Obsession

24 Oscilação


Oscilação

Hermione abriu os olhos, sentindo-os lacrimejarem à medida que a luz do dia entrava pelo quarto e a engolfava. Espreguiçou-se de forma automática, sentindo os músculos esquentarem com o gesto, e um vazio estranho ao seu lado, no colchão.

Virou o rosto, procurando pela pessoa que estava ali quando ela havia dormido. Pensou seriamente que estava sendo tola em ficar surpresa pela ausência dele. O cheiro dele ainda impregnava os lençóis, e ela passou automaticamente as mãos ali, sentindo as rugas do pano onde horas atrás estava o corpo dele.

Repreendeu-se. Sentir o aroma dele ali a fez lembrar-se da noite passada. Não poderia dizer com convicção até que horas o snatcher havia ficado, estava exausta e tinha dormido logo em seguida. Mas algo a perturbava.

O sexo fora mais intenso do que ela já havia lembrado de ter feito com ele.

A noite inteira fora mais intensa, pensando melhor. Ainda não conseguia entender o motivo do homem ter dito que se preocupava com ela, que temia por ela, quando tudo o que ele fez desde que a conhecera foi usá-la como objeto de desejo incontrolado. E ele estava claramente desconfortável com a situação na noite anterior. Hermione tinha certeza de que se ele não estivesse sob efeito de álcool, acharia a entrega dela e a demonstração de desejo um tanto quanto perturbador demais para continuar com tudo aquilo.

Passou novamente a mão no lençol, perguntando-se onde ele estaria. Olhou o relógio da cabeceira, já passava das dez de manhã. Ela suspirou, estava dormindo demais nos finais de semana. Normalmente acordava às sete para trabalhar em alguns pergaminhos, mas o cansaço sempre predominava quando noites como a anterior aconteciam.

Como ele estaria?

Não tinha escutado nenhum barulho de porta, nem mesmo o som de passos apressados caminhando pelo piso elegante. Havia se acostumado com aquele tipo de barulho, então pela primeira vez desde que se casara, sentia que estava só em casa.

Percebeu que se quisesse realmente saber o paradeiro do homem que chamava de marido – mesmo que ele nunca demonstrasse ser isso – teria que sair da cama e procurá-lo.

Retirou a fina coberta do corpo e saiu do colchão com relutância, caminhando para a suíte. Olhou-se no espelho. As olheiras haviam sumido há tempos, os cabelos estavam desalinhados, mas ainda assim não a incomodavam a ponto de usar uma escova. Apenas fez um coque, usando o próprio cabelo para dar o nó, algo que mulheres trouxas faziam sempre.

E no momento que olhou para o pescoço agora descoberto, percebeu marcas arroxeadas por toda a extensão da pele branca. Os seios também tinham leves rastros marcando o caminho que ele traçara com mais paixão. Hermione não se importou muito com tal fato, e ficou surpresa com a sua própria reação.

Parou de enrolar e escovou os dentes, jogando água gelada no rosto, acordando rapidamente com esse gesto. Quando viu que estava mais apresentável, pegou um penhoar de seda cor de salmão de um cabide dourado e jogou-o no corpo, fechando-o com uma fita delicada do mesmo tecido.

Estava descalça quando caminhou para o corredor, os olhos castanhos e observadores correndo por cada canto do apartamento à procura dele. Bichento estava dormindo em uma poltrona da sala quando ela entrou no cômodo procurando pelo homem. O gato estava tranquilo, algo que só acontecia quando o snatcher não estava por perto. Franziu o cenho. Aquilo estava ficando estranho.

Nem mesmo um copo sujo estava na pia da cozinha, nem mesmo uma roupa jogada. Se Hermione não soubesse que ainda estava casada, acharia que ainda morava sozinha.

Entrou novamente no corredor e percebeu que teria que ir diretamente ao quarto dele. Poderia ainda estar dormindo. Provavelmente estaria. Então ela iria só se certificar de que ele estava lá.

Com cuidado, abriu a porta do quarto dele e ficou surpresa com o que viu. O quarto estava inundado com a luz do dia. As cortinas estavam totalmente abertas, revelando uma cama intocada, como se ele não tivesse dormido aquela noite em casa.

Se não tivesse ficado tão tarde na noite anterior, ela poderia concluir que ele havia saído novamente para se deitar com outra ou beber mais um pouco. Mas não, lembrou-se de ser quase três da manhã quando havia sucumbido ao sono. Ela percebeu que havia apenas uma explicação para a cama dele estar arrumada: ele havia dormido com ela a noite inteira.

Não se dedicou muito tempo pensando naquele assunto. Deixava-a inquieta pensar que tinham dormido juntos. Não queria aquele tipo de laço com ele.

Uma pequena nuvem de vapor saiu pela porta entreaberta do banheiro e Hermione percebeu que ele estava no banho. Sentiu-se burra por estar ali, à procura dele sem nenhum motivo específico.

– Scabior?

Chamou-o pelo nome, achando estranho o som sair de sua boca. Parecia fazer cócegas. Não houve resposta. Ela concluiu que ele não havia escutado. Atravessou o quarto em passadas rápidas e largas, mas quando sua mão envolveu a maçaneta da porta, ela relutou.

Estaria invadindo a privacidade dele, claramente.

Deu de ombros, um pouco mais aliviada ao saber que ele tinha tomado essa mesma atitude com ela diversas vezes.

Empurrou a porta com calma, sentindo o vapor quente bater em seu corpo.

O homem que procurava estava na banheira, a água claramente mais quente do que o normal cobrindo apenas até a altura da sua cintura. Os olhos sérios e azuis profundos estavam focados com determinação na água parada. O queixo não parecia relaxado, como se ele estivesse pensando em algo complexo. Hermione nunca o havia visto daquela maneira. O peito subia e descia com um pouco de dificuldade. Os cabelos — sempre trançados e bagunçados — estavam totalmente desembaraçados e jogados para trás, exibindo o rosto masculino.

E ela não pôde deixar de notar que ele era um homem muito bonito.

Ela se aproximou um pouco. Os olhos azuis a fitaram por alguns segundos de forma vaga, como se para ele, ela não estivesse realmente ali. Mas logo depois ele os focou novamente na água parada, ignorando-a completamente.

– Você não vai a algum bar hoje?

Os olhos azuis a fitaram dessa vez mais profundamente, a raiva gravada no gesto com clareza. O primeiro sinal de que ele agora a escutava. Mas aquilo não demorou muito, logo ele os desviou para um canto da parede de azulejos claros do banheiro.

Hermione respirou fundo, as mãos femininas indo em direção ao laço delicado do penhoar. Ela o desfez, exibindo o corpo no momento que o tecido sedoso deslizou por ele. Os olhos azuis do snatcher relutaram em olhar, mas o desejo da visão venceu. Ele a fitou dessa vez mais demoradamente.

Ela jogou o penhoar no chão e entrou na banheira, sentindo a água quente e limpa lhe envolver à medida que ela se abaixava.

– O que está fazendo?

Ele perguntou, sem conseguir ignorar a atitude dela. Pela primeira vez no dia ela escutou a voz rouca dele, e ficou um pouco satisfeita quando percebeu que a atenção dele agora estava totalmente voltada para ela. Sentou-se, olhando-o com atenção.

– O que aconteceu ontem...

– Não aconteceu nada ontem.

Ele a cortou de uma forma rude e inesperada. Hermione fechou a boca antes mesmo de terminar a frase, recostando-se na banheira e observando-o melhor. Scabior suspirou, apoiando os braços molhados naborda da banheira e a cabeça na porcelana fria. Fechou os olhos, tentando ignorá-la. Ela aproveitou aquele momento para fitá-lo melhor.

Conseguia ver o nariz reto e anguloso, que combinava com os lábios nem tão cheios, nem tão finos, mas firmes e rudes. O rosto inteiro dele era rude. Com os cabelos soltos e molhados, parecia um selvagem tomando banho. Engoliu em seco.

Antes que pudesse perceber, ela se aproximou dele, não conseguindo se conter, como se o corpo dele fosse um imã natural ao seu corpo. Totalmente opostos, mas que se atraíam como uma força sobrenatural e incontrolável.

Scabior sentiu-a se aproximar, o cheiro dela lhe engolfando. Sentiu a água da banheira se mexer levemente ao movimento dela. Abriu os olhos, fitando-a dessa vez com mais atenção. Na verdade, estava fitando com mais atenção do que queria e deveria.

O rosto dela estava a centímetros do seu rosto, a pele branca e perfeita tão alcançável que fez a boca dele salivar, os olhos castanhos cravados nos olhos dele como se estivessem lendo-o, como se estivessem atentos a qualquer movimento do corpo dele. E estavam.

Os lábios rosados o chamavam, ele olhava para aquele ponto no rosto da garota como se aquilo fosse algo perigoso para ele no momento. Hermione percebeu o homem ficar um pouco desconfortável com a sua aproximação e perguntou-se o motivo daquilo. Ele não a queria perto sempre? Por que quando ela se aproximava, a reação dele era completamente diferente? Parecia assustado. Scabior engoliu em seco.

Ela cansou-se um pouco das suposições. Apoiou-se no degrau da banheira, cada braço em cada lado do corpo dele. Inclinou-se para ele, vendo os olhos azuis cravarem em seus seios desnudos. Encaixou-se no homem, percebendo que ele já estava excitado.

– Não aconteceu nada ontem?

Ela perguntou a ele, não esperando nenhuma resposta. Queria apenas deixá-lo preocupado, inquieto com aquela situação. Era algo fascinante vê-lo dessa maneira. Scabior continuou a olhá-la. Ela se aproximou, tomando o lábio inferior dele com os seus e mordendo-o com pouca força. Sentiu-o pulsar perto de sua perna. Ela sugou o lábio e ouviu-o soltar um gemido contido de frustração.

– Não se preocupe. Não aconteceu nada.

Ela disse e se afastou vagarosamente do rosto dele, olhando-o com um misto de divertimento e desafio. Ele conseguia ver cada característica do olhar dela com facilidade. Parecia conhecê-la hámais tempo do que conhecia na verdade para isso. Ela se afastou subitamente dele, levantando-se na banheira. A água escorreu pelo corpo esbelto, deixando um brilho na pele clara que a fazia ficar ainda mais apetitosa.

Hermione se virou para sair da banheira.

– O que está fazendo?

Escutou-o perguntar, e quando foi dar o primeiro passo, sentiu a mão masculina e firme lhe pegar o pulso. Ele a puxou com um pouco de força e ela caiu na banheira novamente, soltando um pequeno grito com o susto. A água espalhou pelo chão branco do banheiro, molhando o azulejo. A perna de Hermione começou a doer um pouco por ter batido no degrau da banheira.

– Mas que mer...

Porém, antes que ela pudesse reclamar da dor, ele a calou com um beijo. Ela sentiu ali o beijo que estava acostumada a experimentar. Violento, voraz, cada movimento dos lábios demonstrando o desejo ardente que sentiam um pelo outro. Estava mais familiarizada com aquele beijo.

A língua dele entrou em sua boca e travou uma batalha com a dela. Ele a puxou com facilidade por causa da água, fazendo-a se encaixar novamente nele. Sentiu-o excitado. Ele acalmou o beijo então, parecia um animal sendo domesticado. Quando conseguia o que queria, começava a ficar mais manso. Os movimentos de sua boca diminuíram a velocidade, a língua dançou de forma mais vagarosa na boca dela.

Sentiu as mãos dele pegaremsuas coxas e as puxarem para que ela ficasse sentada nele. Hermione terminou o serviço, pegando o membro dele e direcionando para a entrada dela. Mexeu o quadril para ele penetrá-la. Ambos gemeram com a sensação diferente. Ela sentiu um pouco de dor por causa da água, mas o prazer de experimentá-lo novamente dentro de si predominou.

Movimentou o quadril de forma contida. Olhou-o com um pouco de relutância. Não gostava de fitar aqueles olhos azuis quando ele a tomava. Sentia-se um objeto dele, impotente. Sentia-se vulnerável. Mas percebeu algo diferente quando o analisou. Ele parecia estar mais vulnerável que ela no momento.

– Aquilo ontem não foi nada.

Ela disse, repetindo o óbvio para que ele ficasse mais tranquilo. Afinal, aquela entrega de ambos eaquela preocupação tola não passou de algo do momento, não? Então por que ela se importava tanto em repetir que não fora nada? Ele não respondeu, apenas a segurou pela cintura e emergiu da água. Hermione sentiu o corpo se arrepiar quando o vento gelado da manhã bateu em sua pele.

Ele caminhou para fora do banheiro com experiência, segurando-a firme contra si, indo em direção à cama e colocando-a com cuidado no colchão. Uma quebra de padrão. Ele nunca a colocava no colchão, sempre a jogava. Scabior não deu tempo para que ela pensasse a respeito disso, logo a invadiu novamente e começou a estocar com mais força.

Não tirava os olhos azuis dos olhos castanhos quando o fazia. Vê-la morder o lábio quando ele a invadia por completo, vê-la abrir os lábios e soltar um gemido de redenção completa, era tudo o que ele gostava de fazer. E o aroma... de baunilha.

– Aquilo ontem não foi nada... Hermione.

Disse o nome dela sem pensar muito. Ela percebeu que adorou aquele som saindo da boca dele, de forma contida, como se ele estivesse pedindo uma autorização dela para dizê-lo. Scabior continuou a penetrá-la, abaixando a cabeça e enfiando os dentes no pescoço alvo. Ela gemeu, sua pele já estava machucada, se aquilo se tornasse uma rotina, teria que usar poções para hematomas todos os dias. Mas não se importou, apenas focou sua atenção no peso do homem em cima dela e na forma como ele a tomava.

Não demoraram muito para chegar ao ápice. Ambos gemeram em uníssono, ele desabando nela novamente. Senti-lo ali parecia... certo. Antes que ela pudesse pensar no que estava fazendo, correu os braços pelas costas molhadas dele, sentindo o cabelo encharcado encontrar a sua pele também molhada. Abraçou-o. Scabior pousou o rosto nos seios dela, sentindo a respiração da garota retomar o ritmo normal à medida que os minutos se passavam.

Não pensaram muito sobre o significado daquilo. Não queriam. Ambos estavam com medo da resposta.

[...]

Horas haviam se passado. Hermione olhava para o relógio dourado que ficava pendurado na parede em frente a cama, os ponteiros indicavam que a noite já havia chegado, mas ela não precisava de um relógio para isso, o quarto estava escuro demais para que ainda fosse dia.

Sua cabeça estava pousada no peito do homem, o braço direito cobria o abdômen dele, sentindo-o respirar com tranquilidade. Sabia que ele estava acordado. Silencioso, mas totalmente acordado. Não haviam trocado uma palavra desde que ele falara o seu nome. E Hermione duvidava que aquele momento fosse o ideal para uma possível conversa.

Sentia os dedos dele acariciarem seu cabelo com relutância, mas ele não parecia realmente perceber isso. Fazia automaticamente, como se estivesse passando o tempo com as mãos.

Ela lembrou-se de algo subitamente.

Sentou-se na cama, sentindo o estômago roncar devido às horas sem comida. Não havia se alimentado desde que acordara. Sentiu-se um pouco cansada por causa disso. Antes que pudesse se levantar do colchão, a mão dele envolveu seu braço. Ele a puxou novamente.

– Aonde você vai?

Ele perguntou, visivelmente desconcertado por causa do seu próprio gesto. Ela o olhou com intensidade.

– Estou com fome. Vou comer.

Ele a puxou para ele, beijando-a nos lábios.

– Você pode comer depois.

Ela soltou um gemido de frustração. Se aquilo continuasse, não sairiam dali nunca. Comer era algo secundário quando se tinha ele na cama. As mãos do homem começaram a correr pelas costas dela, fazendo o arrepio familiar tomar a sua pele. Hermione se concentrou, colocando o que havia lembrado novamente em primeiro lugar.

Ela se afastou, saindo da cama antes que desistisse.

Ele tentou pegá-la novamente, mas Hermione jogou uma almofada na cara dele.

– Levante-se.

Ele a olhou sem entender.

– Posso saber por quê?

– Temos uma reunião hoje à noite.

Scabior fez uma careta de indignação.

– Que tipo de pessoa marca uma reunião para um sábado à noite?

Hermione deu de ombros, caminhando nua até o banheiro. Ele a observou, virando a cabeça para o lado, como se fosse um cachorro. Ela voltou já vestida com o penhoar. Scabior não gostou daquilo. Preferia vê-la caminhar nua no quarto dele.

– Pessoas responsáveis.

Ela respondeu a pergunta anterior, saindo do quarto. Ele escutou os passos em direção à cozinha e deitou-se, bufando e jogando a almofada no próprio rosto.

Poderia facilmente se acostumar com ela andando nua pelo quarto, mas a responsabilidade exagerada dela ainda era irritante.