Obsessão

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Bem, esse é o primeiro capítulo da minha nova short-fic. Espero que agrade a todos e gostaria muito de receber reviews, sejam eles pra elogiar ou criticar. Mas queria pedir, por favor, que se for criticar, que seja educado, apontando o que está ruim e se tem alguma ideia que pode fazer melhorar. Muito obrigada. Boa leitura!

É comum, após a morte de uma pessoa, alguém apontar para uma estrela qualquer no céu e dizer “Está vendo aquela ali? É a sua mãe”, ou o seu tio, ou o seu irmão... Ou o seu filho. Infelizmente, Doralice não acreditou nesta e preferiu acreditar que o seu bebê recém-nascido e recém-falecido ainda poderia lhe dar alguns sorrisos, pelo menos mais um. Ousava olhar o céu estrelado no outono francês e deixar um sorriso debochado escapar de seus lábios vermelhos, zombando daquelas almas que agora só serviam pra ser apontadas e enfeitar um pouco aquele pano azul escuro, assim como fazia naquela noite, uma semana após enterrar Madeleine. Sua linda garotinha de cabelos tão claros que mal apareciam, mas ela tinha lindos e assombrosos olhos azuis que não fariam ninguém se importar com suas madeixas brancas.

Estavam muito preocupados com a situação de Dora, principalmente seu marido, Maurice Champoudry, o prefeito de Arles. Se não bastasse o sofrimento pela perca da filha, a primeira dama de Arles ainda tinha que aturar a cada 5 minutos um emprego perguntando se estava tudo bem, se precisava de algo, se queria que o motorista a levasse para a casa de alguma amiga ou para a casa da irmã. Ela se sentia impotente no meio de tantas pessoas com olhares de pena e misericórdia. Até o dia em que surtou.

Após o velório de Madeleine, tarde da noite, toda a família materna e paterna do Prefeito Maurice que viera de longe apenas para a ocasião foi para a mansão do homem para se hospedar, já que não eram todos que tinham dinheiro para ficar em um hotel – e ao invés disso, preferiram ficar na casa de Maurice, uma ironia, muitos empregados repararam nisso.

Todos tinham a atenção presa em Doralice, que permaneceu quieta o dia todo e o olhar vago. Não ficou ao lado do caixão da filha nem um segundo, apenas olhou de longe quando chegou no salão e então, sentou-se em uma poltrona no canto da sala e assim ficou desde o início da tarde até a hora de ir embora. Era como levar uma facada cada vez que via a filha sem vida. Em casa, ela continuou calada, passou por todos e foi direto para a escada, seguindo para seu quarto.

Quando estava quase no topo, ouviu alguém lhe chamar e apenas parou, sem se virar para ver quem era, pois já sabia quem a incomodava e também sabia o motivo. Pelo tom de voz da pessoa, não era só o seu nome que queria gritar.

– Estamos fartos disso! Diga-nos se está bem ou não, está nos matando de preocupação. Por Deus, mulher!

A mão gélida e pálida apertou o corrimão de madeira e sua cabeça abaixou-se um pouco. Ela puxou a maior quantidade de ar que podia e o prendeu um pouco dentro de si, para que ele conseguisse tomar toda a raiva que havia ali e então, a liberou quando soltou sua respiração. Permaneceu sem virar a cabeça para a sogra chata, mas agora a velha subia as escadas e estava cada vez mais próxima de Dora.

– Ande! – ela ficou ao lado dela, olhando seu rosto de perfil, a expressão vaga. – Estamos sofrendo tanto quanto você!

Isso fez Doralice virar sua cabeça para o lado para encarar a senhora. As sobrancelhas cinzas curvadas para baixo, fazendo rugas aparecerem. Uma veia saltava do pescoço da senhora, uma veia verde e horrível.

Doralice segurou os ombros da velha e a empurrou para o lado. Ela desceu rolando escada a baixo, gritando e desarrumando o tapete vermelho que enfeitava os degraus. Gritos foram ouvidos de todos os lados. Doralice olhava do topo com a mesma expressão vaga, sentindo-se melhor de alguma forma.

E então, voltou a realidade.

Tinha viajado para o mundo da imaginação. A velha continuava ali, esperando alguma resposta. Não tinha gritos, não tinha desespero, mas ela queria que tivesse, ela queria sentir aquela sensação de sua mente. Ela chegou a levantar as mãos para empurrá-la, mas no momento em que se perdeu nos pensamentos, não percebeu que seu marido estava bem ali, atrás dela.

– Já chega mamãe. Ela está cansada, não é hora pra is...

– Eu quero responder ela. – Dora levantou sua mão de dedos finos para Maurice, para que ele parasse de falar.

– Você não vai querer enfrentá-la, querida. – Maurice sussurrou para que a mãe ranzinza não o ouvisse. Viu o olhar indignado de sua esposa pousar sobre ele. Naquele exato momento, sabia que tinha dito algo errado.

– Desde que o meu lindo bebê parou de respirar as pessoas vem dizendo o que eu devo fazer. “Não pegue ela! Não aperte ela! Não a abrace! Dê para mim! Não pode ficar com ela, ela está morta! Vamos velar amanhã! Não há jeito! NÃO ENFRENTE A MINHA MÃE, NÃO QUERO QUE ELA BRIGUE COMIGO POR NÃO SER UM MARIDO SUPERIOR A MINHA ESPOSA! – a cada frase que entoava, seu tom de voz aumentava e ficava mais cheio de raiva.

– Ora, se contenha. Menina malcriada! – a Senhora Champoudry olhou Doralice da cabeça aos pés e dos pés à cabeça, desaprovando totalmente sua atitude equivocada e fora dos padrões de gente fina.

– Se contenha a senhora. – sua voz voltou a ficar baixa, mais grossa e pressionada, tinha ódio em seu olhar, muito ódio. Em sua cabeça, a cena da sogra rolando escada a baixo a agradava ainda mais. Como seria bom ver aquilo com os próprios olhos. – Não foi a seu filho que morreu engasgado com seu próprio leite! Ninguém nessa merda de sala, ninguém nessa merda de cidade está sofrendo tanto quanto eu. – ela fez uma pausa e manteve o olhar na velha, que mantinha a expressão firme, mas estava se assustando. – Você tem ideia de que eu MATEI A MINHA FILHA?! – a frase terminou em choro, os olhos brilhavam com as lágrimas querendo escapar. O lábio inferior estava tremendo. Ela fechou as mãos e manteve os braços colados ao corpo. – COMO PODE DIZER QUE ESTÁ SOFRENDO TANTO QUANTO EU?! COMO? SUA ORDINÁRIA! MENTIROSA! ISSO RESPONDE SUA PERGUNTA? EU PAREÇO BEM? UMA MÃE QUE PERDEU O FILHO PODE ESTAR BEM? BURRA! BURRA!

Enquanto prosseguia em sua sessão de xingamentos à sogra, Maurice a agarrou pela cintura e a arrastou para cima com certa dificuldade, precisava cuidar os degraus que faltavam para o piso de cima. Depois que o alcançou, não foi difícil levar Doralice para o quarto do casal e atirá-la na cama com muita força. Ela tentou se levantar de novo. Maurice subiu em cima dela e segurou seus pulsos no colchão.

– Não ouse nunca mais falar desta forma com minha mãe. Entendeu?! Eu te mato, Doralice. Eu juro que te mato!!!

O olhar indignado ainda estava sobre ele, mas logo foi se desmanchando. As sobrancelhas se levantaram e ela desabou em um choro profundo e de muita, muita tristeza. Ela não resistiu mais, relaxou seu corpo e sentiu as dores nos pulsos, que ainda estavam sendo segurados.

Tomado por pena e remorso, Maurice largou a esposa e se afastou. Passou a mão pela barba de 3 dias que já o incomodava e respirou fundo. Era sua esposa que estava ali. Tinham acabado de perder o filho tão desejado. Fizeram de tudo para terem aquela criança, principalmente Doralice. Era mais que justo que ela agisse daquela forma. O que não era justo era a vida ter sido tão cruel com sua amada Dora.

– Me desculpe. Meu amor, me desculpe, eu... – ele se reaproximou para tocá-la, mas ela se encolheu com medo. Puxou suas pernas para cima da cama e foi para trás, o mais longe que conseguiu ficar dele. – Dora...

– Fique longe de mim. Eu não preciso de você nem da sua família patética. – as lágrimas caiam descontroladas. Ela fez uma pausa, observando o arrependimento de Maurice, então riu. Começou com um pequeno curvar de seus lábios, logo seus dentes brancos se revelaram. Segundos depois, a gargalhada era tão alta que os parentes de Maurice poderiam ouvir no andar de baixo, certamente confusos e fazendo críticas ao humor bipolar da mulher, já que não tinham a capacidade de entender o sofrimento dela.

Maurice não poderia estar mais confuso. Doralice continuava rindo, tentando se recompor, tentando dizer algo e não conseguia.

– Posso te contar um segredo? – ela disse quando se recuperou. Maurice a via como uma bêbada que estava prestes a revelar que traia o marido ou que matara um cachorro certa vez. – Eu não perdi o meu bebê.

– Querida, acabamos de velá-la...

– Não, não, não. – ela ergueu o dedo indicador e o balançou, fazendo um gesto de negação. – Você a velou. O meu bebê vai voltar. Minha linda Madeleine não morreu, Maurice. E nem você e nem a sua família nojenta vai tocar no meu neném. Entendeu?

– Doralice, nós escolhemos o caixão, nós a vimos no necrotério, não se lembra? O corpo dela estava gelado...

– À MERDA VOCÊ E SEU CAIXÃO E SEU CORPO GELADO! – ela gritou, tão de repente que assustou Maurice, o fazendo dar um passo para trás. – Sai daqui. SAI DAQUI! AGORA! SAI DAQUI! EU QUERO FICAR SOZINHA COM MEU BEBÊ, SAI DAQUI! SAI!

Não era sua esposa que estava ali. A primeira dama, sempre elegante, educada, generosa com os moradores de Arles. Sempre sorrindo com um olhar alegre e esperançoso. Nem mesmo era uma mãe depressiva, arrasada com a perda do filho e sem fé na vida. Era uma pessoa completamente diferente. Uma louca, obsessiva e triste, muito triste. De alguma forma triste, Maurice percebeu que aquilo não era só uma fase.

Sem dizer mais nenhuma palavra, Maurice saiu do quarto, deixando aquela cena lamentável de sua esposa sorrindo em meio ao pranto. Ele desceu as escadas e encontrou uma outra cena lamentável, mas pelo fato de ser patética e não por ser trágica.

Sua mãe, a finíssima Senhora Louise Mabelle Champoudry sentada em uma poltrona, um copo na mão com o que parecia água, mas branca. Água com açúcar. Estava envolta de metade das pessoas de sua família. A família paterna de Maurice, os DuBois, estavam espalhados em pequenos grupos por toda a enorme sala, fofocando. Alguns falavam sobre o estado de Dora, outros zombavam do drama de Louise.

– Vê isso, meu filho? O quão nervosa sua esposa me deixou? Veja minha situação. Acudida por esses meninos que mal saíram das fraudas.

Ela se referia aos sobrinhos mais novos, tinham entre 15 e 20 anos. Estes se entreolharam com raiva e arrependimento por ter ajudado a tia quando ela – provavelmente – ia desmaiar.

Maurice olhou para sua mãe com certo desprezo.

– Já chega por hoje mamãe. Todos estão tristes, principalmente minha esposa. Não tente chamar atenção. – era tudo o que ele precisava dizer depois de tudo que viu em seu quarto. Percebeu que não tinha nada a fazer ali e deu as costas para Louise, dirigindo-se para seu escritório.

– Como ousa falar assim comigo, menino?! – imediatamente ela se levantou, como se nunca tivesse se sentido mal.

– Eu disse que já chega por hoje. – respondeu Maurice, parando no meio de sua caminhada lenta até o escritório. Quando não houve mais voz, ele voltou a andar e foi para seu destino.

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Era disso que Doralice se lembrava naquela noite em que zombava as estrelas. Lembrou de seu surto e da ótima sensação que teve ao enfrentar a sogra. Embora estivesse mais calma, suas ideias não tinham mudado. Ela tinha absoluta certeza de que voltaria a segurar sua Madeleine em seus braços e coloca-la para dormir. Apenas seu marido sabia daquela certeza e era óbvio que ele não acreditava, por isso Dora preferiu deixar tudo em segredo, não precisava de mais ninguém a dizendo que estava ficando louca.

– Não se preocupe querida. – ela disse, mas não para si mesma, mesmo que estivesse sozinha no quarto. Ela olhou novamente para as estrelas e balançou a cabeça em negativa. – Você não é uma delas.

Notas finais
Então é isso. Espero que tenham gostado e ficarei feliz se puder deixar um comentário com sua opinião. Obrigada!