho estranho que eu nunca vi.
Bianca estava a beira do desespero, assim como eu, mas tentava não demonstrar isso. Mare tinha uma expressão de raiva e preocupação no rosto e Leo estava perdido e preocupado. Isso tudo somado ao silêncio pareceu durar séculos, então finalmente minha mãe disse:
— Muito bem... E quem seria o rapaz por trás disso? – ela perguntou, completamente calma.
E então veio a bomba. Antes mesmo que Bianca ou eu pudéssemos abrir a boca para dizer alguma coisa, Leo se apressou e falou em nosso lugar.
— Foi eu, Maria. – ele disse, meio sem saber o que falar. – Nós... ahm... – ele olhou para Bianca e sorriu para depois olhar pra mim e lançar um sorriso triste. Todos do quarto pareciam perplexos demais para dizer algo e impedir Leo, inclusive eu. – A senhora sabe... Aconteceu e acabamos não usando camisinha. Eu me responsabilizo totalmente pelo bebê.
O que caralhos Leo estava pensando? Ele não podia fazer isso, nem mesmo por mim.
— Leo, você não... – comecei baixo, mas parei assim que ouvi a respiração profunda de minha mãe.
— Tudo bem – ela disse calmamente. – Não julgo isso o que vocês fizeram, já que aconteceu comigo. – ela parou alguns segundos antes de continuar. – Quando vocês querem que seja?
Mais um momento que o quarto ficou em silêncio, ninguém sabendo o que dizer. Não sabia do que ela estava falando e aparentemente nenhum dos outros três estavam. Só sabia que estava aponto de explodir por causa disso e queria me matar por não ter impedido Leo de fazer aquilo.
— Bem... O que exatamente? – perguntou Leo, meio receoso.
Minha mãe sorriu e deu uma leve risada.
— O casamento, óbvio.
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