Obsession
11 Marriage Law
Marriage Law
Hermione chegou ao Ministério da Magia mais cedo do que o normal. O barulho dos saltos altos reverberava pelo chão de mármore negro do Átrio, indicando que os passos dela estavam mais firmes do que era de costume também. A mão pálida segurava firmemente um exemplar do Profeta Diário, e ela conseguia sentir cada vez mais a raiva tomar conta de seu corpo à medida que o tempo passava.
As palavras da coluna de Rita Skeeter ainda flutuavam em sua mente, e Hermione se perguntava a todo instante como a maldita mulher conseguia tais informações. Ou ela estava se infiltrando na Travessa do Tranco, ou estava usando novamente seus dotes de animago.
Ela sabia que a segunda opção era a menos viável, ela mesma havia lançado feitiços de barreiras para esse tipo de coisa. Qualquer intruso, mesmo transformado em mosquito, que tentasse entrar em seu Departamento seria barrado de forma rude.
Mas ela sabia que Rita Skeeter seria capaz de entrar na Travessa do Tranco e pesquisar. Algumas pessoas tinham conhecimento dos dons de Skeeter, mas eram poucas. Ela temeu que a jornalista fofoqueira pudesse tê-la visto naquele lugar. Afinal, se passara apenas um dia desde que estivera lá.
Ela balançou a cabeça para mudar o rumo dos pensamentos e andou mais um pouco a fim de alcançar os elevadores e subir até o seu Departamento. Mas o que viu a fez parar. Algo estava errado, definitivamente o que seus olhos castanhos captavam não era normal.
O Átrio do Ministério estava cheio demais, e muito movimentado. Correu os olhos pelo ambiente e percebeu alguns bruxos desconhecidos correndo de forma abafada pelo local. Outros estavam quietos em um canto, imersos em pensamentos. Alguns estavam sentados chorando, sendo consolados por bruxos mais velhos.
O estômago de Hermione revirou. O primeiro pensamento que lhe tomou a mente foi a volta de Forças das Trevas. Seria possível, mesmo com a morte de Voldemort? Não queria acreditar naquilo. Se o mundo bruxo se envolvesse novamente em guerras por bobagens como linhagem e pureza de sangue, ela desistiria de sustentar uma varinha.
– Hermione!
Uma voz conhecida demais chegou aos seus ouvidos e o coração dela se acelerou. Ela virou-se para a origem do som e viu Harry andando calmamente em sua direção. Acalmou-se por um segundo, se o melhor amigo estava calmo ao andar, a situação não era tão perigosa.
Mas a forma como Harry a olhava fez com que a inquietação voltasse ao corpo dela. Ela conhecia muito bem o bruxo para saber que ele estava cauteloso. O que estava deixando-o assim? Ele parou em sua frente e beijou de leve sua bochecha. Os olhos cor de esmeralda a fitaram de forma contida.
– O que está acontecendo aqui, Harry?
Ele não respondeu, apenas estendeu-lhe uma carta endereçada a ela. Harry preferiu entregar ele mesmo, sabendo a reação que ela teria. Não queria essa responsabilidade para Archie. Conhecia Hermione a mais tempo do que o chefe dela para lidar com a situação.
Ela franziu o cenho e pegou a carta na mão do melhor amigo. Olhou uma última vez para ele antes de abrir o envelope e começar a ler o seu conteúdo.
Lei de Casamento
Prezada Senhorita Hermione Jean Granger,
O Ministério da Magia vem por meio desta informar sobre a nova lei implantada no dia vinte de maio de 2003, válida para toda a Grã-Bretanha.
Visando as consequências da guerra terminada em 1998, que deixou muitos bruxos mortos, a Lei de Casamento entra em vigor neste mesmo com um único objetivo: acabar com a possibilidade de extinção da raça bruxa.
Fique atenta às seguintes determinações:
Puros-Sangues:
– Deverão casar-se apenas com mestiços ou nascidos-trouxas.
– Serão proibidos de se casar com outros puros-sangues.
Mestiços:
– Poderão casar-se tanto com puros-sangues, quanto com outros mestiços ou com nascidos-trouxas.
Nascidos-trouxas:
– Serão proibidos de casar-se com outros nascidos-trouxas.
– Poderão se casar com mestiços.
– É aconselhável o casamento com um puro-sangue.
– O casamento com um mestiço poderá ser enviado para o Conselho e brevemente debatido.
– O casamento com um mestiço poderá ser impedido, caso exista algum puro-sangue disponível.
A Lei se aplica a bruxos e bruxas que não são de origem inglesa, mas que mantém residência fixa no país.
O objetivo das regras é evitar que nasçam abortos entre os muitos nascidos-trouxas e mestiços.
O bruxo que receber esta carta terá o prazo de dois meses para procurar um companheiro e se apresentar ao setor responsável pelos casamentos. Visando o objetivo principal da Lei, o casal que assinar os pergaminhos terá o prazo de no máximo um ano para gerar um filho.
Atenciosamente,
Ministério da Magia da Inglaterra.
Hermione releu a maldita carta inúmeras vezes, suas mãos tremendo mais e mais à medida que os olhos corriam novamente pelas letras. Não estava acreditando que aquilo era verdade. O Ministério da Magia deveria ser controlado por algum animal irracional para criar uma lei que obrigasse bruxos a se casarem e procriarem como se fossem crias do próprio Ministro.
Ela sentiu seu sangue congelar ao pensar no rumo que sua vida tomaria depois de tal carta. Uma tonteira se apoderou dela e os lábios ficaram secos em apenas alguns segundos. Ela fechou os olhos e quase se desequilibrou.
– Hermione?
Sentiu o braço de Harry lhe envolver com cuidado. Abriu os olhos e percebeu a preocupação do melhor amigo ao fitá-la. Ele sabia que Hermione teria reações desse tipo, mas não pôde deixar de ficar preocupado ao vê-la quase desmaiar.
– Você está bem?
Ela respirou fundo, buscando o controle que havia perdido do seu próprio corpo. Dobrou a carta cuidadosamente e encolheu-a com um feitiço, enfiando-a na bolsa cara de couro.
– Eu estou bem Harry... vou achar alguém, prometo.
Disse em um tom formal demais e Harry arqueou as sobrancelhas, não acreditando naquela reação. Ou ela estava em estado de choque ou escondia as suas reais reações.
Hermione pensou nas possibilidades que tinha. O rosto de Krum lhe veio à mente. Sabia que bruxo búlgaro estava solteiro e era puro-sangue. E sabia também que ele estava para mudar para a Inglaterra. Ele havia lhe confidenciado na noite em que passaram juntos. Animou-se um pouco com a possibilidade. Mesmo que casar não estivesse em seus planos, ela achou que passar o resto da vida ao lado do jogador de Quadribol não seria tão ruim, e com certeza seria melhor do que casar-se com um desconhecido, ou alguém de idade avançada. O pensamento a fez estremecer de leve.
– Mione, fique calma.
Harry lhe falou com suavidade e ela se irritou brevemente. O modo como o amigo havia falado tais palavras lhe dava a impressão de que ele estava achando a situação dela muito pior do que era.
– Eu estou calma, Harry. Só preciso pensar um pouco. Vou para a minha sala.
Ele assentiu, enfiando as mãos no bolso. Sabia que seria inútil conversar mais sobre aquele assunto. Deixou que ela caminhasse para o elevador, e quando as grades de bronze fecharam-se diante do corpo dela, ele virou-se para trás e começou a andar, a fim de voltar ao trabalho.
Ela passou de forma rápida por todo o Departamento. As fisionomias dos bruxos do local estavam completamente alteradas. Alguns sustentavam a expressão de alívio, enquanto outros apenas seguravam cartas nas mãos e olhavam para um ponto fixo no chão. Hermione passou despercebida.
Ela entrou em sua sala e fechou a porta, trancando-a com um feitiço que apenas ela poderia retirar. Precisava ficar sozinha, precisava pensar.
Ela caminhou para a poltrona, jogando sua bolsa de qualquer maneira na mesa e sentando-se. As mãos pálidas foram em direção ao rosto e a garota abriu espaço para o que evitava a todo custo: as lágrimas.
Começou a chorar descontroladamente. O rosto estava molhado e ela sabia que a maquiagem, mesmo leve, deveria estar borrando a pele. Mas não queria pensar nisso, seus pensamentos estavam vagando apenas no rumo que sua vida estava tomando.
Tinha se entregado a um ex-snatcher, tinha reencontrado o pesadelo de sua vida. Não conseguia capturá-lo e mandá-lo para Azkaban por meios discretos e dentro da lei. E agora estava com uma ordem de casamento em mãos.
As lágrimas desciam à medida que o tempo se passava, até que Hermione se perdeu em meios às horas...
[...]
Um barulho na porta fez Hermione saltar. Ela fechou os olhos e sentiu-os arderem devidos às horas de choro. Estava apática e sem reação, e estava lenta demais para trabalhar de forma satisfatória.
Ela girou a varinha, retirando o feitiço que estava trancando a porta.
– Entre.
A cabeça de Archie apareceu pela fresta da porta. O chefe dela não tocou no assunto, mas sabia que a nova lei era o motivo de ela estar naquele estado. Os olhos dela estavam inchados, ela parecia prestes a desmaiar.
– Er, Hermione?
Archie a chamou pelo primeiro nome. Sentia-se íntimo o suficiente para isso. Sabia que ela não se importava de ser chamada assim quando estavam a sós. Ela olhou para ele vagarosamente.
– Você está passando mal?
– Acho que estou enjoada.
Respondeu sem rodeios, melhorando a postura e fixando os olhos castanhos nos inúmeros pergaminhos que a esperavam em cima da mesa.
– Acho que você deve ser liberada.
Ele disse da forma mais autoritária possível. Em uma situação normal, Hermione contestaria o seu chefe e diria que era uma ordem inadmissível. Mas ela precisava dessa folga. Ela precisava do afago do seu apartamento no momento.
Ela assentiu e se levantou, pegando a bolsa. Ele a impediu, levantando a mão para impedir a bruxa de começar a andar em direção à porta. Ele fez um gesto com a varinha e ela sentiu uma pequena brisa percorrer seu corpo.
– Estou tirando o feitiço anti-aparatação de sua sala. Claro que só funcionará com você. Acho que você é responsável o suficiente para entrar e sair da sua sala a hora que quiser.
Hermione piscou duas vezes, sem acreditar no presente que Archie estava lhe dando. Mas sua mente começou a procura algumas respostas. Por que ele lhe impedira disso até então? Por que não havia tirado o feitiço antes?
Ele viu que a testa dela estava franzida, e conhecendo a bruxa como conhecia, já sabia a pergunta que rondava sua mente.
– Não lhe dei esse direito antes com medo de que você abusasse disso. Você trabalha demais, Hermione. Não vá aparecer aqui em uma tarde de domingo!
Disse por fim e virou-se em direção a porta, passando pelo batente e fechando-a de forma calma. Ela ficou parada alguns instantes. Archie tinha razão, a liberdade que estava dando a ela possibilitaria que ela entrasse em sua sala a hora que quisesse. Nem precisaria mais levar pastas para casa.
Ela deu um leve sorriso, antes de fechar os olhos e aparatar para seu apartamento com uma leve sensação de liberdade.
Abriu os olhos e se deparou com sua sala de estar. Bichento assustou-se com a súbita aparição da dona, mas logo foi ao encontro da bruxa para roçar em suas pernas.
Afagou o bichinho, antes de retirar a carta encolhida da bolsa e fazê-la voltar ao tamanho normal. Releu uma última vez a carta e deixou seu corpo cair, encontrando o tecido de camurça do sofá escuro.
Sua mente sempre rápida pensava de forma até mesmo contida. Por mais que Hermione quisesse, não conseguia chegar a uma decisão do que iria fazer a partir daquele momento.
[...]
As luzes do bar estavam fracas. Era quase noite. Scabior estava sentado no balcão, um copo quase vazio de Uísque de Fogo à sua frente lhe indicava que o bruxo precisava de mais bebida, mas ele não pediu para o garçom como de costume; seus olhos e sua atenção estavam focados em apenas uma coisa, a foto da bruxa que ele havia rasgado do jornal há dias.
Ela se mexia lentamente, e sorria; um sorriso jovial e contido que Scabior nunca presenciou pessoalmente. Ele passou levemente o dedo pela foto, e no mesmo momento que o fez, odiou-se por isso. Não queria aquilo, mas desde que a tinha encontrado da última vez ele só pensava em vê-la novamente e penetrá-la da mesma forma que havia penetrado naquele dia, em seu quarto.
– Scabior!
A voz de Chadd chegou aos seus ouvidos e o bruxo colocou uma folha de jornal por cima da fotografia rapidamente, fingindo estar interessado na reportagem estampada na primeira página do Profeta Diário da semana passada.
Scabior olhou para Chadd no momento que o bruxo se aproximou, parando ao seu lado. O bruxo parecia preocupado, e Scabior não pôde acreditar que seriam notícias ruins com as novas cargas de artigos proibidos que estavam chegando da América do Norte.
– Há algum problema com as cargas que estamos esperando?
Chadd franziu o cenho, e depois de cinco segundos negou com a cabeça. Scabior pensou se conhecia alguém mais lento que o bruxo. Provavelmente não. O homem lerdo tirou do bolso um envelope de aspecto amassado e sujo e entregou para Scabior.
O bruxo largou o copo de Uísque de Fogo e pegou o envelope de forma desconfiada. Nunca recebia cartas, e o selo do Ministério da Magia apenas fez Scabior temer o conteúdo.
Não era possível...
Os olhos azuis escuros correram livremente pela mensagem do pergaminho e o rosto do homem começou a ficar vermelho. Chadd recuou um passo por instinto. Sabia que Scabior não era o tipo de bruxo que pensava duas vezes antes de ter reações violentas com seus ajudantes.
– Mas que merda é essa?
Chadd apenas jogou as mãos para cima.
– Eu não sei, Scabior. Todos os bruxos e bruxas solteiros da Inglaterra receberam uma. Os homens estão ficando loucos lá em cima.
Scabior parou para escutar o homem. Sabia que Chadd estava se referindo aos bruxos que estavam ao norte do continente, na fronteira, esperando as cargas.
Ele fechou as mãos com força, amassando de forma rude o pergaminho que estava segurando. Não queria se prender a nenhuma mulher. Não imaginava sua vida acontecendo de forma simples com uma espécie feminina ao seu lado lhe enchendo o saco e o torturando com discussões sobre o relacionamento.
– Saia daqui.
Chadd não pensou duas vezes em atender ao pedido de Scabior, se é que era um pedido. A forma como foi falado, parecia mais uma ordem.
Scabior ficou sozinho novamente e respirou fundo, abrindo o pergaminho amassado e relendo a carta com cuidado e calma. À medida que relia as regras de acordo com a sua pureza de sangue, seu rosto começava a se desanuviar, e logo depois se contorcia em um sorriso maldoso.
Concluiu que poderia se aproveitar facilmente daquela situação, se conseguisse manipular aquela maldita lei a seu favor. Se conseguisse casar com uma mulher rica, teria tudo do bom e do melhor em sua vida. Mas seus pensamentos tomaram outro rumo, precisava resolver primeiro uma situação, para depois pensar na Lei de Casamento.
Ele tirou alguns sicles do bolso e colocou sobre o balcão, acenando brevemente para o garçom gordo que estava mais do que acostumado em vê-lo ali. Scabior terminou seu Uísque de Fogo com dois goles grandes e levantou-se do banco alto, saindo do bar.
Precisava encontrar uma pessoa, e sabia exatamente onde ela estaria.
Ele começou a andar pela Travessa do Tranco com passos rápidos e decididos. Virou-se em uma rua sem saída de aspecto úmido e fétido. Não havia ninguém ali, mas ele sabia que a pessoa estaria por perto. Ele deu mais alguns passos, entrando em um beco mais escuro que a rua.
Um vulto lhe chamou a atenção e ele sorriu.
– Precisando dos meus favores, Scabior?
Uma voz arrastada e masculina lhe perguntou e ele sorriu mais abertamente, retirando a carta da Lei de Casamento dentro de seu bolso e rasgando um pedaço do pergaminho. Acenou brevemente com a varinha e sentiu a tinta desenhar as letras que queria.
– Quero que você descubra o endereço dessa pessoa.
Entregou o pergaminho para o homem encapuzado, junto com dez moedas douradas de galeão. Sabia que os serviços dele eram caros, mas também sabia que valeria a pena. A cabeça do homem encapuzado mexeu-se brevemente e a mão de aparência suja ergueu o pergaminho para que os olhos fitassem o que estavam escrito.
– Hermione Granger?
Scabior sorriu de forma maldosa para o homem.
– Sim. Hermione Granger.
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