Obsessão
12 Capítulo 12
Notas iniciais
Não havia cidadão em Arles que ainda não estava perplexo com os acontecimentos com o prefeito e sua esposa, mesmo depois de dois meses. A notícia se espalhou rápido, as pessoas ouviram as viaturas e os tiros e logo havia um aglomerado delas no topo do beco, apenas observando tudo de longe. Viram a bela Abigail sair algemada e ser posta numa das viaturas, a mulher que nunca perdia a postura parecia ter se descontrolado. Henri também foi levado, mas parecia mais lúcido, sério, pensativo, não relutou. Depois saiu Bernard, desolado, se isolando de todos que estavam ali e, por fim, os corpos.
Ninguém sabia ainda quem eram aquelas pessoas nas macas da ambulância, pois estavam cobertas com um plástico preto, nem suspeitavam que poderia ser a primeira-dama e a doce Laura. Ninguém viu quando entregaram o bebê para uma enfermeira e a levaram para o hospital, por isso, quando descobriram que Laura jazia morta, pensaram que sua filha também estava, inclusive Dona Anice, sua avó, que teve uma queda de pressão seguida de desmaio quando soube.
Ela acordou no hospital, Bernard estava ao seu lado com os olhos vermelhos e marejados.
– O-o que... — ela estava confusa, com sono. Viu aquelas agulhas em seu braço e aquele ambiente quieto e limpo, mas aquilo a apavorou. — O que houve? O que faço aqui? O-onde está Laura?
Se lembrava de algo, se lembrava de ter recebido uma notícia terrível sobre sua neta. Ao ver a expressão no rosto de Bernard, viu que era tudo verdade.
– Ela está morta. — respondeu ele, seco, sentia que sua fala ficaria daquela forma pelo resto da vida.
Depois disso, foi muito choro. Precisaram dar um calmante para Anice e explicar que, pelo menos, sua bisneta estava viva.
A senhora ficara encantada quando viu a menininha. Já tinha sido banhada e alimentada, foi como se toda a dor tivesse ido por um momento, o mesmo com Bernard. Foi quando o rapaz parou para pensar nas últimas palavras de Laura. “Eu preciso que leve minha menina para visitar Henri quando tudo isso acabar... Ele é o pai, Bernard”. Seria mesmo possível que Laura havia lhe traído? Mas por que? Sempre lhe jurou todo o seu amor e seu coração, sentia repulsa do irmão e até um ódio mortal, mesmo que Laura fosse muito boa para isso. E por que ele levaria a menina para visitá-lo? Não era sua filha, afinal, mesmo que sentisse que fosse. Olhava para aquela criança no colo da bisavó e a via como sua, não como sua sobrinha.
Talvez ele a levasse para uma visita, mas ele teria uma conversa com o irmão.
Foi difícil convencer Dona Anice, ela não queria a menina num ambiente tão pesado, ainda mais com Henri por perto, mas cedeu por ter sido um pedido de Laura.
No presídio, eles ficavam em uma mesa com uma cadeira de cada lado. Sentavam-se um de frente para o outro, a menina estava no colo de Bernard, Henri a observava com os olhos brilhando, com um olhar inocente.
– Decidiram chamá-la de Laura...
– O que?
– Laura. — repetiu, com a voz mais firme. — Decidiram que a chamariam de Laura.
Henri sorriu timidamente e soltou um suspiro triste.
– É tão linda quanto a mãe.
– Espero que concorde com a decisão, afinal você é o pai.
O sorriso de Henri desmanchou-se e seu rosto se encheu de vergonha. Não sabia o que tinha acontecido com ele, mas não sentia mais ódio nenhum do irmão, não tinha vontade de sair daquela cadeia antes de pagar por tudo que fizera, como se aquilo fosse trazer Laura de volta. A morte de sua amada o tinha transformado completamente.
– Eu não tive culpa nisso, sério... — começou. — Talvez um pouco. Laura só fez isso porque queria me manter longe, quando tudo acabou ela chamou a polícia para me prenderem e fugiu, mas eu consegui sair antes que eles chegassem.
– Havia necessidade de passarem uma noite juntos?
– Ora, Laura era pura, mas quem diria que ela era tão vingativa? — ele sorriu um pouco. — Não conhecemos direito as pessoas, nem a nós mesmos. — foi a primeira vez que olhou o irmão nos olhos, encontrou toda aquela frustração que pareceu ter sentido por anos e se sentiu mal. — Eu estou mudado, Bernard. Ver alguém que amamos morrer é a pior coisa que pode acontecer, e eu causei isso a muitas pessoas. Não quero que minha filha pense em mim só como um criminoso, quero que ela pense em mim como um criminoso arrependido e que vai cumprir sua pena para poder viver o resto dos dias com ela.
Bernard viu as lágrimas nos olhos do irmão, parecia mesmo arrependido, havia sinceridade em seu tom. Sentiu um pouco de compaixão e até emoção. Sempre quis se dar bem com o irmão, sempre foi o mais amado e deixou que isso continuasse até atingirem a idade adulta, queria ser amigo de Henri, mas nunca se esforçou para isso. Uma conversa de vez em quando com o irmão poderia ter evitado tudo aquilo.
– Me desculpe Bernard, por toda a merda que já fiz pra vocês. Eu espero que cuide de Laura. — ele se referia a menina, claro. Ela estava acordada, mas ainda era muito mole. Os olhos estavam bem abertos, dava pra ver todos os tons de azul que havia ali, era quietinha e tranquila, como se nunca tivesse vivido o horror que viveu. Era uma sobrevivente.
– Cuidarei. — ele respondeu, ainda seco, mas com convicção. — Serei um ótimo tio.
Henri sorriu agradecido. Nunca pensou que um dia se reconciliaria com o irmão, muito menos que ele pediria desculpas por algo que fez. Era uma nova vida, ele ficaria ali o tempo que fosse preciso se pudesse passar pelo menos um dia inteiro com sua filha. Ele deixou o medo da possível rejeição dela no futuro e deu lugar a esperança e dedicação, para que pudesse sair dali o mais rápido possível e cuidar da pequena Laura.
–
O manicômio de Arles era bonito por fora e por dentro, mas a tristeza que havia lá manchava todo o lugar de cinza, até mesmo os pacientes. Eram pálidos, olhos cansados, pensamento longe, cabelos bagunçados. Parecia que em vez de tratá-los, os deixavam piores, com toda a isolação e tratamento, como se não fossem pessoas importantes e capazes de amar.
Na cidade, Abigail era a irmã da primeira-dama, lá, era só mais um número.
Não a levaram para a prisão pois acreditavam que ela não era tão sã quanto parecia. Ficava repetindo a todo momento que não poderiam prendê-la, já que a irmã estava morta e dariam Madeleine para estranhos, e não para a sua verdadeira família. Contava como seu filho Raul voltaria para ela em breve, agora que tinha cumprido sua missão com Doralice, porém, como estavam a mantendo presa, isso demoraria mais, e então surtava, tentando escapar dos guardas que a seguravam e dos calmantes nas seringas. Não havia sombra de dúvida que ela tinha problemas.
No manicômio, não conversava com ninguém, geralmente perguntava a alguma enfermeira sobre quando ela poderia sair, se poderia dar um telefonema para o prefeito para ver se ele cuidava de Madeleine e essas coisas. As enfermeiras a deixavam falando sozinha e aquilo sempre a irritava.
Ela costumava ficar numa poltrona azul desgastada no fundo do pátio de lazer do lugar, sozinha, apenas fazendo planos para quando a tirassem de lá e imaginando como Madeleine ficaria quando completasse um ano, dois, três...
Naquele dia, ela estava com um caderno e um lápis que conseguiu depois de pedir muito, mas sempre havia um enfermeiro a observando de longe, para ter certeza de que ela não tentaria ferir ninguém com o lápis. Era seu novo diário, aquele bloquinho dez folhas amareladas e um lápis mal apontado.
“É pura injustiça, esses policiais, essas autoridades, eles não sabem como é ser uma mãe que perdeu o filho, eles não sabem como ganhamos habilidades quando damos a luz, sentimos quando nossos filhos estão em perigo mesmo quando não estão conosco, sabemos identificar se o choro é de fome ou de dor, os conhecemos melhor que a palma de nossas mãos, então por que eu haveria de estar louca por querer recuperar minha sobrinha? Por que eu haveria de estar louca por querer meu filho de volta? Não é loucura, apenas sentimos. Agora me deixam presa nesse inferno, dizendo que tenho problemas mentais. Não tenho merda nenhuma, o que tenho é amor e muita dor por não ser compreendida. Como cumprirei minha missão aqui dentro? Essas horas, Madeleine está por aí, meu filho está por ai, e não há nada que posso fazer.”
– Abigail Moreau. — ouviu a voz grossa e firme de um dos guardas, ele formou uma sombra a sua frente, barrando a pouca luz que chegava até ela através da lâmpada do pátio que estava prestes a queimar. — Visita.
Finalmente a tirariam dali, finalmente alguém a tinha ouvido e conseguido algum advogado ou coisa do tipo, pelo menos era assim que pensava. Ela se levantou com um sorriso, passou as mãos pelos cabelos secos, dois meses sem serem bem cuidados com todos os seus cremes de hidratar, abotoou o casaco de lã cheio de bolinhas por conta do tempo. O guarda ignorou todos aqueles gestos e apenas pediu que a seguisse até a sala de visitas.
Não havia muita gente, apenas uma senhora visitando um homem. A maioria das pessoas que estavam ali tinham sido abandonadas pela família ou cometido crimes considerados loucura, como o caso de Abigail. Ao entrar na sala, seu sorriso ficou ainda maior. Ela andou com rapidez e se sentou de frente para ele.
– Maurice, como é bom vê-lo! Sabia que não me deixaria aqui!
O homem ficou em silêncio, a observando por alguns segundos. Era mesmo a sua cunhada que estava ali? A voz parecia a mesma, mas não a aparência. Procurava estar sempre arrumada, perfumada e bem penteada, naquele momento, ela era o oposto de tudo aquilo, até mesmo seu olhar era diferente.
– Nem mesmo sei porque estou aqui.
– Como não? — ela riu nervosamente – Para me tirar daqui, não é? Olhe, sei que pra vocês isso que fiz com Dora foi um sequestro, mas...
– Abigail. — ele a fez parar de falar e prestar atenção nele. — Eu que lutei para que você ficasse aqui. A prisão é boa demais pra você.
O sorriso da mulher desapareceu tão rápido quanto apareceu.
– Como pôde Maurice? Sou sua cunhada!
– Ex–cunhada. Se não sabe Doralice está morta, mas se ela estivesse viva pode ter certeza que ela estaria aqui com você. O que vocês fizeram foi criminoso e maluco!
– Ora. — ela riu, se encostando na cadeira. — Veio aqui só para repetir o que me dizem todos os dias? Que sou louca?
– Eu vim aqui para te dar uma explicação do porque está aqui. Talvez passando um tempo neste manicômio vai perceber que todos concordam que você é louca a não ser você mesma.
– Pois mil homens e mil mulheres podem me dizer que sou louca, mas eu nunca, ouça bem Maurice, nunca vou achar que o que fizemos foi loucura. Era a sua filha que tentávamos salvar quando você chamou a merda da polícia! — seu tom foi aumentando a cada palavra e ela voltou a inclinar o corpo para frente. Maurice ouvia tudo com um semblante intacto.
– Eu confiei em você Abigail, e você só fez deixar minha esposa mais transtornada.
– ELA SÓ QUERIA A FILHA DE VOLTA! CRISTO! — berrou, se levantando. Ao fazer isso sua cadeira caiu para trás e causou um estrondo. O homem que estava sendo visitado pela senhora gritou, tapando os ouvidos. — OLHE A PORCARIA DE LUGAR EM QUE ME COLOCOU POR TENTAR RECUPERAR A SUA FAMÍLIA, INGRATO! MALDITO SEJA, MAURICE CHAMPOUDRY! MALDITO, SEJA! PELO AMOR DE DEUS FAÇA ESSE HOMEM PARAR DE GRITAR! VEJA O QUE FEZ MAURICE, VEJA!
Abigail nem percebeu que antes mesmo de começar a gritar, já estava sendo segurada por um guarda e uma enfermeira que tentava enfiar uma agulha em sua veia. Estava esperneando, com sangue nos olhos mirados para Maurice, ele permaneceu sentado vendo sua ex-cunhada cheia de classe se transformar numa mulher irreconhecível.
Uma enfermeira também conseguiu acalmar o homem que gritava, mas não precisou usar medicamentos, com ajuda da senhora, elas silenciaram o rapaz assustado. Assim que a paz reinou novamente, um guarda que ficou do lado de fora entrou na sala.
– O senhor está bem?
– Claro. — Maurice respondeu se levantando da cadeira. Viu Abigail sendo levada para fora e suspirou. — Tomem cuidado com essa mulher, vai agir assim sempre que for contestada. — o guarda apenas assentiu e acompanhou o prefeito para fora.
Abigail acabou dormindo pelo resto do dia e a madrugada toda por conta dos calmantes. Na manhã seguinte, mal se lembrava do que tinha acontecido, mas todas as cenas foram voltando a sua mente conforme passavam as horas, mas ainda estava confusa. Quando voltou a se sentar em sua poltrona, era como se tivesse adormecido ali mesmo e tudo foi um sonho. Sentia um ódio mortal por Maurice, a “ingratidão” dele a enfurecia, tinha vontade de quebrar tudo que havia pela frente e bater nas pessoas que estavam ali. Olhava para cada uma com desprezo, esquizofrênicos e psicopatas, balançava a cabeça, não se achava parecida com nenhum deles, nem um pouco.
– Com licença... Posso sentar-me aqui? Não há mais cadeiras e minhas pernas doem.
Era uma moça de uns vinte anos ou menos, tinha cabelos loiros platinados e olhos apertados. Trajava roupas parecidas com as suas. Ela pedia para sentar-se em uma poltrona rosa acinzentada que havia ao lado de Abigail.
– Como quiser. — Abigail respondeu, dando os ombros.
– Me chamo Victorine. — continuou. Abigail ainda estava preguiçosa, não estava com vontade de fazer novas amizades no momento, mas a educação lhe impedia de ser grossa.
– Abigail, muito prazer. — apesar do cansaço, ficou curiosa. — Parece ser uma moça tão inocente, o que faz aqui?
– Meu irmão mais velho me internou depois que “matei” meus pais... — fez as aspas com os dedos e balançou a cabeça — É o que ele diz, eu não me lembro de nada. — a moça deixou a cabeça tombar para trás e encostar na poltrona. Respirou fundo, fechando os olhos. — Acho que ele os matou para pegar a herança, e me incriminou para não dividir. Eu tenho esquizofrenia, mas estava fazendo tratamento, estava bem melhor, até consegui um namorado. — a menina voltou a olhar para Abigail e sorriu. — Ele era lindo e muito carinhoso, mas ele acredita no meu irmão... — o sorriso ficou triste. — Não posso culpá-lo, meu irmão trabalhou bem.
– Como sabe que você não os matou?
– Quando tinha ataques eu me lembrava bem deles. Depois de tantos anos de tratamento, não creio que a doença viria com tanta força a esse ponto. Eu já havia falado com meu irmão, disse que não queria nenhum dinheiro, entramos em um acordo... Mas foi quando contei sobre minha gravidez que ele começou a agir estranho.
Só então Abigail notou a barriga da menina. Parecia estar de quatro meses.
– Oh, está grávida, neste lugar. Que droga.
– Sim, — concordou – talvez Valentin pensou que eu mudaria de ideia e quereria o dinheiro e aí fez isso... Seria bem mais fácil matar a mim, mas penso que ele quer que eu sofra. Nunca gostou de mim.
– Sinto muito por isso...
– E você? Por que está aqui?
– É uma longa história para uma pessoa que acabou de acordar de catorze horas dopada. — Abigail mostrou as marcas em seu braço, tanto da agulha quanto dos dedos do guarda quando a tiraram da sala. Victorine suspirou, assentindo com a cabeça. — Mas então, como se chamará sua criança?
– O nome do pai. — ela sorriu, passando a mão pela barriga. — Raul.
Abigail lembrou-se do que escreveu em seu diário, a única coisa que aparecia com mais nitidez em sua mente. “Essas horas, Madeleine está por aí, meu filho está por ai, e não há nada que posso fazer.”
Ela olhou assustada para Victorine, que correspondeu com um sorriso, sem reparar na sua surpresa. Logo um vestígio de sorriso foi aparecendo até formar um completo e feliz.
Finalmente.
–
– É, quem poderia imaginar, as aparências enganam... Mas você pode visitá-la e até levar Raul consigo, mas não sei como ela reagiria. Seria um prazer recebê-lo em minha casa, agora ela parece bem maior... É, eu também sinto muito... Bem, estou a sua espera. Boa noite Louis.
Maurice desligou o telefone e foi direto para seu quarto. A visita que fizera a Abigail não o fez tão bem, a verdade era que não gostava de vê-la sofrer daquela forma, mas era algo necessário e não se arrependia do que fez. Mas o que viu foi tão forte que estava decidido a fazer mudanças, nenhum marido, nenhuma família merecia passar por aquilo. Decidiu que não permitiria que aquilo se repetisse.
Conversou com seu secretário de planejamento e revelou seu desejo de fazer um projeto em que mães que perdessem seus filhos tivessem acompanhamento psiquiátrico gratuito. Seria difícil, mas não descansaria enquanto não conseguisse chegar a cem por cento de seu objetivo, não poderiam brincar com situações como aquela. Algumas mães superavam, mas outras não.
Quando adentrou no quarto, acabou encontrando algo fora do comum.
Quando Doralice morreu, passou muitos dias sem dormir, se dormiu, foi no sofá da sala. Quando entrou em seu quarto e lembrou de tudo o que viveu com Doralice ali, sentiu-se tão enfurecido que acabou destruindo tudo que viu pela frente. Justina precisou arrumar tudo no dia seguinte, mas algo não estava normal. A escrivaninha estava a uns cinco centímetros da parede, e havia algo apoiada nela, entre a parede e o móvel.
Maurice se aproximou e arrastou a escrivaninha para frente e viu quando o piso caiu e fez um som agudo ecoar. Junto caiu mais uma coisa, que ele só reconheceu quando se agachou.
Era o diário de Doralice, aquele maldito caderno tão misterioso que escondia todos os seus planos. Pensou naquela vez que Abigail o pegou bisbilhotando, se tivesse prosseguido, tudo teria sido evitado, mas agora não havia motivo para não ler, não tinha quem lhe desse sermão.
Se levantou e abriu o caderno, mais que a metade, quase no final e começou a ler.
“Estou tão feliz, o jantar com Maurice foi maravilhoso, mas também estou frustrada. Quando Madeleine nascer eu não poderei ficar com ela e Maurice, ele nunca entenderia meus motivos, ele é tão tradicional. Pode ser o homem mais maravilhoso de todos, mas este é seu defeito, na verdade, é o defeito de todos os homens: simplesmente não entendem as mulheres. Mas como gostaria que entendesse. Amo meu marido, nunca amei um homem como ele, ele me deu uma filha maravilhosa e que agora está voltando, não posso perder essa segunda chance que a vida está me dando. Não será nada fácil deixá-lo aqui sozinho e fugir, será triste, mas Madeleine e seus belos olhos me consolará. Céus, ela é tão linda, mal posso acreditar que terei minha menininha de volta, eu sabia que ela não tinha virado uma estrela, ela é linda demais para se tornar algo tão simples e banal...”
Maurice parou de ler, lembrando-se das últimas palavras de Dora. “A ensine que não serei uma estrela”. Era como se ela estivesse na sua frente falando aquilo, como se ainda visse todo aquele sangue. Sentiu a lágrima quente escorrer de seu olho, ele secou rapidamente e fechou o caderno, deixando em cima da escrivaninha. Teria muito tempo para ler tudo aquilo, quem sabe lançar como um livro. Se arrependeu desse pensamento.
Ele andou até a janela e observou a noite, o céu estava limpo e com nuvens, mas, ainda assim, havia algumas estrelas ali, próximas, brilhantes e bonitas. Maurice focou apenas nelas por alguns minutos.
– Tem razão, meu amor. Vocês duas são lindas pra isso. — ele disse, mas não para si mesmo, mas como se tivesse mais alguém no quarto com ele. — Vocês nunca serão estrelas.
Fale com o autor