Obscurity

27 I look for you, but I can't see your face


Notas iniciais
"Eu procuro por você, mas não posso ver seu rosto"
-x-
Não acredito que palavras serão o suficiente para me desculpar, ou expressar o que sinto ao voltar a postar essa história tão querida. Desejo, então, que possam um dia me perdoar por isso.
Boa leitura!

Dean acordou bem mais cedo que o normal. Havia algo em seu âmago que lhe implorava para que permanecesse ali, nos braços de Sam, mas ele ainda estava consciente o suficiente para reprimir aquele desejo doentio, e fugir para longe do irmão. Então, no momento em que colocou os pés no piso frio do quarto, pondo-se de pé, não hesitou em cambalear tropegamente em direção ao banheiro. A sensação que tinha era a de que alguém tentava abrir seu estômago com uma gilete, de dentro para fora; e as bordas dos machucados realmente doíam. Ignorando a própria condição, cerrou os olhos por um segundo, antes de finalmente conseguir fechar a porta, e girar a chave mesmo sabendo que Sam muito provavelmente enlouqueceria com aquela atitude.

Sem olhar durante nem um instante para o grande espelho anexado a um canto do cômodo, Winchester começou a se despir. Primeiro, a blusa. Foi a parte mais difícil, por causa dos curativos, das pontadas que sentia, mas, ao mesmo tempo, concluí-la lhe trouxe um alívio inexplicável. Depois disso, a calça moletom e a cueca foram infinitamente menos complicados, apesar de, ao se abaixar, precisar ter parado durante alguns minutos, para recuperar o ar que repentinamente se fora. Quando se arriscou novamente a caminhar para baixo do chuveiro, o peito doía.

Não pela dor que os movimentos provocavam, não pelo pânico que se instalou ao ter um breve vislumbre de seu corpo, refletido no espelho. Parecia algo infinitamente pior, que o deixou desconfortável e meio aflito. Graças a Deus, a água morna logo o retirou de seus devaneios, o distraiu. Pendeu a cabeça para trás, permitindo que o líquido escorresse por seu corpo e fizesse com que seus músculos relaxassem aos poucos. Era uma das melhores sensações das quais podia desfrutar, mesmo com a consciência pesando, mesmo com o desejo desesperado de fugir para bem longe daquele lugar.

Deslizou o sabonete pela própria pele, ignorando a aspereza das cicatrizes. Ignorou, também, a falta de ar. Ignorou a dor, e o desconforto. Não era a primeira vez. Não seria a última. Quando mais jovem, Dean já se machucara de muitas formas diferentes, e grande parte daquelas feridas era bem pior do que aqueles simples cortes que agora tinha espalhados pelo corpo. Sentia-se um frouxo por ter de resistir ao desejo de sair daquele banheiro, e pegar um comprimido para a dor.

Riu da própria fraqueza. Ele era um soldado; não devia se dar ao luxo de reclamar. Estava vivo. Não bem, mas vivo o suficiente para sentir-se preparado para lutar outra vez. Sua mente estava ferrada, e seu corpo estava pior, mas Dean não queria mais fugir. Estava cansado de tentar escapar daquele caminho, cansado de encontrar subterfúgios para não fazer o que deveria ser feito. Ele era um Winchester. Ele não deveria ter medo. Ele deveria deixar de ser tão covarde. Enquanto terminava de se lavar, e desligava o chuveiro, era nisso que o loiro pensava.

Caçadores jamais são crianças. Eles não têm esse direito, não podem simplesmente acreditar que tudo sempre dará certo no final, que a história vai terminar como nos contos de fadas. Dean não era idiota, nenhum deles era. Todos sabiam que nada funcionava assim, que nem sempre eram os mocinhos a vencer o monstro no final do livro. Todos tinham plena consciência de que a realidade era infinitamente mais cruel que um final feliz. Mas, mesmo assim, ele se permitiu ter esperança enquanto, com a toalha enrolada na cintura, retornava ao quarto, e notava que Sam dava os primeiros sinais de que despertava.

Dean se perguntou, por um momento, se o irmão seria capaz de aceitar aquela loucura, como ele próprio estava prestes a fazer. Aquela decisão não tornaria as coisas mais fáceis, não traria ninguém do além. Na verdade, era capaz de afastá-los até mesmo dos poucos que ainda viviam, e em definitivo. Esticou os lábios num pequeno sorriso, quase sem acreditar na ironia da situação.

Justo ele, o primogênito, o líder que tanto se negara a ceder, estava ali agora, dando o braço a torcer, por simplesmente não aguentar mais aquela situação. Depois de chiar, esbravejar, gritar. Depois de lutar, fugir, se esconder e correr para longe, ele finalmente aceitava que aquilo era algo sobre o que não tinha controle, por mais que desejasse o contrário. Ele estava voltando para casa, depois de toda a dor, depois de todo o desespero.

Isso era, de certa forma, o mais assustador de tudo aquilo.

Familiaridade não era algo bom para uma criatura como Dean.

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John fitou a criatura mundana a sua frente, quase sem acreditar no que acabara de ouvir. A moça possuía uma beleza natural, mas, ao mesmo tempo, existia algo exótico em seu olhar, na maneira como as íris azuis se iluminavam mais e mais a cada palavra dita. Antes, ele já presenciara situações semelhantes. A bela moça é salva, e decide fazer um pequeno esforço para agradar ao herói do dia. Não se importava, na verdade. Realmente não se importava. Mas algo naquela jovem lhe despertara um instinto primitivo que até então ele, erroneamente, julgava ter desaparecido com a morte de Mary.

Os lábios finos e bem desenhados. Os traços suaves, num rosto de proporções perfeitas. As madeixas loiras que caíam muito delicadamente sobre os ombros pequenos, e desciam até o meio das costas. Aquilo lhe era familiar. Trazia à tona seu lado mais possessivo. Seu êxtase. O anseio descontrolado em afastar a delicada alça da camisola, e tomá-la em seus braços sem se importar com o restante.

Desejo.

Winchester não hesitou em avançar como um predador faminto, seus lábios cobrindo os dela em questão de segundos. Seus dedos calejados pelo trabalho pesado dos últimos vinte e tantos anos tocaram a pele macia da moça, puxaram-na para si, contra seu corpo. Perto de John, a jovem que em Burlington — canto remoto de Iowa, quase na fronteira com Illinois — era considerada alta, não passava de uma criança.

Era quase isso que via, quando a encarava. Uma criança. Uma menina com corpo de mulher. Sua inocência só foi confirmada quando, ao afastar-se para encará-la, ele percebeu o medo se refletindo em suas íris invernais. Isso deveria ter sido o suficiente para fazê-lo parar, para fazê-lo perceber o erro que estava cometendo. No entanto, o moreno era um homem como qualquer outro. Ele precisava de contato, precisava de prazer; não espiritual, mas carnal. E, desde que a esposa falecera, Winchester não conseguia ir para a cama com nenhuma outra, sem uma boa quantia de álcool em seu organismo.

Uma ou outra exceção, era o que tinha para se satisfazer. Uma ou outra garota de programa que, de fato, conseguia agradá-lo durante o sexo. Era raro acontecer, mas mulheres comuns também conseguiam atraí-lo daquela maneira. Aquela menina, por exemplo. Depois de salvá-la de um grupo de demônios num bar de beira de estrada, John estava esperando que ela apenas lhe pedisse uma carona de volta para casa. Estranhamente, toda mulher parecia ter o dom de surpreendê-lo.

Agora, estavam ali, ambos nus sobre a cama de um quarto barato de hotel, beijando-se com fervor, tocando-se, gemendo. Ocorreu ao homem, apenas por alguns segundos, que aquele era o tipo exato de garota que chamaria a atenção de seu filho mais velho, Dean. Não parecia experiente no assunto, mas tinha o suficiente de vontade e excitação para não pensar duas vezes antes de agir. Como o velho sabido que era, John concluíra, ao vê-la, que a loira era tímida.

Mas não havia timidez nenhuma em seus gemidos. Não havia timidez em seus gestos, quando o arranhava, o puxava e o apertava. Não havia timidez em seus lábios, quando dizia coisas obscenas, e pedia para que ele a dominasse. Foi o que ele fez, também sem hesitar. Sem tanto carinho, sem tanto cuidado. E a moça pareceu realmente não se importar, enquanto arquejava e rodeava sua cintura com as pernas torneadas.

John permitiu que sua mente vagasse para longe, enquanto a penetrava vigorosamente, rapidamente, mordendo os próprios lábios para impedir-se de expressar em palavras o que estava sentindo com o ato. Alguém certamente chamaria a polícia, mesmo naquela espelunca, se ele xingasse tão alto quanto seus pensamentos gritavam. Contentou-se em desligar a própria mente. Sem pensar. Apenas sentindo. Isso tornava as coisas mais fáceis para Winchester, e talvez para ela também, tendo em vista que a moça simplesmente revirava os olhos, perdida em prazer, buscando seus lábios sempre que as sensações se tornavam intensas demais.

O clímax chegou, mas não trouxe a ele a satisfação esperada. Respirando pesadamente, John retirou-se de dentro dela, e jogou-se ao seu lado na cama. Se sentisse disposição para tal, o homem certamente a teria mandado juntar suas coisas e partir, quando a moça aconchegou-se contra seu peito, mas também não era de ferro, e estava cansado. Fechou os olhos, e, aos poucos, permitiu que a inconsciência o levasse para bem longe dali.

A loira esperou até que ele caísse num sono pesado, antes de afastar-se, controlando a ânsia de vômito que ameaçou dominá-la enquanto se levantava e juntava suas coisas. Não sentia nojo de si mesma — porque, afinal, já havia feito coisas bem piores, tantas vezes que já até perdera a conta —, mas sim daquele moreno esparramado sobre a cama. O mundo humano era cheio de falso moralismo, bem sabia, porém nem por isso deixava de se surpreender com as coisas que os humanos eram capazes de fazer para agradarem a si mesmos; por prazer ou o que fosse.

Por esse lado, não eram tão diferentes assim. Ela era um demônio muito acima do nível desprezível daquelas tolas criaturas, no entanto, lutava por um objetivo em comum. Poder. Controle. Dominação. A diferença era que ela estava sempre um passo à frente de todos eles, os malditos. Ela estava sempre pronta para enfrentá-los, sempre pronta para acabar com todos aqueles filhos da puta. Todos eles, de todos os tipos. Ela os esmagaria, e riria quando lhe implorassem misericórdia.

Sentindo-se verdadeiramente vitoriosa e magnífica por ter escolhido um novo corpo tão jovem e tão belo para colocar em prática seus mais cruéis e novos planos, Ruby sorriu para o reflexo no espelho anexado a um canto do quarto.

As outrora escuras íris de Joanna Harvelle a encararam com medo por detrás da superfície vítrea.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.