Obsessão
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Cinco dias após o surto de Doralice, as expectativas de Maurice foram por agua a baixo. Ele passou dias rezando para que Doralice melhorasse do choque de perder a filha tão de repente, mas não foi bem o que aconteceu.
A situação piorou. Como se não bastasse a ideia maluca de que a filha retornaria para seus braços, Doralice disse para todos os empregados da casa que sua filha estava viva, no berço em seu quartinho tão bem decorado. Maurice os deixara avisados, “não deem ouvidos a Doralice, ela ainda está muito fragilizada por conta da tragédia que todos vocês sabem”, foi o que eles tentaram fazer. Mas a senhora simplesmente chegava na cozinha, na área de serviço, no jardim e em todos os lugares onde houvesse gente trabalhando e dizia:
– Bom dia. Como estão hoje? Cansados? Pois eu não. Madeleine dormiu perfeitamente toda a noite e eu também. Ela está lá no berço, podem subir para admirá-la se assim quiserem. Tenham um bom dia.
O problema não era o que ela dizia, mas como dizia. Era como quando Madeleine chegara na casa, todos em cima para ver o bebê saudável e lindo, tinham a mesma sensação. Doralice tinha firmeza em sua voz, nenhuma tristeza, muito pelo contrário.
Duas cozinheiras acabaram subindo para o quarto da menina. Elas sabiam que não haveria bebê ali, mas precisavam ver com os próprios olhos.
Elas esperavam ver um berço vazio e bem arrumado, mas o que viram era bem mais triste. Imediatamente, elas chamaram Maurice, assim que ele chegou da prefeitura em um fim de tarde. Ele não duvidou. Subiu ao quarto da filha, onde não ia desde sua morte e encontrou a cena que as empregadas descreveram.
Não soube como reagir, apenas ficou olhando para o berço sem ter o que pensar. Ele ouviu o som de passos cada vez mais próximos e se virou para a porta. A imagem de Doralice apareceu ali.
– Dora... – ele começou, tentando parecer calmo e o mais compreensivo que conseguia.
Infelizmente, ele não podia disfarçar a decepção em seu rosto. Estava decepcionado por suas preces terem sido em vão.
– O que foi? Há algo errado com Madeleine? – ela entrou no quarto e empurrou o marido para o lado, fitando o berço. Logo um sorriso surgiu em seu rosto e ela olhou para Maurice. – Ora, ela está bem. Veja como é linda.
Doralice se curvou e colocou os braços dentro do berço, ela sumiu atrás do mosquiteiro. Quando voltou, carregava a coisa nos braços.
Era uma boneca. Uma boneca de plástico fosco, pele branca, cabelos loiros e curtos, mas o que mais chamou a atenção de Maurice foram os olhos. Eram grandes, bem abertos e de um azul bonito. Assim que os viu, entendeu o porquê de Doralice achar que era sua filha. Madeleine era dona de um belo par de olhos da cor do céu azul do começo da noite.
Mas onde ela teria conseguido aquilo? Não haviam comprado bonecas para Madeleine, pelo menos não quando ele estava junto. Doralice teria saído de casa e comprado ou alguém tinha lhe dado.
– Ah, céus. – Maurice se apoiou no berço com as duas mãos e abaixou a cabeça. – O que houve com minha família?
– Do que está falando? – Doralice segurava a boneca nos braços com o maior cuidado do mundo, balançando levemente de um lado para o outro. Estava ninando a boneca.
Maurice olhou para o lado, encontrando a esposa.
– Querida... – ele soltou o berço e pôs as mãos nos ombros de Dora – Está segurando uma boneca.
– Eu sei.
Disse tão naturalmente, como se fosse a coisa mais normal do mundo. “Estou ninando uma boneca de plástico, ela é minha filha”. Estava muito séria quando disse aquilo, o que assustou Maurice ainda mais.
– Você disse a todos da casa que essa era nossa filha, Dora. A nossa filha morreu.
– Lembra que eu disse que ela voltaria pra mim? Aqui está ela. – ela mostrou a boneca para ele, com um sorriso que logo desapareceu. – E por sinal, eu também disse que você não chegaria perto dela. Estou sendo muito generosa em deixar você ficar aqui, Maurice. Muito generosa, mesmo depois de tudo que você me disse.
– Onde conseguiu isso?
– Não a chame assim. – ela murmurou, voltando os olhos para “sua filha”.
– Onde a conseguiu?! – ele aumentou o tom, mas não chegou a gritar. Dora o olhou confusa, expressou isso com as sobrancelhas abaixadas.
– Eu achei no nosso jardim. Está vendo? Eu achei uma boneca com os olhos da minha filha no jardim dias depois de ter dito que ela voltaria. Você ainda duvida de mim? Aqui está ela! – foi sua vez de levantar a voz, ambos estavam ficando nervosos.
– Você precisa de ajuda.
– Eu sei do que eu não preciso. Eu não preciso de você e nem da sua falta de fé! Deus me enviou esse lindo presente faz dois dias, Maurice, e você nem sentiu a presença de sua própria filha de volta à casa!
– Céus, está com essa loucura há dois dias?
No começo, ele tentou ser compreensivo, mas ele não era forte nisso. Sua mulher estava ficando louca e ele não conseguia aceitar aquilo. Estava numa luta consigo mesmo, um lado queria apoiá-la e ajuda-la, o outro queria puni-la por aquela atitude ridícula a seus olhos.
– Deus não faria uma loucura dessas. – ele continuou, quando não houve resposta de Dora.
– Ora, Ele fez uma jumenta falar, não foi? – ela o provocou, um sorriso irônico. Maurice sentiu uma vontade horrível de bater em sua própria mulher, se arrependeu disso segundos depois. Ele não era um homem ruim, tudo que não precisava no momento era agir como um.
Ele achou melhor sair do quarto e deixar Doralice com aquilo. Logo ela perceberia que uma boneca não era a mesma coisa que um bebê e voltaria a depressão. Ela estava delirando e ele precisava de ajuda. Felizmente, ele conhecia uma psiquiatra que vivia perto, bem perto, na verdade. Era sua vizinha, a Dona Daphné Russeau.
Ele foi direto para as escadas, as desceu rapidamente e foi para fora da casa pela porta da frente. As mesmas empregadas que lhe avisaram sobre a boneca o viram sair e apenas confirmaram o óbvio: ele ficou transtornado.
Passou direto pelo seu motorista que lhe perguntou se queria ir em algum lugar, Maurice disse que não, gentilmente, mas com pressa. Foi para o portão, o abriu e não se preocupou em fechar, voltaria logo. Andou poucos metros até chegar ao portão da bela casa da Dona Daphné. Tocou a campainha e aguardou.
De longe, viu a senhora abrir a porta e abrir um sorriso ao vê-lo. Caminhou sem dificuldade, a mulher beirava os 70 anos de uma saúde impecável.
– Senhor prefeito. – o saudou enquanto abria o portão.
– Como vai, Dona Daphné? – perguntou com gentileza, tentando manter-se calmo.
– Muito bem, obrigada. E o senhor? E sua esposa? – ela foi uma das que mais lamentou a morte de Madeleine, ajudou muito Doralice nos primeiros dias e sabia que ela estava em um estado lamentável.
– Bem, é sobre isso que vim falar com a senhora... Ela não está nada bem. – disso Daphné já sabia, mas temia o que estava por vir, mesmo que não soubesse o que era. — Antes dizia que a filha voltaria, agora está lá no quarto da criança ninando uma boneca. – a expressão de Daphné foi inconfundível, estava chocada. – Preciso de ajuda, Dona Daphné.
– Mas é claro, meu querido! V-vamos lá agora mesmo, sim? Deixe só eu buscar minha netinha lá dentro. Ela está passando uns dias comigo. – explicou.
– Claro, claro! Muito obrigado Dona Daphné, serei eternamente grato.
– Tudo bem, eu adoro Doralice. – ela sorriu docilmente e se virou para voltar pra dentro de casa.
Não demorou nem cinco minutos. Chamou a menina da porta e esta veio correndo. Se chamava Danielle. Parecia ter 8 anos, cabelos castanhos e encaracolados. Maurice não prestou muita atenção nela, estava com um fio de esperança de que Daphné ajudasse Dora, mas sabia que a esposa era teimosa, então não criou grandes expectativas.
Eles entraram pela porta da frente e Maurice acomodou Daphné e Danielle. Daphné estava em uma poltrona vermelha ao lado de uma cópia idêntica, onde ficaria Dora. Danielle sentou-se em uma cadeira mais ao canto, bem comportada.
– Espere só um pouco que vou chama-la. – ele avisou.
Maurice subiu até o meio da escada e chamou por Doralice.
– Dora, querida, pode vir aqui embaixo um minuto, por favor? Dora!
– Por Deus, Maurice, quando vai parar de me incomodar? – ela surgiu no topo da escada com a boneca nos braços. Logo que viu Daphné lá embaixo, ficou ainda mais séria. – O que está havendo?
– Doralice, querida. – a senhora se levantou de onde estava, olhando para cima para encontrar os olhos de Dora, havia um sorriso gentil em seus lábios. – Vim ver como está.
– Oh... Estou muito bem Dona Daphné, obrigada pela preocupação. Mas se não se incomoda eu preciso...
– Querida, — interrompeu Maurice – por favor, desça só um pouco.
Estava desconfiada. Um minuto atrás, Maurice estava a julgando e então, estava sendo gentil, e se não bastasse, uma visita inesperada e fora de hora. Mas se não descesse teria que ouvir Maurice lhe enchendo a paciência depois. Seria rápida.
Desceu um degrau, aliviando os dois. Daphné voltou a se sentar e Maurice desceu com ela.
A senhora deu dois tapinhas na poltrona ao seu lado para que Dora se sentasse ali, assim ela fez.
– Quem é esta em seus braços? – perguntou tentando se fazer de boba, como se já não soubesse o que estava prestes a enfrentar.
– É Madeleine, minha filha.
Dona Daphné olhou para a boneca e tentou disfarçar a angustia que sentira. Ela precisava ser muito cuidadosa ao tratar do caso de Dora, era óbvio que ela estava muito abalada, mesmo que parecesse melhor com o brinquedo nos braços.
– Oh, claro. — ela disse, forçando um sorriso.
– Eu sei o que está pensando. Eu sei que estou com uma boneca no colo, Dona Daphné. Não me importa se entender ou não.
– Minha querida, eu não vim aqui te julgar. — ela pôs sua mão na de Dora, um gesto compassivo que Dora interpretou mal. Ela recolheu a mão para si e voltou a atenção para a boneca.
Não estava sendo nada fácil. Dona Daphné olhou para Maurice, que já estava desesperançado.
– Não é uma boa hora para visitas, Dona Daphné. — Dora disse, quando percebeu que ignorá-la não a fez se levantar para ir embora.
A senhora respirou fundo e se levantou da poltrona. Maurice ficou confuso, não entendia porque ela havia desistido tão facilmente. Ela se aproximou do prefeito para explicar a situação.
– Ela está muito nervosa agora. Ela precisa sentir que não estamos aqui para criticar, mas para ajudá-la. Seja mais compreensivo com ela. Não alimente sua ideia de que a boneca é Madeleine, de maneira nenhuma, mas também não exponha tanto sua desaprovação. Ela vai se sentir mais segura e, se fizer como estou dizendo, não vai demorar. Então poderei fazer algo. Se eu começar agora, ela não vai ouvir e pior: vai surtar.
Maurice ficou chateado. Mesmo que tenha tentado, não conseguiu ficar sem criar pelo menos uma pequena boa expectativa. Ele assentiu, mostrando que estava desapontado.
– Tudo bem, Dona Daphné. Eu agradeço muito. A chamarei novamente em breve, espero.
– Assim será. — ela sorriu singelamente e segurou as mãos do homem, que assentiu novamente em agradecimento. — Danielle, querida, vamos.
A menina se levantou e correu até a avó, segurando em sua mão. Daphné andou até Doralice para se despedir, mas foi cortada pela neta que puxou a manga de seu casaco.
– O que foi? — perguntou a senhora, se inclinando um pouco para ouvir a menina.
– Aquela boneca é minha! — ela disse, convicta.
Foi alto o suficiente para que todos ali ouvissem. A sala estava quase vazia e fazia eco. Doralice ergueu o rosto e olhou a menina com o cenho franzido.
– O que você disse?
– Desculpe Dora. Essa é minha neta, Danielle e...
– Perguntei o que ela disse. — Dora se levantou, dando alguns pequenos passos na direção da menina que ficou um pouco assustada, mas manteve sua afirmação.
– A senhora está com a minha boneca.
– Não diga tolices. Essa é minha filha. — estava ficando brava. Não tirava os olhos da menina, precisava olhar para baixo para encontrá-la. — Eu a encontrei no meu jardim, não é sua coisa nenhuma!
– Eu estava brincando com ela um dia, a jogando para o alto para fazer ela voar. Acabei jogando muito alto e com muita força, ela atravessou o muro. Fiquei com medo de te contar, vovó. — a menina explicou olhando para Daphné o tempo todo a avó ficou perplexa.
– Há quanto tempo isso aconteceu, Danielle? — Maurice questionou, se aproximando das mulheres que ali estavam.
– Foi na terça, logo quando cheguei aqui!
– Há dois dias. — Maurice olhou para a esposa que estava abalada. Fora iludida pela própria mente. Agora ela olhava a boneca e não sentia mais nada.
Estava muito confusa, era como se outra pessoa tivesse assumido seu corpo quando viu aquela boneca e a pegou. Agora, ela não entendia. Aquela coisa... Era tão superficial. Os olhos falsos, sem nenhum brilho, não queriam dizer nada. Se sentiu tola, burra. Se sentia muito triste. Quando ainda achava que o brinquedo era Madeleine, um espaço em seu coração tinha sido preenchido, agora, estava vazio novamente, estava frio como se por ali passasse um vento.
– Céus... – ela falou em um suspiro – Essa... Essa não é minha filha. Essa... Essa não é minha filha? – indagou olhando para Daphné. Ela sabia que não era, mas estava muito perturbada,
– Não, minha querida... Eu sinto muito. – e sentia mesmo, era horrível tirar a alegria de Dora daquela forma, mesmo que fosse uma alegria falsa.
– Sente mesmo? – ela semicerrou os olhos. Ela parou de segurar a boneca com tanto cuidado, segurou a mão minúscula da boneca e largou os braços. Era como se erguesse uma criança do chão. – Por que veio aqui e destruiu tudo isso? Não viu que eu estava bem? – Dora começou a chorar, não tinha raiva em sua voz, mas muita tristeza, chegava a dar pena.
– Doralice, só queríamos ajudar... Você estava criando uma boneca. Um brinquedo. – Maurice disse se aproximando, ele secou as lagrimas da esposa com seu polegar. Queria mostrar que apesar de sua agressividade, ele a amava e só queria ajudar.
– Mas eu estava feliz. – a voz saiu falha. – Por que fizeram isso comigo? Por que... Por que eu pensei que Madeleine poderia estar nessa coisa?
Desabou. Ela largou a boneca e pôs as mãos no rosto, caindo em um choro profundo e alto. Danielle correu e pegou a boneca, voltou rapidamente para perto da avó que assistia à cena com pena de Doralice, mas feliz por ela ter se livrado daquela ilusão. Agora poderia seguir em frente do jeito certo.
Maurice abraçou a esposa e ela o segurou com força, chorando em seu ombro. Ficou ali um bom tempo e ele não se incomodou, só permaneceu afagando seus cabelos dourados, bastante aliviado.
Daphné preferiu sair com Danielle sem interromper aquele momento. Elas partiram, deixando os dois ali.
– Está tudo bem, Dora. Superaremos isso. – Maurice disse ainda ouvindo o choro da mulher.
–-
Maurice percebeu que a esposa estava muito fragilizada e talvez precisasse ficar sozinha para reorganizar suas ideias e pensamentos sobre a tragédia que lhe acontecera, então ele arrumou o sofá da sala para dormir e deixar Doralice só no conforto de seu quarto requintado.
As três da manhã, Dora ainda estava acordada. Estava deitada virada para a janela entreaberta, novamente observava as estrelas. Ela pensava que, provavelmente, Madeleine realmente tivesse se tornado uma linda estrelinha. Mas era tão difícil aceitar aquilo. Não era possível que estivesse morta, era o que ela realmente achava, mas depois do que aconteceu horas antes, no episódio da boneca, ela se recusava a admitir a si mesma que ainda acreditava naquilo.
Só tinha certeza de uma coisa: nunca encontraria o carisma de Madeleine em objetos. Era frustrante pensar que ela, uma mulher tão fina e inteligente tinha acreditado naquilo.
Apesar de tudo, ela ainda tinha a sensação de que acordaria no dia seguinte, iria no berço e encontraria sua menina. Talvez fosse pelo costume quando trouxe Madeleine do hospital.
Sabia que ela estava com o psicológico afetado e bipolaridade. Poderia acordar de manhã com outra ideia maluca, atropelando todos que fossem contra. Estava com medo da própria mente, das peças que poderia lhe pregar. Estava se tornando sua própria inimiga.
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