Oceano Mar
1 Os Pescadores de Histórias.
Cena 1.
No quadro, vemos apenas um ator em frente à uma cortina vermelha, presa por uma estrutura de batente de portas. Veste-se de colorido e uma longa cartola. Sua figura nos lembra uma personagem de Comédia Dell'Arte, apesar de não estar trajando máscaras. Tem o semblante tranquilo e a voz grave. Chamarei-o de Corifeu.
CORIFEU
Somos pescadores de histórias. Passamos nossos dias atirando nossas redes a mares desconhecidos, e procurando entre todas as pescas a nossa preciosidade. Cada rede trás consigo um presente de Iemanjá. Foi numa de nossas intermináveis navegações que chegamos à um pedaço do paraíso e vimos o Mar cair em tentações humanas. A história de amor do mar não poderia ser se não salgada como as lágrimas.
O Corifeu abre a cortina, e detrás dela vemos uns pares de casas à beira de uma praia e um enorme farol ao fundo. Um barco, ao longe, vem se aproximando da praia.
CORTA PARA — Dentro do Barco
O barco está repleto de marinheiros. Tentam em vão buscar por peixes, sem esperança nos olhos. Ainda assim, cantam a velha cantiga praieira:
MARINHEIROS
Ô canoeiro
bota rede,
bota rede no mar
ô canoeiro
bota rede no mar.
Cerca o peixe,
bate o remo,
puxa corda,
colhe a rede,
ô canoeiro
puxa rede do mar.
Vai ter presente pra Chiquinha
ter presente pra Iaiá
ô canoeiro puxa do mar.
Cerca o peixe,
bate o remo,
puxa corda,
colhe a rede,
ô canoeiro
puxa rede do mar.
CHICO
Louvado seja Deus
Ó meu pai.
MARINHEIROS
Vai ter presente pra Chiquinha
ter presente pra Iaiá
ô canoeiro puxa rede do mar.
O Barco chega à beira da praia. As famílias dos respectivos marinheiros estão beira-mar, esperando a chegada dessa longa viagem. Recebem, de olhos rasos por verem os maridos e por não verem peixe. Recolhem-se para suas casas para tomar mais um dia de sopa rala. Seguem Chico e sua família.
CHICO
O melhor mesmo é dar cabo dessa esperança e procurar outra coisa.
JOÃO (pai de Chico)
Tu não fale besteira moleque. Durante anos foi esse mar que deu de comer pra todos nós.
MARIA (mãe de Chico)
Quer deixar o mar mais bravo com a gente é? Num me dê vergonha, meu filho.
CHICO
Faz mais de mês que a gente num vê peixe, pai-mãe. Eles tão fugindo de nós. Tudo que a gente pega é peixe morto.
MARIA
Isso é castigo das águas.
CHICO
Se a gente ficar acreditando nessas besteiras o nosso castigo vai ser morrer de fome. A gente podia tá pensando numa forma de tirar sustento que num fosse do mar.
JOÃO
E cê vê alguma coisa pros quatro canto do mundo que cê olha se não areia e água? Tira essa ideia de gerico da cabeça menino.
CHICO
Tem muito mais mundo depois do mar.
MARIA
É só o que faltava. Filho, a gente já teve que retirar por muito tempo até achar esse cantinho pra nós. A vida tá difícil, mas eu sei que o Deus é justo e logo chega peixe. Me parte o coração ver você querendo levar a vida que a gente batalhou tanto pra não ter.
CHICO
Num tô querendo me desfazer das conquistas de vocês. Por mim eu também ficava aqui, mas não consigo deixar de pensar que nossa comida já tá escassa. Por sorte todo mundo aqui é bastante unido e divide tudo, mas se as coisas continuarem assim, daqui a pouco não vem ter comida pra ninguém.
JOÃO
Tenha esperança, filho. Sem esperança é que a gente morre. O Mar há de trazer sustento pra essa terra de novo.
Ao longe, ouvimos um chamado.
JANAÍNA
Chico!!!
Chico avista e corre aos braços de Janaína. Os dois riem de felicidade em se encontrarem.
JANAÍNA
Meu querido amigo. Peço desculpas por ter perdido a chegada de vocês. Acho sempre tão bonito quando vocês descem todos juntos.
CHICO
Bonito é quando tem peixe, Janaína. Num aguento mais ver esses homens chegando de olho mais salgado que essas águas.
JANAÍNA
Também começo a preocupar, Chico. Mas tudo que a gente pode fazer é rezar.
CHICO
Rezar, rezar. Fica todo mundo com esse converseiro de que isso é castigo divino. Quero ver quando começar a cair gente de fome pelos cantos.
JANAÍNA
Num fala coisa dessas, Chico. Pare de chamar a Morte.
CHICO
Eu senti muito sua falta.
JANAÍNA
Eu também.
CHICO
E seu pai?
JANAÍNA
Cada dia mais bêbado. E minha mãe cada dia mais quieta. Ele nem quis sair de casa para ver vocês chegarem de tanta vergonha de ser um inútil.
CHICO
Seu pai era um grande pescador.
JANAÍNA
Não tá fazendo jus ao título. E quem paga o pato sou eu.
CHICO
Ele voltou à...?
Janaína levanta uma mecha do cabelo, revelando um ferimento roxo.
JANAÍNA
É cada vez mais frequente. Eu tô quase até me acostumando.
CHICO
Num fala isso, Janaína. Isso tá errado. A gente precisa fazer alguma coisa.
JANAÍNA
Fazer o quê? Quem aqui vai levantar um dedo pro meu pai? Quem vai acreditar em mim? Todo mundo usa essa mesma desculpa que você usou dele ser um grande pescador e de ter ajudado muito a comunidade pra proteger as besteiras que ele faz por aí.
CHICO
Eu posso falar com ele.
JANAÍNA
Cê tá louco Chico? Pra quê? Pra eu apanhar mais? É melhor deixar essa história quieta.
CHICO
Um dia a gente foge, Janaína.
JANAÍNA
Eu sei que sim. E isso me dá força pra não me atirar pros lados mais profundos desse mar. Te encontro na festa dos pescadores hoje à noite?
CHICO
E esse povo continua fazendo festa!
JANAÍNA
Não tem melhor forma de esquecer os problemas que dançando. Te vejo a noite.
Janaína vai para casa e Chico fica sentado nas pedras, olhando para o infinito azul.
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