Somos todos uma espécie de Homem de Ferro.

Essa frase não deve ter feito o menor sentido pra você, eu imagino, mas você vai entender. Quando digo que somos todos uma espécie de Homem de Ferro não quer dizer que somos absurdamente inteligentes, metidos, ricos e portadores de uma avançada tecnologia capaz de batalhar contra monstros e alienígenas fanáticos pelo 50%. Não.

Essa metáfora é mais pra representar a nossa relação com o nosso corpo. Somos como o Tony Stark dentro de sua armadura. Somos pilotos de um revestimento de carne chamada corpo.

Nesse momento você já deve ter pensado na possibilidade de fechar esse texto e ir procurar algo mais interessante pra ler, pois o narrador claramente deve estar fazendo uso de entorpecentes e não está falando nada com nada. Pois bem, vou te provar que não estou tão doido.

Possuímos uma personalidade, um jeito de lidar com as coisas e interagir com o mundo ao nosso redor. Algumas pessoas chamam isso de alma, outros de ego, eu já prefiro optar pelo nome de persona, por quê? Porque eu gosto dessa palavra.

Há também uma parte primitiva em nós. Que se manifesta através de impulsos e vontades de vida. Vontade de comer, que chamamos de fome. Vontade de beber água, que chamamos de sede. Vontade de ir ao banheiro, que chamamos de você sabe o que. A questão é que essa parte primitiva seria como o sistema operacional de nossa armadura de carne, sendo sua única função manter o corpo vivo.

Muitas vezes estamos interagindo com algo que gostamos, como por exemplo, lendo um livro ou praticando um esporte ou assistindo uma animação sobre um garoto que encontrou um relógio alienígena e simplesmente não damos ouvidos às mensagens que esse lado primitivo nos manda. Mas assim que interrompemos a atividade, fome, cansaço, vontade de ir no banheiro, sono, tudo isso vem de uma vez. Se passarmos um tempo muito exagerado ignorando esses avisos, nosso sistema operacional resolve escolher por nós mesmos: já ouviu falar de desmaio?

E não é apenas em impulsos primitivos que esse “J.A.R.V.I.S.” do corpo atua. Ele conhece quando uma engrenagem começa a travar, quando um parafuso começa a afrouxar, quando uma peça está sendo utilizada de maneira errada e pode quebrar a qualquer momento. E ele avisa. No começo, pode parecer apenas um pensamento chato e incômodo, como um pop-up que surge quando não devia. Mas quanto mais você tenta ignorá-lo, mais ele tende a te chamar a atenção, disparando sirenes e emitindo sinais de alerta para avisar que algo está errado.

Muitas vezes o mal funcionamento de uma peça é facilmente consertável por nós mesmos. No entanto, em algumas situações, precisamos de uma ajuda especializada pra lidar com o conserto.

Só que em alguns casos, há tantas peças com defeito, tantas mensagens de “erro”, tantas sirenes disparando em mil lugares que não sabemos nem por onde começar a procurar por ajuda. Às vezes simplesmente escapa, chegando aos ouvidos do mais próximo no momento...

― Me ajuda... ― disse Ben.

Gwen olhou para seu primo e, num primeiro momento, não se mexeu.

O que eu faço? ― Pensou, Gwen.

Resolveu se aproximar. Deu o primeiro passo em direção a ele, no entanto, o ambiente em que se encontravam resolveu lembrá-la de que não estavam na verdadeira Bellwood.

O tremor começou no solo e se espalhou pelo ar. Em questão de instantes, Gwen sentia todo seu corpo tremer. As imagens das casas, ruas e até mesmo as criaturas tornou-se turva e distorcida, como se se movessem em alta velocidade para todas as direções. Apenas os primos se mantinham paralisados no epicentro da confusão.

Com o passar dos segundos, o frenesi visual tornou-se nauseante e Gwen tentava manter os olhos fechados para diminuir o impacto da tontura que lhe acometia. A garota sentia seu coração pulsar freneticamente em seu peito, com cada batida ressoando em seus ouvidos.

Tentou abrir os olhos em busca do primo, mas a expressiva diminuição do espaço ao redor chamou mais sua atenção. Era como se toda a cidade tivesse sido reduzida a um cômodo de elevador que insistia em reduzir cada vez mais seu volume. Uma sensação clautrofóbica se abateu sobre si, tendo como resposta uma respiração ainda mais acelerada e desesperada.

Um medo intenso tomou conta de si. A náusea, os tremores, o coração acelerado, a respiração ofegante, a dificuldade de focar a visão, os pensamentos frenéticos, tudo ali indicava uma condição de absurdo perigo.

Para Gwen era só uma questão de tempo. Para qualquer lado que olhasse sentia como se o golpe final estivesse prestes a chegar. A respiração ficava cada vez mais acelerada e desconfortável.

E-eu já tive isso... ― pensou Gwen ― Eu sei o que fazer... Eu sei...

Gwen fechou os olhos e tentou focar em sua respiração. Era difícil pois sentia o tórax se mexer por conta própria, mas continuou persistindo, obrigando pelo menos uma parte de seu corpo a lhe obedecer. Precisava respirar.

Inspire-Expire-Inspire-Expire-Inspire-Expire-Inspire

Expire-Inspire… Expire-Inspire-Expire…

Inspire... Expire-Inspire…

Expire... Inspire...

Expire...

Inspire...

Expire........

Inspire..........

Expire.............

Aos poucos, a jovem foi voltando a ter controle de seu corpo, de sua mente, de suas emoções.

Abriu os olhos e o ambiente ao seu redor ainda se mantinha em caos, no entanto, não mais lhe impactava.

Olhou para os arredores e viu Ben sentado no solo em constante desespero. Ele se debatia, buscava ar e tentava afastar qualquer coisa que pudesse lhe machucar. Gwen não pestanejou e correu em sua direção.

***

Ben sentia seu peito doer. Suas mãos formigavam, seus braços pesavam e sua boca estava dormente. Sua visão era um misto de borrões e completa cegueira. O coração parecia galopar sem rumo, ecoando cada batida por todo o corpo. Nos ouvidos apenas um fino e prolongado zumbido. Sentia como se o mundo o apertasse de uma só vez. Queria correr, fugir, sair dali, sair daquilo. Não conseguia respirar. Sentia o ar entrando nos pulmões, mas desejava cada vez mais ar. A dor no peito piorava. Eu vou morrer! Alguém me ajuda que eu vou morrer! Ele se debatia. Buscava alcançar algo e nada ao mesmo tempo. Eu vou morrer! Teve a impressão de ouvir algo. Alguém me ajuda! Queria gritar. Estava gritando? Sentia a garganta fechando. O peito doía. Preciso de ar. Novamente um som. Uma voz? Me ajuda que eu tô morrendo! Era uma voz. Ela chamava seu nome. Me ajuda!

― Ben... ― disse a voz

Me ajuda! Eu não quero morrer!

― Ben, se conc...

A dor no peito piorava. Agora eram as pernas dormentes. O braço esquerdo queimava dolorosamente.

― Ben, se concentra na minha voz!

Eu não quero morrer!

― Respira comigo, vai!

Respirar!? Eu não consigo respirar!

― Puxa o ar...

E-eu não consigo!

― Solta o ar...

E-eu...

― Puxa o ar...

Puxa o ar...

― Solta o ar...

Solta o ar...

― Puxa o ar...

***

Não foi rápido. Ben demorou para sair da crise.

Se Gwen desconfiava que seu primo não estava bem, agora era certeza.

Ela já teve um período de grande ansiedade antes, foi quando despertou o lado anodita de sua genética. Não foi fácil. Mas com certeza nunca chegou ao nível da crise que empaticamente experimentou há alguns instantes.

Ben está doente e precisa de ajuda.

***

― Isso, continue respirando com calma ― disse Gwen. Sentada ao lado do primo, ela segurava uma de suas mãos e a alisava carinhosamente em apoio.

― Gwen, eu... ― disse o jovem. Seus olhos ainda se encontravam úmidos, mas já não havia mais o pânico em seu olhar.

― Não precisa falar nada, Ben, se concentra em respirar por agora.

― Eu já estou melhor...

― Mesmo?

― Sim... ― Respondeu de cabeça baixa.

Gwen respirou mais aliviada. Olhou para os arredores. Não havia nada. Nem sinais de Bellwood ou criaturas.

― O que aconteceu comigo? ― perguntou Ben.

― Você teve uma crise de pânico.

― Como assim?

― É complicado de explicar, mas o principal é que agora a gente sabe o que está acontecendo contigo e podemos te ajudar.

― Como? ― Ben olhou no fundo dos olhos de Gwen.

― Precisaremos de ajuda médica, isso é um fato, pois Ansiedade não é algo que deve ser tratado de qualquer maneira, acredite em mim.

― Mas eu nunca tive isso antes...

― E lá na estação de energia?

― Não. Não foi isso que aconteceu...

― Não foi?

Gwen viu o jovem olhar para as próprias mãos, acompanhou seu olhar e percebeu que as mãos de Ben estavam voltando a tremer.

― Ben!? Aqui, fala comigo!

Ele abaixou as mãos e novamente encarou Gwen.

― Se não foi uma crise de ansiedade, o que você teve na estação?

― Eu não sei... Eu só sei...

― O que você sabe?

― Eu só sei que doía...

Gwen ouviu essas palavras com atenção. Se o Ben não teve uma crise de ansiedade na estação, talvez tenha sido isso que tenha feito ele adoecer. Segundo aprendeu com sua médica há alguns anos, não é incomum desenvolver ansiedade após um evento traumático. Ela perguntou:

― Você consegue me explicar o que houve?

― Não...

Ela abaixou a cabeça, pensando por alguns instantes. Temia a resposta que iria receber, mas precisava perguntar.

― Consegue me mostrar?

― Você não gostaria...

― Não é uma questão de gostar ou não. É uma questão de encontrar uma resposta pra poder te ajudar. Vamos, me mostre ― disse ela, oferecendo as mãos.

Ben segurou as mãos de sua prima. Fechou os olhos e se concentrou nas memórias. Já Gwen se concentrou em realizar a conexão.

Empatia é uma das habilidades mais belas e mais fortes do ser humano. A capacidade de sentir com o outro. Sentir sua felicidade, sua tristeza, sua preocupação, sua dor.

Foram apenas três segundos, mas foi o suficiente pra fazer Gwen soltar por impulso as mãos do primo e interromper a conexão.

― Ben, me desculpe, eu não queria ― Gwen tremia ― Eu não queria ter soltado sua mão, é que-

― Não se preocupe, Gwen, eu entendo.

― Foi isso que você sentiu lá na estação?

― Sim. E algo parecido quando estava na missão com Vô Max. Aliás, como ele está?

― Ele está bem.

― Fico feliz em saber disso. ― Ben esboçou um sorriso ― Eu realmente pensei ter pedido ele com aquele ataque do Albedo.

― Você conhece o Vovô, ele é mais resistente do que parece.

― O estômago dele com toda certeza é!

Ambos riram por alguns instantes.

― E agora? ― perguntou Ben ― O que a gente faz?

― Eu não tenho certeza, mas você encontrou a resposta para o que estava procurando?

― Resposta acho que não, ainda não sei o que há de errado com o relógio...

― Então a gente tem que-

― Eu diria mais que encontrei o motivo de eu estar fugindo ― interrompeu Ben.

― Como assim?

― Desde o começo de toda essa situação, era como se eu tentasse ignorar que algo estava acontecendo.

― Mesmo?

― Sim... Pensando agora, eu sentia como se uma parte de mim quisesse simplesmente fingir que o acontecimento na estação simplesmente não aconteceu, enquanto outra parte tentava me avisar que tinha algo de muito errado comigo.

― Eu sei bem como é esse sentimento...

― E fingir que não existia o problema só me fez repetir os erros... ― Ben encarou o relógio.

― Mas agora é diferente ― disse Gwen, ficando de pé.

― Ah, é?

― Claro ― disse ela oferecendo uma mão para o primo ― Agora, mais do que nunca, você entendeu que não está sozinho e sempre pode contar com a gente pra te ajudar.

― Com a gente? ― Ben aceitou a ajuda e levantou ― Tem mais alguém aqui?

― Não, né!? Mas Kevin e o Vovô também estão por aí atrás de uma forma de te ajudar.

― Saquei. Agora você fica aqui na minha mente ou eu-

Ben é interrompido com o abraço súbito de Gwen. Num primeiro momento ele fica sem reação, depois retribui o gesto. Por alguns segundos, nada disseram, apenas compartilharam a felicidade representada por aquele abraço. Gwen então diz:

― Te espero lá fora, fedelho

― Até daqui a pouco, pirralha.

O corpo dela se reveste de uma luz intensa, sua silhueta luminosa se torce e desaparece num ponto único.

***

De volta ao quarto na Ala médica do Quartel dos Encanadores, a orquestra de aparelhos médicos se mantém ininterrupta.

Junto ao pé da cama de Ben, um ponto luminoso surge no ar e se expande num estalo, fazendo a jovem anodita reaparecer a alguns centímetros do chão.

Gwen desce e apoia uma mão na parede mais próxima. Sua cabeça dói e uma fadiga intensa acomete cada músculo de seu corpo. Todo seu esforço começava a cobrar o preço. E o Ben? Ela caminha em direção à cama e observa o corpo de seu primo ainda mantido em seu estado comatoso.

Será que eu saí cedo demais? ― pensou ela.

Agora era o sono. Fazia dias que não dormia e sentia que seu corpo se encontrava sob a gravidade de Júpiter. Puxou para perto a cadeira do acompanhante e sentou-se com a cabeça apoiada na cama, por sobre seus braços. Se caso Ben fizesse qualquer movimento, ela iria perceber.

Como um computador que força o desligamento, Gwen adormeceu.

Não viu o momento que seu primo acordou. Não sentiu a mão dele levantar ao seu lado e apoiar sobre sua cabeça com carinho. Assim como não ouviu ele dizer:

― Valeu, prima.