Blefe

“Nível Cinco. Departamento de Cooperação Internacional em Magia.”

A voz anunciou o andar para Hermione e ela saiu do elevador, percorrendo os olhos castanhos pelo local. Poderia contar nos dedos de uma mão quantas vezes havia visitado aquele andar do Ministério da Magia, mas sabia que se quisesse fazer algo bem feito, teria que fazer ela mesma.

Caminhou em direção a uma mesa, onde uma bruxa alta e de aparência cansada escrevia em um pergaminho, carimbando-o logo em seguida e selando-o com um feitiço. Hermione parou em frente à mesa, mas a mulher não parecia se dar conta da presença da garota. Ela pigarreou.

A mulher a olhou sem interesse, e a garota não pôde deixar de compará-la com uma girafa. A bruxa retirou os óculos e juntou as mãos.

– Em que posso ajudá-la?

– Gostaria de falar com Draco Malfoy. Ele está me esperando.

Ela lançou um olhar para a jovem.

– Hermione Lloyd?

Novamente o maldito nome. A garota assentiu e a bruxa apontou para um corredor longo.

– A seção dele fica naquele corredor. A sala dele é a única de porta negra.

Hermione assentiu novamente, não querendo agradecer diretamente. Caminhou pelo corredor cheio de portas, sempre pintadas em um tom neutro, até chegar a uma porta negra.

Elevou o braço para bater na madeira, mas a porta abriu-se sem que ela alcançasse seu objetivo. A garota entrou.

Malfoy estava escrevendo em um pergaminho, mas ao perceber que ela havia entrado, parou em um segundo, olhando-a com uma atenção diferente da que costumava dispensar ao olhá-la nos tempos de Hogwarts. Era uma sexta-feira, e o ponteiro grande do relógio estava estacionado no número sete, indicando que o expediente da maioria das pessoas estava encerrado.

Mas ela não parecia cansada, pelo contrário, havia vida nos olhos, como se ela fosse projetada para trabalhar naquele lugar, como se ela tivesse um plano brilhante na mente para executar. Infelizmente Malfoy a conhecia demais para não perceber isso.

Hermione caminhou em direção à mesa, cumprimentando-o com um aperto de mãos. Ela retirou os pergaminhos selados de uma pasta vinho e entregou-os a ele, que recebeu os documentos com um sorriso enviesado.

– Parece que você faz jus à fama. Esperava esses documentos apenas para a semana seguinte.

Ela sorriu.

– Eu só fiz o meu trabalho.

– Obrigado, Lloyd.

– Granger.

– Como?

– Me chame de Granger.

Os olhos cinzentos a fitaram e ela apenas gesticulou com a mão. Desde que a guerra acabara, Malfoy a evitava, fazendo o mesmo com Rony e Harry. Ela sabia que o sonserino não ficara na melhor situação, e ela e seus amigos sabiam muito mais da história do que os outros. Ele pigarreou.

– Haverá uma reunião para discutir e apresentar as novas regras.

Hermione assentiu e fechou a pasta, despedindo-se do loiro e virando-se de costas, a fim de caminhar para a porta.

– Tenha um bom final de semana... Granger.

– Bom final de semana, Malfoy.

Saiu da sala do sonserino e percorreu novamente o corredor, não se dando ao trabalho de olhar para a bruxa pescoçuda. Sabia que estava sendo observada. Malfoy tinha uma posição importante naquele Departamento e qualquer possível visita poderia gerar fofoca.

Entrou no elevador e apertou o botão para o seu andar.

No momento que as grades de bronze se abriram, Hermione respirou fundo, se sentindo mais tranquilaao perceber que agora as regras já estavam nas mãos corretas, e seguras. Não nas mãos daquele snatcher imbecil.

Ela começou a caminhar em direção a sua sala, pensando que pelo menos um de seus objetivos já havia sido cumprido. Agora faltava apenas outro, e que seria iniciado naquela noite. Precisava agora descobrir quem estava por trás dos contrabandos junto com aquele que se intitulava seu marido. Precisava tirar essa dúvida da cabeça. Precisava trancafiá-los em Azkaban.

E a noite de sexta-feira seria ideal para aquilo.

Chegou a sua porta e entrou na sala, pegando a bolsa e um envelope grosso. Precisava entregar alguns papéis para Archie, mas não o faria pessoalmente. Procuraria Michael. Estava cansada e sabia que o seu chefe a repreenderia por ainda estar no Ministério.

Alcançou-o no corredor, perto do elevador.

– Entregue esteenvelope para Archie. Estou indo para casa.

Michael assentiu, virando-se de costas e caminhando em direção à sala do chefe. Hermione respirou fundo, uma sensação prazerosa de dever cumprido percorrendo seu corpo. Mas isso não durou muito, pois logo quando abriu os olhos, viu o snatcher no corredor, caminhando tranquilamente em direção a ela.

A garota adoraria voltar para sua sala e aparatar, mas viu que sua única alternativa para evitá-lo seria entrar no elevador. E foi isso o que fez, apertando o botão que a levaria para o átrio. Mas foi surpreendida quando o snatcher deslizou para dentro do elevador, e antes que ela pudesse sair, as grades se fecharam.

Ele estava bem perto dela, e Hermione podia jurar que ele estava fazendo isso para provocá-la. O cheiro dele preenchia o local, e ela apertou a alça da pasta com força, fechando os olhos e rezando a Merlin para que o elevador chegasse rápido.

“Nível oito. Átrio.”

Ela saiu do elevador e começou a andar rapidamente para onde estavam as lareiras. Scabior a alcançou.

– Por que não fala comigo?

Escutar a voz dele depois de quase uma semana foi estranho, mas ela não respondeu, mesmo sabendo que ele estava a seguindo de perto.

– Você não vai falar comigo pelo resto de sua vida?

Hermione respirou fundo, virando-se para o homem. Ele parou de repente, surpreendendo-se com a atitude dela.

– Quem decide isso sou eu.

A garota falou e deu as costas para o snatcher novamente. Scabior travou o maxilar, começando a perder a paciência com tudo aquilo. Alcançaram as lareiras.

– Você não pode me ignorar por muito tempo. Afinal, teremos que ter um filho.

Será que seria presa por azarar alguém dentro do Ministério? Elapensou seriamente no assunto, mas controlou-se, sabendo que o snatcher sempre jogava sujo.

Infelizmente tal frase se fixou nos pensamentos dela. Ele tinha razão, um dia teria que ter um filho dele, senão correria o risco de ir contra as regras da Lei de Casamento. E ela ainda tomava a sua poção anticoncepcional.

Ela entrou em uma lareira, sabendo que ele não a seguiria ali. Virou-se para frente quando pegou o Pó de Flu. Scabior a olhava com um interesse contido.

– Vai para casa, snatcher?

Ele sorriu de forma maliciosa e entrou em uma lareira em frente a dela.

– É claro que não.

A reação de Hermione o pegou de surpresa. Achou que ela ficaria com raiva, mas a garota apenas esboçou um sorriso idêntico ao dele, murmurando o endereço do apartamento e sumindo em meio às chamas verdes.

Ela o deixou confuso com aquilo.

[...]

Hermione acabava de se arrumar dentro do quarto, olhando-se no espelho. Havia tomado um banho quente, e agradeceu mentalmente a Merlin que a noite de sexta-feira estivesse fria, contrariando a estação do ano.

Ela adorava o frio.

Bichento estava dormindo enrolado em uma bola, em cima da poltrona onde ele gostava de dormir.

Ela olhou para o gato, lembrando-se de que havia colocado a comida para ele e estava livre para voltar a hora que quisesse.

Colocaria o seu plano em prática naquela noite. Precisava tomar uma atitude dessas. Não estava insegura, apenas receosa de que tal plano não desse certo e ela tivesse que tomar decisões drásticas. Mas sentia-se... viva.

Olhou-se novamente no espelho depois que terminou de colocar os brincos. Estava vestindo uma calça jeans colada ao corpo, uma blusa azul escura decotada e um casaco preto, que a deixava com as curvas um pouco mais acentuadas. Vestiu as botas negras de cano alto. Olhou para seu reflexo, observando se a maquiagem estava intacta. Jogou os cabelos arrumados para trás e caminhou para a cama.

Bichento acordou quando ela pegou a bolsa que estava em cima dos lençóis.

– Volto em um instante.

O animal a olhou sonolento e voltou a dormir. Hermione sorriu, pensando no lugar que queria ir e aparatando.

[...]

Scabior olhava os bruxos que estavam a sua frente. Vários copos preenchidos com Uísque de Fogo estavam espalhados pela mesa suja de madeira escura. O bar estava cheio naquela noite, mas ele sabia que era sexta-feira, então tal situação era comum.

O snatcher pegou um mapa de dentro do bolso do casaco preto, desdobrando-o inteiramente e pousando-o sobre a mesa. Sempre faziam isso quando a semana acabava, tratando de assuntos que eram de interesse para todos. Precisavam discutir os pontos fracos das fronteiras, e o que poderiam fazer para lucrarem.

Edgar foi o primeiro a falar.

– Há um canal bem vulnerável aqui.

Apontou com o dedo grosso para uma parte da fronteira. Todos assentiram, menos Scabior.

– Esse lugar já está sendo vigiado.

A atenção foi toda direcionada para o homem que falara. O bruxo remexeu-se inquieto ao perceber os diversos pares de olhos curiosos e surpresos o fitando. Sabia que era burrice falar aquilo, mas não podia deixá-los tentar contrabandear aquelas cargas naquele canal. Depois do que havia acontecido pela semana, o Departamento tinha enfiado diversos bruxos e vigias em todo o lugar.

– Como sabe disso, Scabior?

Chadd perguntou com um interesse anormal e todos os bruxos esperaram com expectativa a resposta. Edgar dobrou o mapa, enfiando-o no casaco. Scabior virou o copo de Uísque de Fogo, tomando o conteúdo inteiro em longos goles. Acenou para o garçom e voltou a olhar para os homens.

– Ouvi dizer. Não podemos arriscar.

O garçom colocou outro copo cheio de Uísque de Fogo em frente a Scabior, recolhendo o copo vazio e se afastando da mesa. Ele tomou um longo gole e sorriu.

– Vamos parar de falar de trabalho. Vamos conversar sobre assuntos mais interessantes. Como vão os casamentos?

Tentou sair do assunto e conseguiu convencer. Todos os bruxos estavam fartos de falar de fronteiras naquela altura da noite, queriam apenas jogar conversa fora, beber o quanto podiam, e esquecer a semana estressante que haviam passado.

Edgar foi o primeiro a falar novamente.

– Casei com uma mulher insuportável! A louca não me deixa fazer nada. E além de tudo é feia. Mas foi a única mulher que era mestiça em meio àquele bando de sangue-ruins.

Um homem de aparência estranha caiu na gargalhada junto com os demais. Ele falou logo em seguida.

– A minha é uma mestiça imunda também. Mas é submissa. Tem medo de mim. Isso é bom, quando se quer fazer tudo sem ninguém para reclamar.

O snatcher apenas sorriu, tomando um longo gole da bebida e observando os companheiros dizerem o que cada mulher tinha de bom e o que cada mulher tinha de ruim. Estava mais à vontade com eles falando dos casamentos montados do que o questionando sobre seu conhecimento peculiar acerca das fronteiras.

– E você, Scabior? Por que não conta sobre sua mulher? Ela é tão insuportável como a mulher do Edgar?

Chadd perguntou e todos na mesa caíram em gargalhadas. Ele deu um sorriso mínimo, mas não respondeu a pergunta, apenas deu de ombros. Tomou mais um longo gole da bebida e depois de cair em si, percebeu que a mesa estava mergulhando em um silêncio estranho.

Todos os homens haviam parado de beber, e olhavam com uma fome anormal para um ponto fixo, um ponto ao lado do snatcher. Ele se virou para a origem do interesse súbito, e quando viu quem acabara de se sentar ao seu lado, quase engasgou.

– Por que você não quer falar sobre mim, amor?

Scabior continuou fitando-a, tentando enfiar em sua mente que aquilo que estava sentado ao lado dele era uma miragem, e não a garota prodígio se sentindo à vontade demais para ser saudável em um lugar como aquele. E infelizmente ela estava linda.

A maquiagem estava mais pesada, os lábios foram pintados com um batom mais escuro do que ela usava diariamente, deixando-os mais cheios, os cabelos estavam mais lisos, mas pareciam bagunçados de um modo selvagem. Scabior entendeu o motivo da fome dos homens na mesa. Ela parecia um prato delicioso para um bando de delinquentes que não comiam há anos.

Ela o olhava em desafio, um olhar que apenas ele conseguia detectar. O snatcher não conseguiu responder a pergunta, apenas permaneceu calado, abrindo espaço para que os outros começassem uma série de perguntas que ele sabia que seria inevitável.

– E então, o Scabior é um bom marido?

Chadd perguntou, um tom de malícia percorrendo cada palavra à medida que elas saíam de sua boca. Scabior apertou o copo na mão direita, sentindo o vidro começar a tremer.

Hermione se aproximou do snatcher, a mão direita percorrendo o braço coberto pelo casaco de couro costumeiro, enquanto a mão esquerda ia em direção ao rosto sério. Ela correu o dedo pela linha do maxilar dele. Ele se segurou para não fechar os olhos. Infelizmente tinha uma semana que não sentia o toque dela, não havia tido nenhum contato. O aroma de baunilha inebriava seus sentidos, e ele se perguntava mentalmente o porquê de seu corpo estar tendo aquelas sensações.

– Um ótimo marido. Dedicado. Gosto de tudo o que ele faz com as mercadorias...

Disse, abrindo espaço para que os comparsas do snatcher dissessem algumas dicas sem perceber. Qualquer informação seria útil para ela. Hermione sentiu o braço de Scabior tremer ligeiramente por debaixo de sua palma.

Um homem loiro e de aparência mais velha abriu a boca antes dos demais.

– Parece que ele precisa se dedicar mais. Scabior está tendo dificuldades com algumas fronteiras. Será que a mulher dele poderia ser mais útil?

O snatcher olhou com fúria para o homem. Sabia que aquele maldito bruxo nunca gostara dele, mas enfiar qualquer pessoa no meio dos planos de todos era jogo sujo, ele não sabia o quão inteligente era o ser que agora retirava a mão do seu rosto, colocando as duas sobre a mesa.

– Claro que posso. Vocês têm um mapa?

Edgar soltou o grande pergaminho e Hermione capturou-o, sentindo as suas mãos tremerem de prazer. Scabior tentou tirar o mapa das mãos dela, mas a garota foi mais rápida, colocando-o longe do alcance dele.

– Deixe de ser orgulhoso, amor. Eu posso tentar ajudar, afinal.

Ela percorreu os olhos castanhos rapidamente pelo mapa, observando cada linha e cada nome que estava escrito ali. Eram muitos, e sabia que não teria tanto tempo para decorar todos. Semicerrou os olhos, pegando os nomes que podia. Ele percebeu isso e tomou um longo gole da bebida, sentindo-a descer quadrada em sua garganta.

Ela soltou um muxoxo.

– Temo não poder ajudar. Se o meu marido que é tão inteligente não consegue, eu muito menos.

Scabior sentiu a bebida parar em sua garganta. Engasgou, tossindo fortemente. Respirou fundo para voltar à postura normal e abriu os olhos, fitando Edgar dobrando o pergaminho e voltando a enfiá-lo no bolso da jaqueta surrada.

Hermione olhou para o relógio de forma dissimulada.

– Merlin, eu preciso ir. Eu espero você acordada, tudo bem?

Levantou-se da mesa, percebendo os diversos pares de olhos fixados no corpo dela de forma faminta, inclusive os olhos azuis. Ela aproveitou-se da situação, percebendo que o snatcher estava virado para ela instintivamente. Aproximou-se dele, depositando um beijo suave e demorado em sua boca.

O corpo de Scabior foi percorrido por um arrepio estranho. Sentia falta da temperatura elevada daqueles lábios, que pareciam hipnotizá-lo apenas com o toque. E se odiou no mesmo momento por sentir aquilo.

Ela despediu-se de todos com uma aceno e saiu do bar, sentindo os olhares perfurarem suas costas. Correu por um beco mais ermo e fechou os olhos, aparatando diretamente em sua sala de estar. Apenas ela podia fazer aquilo em seu apartamento. Não havia dado o privilégio para ele, senão sua vida viraria um inferno maior e mais quente.

Hermione jogou a bolsa no sofá e correu para a escrivaninha de seu quarto. Pegou um pedaço de pergaminho e anotou rapidamente todos os nomes que se lembrava, todos os nomes que havia lido naquele maldito mapa. Fechou o pergaminho e selou-o com um feitiço, jogando-o dentro de uma gaveta pequena e selando-a igualmente.

Respirou fundo, sentindo o seu coração martelar dentro do peito. Retirou o casaco, e logo depois a roupa, jogando-a de qualquer forma na poltrona. Bichento estava em sua caminha, e apenas levantou os olhinhos ao ver a dona chegar. Hermione não guardaria as roupas, estava cansada, e ao mesmo tempo excitada pelo que havia acabado de fazer.

Retirou do armário uma camisola fina. Sentia até mesmo calor. Onde estava o frio que havia sentido antes de sair? Caminhou para o banheiro, escovando os dentes, retirando a maquiagem e desembaraçando com um pente os fios dos cabelos, que ainda estavam lisos.

Saiu do banheiro e logo depois do quarto. Rumou em direção à sala, capturando um livro que repousava em uma prateleira do corredor. Foi até o sofá e se jogou ali, abrindo-o na página que havia parado. Depois de alguns minutos sofridos, conseguiu esquecer tudo o que vivera naquele dia e se jogar na história das páginas que os olhos percorriam.

Sentiu as pálpebras pesarem, o corpo foi relaxando, até que caiu na inconsciência.

[...]

Não sabia dizer quanto tempo havia dormido, mas percebeu que estivera inconsciente por apenas vinte minutos quando olhou o relógio que ficava em cima da lareira de tijolos claros. Havia acordado por causa de um barulho estranho.

Os olhos castanhos percorreram o ambiente a sua volta, pousando em um homem que estava ao seu lado. Hermione quase gritou com o susto. Estava escuro e ela não havia o visto. O snatcher estava com os braços ao lado do corpo, observando-a.

E ela nunca havia visto aqueles olhos azuis preenchidos com tamanha fúria.