Notas iniciais
Baseada na música "This Ruined Puzzle" do Dshboard Confessional. Não é uma Songfic.

Os dedos compridos e magros puxaram o casaco para mais junto do corpo, os olhos baixos e fixos em centenas de pequenas peças de papel grosso espalhadas pela mesinha de centro e o tapete fofo da sala. Algumas com o lado bege virado para cima, algumas com o lado da figura para cima.

Era um quebra cabeça de oitocentas peças.

John deixou o braço se esticar para que a mão preguiçosamente colocasse mais uma peça no lugar. Até agora, a única coisa realmente montada era a borda da figura, mostrando algumas árvores, o começo de uma touca de frio, o final de ombros... não tinha esperanças de terminar de montar aquilo tão cedo. Nem queria. Precisava se ocupar com algo que não fosse a televisão e seus noticiários contando sobre coisas ruins que aconteceram a pessoas inocentes, não! Já tinha sua boa parcela de coisas ruins acontecendo, ver a desgraça alheia não o faria se sentir nem um pouco melhor.

Suspirou pegando a caneca de chocolate quente, vendo pela janela do apartamento os flocos de neve começando a se amontoar na varanda, nos cantos, em cima da jardineira, queimando as folhas das plantas que outrora estavam floridas, as plantas que Jesse colocou ali.

Tomou um gole do chocolate que começava a esfriar, sentindo o calor ainda restante no líquido tomar conta do corpo gelado, mesmo coberto por casacos e cobertores. Estava frio, e John desconfiava que nada tinha a ver com o clima, era o vazio. O apartamento não era muito grande, não era cheio de lacunas que estiveram preenchidas em algum momento, não faltava móveis, não faltava nada aparente, mas se alguém abrisse o guarda-roupa veria um dos lados completamente limpo de qualquer peça de roupa, um lado que há algumas semanas esteve cheio. E ele não o culpava, ele nunca disse: “não vá”.

E foi algumas noites depois da partida, quando ele finalmente tomou coragem para revirar o guarda-roupa vazio, tirar as caixas que ficaram, mudar as coisas de lugar, tentar se animar e pensar que agora tinha o espaço todo para si mesmo, tentando ver na situação toda um ponto positivo, que ele encontrou aquela caixa velha. Havia sobre ela uma larga camada de poeira, estava fechada quase que intocada, e ele realmente não se recordava de onde havia vindo aquilo.

Era uma caixa de cor azul escuro, que mais tarde – quando limpou com um pano úmido a tampa – ele descobriu ter impresso em preto descuidadamente, um número de série. Curioso, ele levou a caixa para a sala, e quando a abriu as memórias voltaram à sua mente como um turbilhão: era o quebra cabeças de 800 peças.

Se lembrava como se fosse ontem o dia em que ele e Jesse estavam na Flórida, apenas passeando, estavam de folga naquele dia e decidiram conhecer a cidade. Havia uma pequena lojinha que fazia quebra cabeças com fotos dos casais, e o brilho nos olhos azuis de Jesse quando leu aquilo deveria ter feito ele perceber que a criança que o acompanhava provavelmente decidiria fazer algo.

Seria um tanto estranho, mas Jesse insistiu que fizessem. Tiraram uma foto qualquer na hora mesmo, revelaram e pediram o quebra cabeça.

Chegaram em casa alguns dias depois, tentaram montar, mas as peças se embaralhavam, Jesse não conseguia se concentrar, e acabaram guardando o quebra-cabeças desmontado e o esquecendo lá por anos. Era irônico e quase triste que John o encontrasse agora, justamente quando Jesse não estava mais lá.

Mais irônico ainda era ter conseguido sozinho unir mais peças do que junto com Jesse. Talvez fosse metafórico demais, ou talvez só coincidência, mas ele começava a achar que talvez a ausência de Jesse permitisse que ele colocasse sua mente no lugar, conseguisse se concentrar, se centrar em sua vida, e não em um relacionamento que estava marcado a não dar certo desde que começou.

Não eram o casal favorito de suas famílias.

E então o dia que todos seus parentes esperavam ansiosamente chegou: Jesse se foi.

Ele disse que nunca daria certo, que precisava ir embora, mas nenhuma explicação além disso. John se sentiu completamente inútil sentado naquela cama de casal que por tanto tempo dividiram, vendo Jesse juntar peça por peça as suas roupas, as dobrando com cuidado, separando por cor como sempre fazia, as amontoando com calma na mala.

Jesse deu a ele tempo o bastante para que falasse o que quisesse, para que o xingasse, para que abrisse uma lista de motivos — que ele sabia que John tinha – para que ele ficasse, para que devolvesse ao guarda-roupa cada peça de roupa que ele arrancou de lá sem a menor piedade.

Mas ele não fez nada.

Ele se sentou e assistiu, por dentro se despedaçando, por dentro chorando, totalmente destruído com o fim de algo que para ele – pelo menos para ele! – era tão perfeito e certo. Tentava achar as respostas para as dezenas de perguntas que ele não ousou fazer em voz alta, mas o silêncio entre os dois não deixava que sua mente trabalhasse, ou talvez fosse a falta de razões para que aquilo estivesse acontecendo que impedia que ele conseguisse achar respostas.

Elas não existiam.

Ele só saiu do quarto quando Jesse arrastou a mala até a sala, pegando a chave do carro, os olhos azuis que ele aprendeu a amar tanto viajando pelo cômodo decorado em tons claros uma última vez, como se absorvesse a atmosfera do local para que pudesse sempre se lembrar.

Havia aquele livro que Jesse estava lendo, era de John, mas ele havia pegado emprestado. John sabia que ele estava no começo ainda, e que não teria sossego se não lesse até o final, mas que a sua dignidade o impediria de levar o livro com ele para devolver depois. John não teve tempo de elaborar uma carta, foi só um bilhete que jogou entre as páginas, estendendo o livro para Jesse, o tirando de seus pensamentos vagos enquanto observava a sala uma última vez.

Não houve uma palavra sequer, Jesse entendeu, pegou o livro, e arrastando a mala, se foi.

O único som que Jesse soltou naquela noite não chegava sequer a ser um suspiro.

E John nunca chegou a dizer “Adeus”.

Dizer tornaria real.

Mas já havia passado tempo o bastante, Jesse já deveria ter encontrado o bilhete, e há essa hora Jesse já deveria estar de volta, já deveria ter ligado, já deveria ter dado notícias.

Encaixou mais uma peça.

Ele tinha que voltar.

Jesse não podia deixar John daquele jeito, porque sua vida sem o outro era praticamente como o quebra-cabeça em cima da mesa de centro: fora do lugar. Havia tanta coisa que ainda precisavam dizer, havia tanto por ser feito, se separar não era uma boa idéia. John estava destruído, e estava sofrendo e morrendo a cada dia. Era difícil ver as pessoas felizes e não sentir raiva, era difícil ver as coisas acontecendo e não sentir vontade de gritar. Era difícil saber que Jesse se foi e ele não fez absolutamente nada para impedir.

Ele preferia pensar que Jesse nunca acabou de ler o livro, porque ele preferia pensar que o bilhete pedindo que voltasse nunca foi lido, porque se foi lido, e foi ignorado, então ficava tudo pior.

O chocolate quente havia esfriado na caneca no momento em que ele colocou a última peça. Do lado de fora a neve continuava caindo, as luzes da cidade se acendendo nos prédios, as pessoas voltando do serviço, os carros passando...

Tudo continuava igual, o mundo seguia seu ritmo.

Mas dentro daquele apartamento os dedos gelados de John discavam um número que ele não precisava sequer olhar as teclas para acertar, o fone pressionado ao ouvido, do outro lado o tom chamando um celular cujo dono ele não fazia a menor idéia de onde estava. Ele não tinha realmente esperanças que atendesse, e quando o tom da caixa de mensagens se fez ouvir, ele apenas suspirou, esperando o sinal.

-Oi, Jess. – disse baixo, hesitante. –É o John... só liguei pra contar que eu terminei o quebra-cabeça. Começou a nevar... –riu fraco. –Sinto sua falta. Te amo. –desligou, arrastando o corpo magro para dentro do quarto, deixando o telefone jogado no sofá, a única testemunha do quebra-cabeça montado com perfeição na mesa de centro. A testemunha ocular dos sorrisos esbanjando alegria na foto distorcida pelos cortes do papel...

Notas finais

Obrigada por terem lido. =)

Comentários são realmente bem-vindos.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!