Oceno de Estrelas

1 Ano Cento e Cinco do Calendário Estelar


Notas iniciais
Pessoas lindas da Gin - ou pelo menos aquelas que ainda não tentaram me matar (nem estão planejando). Saibam que eu não esqueci de vocês, nem de FV. Por um milagre divino, cá estou eu participando no segundo desafio proporcionado pela Mayumi-san. Falando sério, foi um milagre '-' tipo, o suposto segundo capítulo dessa fanfic (se existir) seria a oneshot que eu pretendia enviar para o desafio. Mas eu sentei com algumas amigas e nós chegamos à sincera opinião de que estava um saco q e aí surgiu a ideia de fazer esse aqui, que eu gosto de acreditar que ficou muito boa (isso tudo três horas antes da entrega do desafio (é pra poucos) -k) Bem, modéstia a parte, eu vou fazer propaganda das outras fanfics do desafio baixem o documento e leiam porque vale a pena. Acho que eu nunca li uma coletânea tão cheia de trabalhos tão cheios de feels - nunca chorei - nem ri - tanto em tão poucas páginas, também. Vamos ao que interessa e até as notas finais Gin-chan

Quando se conheceram, no primeiro dia na Academia Mundial de Defesa, ele gritara com ela. Não é como se pudesse evitar.

Brigara com o pai antes de sair de casa. Como político seu pai era incapaz de compreender o motivo de seu filho ter escolhido, dentre tantas outras opções, fazer a prova para a Academia; e como pai estava preocupado com seu destino. Não era segredo nenhum que a Grande Nação estava entrando em guerra.

As tentativas de negociações estavam indo de mau a pior, e a situação se arrastava desde sua infância. Quem quer que fosse o inimigo, era cruel e implacável. Sua mãe, uma das diplomatas enviadas na última tentativa, não voltara para casa, e nunca mais voltaria.

Talvez por isso aquela briga não fizesse realmente sentido algum. Roderich desejava vingança, e já estava cansado de ver as pessoas lhe dizerem para deixar as coisas para os adultos.

Se era assim tão necessário, ele se tornaria um, foi o que disse para o pai. “Vou ser um navegador, e fazer mais por nós do que você poderia fazer qualquer dia da sua vida inútil.”

Uma frase cruel, mas não menos verdadeira. A questão é que estava irritado e nervoso. Já esperava por comentários e brincadeiras maldosas vindas de alguns dos colegas, apesar de ter conseguido o segundo lugar no teste de admissão e ser superior a maioria.

Seu problema era unicamente com o aluno que conseguira o primeiro lugar, e apenas com ele. A tabela lhe dizia que seu sobrenome era Héderváry, mas aquilo não era suficiente. Nos seus dez primeiros minutos após colocar o pé na Segunda Base Lunar, onde ficava a academia, todos na sala já sabiam quem ele era.

Como ele esperara, ser filho de um dos líderes austríacos afastou os outros alunos de si, e como uma pessoa antissocial por si só, ele acabou apoiado numa vidraça observando o céu enquanto os outros conversavam e faziam amizades.

O sistema da Academia era muito simples: existiam Navegadores e Combatentes. Ao fim de quase uma semana de testes diferenciados, eram selecionados sessenta cadetes, trinta combatentes e trinta navegadores. Ao fim do curso, as maiores turmas tinham vinte e poucas duplas.

Era natural que o navegador ficasse com o primeiro lugar, mas naquele ano Héderváry tomara aquele posto. Quem quer que fosse, ele seria designado como o combatente de Roderich, o que aborrecia o rapaz imensamente. Não gostava muito da ideia de ter um possível rival como seu parceiro. Seria ainda pior se a personalidade dele fosse semelhante aos outros alunos. Mas todas as preocupações do austríaco se tornaram nada quando um burburinho anunciou a chegada do primeiro colocado do concurso.

Ou eu deveria dizer primeira colocada.

Elizaveta Héderváry era tudo que ninguém ali esperava ser. A combatente entrou no grande salão com uma expressão de êxtase total, quase como uma criança na manhã de natal. Se os outros combatentes consideravam absurdo o fato de uma mulher ter conseguido uma pontuação tão superior à deles, os navegadores agora se riam da situação de seus colegas.

Honestamente falando, existiam diversos motivos para que Elizabeta fosse odiada. O primeiro deles era o fato de ela ser uma mulher. Apesar das regras dizerem que a entrada do seguimento feminino era liberada, os casos de mulheres conseguindo se formar eram extremamente raros. Mesmo aquelas que se dispunham a fazer a prova e passavam nos testes em sua maioria eram navegadoras, e não combatentes. Os combatentes eram mais exigidos fisicamente do que os navegadores. E mesmo assim, muitas delas abandonavam a academia em questão de semanas, por motivos diversos que iam de saudades até casos sérios de assédio. Em resumo, seria extremamente hipócrita dizer que mulheres eram bem-vindas no curso.

Ainda assim, no momento em que Elizabeta entrou pela sala, ela foi recebida com gargalhadas e comentários divertidos sobre o poder feminino, e sobre como todos ali torciam por seu sucesso simplesmente por ter conseguido superar tantos esteriótipos. Eu não diria que ela foi amada por todos, porque não foi. Mas seus companheiros com toda certeza a admiravam muito.

As duplas inicialmente eram formadas com base na colocação. Durante o curso era natural que navegadores e combatentes se desentendessem e formassem outras duplas, pelo menos durante o primeiro ano. Geralmente, depois do terceiro ano tornava-se quase um tabu exigir mudanças, e a maioria dos alunos já formara um laço firme o bastante com seu parceiro para que casos semelhantes fossem improváveis.

Roderich irritou-se profundamente com Elizabeta, no segundo em que colocou os olhos nela.

Não diria que era por estar atrás de uma mulher, de forma alguma. Ele reconhecera sua capacidade física e intelectual, e a admirava. O problema era, basicamente, as pessoas ao redor dela. Quando ele entrara a sala ficara completamente silenciosa por um momento. Até minutos atrás, as conversas eram feitas em sussurros e resmungos.

Agora ali estavam seus futuros colegas, barulhentos e animados como era de se esperar de alunos recém-saídos do ensino médio. Com a entrada da combatente a tensão no ar desaparecera, e até ele se sentia eternamente mais aliviado. E saber que ambos influenciavam seus arredores de maneiras tão diferentes o aborrecia.

Talvez Roderich tenha se irritado consigo mesmo, sem perceber. O importante é que quando Elizabeta viera em sua direção, com um sorriso e uma mão estendida, a sala inteira prendeu a respiração.

— Olá, acho que vamos trabalhar juntos por um tempo. Eu sou Liz. Você é Edelstein, certo? Qual seu-

— Barulhenta. – Resmungara, quase que inconscientemente. Claro, a pobre garota não entendera bem o que ele quisera dizer. Não fazia sentido que ele tivesse qualquer problema consigo.

— Desculpe, o que você disse?

— Eu disse que você é barulhenta. Afaste-se.

Roderich não gritara, não exatamente. Mas ele era uma pessoa de apenas um tom, e o fato de ter erguido a voz – mesmo que apenas um oitavo – deixou bastante claro para todos que aquela não era uma boa hora para apresentações amigáveis. Ou melhor: para todos, menos Liz.

Agora, uma coisa deve ficar bem clara sobre a senhorita Héderváry. Ela era uma moça humilde. Não se importava com o que os outros pensavam sobre si, mas também nunca fez qualquer coisa para ofender ninguém. Era de boa índole, e esperava entrar na academia e conseguir um navegador de atitude semelhante. Ainda assim, ali estava Roderich, rejeitando deliberadamente sua tentativa de amizade.

Ela sentiu uma grande vontade de dar-lhe um tapa.

— Eu perguntei qual seu nome, não se eu sou barulhenta. Disso eu já sabia. – Abriu um sorriso divertido, aliviada por conseguir uma saída diplomática para a situação, e ainda mais feliz ao ver que sua atitude confundira o outro rapaz.

—... Roderich.

— Ahn?

— Meu nome é Roderich.

— Ah! O meu é-

— Liz. – Ele repetiu, deixando claro que prestara atenção da primeira vez.

Pode parecer esquisito, mas aquele foi o início da amizade deles.

.

— Rod, a união entre um navegador e seu combatente é mais sagrada que matrimônio… E todo mundo conhece a típica… Frase do “na saúde e na doença, até que a morte nos separe” o que só serve para provar o meu ponto de que você deveria… Que droga, porque você não corre assim nos testes físicos… Parar um pouco e me escutar enquanto eu te explico o porquê de eu estar certa e você errado, só pra variar um pouco.

A combatente arfava. Estavam ambos suados e exaustos, e Liz cambaleava enquanto tentava alcançar seu navegador. Aquela era uma cena que poderia ser considerada rotineira. Em seus três anos de treinamento, os cadetes aprenderam que só tinham certeza de três coisas na vida. Entre elas estavam a morte, as brigas da dupla número um do curso, e os testes surpresa de astronomia(além de teoria do combate, táticas de defesa, biologia extraterrestre entre outras matérias) nos momentos mais desagradáveis – como a hora do banho – que Klauss Hesser tinha o costume de aplicar.

Eles tinham acabado de terminar uma maratona que durara toda a manhã. O exercício físico, porém, não impedira que os dois tivessem mais um de seus desentendimentos, desta vez causados por um curto teste de táticas de defesa, no qual Liz ganhara um ponto ao discordar de Roderich no quesito “Ataque antes, pergunte depois” — tática que a combatente repudiava.

— Nós temos uma simulação em meia hora então será que dá pra você facilitar um pouco as coisas?

— E o que isso tem a ver com nossa briga? – O austríaco perguntou, finalmente fazendo uma pausa e ignorando deliberadamente os colegas de classe que se riam sobre como ele provavelmente seria a noiva.

— O que tem a ver – ela começou, num tom de discurso. – É que quando entramos numa nave, devemos fazer isso como unidade. Eu já disse antes, nós treinamos como um e…

— Lutamos como um, eu sei. Tudo bem, sinto muito. – Ele tinha um sorriso no rosto que só ela conseguia perceber.

Roderich ergueu a mão e bagunçou os cabelos castanhos e longos de sua parceira. Somos um. De onde quer que ela tivesse tirado aquilo, era algo que ele desejava que se tornasse sua verdade para sempre. Sentiu um aperto no coração ao perceber que Eliza tinha se tornado mais importante para si do que ele esperara, antes que ele pudesse evitar.

Aquela foi a primeira vez que, ao iniciar uma simulação, Roderich não pode deixar de pensar no que faria se cometesse um erro no momento errado.

Havia todo um procedimento padrão para ligar as naves que usavam nas lutas. Uma série de botões diferentes a serem pressionados, e muitos dados a serem checados. Por exemplo, seria extremamente estúpido tentar ligar uma nave sem combustível, ou sair para uma missão sem munição.

A parte favorita de Roderich era quando ele terminava de conferir cada um dos detalhes, colocava seu capacete e apertava o botão que dava início à simulação. Por um momento tudo ficava completamente preto, e então dali pra frente e durante toda a missão ele poderia escutar apenas um som.

A voz de sua combatente.

.

Estavam os dois encolhidos um contra o outro, debaixo do gigantesco domo da sala de cerimônias. Apesar de ser proibido, Roderich concordara quase que automaticamente com o convite dela.

Como um pedido de desculpas, Liz trouxera biscoitos. Ela não era muito boa com cozinha, mas fizera um esforço. O motivo era simples: brigaram naquela manhã. Vinham brigando com frequência, desde o último teste, mas aquela briga fora feia.

Roderich andava realmente estressado, e ela entendia. O pai vinha pressionando-o por fora e agora Hesser, o instrutor deles, dissera que desejava que ele e Liz ficassem como instrutores ao fim do curso. Klauss Hesser já fora um grande navegador. Era um exemplo para todos os futuros navegadores da turma, e dizia-se que acabaria comandante um dia. Roderich o tinha em alta conta.

O problema era que ela queria lutar. Queria colocar em prática todas as coisas que aprendera, queria conhecer o universo lá fora. E eles brigaram porque Eliza tinha o direito de desejar todas aquelas coisas, mas Rod também tinha o direito de considerar aquela vida de segurança.

E como ela sabia que tinha errado ao chamá-lo de covarde, trouxera biscoitos.

— Estão bons. – Foi a única coisa que ele dissera até o momento. Ela provara e sabia que era mentira, mas ficou grata por ele ter ao menos tentado acobertar seu fracasso.

Um oceano de estrelas se estendia sobre eles, fazendo com que sentissem que todos os problemas eram muito pequenos. Era um sentimento estranho, porque ao mesmo tempo que fazia com que se sentisse melhor, como se tudo fosse se resolver no final, também lhe trazia aquela estranha sensação de impotência.

Mais de duzentos mundos se espalhavam por um universo quase que completamente desconhecido aos humanos. O primeiro ataque alienígena tinha acontecido há mais de trezentos anos agora. A raça, uma aliada dos terráqueos no momento, era então poderosa o suficiente para aniquilar um continente inteiro em menos de uma semana.

Desavenças políticas, conflitos nacionais, tudo havia sido esquecido. Mesmo o concento de países era agora completamente ignorado. As corridas armamentistas foram feitas em conjunto, com o objetivo primário de acabar com a invasão. Por sorte – e um pouquinho de improviso americano – os alienígenas concordaram em recuar e parar o ataque, sendo estabelecidos contratos econômicos, assim como a primeira aliança intergaláctica.

No total eram duzentos e poucos mundos diferentes, nenhum deles próximo do Sistema Solar. Ainda assim, temendo o futuro, a ONU decidiu que era mais inteligente prevenir a remediar. Tecnologicamente, a Terra avançou quase um milênio inteiro de descobertas em meio século.

Criaram naves mais velozes, tomaram controle da Lua, montaram a Primeira Base Lunar, controlada pelos Sentinelas, um grupo criado com o objetivo simples de avisar qualquer tipo de alteração que pudesse levar a um segundo conflito.

Logo depois foi criada a Segunda Base Lunar, onde a Academia Mundial de Defesa recebeu seus primeiros recrutas, uma união das Forças Aéreas de todos os países da Organização das Nações Unidas. Os primeiros Navegadores, e seus Combatentes, iniciaram uma longa jornada com o objetivo de mapear e identificar estrategicamente toda a galáxia. A segunda base dos Sentinelas foi criada em Júpiter, e depois disso as coisas começaram a ficar mais fáceis.

Cada planeta do sistema tinha pelo menos uma base com Sentinelas e uma com um destacamento de cinquenta unidades de combate. Aproximadamente cento e cinquenta humanos habitavam cada planeta, em suas devidas funções.

Agora, no que poderia ser chamado de presente, eles estavam entrando num segundo conflito, contra uma raça em muito semelhante às lesmas terrestres, mas maiores do que um humano comum e muito mais perigosas.

O problema principal, como disseram seus aliados, não era exatamente o combate a distância. Se o navegador conseguisse manter a nave apenas perto o suficiente para seu combatente atirar e aniquilar as ameaças, estaria tudo bem. A questão era quando as naves inimigas conseguiam se aproximar. A técnica usada pelas lesmas alienígenas era saltar da própria nave e atingir o inimigo, uma espécie completamente nova de homens-bomba suicidas. Seu material corporal tornava-se ácido em contato com o vácuo, e Navegador e Combatente simplesmente desapareciam no espaço, sem deixar qualquer vestígio.

E agora, com apenas uma semana faltando antes de sua formatura, ele estava assustado. Que Liz o chamasse de covarde, aquela era a verdade. Estava preocupado com o futuro, e Klauss percebera isso. Dera-lhe uma alternativa, mas agora era Liz quem impunha as barreiras.

— Você não tem medo? – Ela ouviu o sussurro, mas não entendeu a pergunta. Virou-se para ver que ele deixara de lado as estrelas que tanto amava para encará-la. Tinha uma expressão paternal de preocupação.

Talvez um tipo de pressentimento.

— Do que eu teria medo, Rod? Somos os melhores, você e eu. Podemos fazer isso, se estivermos juntos. Eu tenho fé em você, porque não tem em mim?

— A questão não é fé. – Ele protestou, franzindo o cenho e balançando a cabeça com firmeza. – Acidentes acontecem. Por melhor que eu seja, é tudo teoria. Tudo que temos é teoria, treinamento atrás de treinamento, tudo vai ser inútil. Liz, nós não sabemos nada.

Aquilo a confundiu. Sempre assumiu que Roderich sentisse orgulho do próprio conhecimento, mas não parecia ser o caso.

—... Já voamos antes, já simulamos ataques, você nunca… Nós nunca acabamos atingidos antes. Porque logo você teria medo de algo tão… Tão-

Perigoso.

— Eu ia dizer outra coisa.

— Liz olhe pra mim. – Ele pegou sua mão, puxando-a para mais perto. – Você me conhece melhor que ninguém. E gosto de acreditar que te conheço bem o bastante para te dizer isso: todos nós vamos morrer em combate. Hesser é incrível, mas veja o que aconteceu com o combatente dele. Liz? Qual a obrigação de um navegador?

Ela hesitou antes de responder, apesar de saber a resposta de cor.

— Proporcionar oportunidades para que o combate seja ganho, proteger seu combatente. Com a vida, se necessário.

— E a do combatente?

— Vencer antes que o navegador faça alguma besteira. – Ela brincou, mas foi completamente sério que Roderich respondeu.

Exato. Sabe disso. Tudo, minha vida, a sua, o sucesso da missão, depende unicamente de eu cometer ou não um erro. Você tem alguma noção do que isso significa?

— Rod eu-

— Não importa se confia em mim. Sou humano, posso errar. E se você… Meu Deus, se você morrer o que eu faria? – Agora ele parecia realmente a um passo do desespero.

Foi a primeira vez que Eliza pode notar que não fazia pouco tempo que ele pensava naquilo. Não era uma dúvida de algumas semanas, nem de alguns meses. Roderich estivera ciente daquilo por anos agora. E saber disso só tornava as coisas mais difíceis.

— Rod nós não podemos simplesmente desistir de tudo. Somos um exemplo para todos os outros… Se ficarmos o que eles vão pensar?

— Isso realmente importa? – Ele replicou. – Isso é entre você e eu. Você é minha irmã, e sabe disso. Eu não… Não tenho nada mais. Será que pode por favor entender isso? É como meu pai se sentiu ao deixar minha mãe ir.

Roderich tremia de verdade. E o fato de ele estar falando sobre os pais, um assunto praticamente proibido entre eles, considerando que ela era órfão e ele perdera a mãe de uma maneira pouco convencional… Era quase como se o perigo estivesse logo acima de suas cabeças – o que, de certa forma, era o caso.

— Liz – seu nome foi dito num gemido – eu entrei nessa academia com o objetivo único de destruir todos eles, você sabe disso. Mas eu abro mão de tudo. Abro mão do passado, abro mão da vingança, de tudo. Contanto que você fique viva. Então por favor, por favor. Abra mão por mim.

A sirene respondeu antes que ela pudesse fazê-lo. Os auto-falantes chiaram antes da voz de Hesser surgir neles, num tom completamente diferente de todos os que eles ouviram durante aqueles cinco longos anos.

Desespero.

“Todos os Cadetes, dirijam-se ao abrigo mais próximo. Isto não é um treinamento, repito, isto não é um treinamento. Todos os Cadetes…”

Roderich ergueu-se num salto, puxando Elizabeta consigo. Sua mão apertava a dela com força. A briga foi esquecida, os biscoitos e as estrelas foram ignorados. Seus olhos esquadrinhavam o céu negro enquanto eles atravessavam o salão na direção da porta. O abrigo mais próximo era nos dormitórios, o que exigiria uma corrida até as escadas.

Longe demais. Seu coração pulsava de encontro ao peito. Era como ele dissera. Nada os preparara para aquilo. Nada poderia ter preparado os dois para nenhum dos eventos daquela noite.

Nada nunca prepararia Roderich para o que viria a seguir.

Eles ouviram tiros, vindos das escadas. Estavam agora a apenas uma esquina de distância. O rapaz derrapou, girando em plena corrida e abraçando Liz, lançando ambos os corpos no chão. Arfavam, os olhos arregalados encarando-se em busca de apoio. Roderich ergueu-a primeiro antes de se levantar. Correram de volta, sem saber pra onde ir, mas sem desejar voltar.

— Mais rápido! – Ele berrara, apesar de estar ficando para trás. Desafiando-o, Liz freiou um pouco o passo, girando o tronco para oferecer-lhe a mão.

Ele desejou milhares de vezes, no futuro, que ela nunca tivesse feito isso. Mas, no calor do momento, nunca teve tempo para nada além de erguer os olhos e encarar o universo através das janelas de vidro reforçado.

Em contato com o vácuo sua pele se torna ácida o bastante para desaparecer com tudo. Nave, Navegador e Combatente, desaparecendo sem deixar vestígios.

— Liz!

Não houve baque do corpo viscoso contra o vidro. Nunca há. Não existem sons no espaço. Depois daquilo só houve silêncio. Um apavorante, interminável, silêncio.

.

Fileiras de alunos silenciosos e bem treinados se apresentavam, uma última vez, perante seu instrutor durante cinco anos, Tenente Klauss Hesser.

Os agora aspirantes estavam separados em dois blocos distintos, de navegadores e combatentes, alinhados por altura e com uma ordem unida digna dos antigos batalhões. Eram quarenta e nove ex-alunos ao todo, fazendo com que um único espaço restasse na última fileira dos combatentes.

Ninguém falou nada sobre aquele furo, porque era de praxe que ninguém comentasse os acidentes. A combatente que morrera, a número um da turma de combatentes, se tornara um tabu. Seu nome não era nem devia ser citado, em respeito a seu navegador, que, por um acaso, era o único que não prestava realmente atenção à formatura.

Roderich Edelstein tinha o rosto virado para frente, como deveria, mas os olhos estavam fixos na imensidão que se mostrava do lado de fora da redoma de vidro.

Acima dele um oceano de estrelas cintilando sob seu olhar firme e decidido enquanto ele nomeava mentalmente as mais importantes. Como esperado do melhor navegador da turma ele conhecia cada constelação, cada rota e cada uma das galáxias em seus mínimos detalhes. Ele costumava amá-las com todas as forças.

Costumava.

Ele sabia muito bem que deveria estar prestando atenção no que seu instrutor dizia ao microfone, mas anos e anos escutando, escondido, as formaturas por detrás das portas do alojamento, junto com Liz, o haviam ensinado que todos os instrutores tinham a mania de usar sinônimos e mais sinônimos para dizer exatamente a mesma coisa.

Quando o instrutor finalmente terminou, o moreno percebeu-se relaxando levemente os ombros, só então percebendo que não só ele, mas todos seus colegas estiveram esperando que o tenente comentasse algo, qualquer coisa, sobre a falecida.

Para o alívio de todos, não aconteceu.

O segundo aluno da turma de combatentes saiu da formação, caminhando entre as fileiras de alunos até o pedestal na frente da sala, e falando algumas frases, conseguindo resumir os dez minutos de discurso do instrutor em um “Não morram antes da reunião da turma” e arrancando risadas de todos.

Claro que Roderich fora convidado a falar, semanas antes da cerimônia, como o primeiro aluno do curso ele deveria falar. Mas é claro que ele não o faria. Em respeito a Eliza, ele manteve-se em seu lugar no fim da tropa, fingindo que o buraco onde seu combatente deveria estar não o incomodava.

Apesar de ser exigido na cerimônia, ninguém chegou a parabenizar os primeiros colocados. Um por um, os alunos foram chamados e receberam o tão almejado distintivo. Foi mais ou menos nessa parte que o moreno deixou de prestar atenção nas estrelas e passou a observar seus colegas subindo no palco e cumprimentando os professores e instrutores e algumas autoridades que puderam marcar presença, entre eles seu pai.

Preparou-se psicologicamente para os olhares que receberia, quando percebeu que sua vez estava chegando.

— Roderich Edelstein... E Elizabeta Héderváry. – O primeiro passo foi congelado ao ouvir um segundo nome ser chamado.

Um arrepio geral fez com que Roderich hesitasse dar os primeiros passos. Ergueu os olhos e viu seu pai encarando-o, expressando solidariedade ao mesmo tempo que exigia uma atitude mais condizente com o primeiro aluno do curso, e filho de um político importante.

Enquanto fazia seu caminho até a pequena escada, ele pode sentir dezenas de olhos seguindo-o, como se esperassem que ele fizesse algo diferente ou estúpido. Talvez por causa do luto, as pessoas pareciam esquecer-se que ele era o aluno número um e exemplo a ser seguido. E como ele não tinha se esquecido, fez o que devia e apertou cada par de mãos com um sorriso de negócios em face, superficial e claramente falso, porém presente.

— Nós sentimos muito orgulho de você, Roderich. – Era o que lhe diziam. Orgulho. Todos se orgulhavam de sua destreza como piloto. Ninguém disse nada sobre os erros, ninguém citou seus defeitos.

Talvez a formatura fosse um momento para ser perfeito.

Parou em frente a Hesser, que sorriu para si como nunca tinha feito em todos aqueles anos de treinamento. Ele deu-se a honra de colocar o distintivo de navegador no uniforme do moreno, e virou-se para pegar um cordão que nenhum outro aluno tinha recebido, fazendo Roderich franzir o cenho ao vê-lo.

Sua confusão se foi quando percebeu o pingente, de ouro como o seu, mas com o símbolo dos combatentes incrustado nele. Piscou, sem saber se deveria aceitá-lo ou admirá-lo. Por fim, o tenente decidiu por si e passou-o por sua cabeça, depositando o cordão em seu pescoço como se ele devesse estar ali.

— Tem o nome dela na parte de trás. – Seu instrutor segredou. – Achamos que seria um jeito de... Bem, guardá-la com você.

Sem nenhuma alternativa, Roderich concordou. No fundo, sabia que lhe faria bem. Inconscientemente apertou o pingente com força, sentindo-o gelado contra a palma da mão. Passou o dedo delicadamente pela parte de trás, sentindo o nome dela escorregar por sua pele. Por um momento, sentiu uma vontade imensa de chorar.

Dali para frente, aquela se tornou sua mania.

Notas finais
Como eu disse no início - pros que tiveram a fé de continuar - talvez tenha continuação - com meu PrusAus de sempre qq - talvez não ;3 de início a fic vai ficar em andamento mesmo, porque o novo sistema do site não me deixa postar capítulos depois de ela estar concluída(nhé) Pessoas comentem, sejam críticos - porém gentis - vale lembrar que redação vale ponto master no enem (?) e que uma a cada dez autoras morrem por falta de reviews por mês (?) Sejam felizes e não se esqueçam de ler as fics. Quem quiser eu passo até o link. Beijos de uma autora que não esqueceu e nunca esquecerá vocês ♥ Gin-chan P.S.: Ignorando os contratempos, e a vontade de enfiar a cabeça num buraco, aí está o verdadeiro primeiro capítulo xD
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.