Oceano
1 Capítulo 1
“Costumava ter medo do oceano.
Desde pequeno, nunca vi-me capaz de grande aproximação do azul estampado das águas. Temia profundamente — quase tanto quanto o próprio mar podia ser — os urros das ondas, seus suspiros ao morrer na praia, os assobios poderosos do vento com qualquer um que tentasse confrontá-lo ou meramente encarar seu eterno aquoso protegido.
Àquela altura, já havia sido vítima do abraço das águas. A sensação de senti-la invadindo seus pulmões, o desespero de não possuir conhecimento algum para nadar, junto à sentença de não ter onde se agarrar ou mesmo chão que desse pé, a luta para evitar o naufrágio de seu próprio ser.
Uma criatura viva se debatendo para sobreviver não soa tão romântico quanto um cadáver conservado em águas gélidas, não?
...Talvez nem isso soe.
Em uma promessa de autopreservação, garanti a mim mesmo que jamais ousaria me aproximar — muito menos adentrar — desse gigante furioso outra vez. Não deveria ser algo complicado de cumprir, afinal, não fora ele quem tão covardemente atentou contra uma existência inocente?
Irônico, porém, é o fato que as pessoas se atraem infinitamente para algo que lhes grita “perigo”. Independente de meu medo, eu também sempre fui encantado pelo mar. Talvez pudesse culpar o canto discreto e distante de alguma sereia que, disfarçado nos sussurros da brisa da noite, foi o responsável por, de maneira injusta, me enfeitiçar pelo azul profundo em uma caminhada para espairecer à beira mar. Embora a praia pareça invulnerável se suficientemente distante do alcance das ondas, acredite: Tratá-la como porto seguro apenas para admirar de longe o turbilhão — ou, com sorte, a calmaria — do oceano é um dos gestos de maior ingenuidade possível.
Um dia, eu o vi.
E, sem consciência, meu encanto assinou minha sentença.
Olhar para ele me fazia pensar como, mesmo estando nos mais diferentes e longínquos lugares (ao mesmo tempo!), o oceano ainda poderia estar curioso a respeito do que existiria nas entranhas da terra firme. As histórias do vento, assumi, não foram suficientes para saciar sua ânsia pelo saber — então, trajando-se com a areia, resolveu aprisionar uma pequena parcela de seu ser para vagar por aí e descobrir por si só.
O jeito como sempre ficava no fundo, no canto da sala, era como se quisesse evitar que as outras pessoas reparassem no seu disfarce e o expulsassem ao verdadeiro lar. Não é surpreendente que desempenhasse bem esse papel: Os olhos marinhos, apesar de denunciar sua verdadeira identidade, estavam sempre desviados.
Se minha teoria não fosse a correta, eu não veria mais nenhum motivo para esse jeito desconcertado.
Eu não sei bem o que me alertou de sua presença. Talvez a brisa, sua eterna protetora, num dos muitos murmúrios lamuriosos sobre a tola solidão daquele pequeno pedaço de mar. Ou a intuição do perigo próximo, que ainda carregava na escuridão esquecida da alma. Quem sabe até o destino, em sua doce sedução que nos faz seguir um caminho que sequer somos capazes de enxergar. O que sei, porém, é que não precisei de muito tempo antes de ver-me enlaçado em seus braços aquosos — que sequer podiam ser vistos à olho nu.
Ele era sério. Contido. Discreto.
Ao longo dos dias, eu pude observar, mesmo que de longe, algumas pequenas características que desenvolveu naquela prisão de areia. O jeito que franzia o cenho se alguma coisa incomodava, como sempre evitava abrir a boca e até mesmo sorrir com os dentes à mostra — também descobri, num vislumbre rápido quando teve de responder ao professor, o brilho nestes que denunciava um possível aparelho. Como costumava ficar na sala mesmo quando todos saíam, ou ao menos tentava ser o último ao fazê-lo para não chamar atenção. A profundidade encantadora de seus olhos salitres.
E então, conheci a tormenta.
Por algum tipo cínico de ironia, ela não veio de fato por meio das águas — mas como consequência.
Há muito tempo, ouvi uma vez que o noivo do Oceano é o pirata. Não só ele: também pescadores, marinheiros comuns, enfim, homens do mar. Não é injusto afirmar, então, que esse deus salitre se esconde em uma longa onda poligâmica que engole todo e qualquer um que se prostrar aos seus mistérios e sua própria existência — e foi desse jeito que ele chegou.
Era tolo, inexperiente. Tal como eu, também detinha nos olhos o brilho de admiração de quem reconhece a grandiosidade de um fugitivo aventureiro quando o vê — e bem mais rápido que eu, devo admitir. Porém, a inocência de não se importar e aproximar do perigo, me fazia pensar se também não era louco. Mas, ao contrário de mim, foi notado e bem recepcionado por aquela criatura magnífica por tamanha atitude sutil que, ao mesmo tempo, era destemida o suficiente para merecer suas honrarias.
Com esse jeito sem jeito, tive o desprazer de apreciar de perto a maneira como roubava de mim as águas que jamais puderam me pertencer.
…
E o ajudei. Apoiei pois, ainda que meu coração gritasse a cada olhar trocado que testemunhava, o sorriso aberto que Oceano entregava àquela lesma do mar sempre que a via era suficiente. O jeito como as águas de seus orbes cintilavam, como se afagadas pelo sol, quando estavam perto...
Depois de tanto tempo na sombra, eu o via feliz.
Então, ao me retirar do caminho sem sequer ter entrado nele, deixei o caminho livre para o recém-chegado: De grumete, vi o miserável virar Capitão. Para minha infelicidade, era tarde demais para tentar o mesmo e ter chances de ser embalado seguramente pela correnteza.
Era algo que tinha certeza, afinal, não obstante toda a maneira como interagiam juntos, se enfurecia sempre que me via junto com seu eterno protegido, tal qual um segurança que vigia a mais preciosa joia lapidada.
O mar já era domado, e estava longe de ser por minhas mãos.
...
Eu costumava ter medo do oceano.
Mesmo assim, me descobri mergulhando em suas águas outra vez.
E me afoguei.”
…
…
…
Espalmei a mão na página preenchida com palavras perdidas.
Entre os dígitos, observei as letras formadas pela caligrafia trabalhada, cuidadosa — em contrapartida, a tinta da caneta gritava sua essência por conta da escrita pesada e frustrada.
…
Devagar, movi os dedos na folha. Fechei o punho, lento, e trouxe na pressão dos dedos o papel: Amassando, arrancando a página do arame em espiral do caderno. Minutos, longos minutos de trabalho jogados no lixo.
Inspira. Expira.
Frustração é uma boa palavra.
De tantas, de todas as poesias que já escrevi, um trabalho que finalmente não se resumia a versos curtos: E, de longe, talvez o maior e pior deles. Um desabafo maculado por analogias que, se duvidar, chegavam a destruir as linhas com pensamentos ilógicos e (por que não?) estressados.
...
Recostei na cadeira, e remexi o papel nas mãos em movimentos circulares. Constante, sem pressa — não tinha motivo para ter, afinal.
De tantas, de todas as poesias que já escrevi — as realmente boas -, nenhuma tive a coragem para entregar diretamente a quem elas eram direcionadas. Uma ou outra, simples, bobas, que passavam pelas mãos do professor de filosofia em uma ou outra aula livre em dias festivos (como o dia dos namorados) que ele nos permitia escrever bilhetes anônimos para que pudesse ler em classe.
E, eu sabia, elas nunca seriam entregues de outra maneira.
…
Suspiro. Pesado.
Descanso a bola mal feita entre as palmas e a largo de qualquer jeito no chão — com o olhar, acompanho sua trajetória de centímetros, até que bate na perna da mesa e repousa.
…
É vazio.
À noite, solidão é o que resta. Não é a mesma coisa no colégio, com todos os outros falando de qualquer porcaria que vem na cabeça; e não julgo ao dizer isso. Eu faço o mesmo, e não é errado.
É anestésico, para fingir não reparar o desgosto que se estampa no olhar daquele que amo.
Amo, e que ama outro: o novato, que chegou depois. O meu amigo, apaixonado por aquele que amo. E eu, que agora tento empurrar quem amo para o meu amigo, que chegou depois — para receber desprezo a cada tentativa, independente do quão inflamáveis sejam os olhares que trocam até mesmo num esbarrão de corredor.
Amo, amo, amo.
…
Empurro a cadeira com os pés, e cambaleio alguns passos para desabar na cama.
O abajur, ainda aceso, colore as paredes com sua luz alaranjada.
Eu respiro, suspiro, e me perco nas divagações tolas que inevitavelmente guiam meu pensamento aos olhos azuis e o sorriso metálico que tanto me encantam, e que mesmo assim nem sonham com essa angústia que me corrói a alma.
…
Maldito o pensamento.
Maldito o amor unilateral.
Malditas noites mal dormidas, pensando na tua imagem.
Maldito o oceano dos teus olhos.
...Ah, oceano…
Agora, me resta a perdição sombria nas madrugadas.
Volta pra casa, Oceano.
Volta, que não tenho mais medo de ti.
…
Ah, Claus…
Por que é que você tinha que me afogar nesse mar dos teus olhos?
Notas finais
Feliz aniversário?
Não sei se você vai gostar, mas, ah, tá aí. É isso.
Yay?
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