Obsessão
8 Capítulo 8
Notas iniciais
Não sabia se tinha ouvido direito, mas, com certeza, tinha se confundido. Devia ter dito “faria isso com a mãe do seu sobrinho?” ou qualquer outra coisa, porque aquilo não tinha sentido nenhum. Henri se virou para Laura, com dúvida e espanto em seu rosto.
– Como disse?
– O que você ouviu. — ela respondeu seca, com lágrimas nos olhos. Era difícil para ela confessar aquilo, mas era a mais pura verdade.
Nunca se esquecera. Laura só queria que Henri deixasse ela e Bernard em paz, o único jeito de mantê-lo longe seria a força. Laura já sabia dos negócios de Henri, sabia que mesmo depois de solto, ainda continuava com o negócio das drogas e sabia que ele também matava.
Antes Henri era um simples usuário. Para pagar sua dívida, precisou matar um homem: o traficante de quem comprava, um homem chamado Pierre. Foi dessa forma que virou um assassino de aluguel, percebeu como era fácil acabar com seus problemas. Ele tomou conta dos negócios de Pierre e os homens que trabalhavam pra ele se renderam a Henri e passaram a trabalhar com ele.
Toda a família de Henri descobriu isso quando ele tentou matar o próprio irmão, mas falhou e fugiu. Laura se sentiu no dever de defender Bernard, era seu futuro esposo. Se transformou em outra pessoa, de moça inocente para mulher vingativa. Ela iria matá-lo, mas antes o faria sofrer, mas não com tortura, com amor.
Todos sabiam que Henri morava no beco, tinha acabado de sair da cadeia após cinco anos preso e foi para lá que se transferiu. O visitou em uma noite e tentou parecer amigável. Ele a levou para aquele mesmo quarto onde agora a mantinha presa.
– Diga logo, eu não posso nem olhar pra você. — ele dizia. Ele estava sob efeito de suas próprias drogas, mas ainda tinha um pouco de lucidez para conversar.
– Henri... Eu vim te pedir desculpas. — o rapaz ficou confuso, mas prestou atenção. — Nunca lhe dei nenhuma chance porque fui ambiciosa. Eu queria alguém que pudesse me dar uma vida boa, com quem eu pudesse formar uma família. Era claro que não teria futuro com você.
– E agora acha que teria?
– Mas é claro! Não da forma com que teria com Bernard, mas ao menos estaria protegida. — ela sorria, a encenação era quase perfeita. — Eu sei o que faz, Henri.
– Eu devo ter usado de minha mercadoria de novo. — ele colocou as duas mãos no rosto, respirando fundo, mas o ar quente batia em suas mãos e voltava em seu rosto. Estava abafado ali. Laura se aproximou e abaixou suas mãos.
– Falo sério. Você é quem eu sempre quis, Henri.
E foi assim, fácil. Já estava um pouco alterado, por isso foi mais rápido convencê-lo. Não chegava a odiar Laura naquela época, odiava o fato de não tê-la para si, mas naquele momento a tinha e nada mais importava. O desespero por seu amor era tanto que ele não quis raciocinar muito, apenas a tomou em seus braços.
Aquela noite de amor não era necessária, mas ela só percebeu isso pela manhã.
Foi ali que Laura percebeu que as pessoas não eram o que realmente mostravam ser, nem mesmo ela. Depois que tudo se acalmou e Henri adormeceu, não conseguia entender de onde viera tanta revolta a ponto de trair seu namorado. Ficou desesperada, extremamente culpada. Se levantou com cuidado e pegou seu casaco que estava no chão. Abriu o bolso de zíper e de lá tirou uma pequena faca, mas muito afiada. Sentiu vontade de vomitar. Ela guardou aquilo e chamou a polícia. Fez uma denúncia anônima falando do tráfico que acontecia ali no beco.
Quando a polícia chegou no local, Laura não estava mais lá, e nem Henri. Encontraram vários pacotes de todo tipo de droga e apenas um capanga de Henri foi preso. Ele acordou no meio da noite e não encontrou Laura, saiu de sua casa no beco disposto a encontrá-la. Logo começou a achar que fantasiou tudo aquilo, que não era real.
Por sorte e lealdade, o capenga preso disse que comandava o negócio sozinho. Henri pode voltar para casa alguns meses depois, mas com muito cuidado e atenção. Sua intenção era mudar de lugar, mas ter Laura por perto de novo fez seus pensamentos antigos fugirem.
Quando descobriu que estava grávida, precisou dar um jeito de ir para cama com Bernard imediatamente. Se o perdesse, seria seu fim.
Ela lembrava daquilo, mas Henri não.
– Você está louca, querida. — ele riu. — Nós nunca...
– Já sim. — ela apertou os olhos. Era horrível lembrar daquilo, lembrava-se de cada parte de seu corpo que ele tocou, se arrepiou, tinha vontade de se bater toda vez que lembrava da besteira que fez. — Bem aqui nessa cama.
– Então... Então é verdade. Eu sabia que tinha acontecido... — ele ficou atordoado de repente, com as mãos na cabeça andando de um lado para o outro, os olhos grudados no chão. — Aquilo foi real. Eu chamei por você e você não estava aqui. — ele parou e a olhou. — Me fez acreditar que eu estava louco.
– Vamos Henri, você é mais inteligente que isso. — precisava admitir. — Não percebeu ainda? Eu que chamei a polícia.
– Eu compreendo agora. — respondeu firme, com raiva. — Eu estava cego de amor, Laura. Mas veja só você. — ele sorriu um pouco, logo revelando seus dentes brancos. — Parece que não é a mocinha que todos pensam que é. Parece tão suja agora.
– Não precisa me lembrar disso, eu sei que sou suja. Mas acho que isso não importa agora, Henri. Não me ouviu? A menininha aqui dentro de mim é sua. Sei que me odeia, mas tenha compaixão por ela.
Foi quando entrou em estado de choque de novo. Por um minuto, só estava tentando se lembrar da noite em que ficou com Laura, sendo que aquilo nem importava. Só importava que tinha acontecido. Apesar de tudo, Henri tinha um coração que foi capaz de amar, sabia que aquela criança não tinha culpa de nada. Ele poderia salvá-la, mas pra isso teria que salvar Laura também.
– Droga, Laura! — ele gritou. — Dificultou tudo!
– Basta me tirar daqui, homem! — ela gritou de volta, logo esperou que ninguém tivesse ouvido. — Me mate, mas a salve, por favor. Não deixe aquela mulher maluca pôr as mãos nela. Por mais que seja um criminoso, sei que vai cuidar dela. De alguma forma sei. Se não quiser, só a entregue para Bernard e...
– Ficou louca? É minha filha, você mesma disse. — ele respirou fundo. Andou até aquela cadeira que chutou e a pôs de pé para se sentar.
– Escute... — ela começou com um sussurro, estava com medo do que diria. — Ela vai precisar de uma mãe...
– O que? Quer que eu te mantenha viva para cuidar dela? Acha mesmo que eu chegaria a esse ponto? — a olhou com desprezo, até que ela começou a chorar. Não adiantava, ele ainda sentia aquele aperto no peito quando a olhava, todo dia de manhã, de tarde, de noite. As vezes, a observava dormir. Era Laura, afinal. Seu primeiro amor. Não merecia nenhum de seus sentimentos. — Laura... Você me enganou uma vez. Se eu a manter viva, vai dar um jeito de me entregar de novo e aí vai ficar com a menina e com meu irmão. Eu não vou ser enganado de novo.
– Tudo bem. — ela respirou fundo, tentando se acalmar. — Só precisa decidir agora se vai deixar Doralice pegar nossa filha e sumir por aí ou se vai me ajudar.
– Claro... Não posso deixar minha filha ser levada por aquelas malucas. Só me dê um tempo para pensar em como farei isso.
Laura assentiu. Ela inclinou cabeça para o lado para tentar secar seu rosto com a manga de seu vestido, mas era difícil com as mãos presas para trás. Henri a ajudou, secando seu rosto com um guardanapo que havia na bandeja.
– Obrigada. — agradeceu, a coisa mais sincera que disse a ele em toda sua vida.
–
Na casa do prefeito, tudo estava na mais perfeita calma. A televisão da sala estava ligada, como que por um milagre. Era fim de tarde, Abigail e Doralice assistiam a uma novela qualquer quando Maurice entrou pela porta da frente, surpreendendo as duas.
– Chegou mais cedo. — Doralice afirmou o obvio, olhando para o relógio em seu pulso.
– Sim, estou com uma dor de cabeça terrível. Lembre-me de não tomar tanto vinho da próxima vez. — ele lançou um sorriso para a esposa, lembrando-se da noite passada. — Como vai, Abigail?
– Muito bem, Maurice. E parece que você está ainda melhor. — ela olhou para a irmã com um olhar malicioso, foi ignorada.
– Tirando a sensação de estar levando socos na cabeça a cada cinco segundos, estou ótimo. — ele caiu no sofá, soltando um suspiro com os olhos fechados, mas logo os abriu quando lembrou de algo. — Ah, querida, tive noticias daquela moça que desapareceu, Laura não é?
Foi inevitável, Abigail e Doralice se olharam com espanto e sem disfarçar, mas Maurice não reparou pois passava a mão na testa quente na tentativa de melhorar um pouco a dor, em vão.
– Que notícia? -Dora tentou usar seus novos dons de fingimento para parecer mais animada e interessada do que preocupada.
– Bem, não é bem uma notícia. Como não acharam a moça por lugar nenhum, a polícia começou uma busca mais reforçada, até nas cidades vizinhas. A família está espalhando cartazes. Estão aceitando a possibilidade dela ter sido sequestrada ou coisa do tipo, mas não podem confirmar isso já que faz muitos dias que ela sumiu e ninguém recebeu um telefonema. Eu não entendi muito bem, o delegado me telefonou, mas minha cabeça estava longe. Foi o que entendi.
– Por que alguém sequestraria uma grávida? Pobre ainda! — Abigail tentou parecer indignada, mas ainda olhava para Doralice de vez em quando.
– O rapaz que falou com vocês sobre o desaparecimento dela é rico. Achei que soubessem. Acho que está aí o motivo. O rapaz vai dar tudo para salvar a namorada grávida, não é? — Maurice se levantou e foi andando até a escada. — Vou tomar um banho.
– Espere Maurice. — Doralice se pôs de pé, andando até o marido. — Disse que eles vão reforçar as buscas, mas já não procuraram em Arles? Ela não deve estar aqui. Deviam se preocupar mais com as outras cidades.
– É como eu disse querida, eles vão procurar nas outras cidades, mas não vão deixar de procurar aqui. Há muitos buracos em Arles, ruas estreitas, sem saída, becos. — ele explicou, olhando para a esposa e para a cunhada. — Vão achá-la, não se preocupe.
Maurice sorriu e continuou seu caminho para o andar de cima.
Doralice correu até Abigail.
– O que faremos agora? É claro que vão procurar lá no beco!
– Talvez... Temos que avisar Henri imediatamente. Vamos precisar mudar o local do cativeiro.
Justina entrou na sala e parou na frente das duas, uma expressão serena e gentil.
– Senhora, o que gostaria para o jantar?
– Não é uma boa hora, Justina. Faça o que achar melhor.
A mulher assentiu e se retirou. Abigail se virou e viu ela indo até a cozinha.
– Acha que ela ouviu algo?
– Não, ela é meio surda. — respondeu Doralice. — Você tem que ir lá agora. Eu posso dizer para Maurice que você foi a farmácia ou sei lá. Apenas o avise. — Abigail assentiu e logo se pôs de pé. Dora a barrou. — Apenas avise, está certo?
– Claro. — respondeu emburrada, logo tratou de sair dali.
–
Quando Abigail chegou no beco, tudo estava calmo. Talvez fosse hora de Laura jantar e por isso não havia ninguém em sua porta para vigiar. Mas conforme ia descendo os degraus, começou a ouvir gritos, gemidos, tanto femininos quanto masculinos. Era Laura que gritava e gemia e Henri pedia calma. Ela desceu mais rápido e foi direto para a porta do cativeiro de Laura. Estava destrancada.
Laura estava sentada na cama, desamarrada, o colchão estava molhado.
Henri olhou para trás, estava assustado. As palavras saíram como num suspiro.
– Vai nascer.
Fale com o autor