O'Connors Famous Pub
1 O' Connor's Famous Pub
Notas iniciais
PRÓLOGO: START OF SOMETHING NEW
O'Connors Famous Pub, Salthill (Galway County, Irlanda), sexta-feira, 05 de junho de 2015 – 23:45h, 10°C, tempo aberto com ventos.
— “Livin’in my own world, didn’t understand…”. — Edward começou a sua parte do dueto, no karaokê; não acreditava que Júnior tinha escolhido justamente aquela música, como se soubesse exatamente como ele estava se sentindo em relação à morena ao seu lado, desde o momento em que seus olhos se encontraram pela primeira vez naquela mesma noite.
— “I never believed in what I couldn’t see…”. — A voz de Bella, embora mais grave do que a original, ainda assim, trazia uma agradável mudança de tom, como se desse o seu toque pessoal à canção. Ao contrário de seu “parceiro”, ela tentava ignorar uma parte importante dentro de si mesma que tentava conferir-lhe um sentimento bem desconcertante em relação à música.
Foi um tanto mais difícil, ela constatou, continuar ignorando aquela faísca quando os dois, de fato, começaram a cantar juntos. Parecia que, para além do já vivido naquela noite, eles estavam apenas no ponto de partida, como se ainda tivessem muito mais experiências para trocarem. Edward sentia o mesmo: quando olhava dentro dos olhos castanhos chocolate de Bella, era como uma confirmação do que estava por vir.
Já sem a sua jaqueta, Edward não teve aquele momento Troy Bolton de tirá-la, mas ele não se acanhou: abriu os dois primeiros botões de sua camisa cinza e se aproximou mais de Bella, quase colando os seus corpos, atraindo o olhar dela para o início de seu peito. Ela quase errou a sequência da música e se atrapalhou em sua reentrada, mas se manteve firme e jogou o cabelo discretamente para trás, exibindo o pescoço pálido e cheiroso. Totalmente concentrado em sua beldade, Edward conseguiu sentir o aroma floral emanando daquela parte tão charmosa e sedutora do corpo de Bella; ele mal podia esperar para sentir a textura de sua pele, fosse com as mãos, ou com os lábios.
Edward abraçou-a pela cintura delicadamente, observando a reação de Bella que, já ao final da canção, não via mais motivos para relutar: ele a atraía, e não era como se estivessem se comprometendo um com o outro; não estavam assinando um compromisso, ou um casamento, mas apenas se divertindo. Ela, então, recolocou o microfone no suporte, fechou os olhos e “descansou” as mãos no peito firme dele; ele, vendo toda a receptividade dela, não demorou a selar seus lábios num beijo inicialmente calmo.
A faísca, porém, tomou força e intensidade, cresceu, se tornando um pequeno incêndio dentro de suas bocas. As mãos de Edward, quentes e ansiosas, apertavam o pequeno corpo contra o seu, muito maior, ao passo em que as de Bella se embrenhavam pelos fios de cobre do cabelo dele. E, enfim, pelos gritos e aplausos de sua audiência, os dois recobraram a noção de tempo e espaço: estavam em público, não à sós e, por pouco, o incêndio não tinha tomado proporções irreparáveis…
PARTE I: GALWAY BOY
O’Connor’s Famous Pub – 21:00h.
Finalmente! Depois de quase virar na rua errada, Bella tinha chegado ao “Famoso Pub do O’Connor”. Ao se aproximar da entrada do local, ela avistou um casal muito semelhante, fisicamente, recostado à grande parede amarela: o rapaz tinha cabelos ruivos, cujos fios praticamente se rebelavam num topete bagunçado, uma mandíbula bem contornada por uma barba curta e bem cuidada e pequenos olhos verdes penetrantes. Ele era bem mais alto do que os demais irlandeses com quem Bella já havia topado e, embora a descrição dele não fosse tão distinta dos demais conterrâneos, era notável um certo charme inexplicavelmente incomum.
A mulher ao lado dele poderia ser considerada a sua própria versão feminina, com o mesmo tom de cobre nos cabelos curtinhos e cacheados, e os olhos verdes brilhantes combinando com suas feições suaves, mas, ao mesmo tempo, concentradas em sua atividade: dedilhar o violão em seus braços, preso ao corpo por uma alça provavelmente feita de couro.
— Não é possível que elas sempre se atrasem desse jeito! — disse a moça num tom meio irritado que acompanhava o ritmo de seus dedos, ocupados em acertar os mais diferentes acordes.
O homem concordou com a cabeça, levando uma das mãos aos cabelos e a outra à boca; só então, Bella percebeu que ele tinha um cigarro entre os dedos e a imagem foi suficiente para fazer sua cabeça doer em abstinência. Ela se surpreendeu ao notar o quanto sentia falta do efeito da nicotina em seu corpo e também com o arrepio percorrido de sua espinha até o dedinho do pé, quando os seus olhos se encontraram com os do rapaz, a poucos passos de distância. Ele inclinou a cabeça levemente para a direita e franziu o cenho por alguns instantes antes de tirar o cigarro da boca, soltar a fumaça, e dar um sorriso muito sedutor, na opinião de Bella.
Ignorando o descompasso em seu coração e a sensação iminente de que não podia perder a chance de ter aquele pedaço de mal caminho, ela se aproximou dele o suficiente para, se ele também quisesse, os dois poderem interagir sem qualquer pressão, ou estranhamento por serem desconhecidos.
— Boa noite — ela murmurou, meneando com a cabeça na direção do casal, esperando que não estivessem romanticamente envolvidos, embora fossem tão parecidos que Bella poderia apostar serem irmãos.
— Boa noite — os dois responderam em uníssono. A moça parou de tocar por alguns instantes para exibir um meio sorriso e, então, pediu licença para se afastar quando o celular começou a vibrar no bolso de sua calça jeans.
— É aqui que a banda Semar-Óc (N/A: lê-se “Shamrock”) se apresenta? — Bella perguntou educadamente, tentando iniciar uma conversa, enquanto se aproximava um pouco mais do homem, também se encostando contra a parede exterior do pub.
— Se todos os integrantes chegarem, sim — respondeu ele com uma risada meio rouca, meio melódica. Ela deduziu: o fato de ele já estar no local antes, combinado à sua afirmativa, significava que a banda ainda não havia chegado. Talvez, fosse um frequentador assíduo do bar — Sou Edward. — Ergueu a mão livre para ela, presenteando-a com mais um sorrisinho sexy acompanhado pelo nome elegante pronunciado com um sotaque irlandês igualmente charmoso.
— Isabella — respondeu, aceitando o cumprimento firme de sua mão, arrepiando-se ao sentir o toque da pele dele contra a dela — Mas pode me chamar de Bella — complementou, meio desnorteada diante de tanto galanteio.
— É um prazer, Bella! — Surpreendendo-a, Edward levou a mão dela aos lábios e Bella teve que concentrar-se em não derreter-se de desejo por aquele completo desconhecido. O beijo suave em sua pele quase a incendiara, mas ela não deixaria transparecer o quanto estava se afetando: ainda tinha cartas o suficiente na manga para virar aquele jogo de sedução. No final da noite, ele quem estaria de pernas bambas por ela.
— O prazer é todo meu. — Bella deu um sorrisinho de lado, sendo instantaneamente retribuída.
Edward desuniu as mãos e voltou a tragar o cigarro, enquanto a encarava.
— De onde você é? — perguntou ele, liberando a fumaça por entre os lábios.
— Nem um palpite? — desafiou-o, completamente hipnotizada pelo verde dos olhos dele.
— Com certeza não é da Irlanda, nem daqui, nem da “do Norte”, mas você tem um sotaque meio esquisito para ser do outro lado da balsa, então, estou confuso — Edward foi sincero e esperava não tê-la ofendido, por isso tentou se corrigir o mais rápido possível — Pode trocar “esquisito” por diferente.
Bella soltou um pequeno arquejo, perguntando-se o quanto o seu modo de falar poderia ter se transformado em seis anos, desde que se mudara de Londres para Dublin, e se ele, de fato, soava esquisito. Ela, então, contou brevemente a Edward sobre o fato de ter nascido na cidade do Big Ben e da sua mudança para a Irlanda para começar a faculdade.
— Okay, eu preciso admitir, o seu sotaque é um diferente mais para sexy — comentou Edward, dando mais uma tragada em seu cigarro. Os olhos de Bella se arregalaram levemente e ela torceu para não estar corando quando ele deu uma piscadinha na direção dela. Recompor-se era necessário!
Ele, ao tentar procurar algo nos bolsos de suas calças, aparentemente, não encontrou o que gostaria e ofereceu o próprio cigarro à ela.
— Você parece meio tensa… E esse é o último, se não se importar em dividi-lo — explicou-se, meneando com a cabeça na direção do cigarro, o qual Bella não demorou a pegar e tragar profundamente. Sentir a fumaça invadindo os seus pulmões foi capaz de deixá-la bem relaxada, como propusera Edward, principalmente, depois de duas semaninhas sem os efeitos daquela substância. Ela devolveu-o para ele enquanto expulsava a fumaça de seu corpo pela boca.
— E você, é daqui? — Ela tinha quase cem por cento de certeza da natureza irlandesa daquele homem, mas não da exatidão local de onde ele pertencia.
— Nascido e criado em Galway, fica a uns 5 minutos de carro daqui — afirmou, dando mais uma piscadinha e passando o cigarro para Bella — Você conhece?
— Atravessei a cidade quando estava vindo de Dublin, mas só de passagem mesmo. — Mais uma resposta acompanhada de mais uma tragada no cigarro.
— Qualquer dia te apresento a cidade, te levo no meu lugar favorito de lá! — Edward gesticulou para os próprios braços e, antes que Bella pudesse questioná-lo sobre o motivo, ele despiu a jaqueta jeans, exibindo seus músculos cobertos por uma pele colorida e incrivelmente bem tatuada. Não que estivesse repleta de desenhos, mas, a julgar pela iluminação não tão propícia da rua, podia-se notar que eram, de fato, traços de qualidade.
Observando um pouco melhor, novamente, à luz da rua, Bella notou o que parecia ser uma casinha abrigando três flores de espécies aparentemente diferentes logo acima da dobra do antebraço. Abaixo dessa, um lindo – e incomum – axolote! Ela jamais imaginou ver uma criatura daquelas em vida, não na Irlanda, que dirá numa tatuagem! Pouquíssimas pessoas conheciam-na e Bella acabou se perguntando por que Edward gravaria permanentemente o desenho de um bichinho tão peculiar em sua pele… E, então, ela notou, no outro antebraço, além de um pequeno trevo de quatro folhas, outro axolote!
— São axolotes! — Bella não conseguiu esconder a surpresa e leve admiração que sentiu por aqueles desenhos. Como médica veterinária, tinha o costume de ver os tutores de seus mais convencionais pacientes (pets) homenagearem-nos com tatuagens, ainda em vida, ou póstumas; era a primeira vez que se deparava com um desenho de um animalzinho tão incomum.
— Uau, eu, definitivamente, não esperava que você conhecesse axolotes, muito mais do que eu não esperava que você fumasse!
Bella sentiu-se um pouco irritada, pois parecia que Edward não estava apenas surpreso por seus conhecimentos, mas duvidava da capacidade dela. Ela, então, resmungou sobre a profissão que tinha, erguendo o queixo e cruzando os braços depois de contar mentalmente até dez e prender o cigarro entre os dentes.
— Oh, me desculpe novamente, eu não quis te ofender. — Edward pareceu meio sem graça e suas bochechas se tornaram levemente vermelhas — É que eu nunca conheci alguém que soubesse da existência de axolotes, eu tenho dois de estimação, sabe. Quando veem minhas tatuagens, as pessoas sempre acham que é um tipo de criatura mística, ou acreditam serem a representação de um Pokemon chamado Wooper… — Ela inevitavelmente percebeu como ele estava tagarelando, como se para explicar de onde tinha vindo o seu pré-julgamento anterior.
— Está bem, está perdoado. — Bella calou-o com o cigarro, tomando novamente a liberdade de colocá-lo entre os lábios dele — Mas antes de sair dizendo essas coisas, pergunte primeiro — ela deu-lhe um pequeno sermão. Edward assentiu afirmativamente com a cabeça e olhou para os próprios pés antes de dar uma tragada profunda no cigarro.
Ao passo em que a frustração de Bella ia se dissipando, ele se sentia menos envergonhado por ter dito o que pensava tão abertamente e estava grato por ela tê-lo perdoado. Por algum motivo ainda desconhecido, ele se sentia bastante ansioso perto dela, algo incomum; geralmente, era ele quem causava tal efeito nas mulheres que queria conquistar. Perceber suas reais intenções para com Bella, principalmente ligadas à atração sentida por ela, fez tudo ter um pouco mais de sentido – menos a parte do seu nervosismo.
— Você tem tatuagens? — ele perguntou após alguns instantes de silêncio, tentando retomar a conversa de maneira mais confortável.
— Tenho uma — respondeu ela, puxando a manga esquerda da jaqueta jeans que vestia, até exibir parte do braço, no qual se lia, ao redor dele, a em irlandês: “Tá tú an rud amháin go mbeadh sé gortaítear dom a chailleadh”.
— Isso é gaeilge? — Edward tornou a perguntar ao notar a escrita diferente no braço dela, tentando não demonstrar tanta surpresa e ofender Bella mais uma vez, mas ele não conseguia evitar: quanto mais sabia sobre ela, descobria um pedacinho cada vez mais impressionante daquela mulher.
— Sim — Bella afirmou, observando-o atentamente. Mandaria-o tomar naquele lugar se percebesse qualquer nova manifestação de surpresa por parte dele.
— O que significa?
Foi, então, que Bella deu um sorrisinho vitoriosamente presunçoso pela primeira vez – algo não despercebido por Edward – um irlandês que não sabia gaélico? Ela fez questão de dizer aquilo em voz alta, não para desmerecê-lo, mas para mostrá-lo que também podia ficar surpresa com ele.
— Quer dizer: “Você é a única coisa que me magoaria perder”, de um livro de poesias de uma colega de faculdade — Bella respondeu, sem muito mais explicações; não estava muito a fim de compartilhar sentimentos mais profundos com alguém que acabara de conhecer. Edward mesmo não se dera ao trabalho de comentar as próprias tatuagens e ela aproveitou os olhares dele na direção da frase em sua pele para lhe roubar o cigarro, dar uma tragada, e perguntá-lo, antes que ele resolvesse questioná-la de um possível significado: — Você realmente não sabe irlandês?
— Não, não é algo do qual me orgulhe, mas também nunca me incomodou não saber — confirmou ele — E você, de todos os idiomas do mundo, por que escolheu o irlandês para marcar a sua pele? — Edward estava curioso por aquela resposta, pela chance de saber um pouco mais sobre Bella, que parou para pensar, por alguns instantes, na melhor resposta.
— A Irlanda se tornou a minha casa pelos últimos anos, nunca me senti tão bem em qualquer outro lugar. Essa é a minha “canção” de amor ao país. — Era parcialmente verdade o que dizia. A tatuagem, em si, era muito mais uma frase compartilhada entre ela e uma das pessoas mais importantes em sua vida do que um relato de amor à Irlanda, embora, de fato, amasse muito viver no país.
Edward sorriu diante da declaração dela, ele mesmo tinha provado do acolhimento, principalmente, do povo irlandês: no momento em que mais tinha precisado, foi amado e cuidado por pessoas muito especiais daquela nacionalidade.
No meio de toda a tensão, ambos continuaram a trocar olhares e a dividir o cigarro por mais alguns minutos quando uma pequena comoção chamou a atenção de Bella: aproximando-se animadamente do local, estavam duas cabeleiras loiras e uma morena. As loiras, Bella reconheceu facilmente, eram suas duas melhores amigas, que correram ao seu encontro e a abraçaram apertado.
— Desculpe o atraso, Bella, é tão bom te ver aqui! — Kate exclamou, apoiando-se nos ombros de sua querida amiga-irmã, de estatura muito mais baixa. Seus cabelos levemente ondulados, loiros claríssimos, quase brancos, estavam bem mais longos em comparação à última vez que tinham se visto mas os seus olhos azuis claros continuavam os mesmos desde sempre: extremamente amorosos para com a sua irmãzinha mais nova.
— Finalmente estamos juntas de novo! — Rosalie se embrenhou pelo outro lado, colocando-se entre Bella e Edward, ignorando-o completamente, ao que ele revirou os olhos, mas não deixou de observar a interação daquelas velhas amigas. Ele estava surpreso por perceber que a mulher com quem passara os minutos anteriores era a amiga de longa data das integrantes de sua banda.
Ela estava bem diferente das fotos que ele tinha visto, ou, talvez, não tivesse prestado atenção suficiente nelas. Uma coisa era certa: Isabella não era mais uma garotinha, como tantas fotografias mostravam, mas uma mulher muito bonita e sedutora. Ele começava a se questionar se a interação entre os dois os levariam a algum destino àquela noite ou se Rose, a pianista, e Kate, a tocadora de bodhrán, lhe arrancaram a cabeça, caso se envolvesse com ela.
— É muito bom ver vocês! — Bella conseguiu dizer, entre tantos apertos, com um sorriso genuinamente feliz: estar na presença delas era estar em seu verdadeiro lar, afinal de contas.
— Essa aqui é Maggie, a acordeonista da banda — Rosalie estendeu a mão direita na direção da moça morena de cabelos cacheados, a quem Bella cumprimentou — E esse aqui do lado é o Edward, meu irmãozinho… — Olhando de um para o outro e conhecendo-os como ninguém, ela logo entendeu que os dois já haviam se conhecido. Ela se perguntou se provinha dos dois a tensão quase palpável no ar e não demorou a perceber que sim.
Os olhos de Bella se arregalaram e ela se sentiu idiota por não ter relacionado o nome de Edward ao Edward, o irmão adotivo da sua melhor amiga. Porra, como poderia ter se esquecido? Tudo bem que, antes daquela noite, os dois nunca haviam se visto, mas não era muito difícil deduzir a presença dele ali no bar, pois também fazia parte da banda!
— Hum… Você já conheceu a Victoria, também? — Rose interrompeu os pensamentos de Bella e meneou com a cabeça na direção da moça ruiva, ainda com o violão em mãos, mas já tendo parado de tocá-lo — É minha irmãzinha!
É claro, a banda estava finalmente completa!
— Acho que não tive a chance de apresentá-las, Victoria ficou o tempo todo no violão — Edward falou, dando um peteleco no ombro da moça ruiva, que havia se aproximado do grupo no momento em que ouviu o seu nome sendo mencionado.
— Desculpe se não quero decepcionar a minha audiência — Victoria disse em tom zombeteiro e fez um som com os lábios que soou como indignação.
— Por falar em audiência… — Maggie chamou a atenção de todos e apontou para a porta de entrada principal do bar — É melhor a gente ir entrando.
— Com certeza! — Kate concordou e puxou Bella pelo cotovelo na direção da porta — Depois da nossa apresentação a gente compra umas bebidas e põe o papo em dia! — Ela estava muito animada na presença da irmã.
O pequeno grupo adentrou o bar e, assim que Bella se acomodou numa das mesas, a banda marcou presença no local e, ao menos na perspectiva dela, deu um show. Além de apresentar músicas irlandesas mais clássicas, eles conseguiam mesclar perfeitamente os ritmos mais modernos aos seus instrumentos mais tradicionais. Bella ficou encantada – e ainda mais atraída – por Edward; o modo como os músculos dos braços dele se flexionavam conforme ele tocava o violino quase não aguçou a imaginação dela. Ela nem mesmo pensou na possibilidade daqueles mesmos músculos a envolverem sobre uma cama, ou talvez ainda um sofá, mais tarde naquela mesma noite. Que perfeição seria terminar a noite daquela forma!
E Edward, por outro lado, nem sequer pensou em dar o seu melhor show, ele nem quis se exibir para a mulher deslumbrante sentada a poucos metros de distância… Ele até tentou, mas não conseguiu desviar os olhos dela por mais de alguns instantes, eles sempre voltavam, como ímãs, para o rosto perfeito de Isabella. Ele precisou fazer um pouco mais de esforço mental para não errar as notas, ou sair do ritmo, mas considerou ter feito um bom trabalho, principalmente, porque os seus olhares eram retribuídos com bastante intensidade.
Sob a luz do ambiente, comparada à luz fraca da rua, Edward conseguiu ver melhor o tom castanho chocolate inigualável dos olhos de Bella, destacados ainda mais pela maquiagem em tom de azul; eles fizeram-no, por vezes, se arrepiar enquanto tocava o violino. Na verdade, ele conseguia vê-la melhor perfeitamente e pôde notar a cor escura das madeixas dela e também o que parecia um tom arroxeado refletindo na metade posterior do cabelo dela, conferindo-a um visual elegante e misterioso. Seu corpo era magro e pequeno, e muito bem acentuado pelas roupas vestidas.
23:00h.
E, então, após uma hora e meia de apresentação, quando o relógio sinalizou onze horas da noite e os aplausos da plateia – os clientes do bar – irromperam pelo local juntamente com os agradecimentos da banda, Seth, o seu garçom preferido, apareceu com seis canecas cheias de cerveja assim que se juntaram à mesa de Bella. O’Connor Jr., filho do dono, agradeceu a eles como de costume e abriu o karaokê, disponível às sextas e sábados, depois de cada show deles.
— Ainda não acredito que esteja aqui! — Kate exclamou ao se sentar ao lado direito de Bella e a abraçou pelos ombros, recebendo um sorriso genuíno da irmã mais nova.
As demais garotas foram se acomodando e antes que perdesse a oportunidade de assistir a um possível romance se desenvolver bem diante de seus olhos, Rosalie ocupou a última disponível que não estava ao lado da melhor amiga, portanto, sobrou um único lugar vazio, ao lado esquerdo de Bella, para Edward se sentar. Ele não se fez de rogado, nem de bobo, e sentou-se perto da mulher que tanto o atraía.
— Senti tanta falta de vocês! — Bella comentou, sorrindo para todos, mas, principalmente, para Kate e Rose — Obrigada por me convidarem, amei poder ouvir a banda e… — Com mais um sorriso, ela se perdeu ligeiramente nas orbes esmeraldas, que não paravam de fitar o seu rosto — Hum… Que tal um brinde? — propôs, com um suspiro, ao perceber ter perdido completamente o fio da meada. Bella soltou um suspiro e ergueu sua caneca, evitando pensar no motivo de ficar tão desconcertada em tão pouco tempo, algo meio difícil, pois esse se encontrava, literalmente, a poucos centímetros de distância.
Assim que os demais se juntaram ao brinde, Bella bebericou sua cerveja escura, o símbolo Guinness estampado na caneca não deixava dúvidas acerca da marca, como se fosse necessário para uma identificação precisa, visto que estava na Irlanda, o país de “nascença” daquela bebida.
O sorriso torto nos lábios de Edward, acompanhado de seu olhar hipnotizante, a fizeram corar – e Bella odiava, pois atribuía essa característica à uma parte de sua vulnerabilidade e, quanto mais vulnerável ficasse, mais riscos ela correria. Ainda assim, a atração física pareceu se intensificar e Bella cedeu à tentação de observá-lo: estava concentrado em beber sua cerveja, o braço direito, dominante, se flexionava, evidenciando as tatuagens, ainda mais coloridas do que tinha notado; dentre elas, o pequeno trevo era o mesmo das demais companheiras da banda, afinal, além de símbolo da Irlanda, também significava o nome escolhido pelos integrantes: “Semar-Óc”, em antigo gaélico irlandês.
— Vejo que alguém finalmente mudou a posição do seu anel Claddagh, hein! — Victoria exclamou na direção de Maggie, parecendo surpresa. As demais garotas se animaram à pequena menção, e pediram para ver as mãos dela que, igualmente feliz, mostrou a mão direita que tinha um anel de ouro em formato de coração e alguns detalhes que Bella não conseguia identificar, devido à distância.
— Oh, eu não acredito! E você não disse uma palavra sobre isso enquanto estávamos vindo pra cá! — Rose soltou um resmungo, o que fez Edward rir e receber um peteleco como resposta.
— Não é algo que precisa ser dito, é só olhar para o anel! — ele disse o óbvio, como se óbvio fosse.
— O que significa? — Bella tomou a coragem de perguntar; não queria parecer completamente perdida a respeito de tradições e da cultura irlandesa, mas aquilo era algo sobre o qual nunca tinha ouvido, nem lido, antes.
Maggie, solicitamente, retirou o anel do dedo e ela mesma explicou:
— O Claddagh é um anel tradicional irlandês cujos três símbolos têm, cada um, um significado: o coração simboliza o amor, a coroa representa a lealdade sem fim e, as mãos, a amizade. A posição que você usa o anel também tem significados diferentes; na mão direita: se utilizado com a coroa virada para você, significa que é solteira e está aberta para o amor; com a coroa virada para fora, você está num relacionamento, como é o meu caso — Maggie foi exemplificando com o anel no dedo médio da mão direita, conforme ia falando, e depois fez o mesmo na outra mão.
“Na mão esquerda, com a coroa para você, simboliza o noivado, com a coroa para fora, você está casada. E claro, por último, mas não menos importante, dizem que você precisa ganhar o anel de alguém, pois se comprar para si mesma, terá má sorte”.
— Uau… Eu não estava esperando por isso — Bella comentou e agradeceu quando Maggie ofereceu o anel para que pudesse observar melhor os detalhes. Ela, que não era muito dada a jóias, menos ainda anéis, devido à sua profissão, tinha ficado encantada com a delicadeza daquela peça — E cadê o anel de vocês? — perguntou ao olhar para o restante da banda e notar que apenas Maggie o utilizava.
— Nenhum de nós está aberto para o amor e o anel não dá mais opções além das quatro que Maggie já citou — Kate respondeu.
— Ei, hum… Não é porque não usamos o anel que não estamos abertos ao amor — Edward disse, dando de ombros em seguida, quando Kate olhou-o em choque e Rose seguiu toda esperançosa — Maggie mesmo falou que a pessoa tem que ganhar de alguém.
— Quem é você e o que fez com Edward Cullen? — Kate se inclinou na direção dele e colocou as mãos em sua testa, para ter certeza de que ele estava sem sintomas febris. Edward apenas resmungou e revirou os olhos antes de afastá-la de si.
— Deixa de ser trouxa e vai cuidar da sua vida, vai!
— Ela não está totalmente errada — disse Victoria, conhecendo bem o irmão; ele sempre fora bastante mulherengo e não tinha mencionado em quaisquer de suas conversas que estava disposto a aquietar o facho, ou a se comprometer com outra pessoa, porém, se as palavras dele fossem sinceras, com certeza lhe daria um voto de confiança.
— Mente fechada a de vocês. — Edward, novamente, revirou os olhos e decidiu ignorar os comentários feitos pela irmã e pela “prima de consideração”, não sem antes se preocupar um pouco com os efeitos que esses poderiam ter na linda mulher ao lado dele.
Não que ele estivesse esperando por um casamento para dali a doze meses, mas não a queria se espantando, nem se afastando, pelo passado dele. Bella, por outro lado, estava apenas preocupada com uma questão Kate-Edward que ainda pudesse existir, devido a um curto envolvimento entre ambos no passado; jamais passaria por cima da irmã, caso percebesse que ela ainda nutria sentimentos pelo homem sentado ao seu lado.
Bella não estava atormentada com um possível passado de conquistador de Edward, afinal, não procurava um relacionamento sério e pensou, com diversão, que não faria o menor sentido ter um anel como aquele de Maggie, ou Victoria, pois não teria uma posição para usá-lo.
23:45h
— O bar fecha em quinze minutos — Seth os avisou, se divertindo com a expressão desapontada no rosto dos amigos.
— Não podemos sair daqui sem o melhor da noite! — Rose exclamou, estranhamente animada na visão de Bella, e puxou tanto ela quanto Edward na direção dos microfones disponibilizados para o karaokê. Pouquíssimas pessoas tinham se arriscado até aquele momento, tanto é que o dono do estabelecimento tinha colocado mais algumas músicas tradicionais gravadas para tocar — Solta mais uma, Júnior!
Bella olhou embasbacada para a amiga que exibiu um sorriso largo e fez um gesto de coração com as mãos. Detestava ser o centro das atenções e Rosalie sabia muito bem! Antes que pudesse pensar em fugir dali, no entanto, os bêbados do bar fizeram um pequeno semicírculo ao redor de onde ela e Edward estavam, e os encaravam com o máximo de expectativa que – a maioria – homens embriagados, alguns bem sonolentos, conseguiam; e ela se questionou se valeria a pena tentar passar por entre eles, ou se deveria se esconder atrás do cara quase trinta centímetros mais alto.
Edward mantinha um semblante visivelmente irritado por fora, mas, por dentro, estava se divertindo; ele estava tendo uma noite bastante agradável com a morena ao seu lado e queria aproveitar cada momento com ela. Ele cutucou com delicadeza o braço dela e piscou antes de sussurrar baixinho:
— Não tenha vergonha, eles estão embriagados demais para terem mantido qualquer senso crítico… E duvido que cante tão mal quanto os últimos que tentaram. — Ele meneou discretamente na direção de dois dos homens bêbados, a alguns metros de distância.
Lembrar da desafinação e o total descompasso deles fez Bella relaxar um pouco e até deixar escapar um sorriso. Ela respirou fundo quando reconheceu imediatamente as primeiras notas a soarem pela caixa de som – posicionada acima de uma pequena tela, à frente deles, que mostrava a letra da música –, pegou um dos microfones do suporte à sua frente e esperou Edward iniciar a cantoria para, enfim, acompanhá-lo…
Sábado, 06 de junho de 2015 – 00:15h, tempo encoberto com ventos.
— Então, quer que eu te acompanhe até o hotel? — Edward perguntou educadamente à Bella assim que o carro das meninas começou a se movimentar em direção à cidade de Galway. Depois de certa discussão sobre quem voltaria para lá, os dois se decidiram por ficar, já com segundas intenções.
— Que tal o seu apartamento? A não ser que realmente queira apenas me deixar lá — Bella sorriu quando Edward engoliu em seco; ele tinha entendido perfeitamente as entrelinhas. Para a surpresa dela, ele ofereceu a palma da mão esquerda e meneou na mesma direção de onde Bella tinha vindo, então, das duas uma: ou ele a levaria para o hotel, ou o apartamento estaria localizado perto.
Querendo fugir o mais rápido possível da garoa que já começava, Bella entrelaçou os dedos da mão direita na esquerda dele e ambos caminharam num ritmo não muito lento até a Rodovia, onde, ela notou, tomaram um rumo oposto ao esperado, indicando que estava prestes a conhecer o tal apartamento de Edward.
Em quinze minutos, chegaram ao seu destino e ele a levou para dentro do apartamento, onde, de início, ele se ofereceu para colocar os casacos úmidos na máquina de lavar; os dois cheiravam a cigarros e álcool – e não somente aquelas peças de roupas. Do hall de entrada, ela observou o pequeno apartamento e achou estranho não ter qualquer sinal de um aquário.
— O que foi? — perguntou ele, notando a confusão no rosto de Bella.
— Cadê o seu aquário? Achei que tinha dito que tinha axolotes de estimação! — Ela fitou as tatuagens coloridas nos braços de Edward.
— Ah, eles estão em Galway, vão sobreviver sem mim por uma noite, não se preocupe. — Ele deu uma piscadinha. Como veterinária, Bella sabia, ele estava certo, mas isso não diminuiu a sua decepção por não poder conhecer criaturas tão fascinantes e raras — Esse apartamento é alugado, meu e das meninas para, justamente, quando não pudermos voltar para Galway — Edward explicou a questão que estava no ar, sem mencionar o fato de ser ele o maior utilitário do imóvel, já que seu charme era um dos motivos da constante permanência dele durante as noites, em Salthill — Mas posso levá-la para conhecê-los amanhã, se quiser! — ele propôs e antes que ela pudesse negar, para não dar qualquer esperança de que aquilo se limitaria a saciar seus corpos fogosamente famintos, Edward se voltou para uma porta, sumiu por alguns instantes e retornou com uma garrafa de vinho tinto numa das mãos e, na outra, alguns pacotes de salgadinho — É o que temos para hoje, aceita?
Salgadinhos e mais álcool? Pela primeira vez, Edward gostaria de ter algo além para oferecer à uma mulher, enquanto Bella estava ainda mais satisfeita. Não queria jantares à luz de velas, ou pétalas de rosa fazendo um caminho até a cama. Aquilo era de bom, ótimo, tamanho!
— Com certeza! — Bella sorriu, para alívio de Edward.
Os dois continuaram a noite conversando amenidades, tomando mais vinho, comendo salgadinhos e dando algumas tragadas nos cigarros de Edward deixados no apartamento.
— Eu não deveria fazer isso, sabia? — Bella comentou, deitada sobre o tapetinho da sala de Edward, depois de deixar a fumaça do cigarro escapar pelos seus lábios.
— Fazer o que? — Ele também deitou, invertido, não virado para os pés dela, mas para a cabeça, como nos beijos cinematográficos do Homem-Aranha na teia, de cabeça para baixo. Naquela posição, Edward podia ver o rosto de Bella por uma nova perspectiva e ficava ainda mais próximo do pescoço tão bonito e sedutor que ela tinha.
— Fu. Mar. — Bella riu, levemente intoxicada pela nicotina e pelo álcool — Eu estava quaaase parando.
— Eu já me disse tantas vezes que ia parar, mas sempre acabo voltando — Edward resmungou e então riu do jeito que Bella havia falado, tão afetado quanto ela — E o outro tipo de “fu”, você também parou? — Ele não conseguiu se conter e, quando se deu conta, já tinha perguntado. Esperava que ela não ficasse constrangida, nem brava, mas não tinha mais como voltar atrás.
— Outro tipo? — perguntou ela, confusa, tentando encontrar a linha de raciocínio dele.
— Hurum. Tipo fu. Der. — Ele fitou o teto. Bella com certeza o acharia inconveniente, embora parecesse querer a mesma coisa. Ela soltou uma risadinha tímida, não esperando que ele fosse tão direto, mas, então, agradeceu aos céus por ele ter sido.
Até então, não tinha certezas se teria coragem de tomar a iniciativa, porém, diante da insinuação dele, não lhe restaram mais dúvidas.
— Não parei, não — respondeu-o e ergueu o corpo para se apoiar nos cotovelos enquanto aproximava o rosto do dele. O beijo tipo Homem-Aranha funcionou de maneira estranha, mas melhor do que poderiam imaginar.
E, então, como se presos na mesma teia, os dois começaram a se despir e, entre suspiros e beijos molhados, a explorar o corpo um do outro. O tapetinho da sala foi não apenas a testemunha, mas também o palco principal de uma performance que os super-heróis não estão acostumados a dividir com o público. Naquele momento, o único perigo que corriam era o chegar do dia seguinte, inevitável e arrebatador, como o êxtase alcançado. Ele que ditaria as próximas consequências, se efêmeras, ou duradouras, se acolhedoras, ou divisoras… No entanto, enquanto ele não chegasse, Edward e Bella estariam ali, aproveitando e desfrutando de cada segundo, de cada toque eletrizante e de cada orgasmo.
Casa Cullen, Galway, segunda-feira, 08 de junho de 2015 – 10:00h, 14°C, tempo aberto.
Bella havia tentado com todas as forças, mas não conseguiu evitar se prender a Edward, naquele que foi um dos finais de semana mais fodas – figurativa e literalmente – de sua vida! O modo como os dois tinham se conectado e compartilhado tanto um sobre o outro tinha sido muito especial, embora difícil de admitir. Tudo bem, ela tinha deixado de fora os seus traumas principais, aqueles que faziam-na fugir, a qualquer custo, de se deixar envolver emocionalmente de novo. Depois de tantas decepções, ela preferia não correr mais riscos.
Para Edward, os dois dias fizeram-no abrir a mente sobre relacionamentos. Ele, que por um longo período não quisera o amor, não por descrenças, mas por não querer amarras durante sua juventude, via-se diante de uma mulher maravilhosa, admirável, e adoraria poder passar, senão o resto da vida, um bom tempo junto dela. Podia sentir cada poro de seu corpo se apaixonando por ela, mesmo quando teve de afastar-se durante as noites, para se apresentar no O’Connors. Claro, Bella estava lá, assistindo-o, algo que o tinha deixado ainda mais feliz e apaixonado, tê-la apoiando-o.
E ele adoraria apoiá-la da mesma maneira, na carreira dela, por isso, naquela manhã, a levara até a para levar os documentos necessários para a matrícula do curso de Especialização de Cuidados em Pets Idosos, razão que a trouxera até a cidade, em primeiro lugar.
— Aqueles são Zack e Cody! — Foi a primeira coisa que Edward falou quando entraram na casa dele, apontando para o grande aquário do outro lado da espaçosa sala de estar.
Bella não pestanejou, caminhou a passos largos até o recinto dos dois axolotes mais fofos – embora os únicos – que já tinha visto! Eles tinham a pele rosada com brânquias avermelhadas ao redor da cabeça e manchas acinzentadas pelo corpo.
— Eles são tão lindos! — exclamou ela, observando-os nadar pelo aquário, bem simples em termos de decoração, algo importante por causa da sensibilidade daqueles bichinhos.
— Completaram cinco anos no mês passado — disse ele, olhando com tanto amor e carinho para os seus animais que Bella quase derreteu ali mesmo — Você quer alimentá-los?
Os olhos de Bella brilharam tanto que Edward nem precisou esperar pela resposta positiva. Ele pegou delicadamente a mão esquerda dela e a guiou para os fundos da casa, por onde chegaram a um jardim ainda maior do que os cômodos interiores. Nele, havia uma outra casa, na verdade uma estufa, como Bella percebeu, admirada. Sua estrutura parecia ser feita de aço, além do material transparente, provavelmente vidro, que a recobria totalmente, como paredes e telhado, além da única porta de entrada-saída; ao lado desta, lia-se numa placa de madeira, uma caligrafia elegante em azul: “Esme’s Garden”.
— Você tem uma estufa no jardim de casa?! — Bella estava completamente embasbacada e ansiosa para vê-la por dentro. Sentindo a animação dela, Edward não se delongou e abriu a porta, permitindo que ambos entrassem no ambiente.
O cheirinho de natureza acalentou os pulmões dela, despertando-na a sensação de lar e as memórias de seu irmão e seu pai em sua fazenda, em Dublin. Gostaria de contá-los sobre esse lugar incrível que estava conhecendo e, talvez, até mesmo sobre Edward, surpreendendo a si mesma com o rumo de seus pensamentos. Para espantá-los, ela forçou-se, sem muita dificuldades, a voltar a sua atenção para o interior da estufa, onde, para o seu total encanto, viu vasos dos mais diversos tamanhos, com as mais variadas plantas, dentre elas: suculentas, algumas ervas, morangos, tomates, pepinos e, obviamente, flores num canteiro bem decorado. Dessas últimas, as únicas duas espécies, de quatro, que ela conseguiu reconhecer foram: o lírio – embora não a espécie dele –, e a rosa.
No entanto, ela observou que, tanto a rosa, quanto as outras duas espécies de flores eram as mesmas tatuadas no braço de Edward; e, então, percebeu que o desenho da casinha abrigando as três flores era, na realidade, uma estufa!
— Essas flores… E essas flores… — Bella apontou do canteiro para o braço descoberto de Edward — São as mesmas!
— Bem observado. — Ele deu uma risadinha, mas se calou quando ela permaneceu com o semblante meio sério, meio surpreso no rosto — Hum… Você quer uma explicação?
— Só se você quiser explicar. — Bella sabia que não tinha o menor direito de exigir qualquer coisa dele, afinal, não tinham, e ela nem mesmo queria, compromisso um com o outro.
Edward estava surpreso com a sua ânsia em querer falar sobre si e descobrir mais sobre Bella. Estava cada vez mais convencido: ela deveria ser a mulher que entrara em sua vida para torná-lo o homem que sempre almejou ser e, finalmente, estava pronto.
— As tatuagens representam os meus pais: a estufa foi construída por meu pai, Carlisle, cujo nome também significa fortaleza; a Rosa de Edward simboliza meu pai, Edward; a Magnólia Elizabeth, a minha mãe Elizabeth; e a Clematis Boulevard Esme, a minha mãe, Esme. — Ele foi apontando para cada espécie de flor, conforme ia falando.
— Você tem quatro pais? Eles se separaram e se casaram com outras pessoas? — Bella estava com um pouco de dificuldades em acompanhar tantos nomes de uma vez e só pôde deduzir aquilo. Edward negou com a cabeça e suspirou.
— O que acha de irmos pegando algumas minhocas enquanto te conto? — Ele meneou na direção de uma espécie de caixas de plástico empilhadas sobre uma mesa de pedra, próximo ao canteiro de flores.
Bella já tinha visto o suficiente para saber que era uma Composteira Doméstica de Minhocas, por onde, através de furos na parte inferior (ou por uma mangueira acoplada na última caixa), se retirava o “chá de húmus de minhoca”, um adubo, ou fertilizante natural, muito rico em nutrientes para as plantas. Aqueles não eram os seus bichinhos favoritos, mas eram importantes para o meio ambiente – e eram o alimento perfeito para os axolotes de Edward, por isso tinham ido até ali, inegavelmente.
Enquanto Edward colocava um par de luvas de jardinagem, ele contou um pouco sobre a sua vida: seus pais biológicos, Edward e Elizabeth Masen, trabalhavam para Carlisle e Esme Cullen, seus pais adotivos desde sempre. Quando ele tinha cinco anos e a irmã, Victoria, seis, eles foram adotados pelos patrões dos pais, após esses falecerem num acidente de carro. Assim, Rosalie tinha se tornado a sua irmã mais velha e, Jasper – a quem Bella ainda não conhecia –, o irmão mais novo.
Bella sentiu um misto de nó na garganta com alívio ao pensar que, embora trágica, a vida de Edward tinha encontrado um caminho de amor e alento. Ela se perguntava o que teria sido de si própria se não tivesse o irmão, Emmett, sempre ao lado dela; com certeza, não estaria ali para assistir a Edward lavando as minhocas com as quais alimentaria Zack e Cody. Com certo aperto no coração, ela aceitou a história dele, evitando reagir de qualquer maneira que o fizesse perguntá-la coisas muito pessoais.
Havia uma pergunta, em específico, muito simples para uma pessoa olhando de fora, mas cuja resposta despertava memórias extremamente dolorosas em Bella. Ela duvidava que, mesmo sendo muito próximo de Rosalie, Edward soubesse da história e torcia para ele nunca questioná-la.
Os dois voltaram para dentro da casa com as minhocas lavadas – para não correrem o risco de Zack e Cody ingerirem terra, ou outras substâncias inapropriadas – e Bella foi presenteada com uma pinça de plástico, com a qual pôde mergulhar um dos anelídeos dentro do aquário e ver um dos axolotes abocanhá-lo satisfatoriamente. Edward alimentou o outro, feliz que suas “crianças” pareciam estar se dando bem com aquela mulher admirável.
O que nenhum dos dois estava esperando foi a pequena comoção instaurada na sala, assim que os demais membros da família Cullen chegaram – inexplicavelmente, para Edward, pois todos deveriam estar trabalhando – e avistaram a beldade morena, inclinada na direção do aquário dos axolotes, junto dele. O rapaz nunca tinha levado qualquer mulher para a casa da família e Esme foi a primeira a comemorar internamente, feliz com a perspectiva de vê-lo, finalmente, compromissado com alguém.
Carlisle custava a acreditar no que seus olhos observavam; Rosalie, com seu mascote de estimação de 9 anos de idade – um terrier irlandês do Glen do Imaal de pelagem cinzenta e olhos castanhos, chamado Jacob –, vibrou tanto que ele começou a latir, meio assustado com a reação da tutora; enquanto o casal, Jasper e Alice – recém-chegados de Dunfanaghy, a quase trezentos quilômetros de distância da cidade de Galway – pareciam tão perdidos e surpresos, quanto os demais, até Bella se virar o suficiente para ser reconhecida:
— Eu não acredito, Bella, que mundo pequeno! — Alice exclamou para a colega de dormitório da faculdade. Ela tinha se formado dois anos antes de Bella em Estudos Celtas e, como grande entusiasta do idioma gaélico-irlandês, foi quem escrevera o livro de poesias, do qual uma das frases estava permanentemente marcada na pele de Bella. Depois da faculdade, a última notícia que tinha ouvido sobre a vida dela, foi a mudança de cidade; ambas foram perdendo o contato uma com a outra, com o passar do tempo.
— Vocês já se conhecem? — Edward perguntou, curioso com a reação da cunhada e da mulher que, em breve, gostaria de poder chamar de “sua”. Ele afastou aqueles pensamentos, sem saber se era algo que Bella também quereria, e assistiu-às confirmarem com a cabeça e se abraçarem animadamente em seguida.
Edward aproveitou a deixa para tentar escapar das perguntas de seus familiares, ao questionar, ele próprio, ambas a Alice e Bella sobre sua amizade. Entretanto, suas respostas não se prolongaram muito e quando Dona Esme entrou na jogada, só pôde torcer para que ela não exagerasse na sua demonstração de excitação diante do fato de ele ter trazido uma mulher para casa pela primeira vez – ele estava bem consciente disso –, nem no seu interrogatório, porque era óbvio que faria muitas perguntas aos dois.
Por outro lado, ele ficou grato, porque foi através das perguntas de sua mãe, durante o delicioso almoço por ela preparado, que ele descobriu mais sobre Bella, sobre coisas que ela ainda não havia lhe contado – talvez pelo pouco tempo passado juntos. Ela tinha morado praticamente a vida inteira em Londres com o pai, o irmão e a família de Kate, sua meia-irmã – que, por coincidência, era prima de Rosalie (Carlisle era irmão de Sasha, mãe de Kate), até os 18 anos de idade, quando se mudou para cursar a faculdade de Medicina Veterinária em Dublin, junto com o irmão e o pai; também onde, quase 5 anos atrás, haviam adquirido uma fazenda e a transformado num modelo economicamente sustentável para a comunidade ao redor.
A árvore genealógica dela era um pouco confusa, mas Esme estava tão ansiosa que mal se deu conta de alguns detalhes, ou, talvez, tenha achado por bem não fazer muitas perguntas mais íntimas naquele primeiro contato. Para Edward, foi um pouco angustiante não conhecer Bella o suficiente para poder impor limites naquela conversa toda. Estaria ela desconfortável com tantas perguntas? Será que o aparecimento repentino da família dele a faria se afastar?
Westwinds Guesthouse, Salthill – 23:30h, 8ºC.
Os Cullen foram bastante receptivos e agradáveis para com Bella, nem mesmo tantas perguntas de Esme poderiam deixá-la envergonhada, quando feitas com tanto interesse e carinho. Ela adorou conhecer um pouco mais sobre a responsável por manter uma estufa com tanto afinco e cuidado e descobriu que a matriarca Cullen doava o excesso de frutas e legumes cultivados para comunidades carentes ao redor de Galway, onde também fazia os mais diversos tipos de trabalhos voluntários. Sem dúvidas, era uma mulher sem limites no que se dizia respeito do amor e respeito para com os outros.
Ao final da tarde, antes de sua partida para Salthill para o trabalho de Edward, Bella ainda teve a chance de conhecer a família de Victoria, que chegara completando a árvore genealógica de Edward. James, o tatuador, tinha imigrado da Irlanda do Norte ainda na infância, quando fez amizade com a atual esposa; os dois iniciaram um namoro aos 14 anos e, aos 18, decidiram juntar as escovas de dentes. Dois anos antes, eles tinham adotado Bree, sua afilhada com atualmente 6 anos de idade, cujos pais tinham morrido numa tragédia familiar não mencionada, devido à presença da criança. A garotinha era adorável, muito educada, e parecia super entrosada com todos, especialmente com o “titio Edward”.
Próximo das 21:00h, Edward e Bella se despediram com a promessa de voltarem logo – algo que ela não sabia se teria coragem de cumprir. Uma coisa era ser pega de surpresa, outra, ir até lá, consciente da presença dos familiares dele, embora tivesse gostado muito da companhia deles. Era nítida a expectativa nos olhos de todos, de que os dois desenvolvessem uma relação romântica, algo para o qual Bella sabia não estar preparada, apesar de seu coração parecer querer dizê-la o contrário.
Depois de tudo, Edward a levara de volta à sua estada. Bella preferira voltar para o seu quartinho, ao invés de ficar se tentando na presença de Edward, caso cedesse ao convite dele de ir ao apartamento. Era melhor que mantivessem uma distância consideravelmente saudável se quisessem manter o fogo da atração física aceso, mesmo que ela não tivesse certezas a respeito de qual seria esse limite.
PARTE II: SHOTS
Apartamento alugado, Salthill, segunda-feira, 06 de julho de 2015 – 01:10h, 14ºC, tempo aberto.
Limites? Quem conhecia o significado daquela palavra, mesmo? Bella, certamente, não! E nem Edward, aparentemente, pois ele não se importava de escancarar um sorrisinho convencido no rosto, desde que, após um orgasmo nublar a sua sanidade, ela admitira estar gostando dele. Entrelaçados um ao outro, debaixo dos lençóis da cama de casal de um dos quartos, os dois comemoravam exatos um mês de amizade colorida, depois de mais uma noite de trabalho da banda. Ela quase se bateu, porque sabia que estava se entregando demais e, consequentemente, colocando tudo a perder.
Isso até o próprio engraçadinho se declarar para ela. Fitando os doces, porém, um pouco bravos olhos castanhos, Edward também confessou seus sentimentos, indo um pouco mais além, ao usar a palavra “paixão”. Em um mês, a faísca tinha aumentado exponencialmente de tamanho, quanto mais tempo passava com Bella, mais ele se apaixonava. Eles tinham se encontrado mais vezes do que conseguia contar, considerando as 24 horas de um dia, inclusive visitando a casa da família dele, como cumprimento da promessa feita à Esme.
— O que acha da gente assumir um relacionamento sério? — Edward sugeriu depois de espalhar beijos molhados pelo pescoço de Bella, enquanto tracejava a pele nua das coxas dela.
— Por que? Você tá ficando com mais alguém? — Ela perguntou com dificuldade, tanto emocional, quanto física. Emocional, porque ainda não queria admitir para si mesma o quanto a magoaria saber de Edward com outra mulher, e física, porque os dedos dele a provocavam tanto a ponto de dificultar o seu raciocínio lógico.
— Não! — ele respondeu prontamente, como se a ideia o deixasse ofendido — E você? — Essa outra ideia era ainda mais dolorosa e ele temeu uma confirmação; a imagem de Bella com outro homem o distraiu a ponto de parar com os afagos, ao que ela reagiu com um muxoxo.
— Também não… — Fazia anos, que ela não ficava tanto tempo com uma pessoa só e se não fossem os dedos de Edward se aproximando perigosamente de seu monte de vênus, ela teria se mergulhado em mais indagações sobre onde estava se metendo.
— Então a gente pode namorar! — Ele não estava fazendo de propósito, distraindo-a daquele jeito, porque não tinha ideia das dores e dos medos que Bella carregava.
— Sim, a gente pode! — O cérebro dela concordou com o que já tinham: um namoro físico, enquanto o coração, ansiando por um amor verdadeiro, se abriu, embora machucado, numa esperança de remontar os seus pedacinhos junto ao de seu companheiro.
Edward sorriu largo e brilhante e se posicionou em cima de Bella, pronto para comemorar o início de seu relacionamento através de uma das formas que eles mais gostavam de estar juntos. Era mais especial, no entanto, justamente pelo comprometimento conquistado e também pela perspectiva de permanecerem unidos por muito mais tempo.
03:30h, 13ºC.
— Eu gosto de você, de verdade, mas não sei se estou pronta para entrar num relacionamento — Bella murmurou, depois que eles terminaram mais uma rodada de sexo.
Eles se sentavam à mesa da pequena cozinha e tomavam chá de camomila sem açúcar, lembrando-os da necessidade de fazer compras logo, porque, como se não fosse suficiente o tal namoro, na manhã anterior, Bella ainda tinha entrado como pagante do aluguel do apartamento, uma vez que a vaga do quarto do “hotel” não estaria mais disponível para ela, que não tinha um lugar fixo para ficar. Com todos de acordo, então, ficaria no apartamento até encontrar outro local para alugar para si.
— É algo comigo? — Edward perguntou, tentando não antecipar a chateação para o caso de uma resposta positiva. Eles ainda estavam se conhecendo, de fato, mas isso não diminuía a intensidade dos seus sentimentos por ela.
— Não, e não é algo com o qual quero ter de lidar agora — respondeu ela — Não depois de tanta coisa boa que vivemos. — Gostaria de ser menos evasiva, mas também não admitiria passar por cima de si mesma só para dá-lo uma explicação mais direta — Só quero que saiba que tenho ressalvas, não vai ser fácil comigo.
— Eu estou disposto a enfrentar os seus poréns. Confia em mim? — Edward a encarou com aqueles olhos verdes que, por durante um mês inteirinho só a fitaram com respeito e cuidado, além da luxúria em seus momentos mais íntimos, é claro. Como poderia ela responder “não”, se tudo o que passaram juntos gritava o contrário?
— Tudo bem — ela concordou baixinho, com um sorriso tímido e o seu coração esperançoso dançou em seu peito, permitindo-se se acelerar ao toque delicado e gentil de Edward em suas mãos.
— Eu vou fazer valer a pena. — Como no primeiro minuto em que se conheceram, ele levou as mãos dela aos lábios, beijando docemente a pele macia — Por que você não fica aqui permanentemente, mesmo?
Bella soltou uma risada e balançou a cabeça negativamente; já tinham conversado tantas vezes sobre o assunto!
— Eu preciso achar um lugar que comporte a Nymeria, ela precisa de espaço, esqueceu? — ela o lembrou.
Nymeria, a sua bebê de quatro patas, uma Setter Irlandesa de 3 anos, dona de uma pelagem castanho-avermelhada magnífica e olhos castanhos claros. Ela tivera de permanecer na fazenda e tudo o que Bella queria era poder desfrutar da companhia dela, mas, para isso, precisaria de uma casa com quintal por causa do grande porte dela.
— Ah, é verdade! — Edward recordou-se das vezes em que Bella tinha mencionado as saudades que sentia da cachorrinha e adoraria poder ajudá-la a encontrar o lugar mais adequado para ambas viverem. Ele conseguia entender perfeitamente a situação, pois não aguentaria ficar muito tempo longe de seus gêmeos axolotes.
— Eu também preciso começar a trabalhar. — Bella tinha economias o suficiente para se manter até o final do curso (com duração de um ano), mas não queria ficar dependendo somente dos ganhos da fazenda. Além do mais, manter-se praticando a medicina veterinária a faria adquirir cada vez mais experiência.
Ela sempre amou poder atender seus pacientes à domicílio, principalmente por conseguir fazer horários diferenciados e facilitar a vida dos tutores e dos próprios animais, quando esses já eram idosos, ou tinham alguma dificuldade na parte motora. No entanto, tinha consciência de que, ao chegar a uma nova cidade, não seria de uma hora para outra que teria a confiança dos moradores locais para realizar esse tipo de serviço.
— Tenho certeza de que não vai demorar para encontrar novos pacientes! — Edward tinha plena confiança nela, algo que a fazia sorrir sempre. Tendo-o como o seu novo namorado, precisaria se acostumar a ouvi-lo dizendo tantas coisas legais com mais frequência, ela mal tinha tido tempo para fazê-lo enquanto ainda eram apenas amigos coloridos!
Após o chá e mais algumas trocas de carinhos, os dois se acomodaram no sofá da sala, aquecidos por um cobertor pesado, e assistiram a um desenho animado aleatório até caírem no sono. Bella teve sonhos esquisitos, semelhantes a seus pesadelos recorrentes quando mais jovem. Neles, Edward se tornava uma pessoa completamente diferente, completamente assustadora, alguém disposto a machucá-la para o próprio prazer. Com um arrepio desconfortável, ela despertou ao lado dele, que ressonava tranquilo e mantinha um braço ao redor dela.
Bella desejou profundamente que tais sonhos se mantivessem em seu inconsciente e nunca se concretizassem e que os braços dele pudessem ser sempre o seu conforto e proteção, como haviam sido pelo último mês.
Galway International Arts Festival (GIAF), Fisheries Field, Galway, quinta-feira, 16 de julho de 2015 – 19:30h, 17ºC, tempo aberto com ventos.
Bella aguardava ansiosamente pela entrada da banda Semar-Óc no palco. Sob a gigantesca tenda no parque, ela presenciava, pela primeira vez, o Festival de Artes Internacional de Galway na companhia de ninguém menos do que a família inteira do seu recém-namorado, ocasião em que tinham, enfim, anunciado sobre o status do seu relacionamento. Eles tinham passado o dia quase todo juntos curtindo as diversas atrações pela cidade, como pinturas, fotografias e desenhos, e depois foram prestigiar a música local.
— Aos seus dez dias de namoro com o meu cunhado, então! — Alice, de volta à cidade com Jasper para também contemplarem o festival, ergueu a caneca de cerveja e todos (os que não estavam prestes a entrar no palco) brindaram, até mesmo Bree, com o seu suco de limão.
— Eu acho que você e o tio Edward combinam, agora eu tenho duas tias! — A menina exclamou, animada com a nova integrante da família. Ela amava muito ambos os seus tios, mas o fato de Edward morar mais perto permitia uma maior convivência, algo que ela adoraria ter com mais uma figura feminina.
As bochechas de Bella ficaram vermelhas quando ela refletiu sobre o significado daquelas palavras, mas mesmo um pouco sem graça com a declaração de Bree, ela nunca faria uma criança se sentir da mesma forma, ou passar por situações semelhantes às da sua infância, então, sorriu e estendeu a mão livre para a garotinha, que a segurou sem pensar duas vezes, para o alento no coração de Bella, que pôde resgatar e afagar um pouco a parte infantil dentro de si e demonstrou o seu carinho através de um apertado abraço.
Bree ficou grudada a Bella pelo tempo todo em que a banda estivera no palco, não de um jeito invasivo, ou desconfortável, mas incrivelmente amoroso para uma criança que conhecia a pouco mais de um mês, chegando até mesmo a ficar no colo dela durante a performance de sua música preferida, “Rattlin’ Bog”, cantada pela voz do tio. Ao término da apresentação, ela correu na direção de Edward, de quem recebeu um abraço seguido de dois rodopios no ar.
A risada alegre e o brilho nos olhos da garotinha durante a interação com o tio, igualmente feliz, foram o suficiente para dar a certeza à Bella de que não faria mal algum se esforçar para superar os seus medos; aquela família era maravilhosa, tinha orgulho de cada um de seus membros e faziam questão de demonstrar todo o amor um pelo outro. Era tudo o que, por muitos anos, ela só havia tido com Emmett, até se mudarem para a casa do tio – o seu pai de consideração, Charlie – e o reencontro com Kate e Vasilii – seus meio-irmãos. Talvez, se ela se permitisse, não se machucaria, não seria tão ruim assim.
Casa Cullen – 21:15h, 17ºC.
Naquele lindo jardim, sob o céu estrelado, o grupo aproveitava o final da noite; haviam estendido o momento agradável do show para casa, onde continuavam numa cantoria mais intimista e improvisada. Tinham insistido tanto que até mesmo Bella estava se arriscando e soltando a voz. Cantou alguns trechos de “Carrickfergus”, uma das suas músicas irlandesas favoritas, muito pela identificação sentida pela letra, sobre desejar estar em outro lugar, com as pessoas amadas, mas, a realidade ser muito mais densa e triste. Bella já tinha vestido aquela pele, de querer ser outra pessoa, ou poder se teletransportar para um outro mundo, sem dor e sofrimento, quando mais jovem.
Acreditava ter feito terapia o suficiente para entender de onde vinham esses sentimentos e porque apareciam, embora ainda não conseguisse lutar contra eles o tempo inteiro. Diante dos aplausos, ao final da música, ela empurrou suas memórias agridoces para o fundo da mente e fez uma pequena reverência antes de sentar-se novamente, sobre a esteira estendida por cima da grama do jardim, ao lado de Edward, que não demorou a se levantar acompanhado do violão de Victoria, pois seria o próximo a se apresentar.
A pequena Bree assumiu o lugar dele, parecia bem cansada, e deitou a cabeça no colo de Bella, que se sentia cada vez mais lisonjeada com a confiança demonstrada pela menina. Acarinhando os cabelinhos escuros e macios dela, voltou a sua atenção para o namorado; ele começou a tocar o violão e logo começou a cantar “Fisherman’s Blues”.
Entre tantos significados para a música, Edward esperava que Bella pudesse compreender o ponto de vista dele, como se fosse a sua própria declaração de amor à ela de uma maneira meio misteriosa, como outrora dissera ser a sua preferência. Embora não tivesse conhecido o Edward de antes, com certeza Kate havia contado o suficiente para a meia-irmã, dadas as palavras de Bella quando começaram a namorar, portanto, o pedido para confiar nele, de que estava se tornando um homem diferente, também simbolizava o fim das amarras ao seu “antigo eu”, como o eu lírico da canção almejava em relação ao seu trabalho.
Ele também reverenciou a plateia em agradecimento pelos aplausos e não teve a menor coragem de afastar Bree, quase adormecida, do colo da namorada; então, se sentou na esteira ao lado dos pais enquanto assistia às próximas cantorias.
Apartamento alugado, domingo, 06 de setembro de 2015 – 10:00h, 13ºC, tempo aberto.
— Feliz dois meses! — A voz de Edward soava distante, como num sonho, conforme Bella despertava. Ela estava muito mal acostumada com os carinhos que ele fazia em sua pele quando acordavam juntos, algo que se tornava cada vez mais recorrente.
De modo estranho, isso a preocupava na mesma medida em que a confortava.
— Bom dia! — ela murmurou com a voz ainda rouca pela sonolência, abrindo os olhos lentamente para um banquete em forma de café da manhã na cama, além de um buquê de flores vermelhas e amarelas com bordas em tom rosado cujas espécies, para dar uma variada, Bella não reconheceu.
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As bochechas de Bella ficaram quase tão avermelhadas quanto o tom das rosas, como se dois meses não tivessem sido o suficiente para acreditar no quão carinhoso e perfeito Edward poderia ser com toda a sua sensibilidade. Ela estava esperando o momento em que tudo começaria a ruir, quando o Príncipe Encantado se tornaria mais um cafajeste sem coração, mesmo um lado seu torcendo para ele nunca tomar a forma de seus piores pesadelos.
— E eu tentei fazer um English Breakfast completo pra gente, mas o mercado não tava aberto, então, não consegui comprar o black pudding, nem os cogumelos — explicou ele, meneando na direção da bandeja cheia de comida, como ovos mexidos, bacon, linguiça e tomate fritos, feijão, e torradas, além de marmalade, chá preto com leite e suco de laranja.
— Está perfeito, obrigada! — Bella o aconchegou num abraço, forçando-se um pouco a trazer à tona todo o seu carinho, porque, embora de fato o sentisse, sabia que não o demonstrava o suficiente, ainda mais quando se comparando ao próprio Edward — Eu não como um desses desde que cheguei!
A constatação colocou um sorriso mais genuíno nos lábios dela, ao pensar no quanto Edward se esforçava para fazê-la se sentir em casa – algo obviamente aprendido com a família, pois ela somente precisava pôr a pontinha do pé na entrada da Casa Cullen para as demonstrações mais claras e regadas de afeto surgirem por parte de todos os integrantes daquela família.
— Hoje eu me dei uma folga, então, temos o dia inteirinho só pra nós. — Ele tocou o rosto dela com carinho e sorriu quando os olhos dela se arregalaram em surpresa.
— Você vai desfalcar a banda? — Bella brincou e arqueou uma sobrancelha; seu tom curioso e seu gesto a tornaram ainda mais atraente e apaixonante.
— Todos temos esse direito e, sim, Kate e Rose se atrasaram mais vezes do que nós pudemos contar, então, elas podem lidar com a minha falta por uma noite — ele respondeu com uma gargalhada quando Bella ofegou com a sua fala; Edward sempre fora muito responsável com o trabalho, em três meses desde quando o conhecera, jamais tinha faltado a uma apresentação sequer, por isso ela nunca tinha imaginado ouvi-lo dizendo tais coisas — Fora que, você ficou a semana toda longe de mim, por causa do curso — Edward fez um biquinho e Bella riu antes de roubá-lo um selinho.
O curso de especialização dela tinha começado na segunda-feira e aderir a uma nova rotina era a parte menos preferida de Bella, no que se dizia respeito à sua vida acadêmica. Entre novos horários, se ajustar às aulas e os trajetos diários de ida e volta de Galway, não tinha como negar que tivera de deixar o relacionamento em segundo plano, mas logo tudo voltaria ao “normal” – ou ao mais normal possível, dado que ainda precisava se acostumar com o próprio namoro. Edward até poderia ter ido ao apartamento em qualquer um dos dias, afinal, também pertencia a ele, mas preferira dar à Bella a escolha de chamá-lo, ou não, para fazer parte daquele momento de adaptação.
— Okay, eu aceito você desmoralizar a banda diante do público sedento por música do bar do Júnior só pra gente passar a noite todinha juntos — ela fez piada e Edward riu enquanto se recostava na cabeceira da cama e trazia o café da manhã mais para perto. Bella o imitou, sentando-se ao lado dele e ambos desfrutaram da comida deliciosa e, pela primeira vez em algum tempo, ela sentiu vontade de agradecer ao Cosmos por estar se relacionando com alguém.
Surpresa, Galway – 21:00h, 14ºC.
— Você anda muito saidinho pro meu gosto, fazendo as coisas pelas minhas costas desse jeito! — Bella resmungou enquanto Edward a guiava com os olhos vendados pelo que ela achava ser a casa dos pais dele. Segundo o próprio, ele tinha expulsado a família de casa para que pudesse levá-la para a surpresa que tinha passado a semana inteirinha planejando, mas a pequena mentira fazia parte dos seus planos.
— E você tá muito ranzinza nesse dia que era para ser de comemoração!
Bella mordeu a língua antes de retrucar que toda festa poderia se transformar num velório em questão de segundos, mas não precisava espalhar o seu pessimismo nele.
— Tudo bem, vou tentar me comportar! — Ela quase tropeçou quando Edward parou de repente, mas ele a segurou bem a tempo.
— Espero que goste! — disse ele, posicionado atrás dela para tirar-lhe a venda. Edward estava bastante ansioso pela reação de Bella diante do que havia preparado. Eles estavam claramente num jardim enorme, ela notou, mas não era o da casa dos pais dele.
Uma cerquinha de madeira limitava o local e, ao fundo, pôde notar uma casa; ao lado desta, uma mesa posta com um jantar à luz de velas, um par de cadeiras e uma esteira larga sobre a grama.
— O que significa isso? — Bella perguntou atordoada e já imaginando uma resposta.
— Eu estive procurando algumas casas pra você e pra Nymeria e achei essa aqui. Óbvio que o dono não ia liberar as chaves pra eu te mostrar sem ele estar junto, mas ele me deixou usar o jardim hoje — Edward deu a resposta que Bella estava esperando, meio incrédula, mas feliz, principalmente pelo fato de que ele parecia ter acertado em cheio quanto à escolha.
Ela o abraçou pelo pescoço, o beijou apaixonadamente e foi retribuída na mesma intensidade conforme a felicidade tomava, também, o ser de Edward diante da ideia de tê-la agradado tanto.
— Você é incrível! — Bella murmurou, ofegante, e sorriu quando Edward segurou a sua mão e a levou até a mesa. Seu estômago roncou, assim que ele retirou o papel alumínio cobrindo uma travessa branca e elegante, e revelou o que só poderia ser um Cottage Pie, um tipo de empadão inglês assado, composto por um recheio de carne moída sobreposto por purê de batatas — E aparentemente está se tornando um especialista na culinária inglesa?
Ela não precisava nem perguntar o motivo, pois estava estampado no rosto dele: além de atencioso e cuidadoso, ainda fazia de tudo para agradá-la.
— Eu faço o que posso… — As bochechas de Edward se tornaram vermelhas, mas ele tentou não demonstrar seu pequeno constrangimento. Ele puxou uma das cadeiras para Bella, que se sentou, e a serviu com o empadão, uma salada de folhas verdes frescas e o vinho tinto. Depois, serviu a si mesmo e acomodou-se ao lado dela.
Os dois aproveitaram o jantar praticamente em silêncio, se deliciando não apenas com a comida, mas com a companhia um do outro e presos a seus próprios pensamentos. Edward maravilhado com a namorada, estava feliz com a decisão que tomara de finalmente sossegar o facho e entregar o coração à uma mulher tão especial quanto Bella. Já ela, apesar de feliz, continuava preocupada com a possibilidade de tudo dar errado num estalar de dedos.
Despretensiosamente, os dois conversavam sobre suas famílias, após Bella dizer o quanto sentia falta de Charlie e Emmett. O único contato que tinha com eles era através de mensagens e, de forma esporádica, por vídeo-chamada. Enquanto estivesse frequentando o curso seria mais difícil ir até eles, mas torcia para não demorar a vê-los novamente.
— Eu não me lembro de ver você na Mansão Dwyer, sendo bem sincero. Não que eu fosse muito para lá, mas ainda assim… — Edward disse depois de Bella mencionar onde morava antes de se mudar para Dublin.
— É que eu não morei lá por muito tempo — Bella comentou. Ela mordeu levemente o lábio inferior, tentando concluir se seria sensato, ou não, contá-lo sobre o seu passado e entendeu que não faria mal se abrir um pouco — Quando… Quando a Sasha descobriu que eu e Emmett éramos filhos do Phil, ela expulsou a nós e à Renée da mansão. Renée é a nossa mãe, sabe? — Ela explicou. Não tinha o hábito de chamá-la de “mãe” havia muito tempo — Ela e Phil tiveram algo durante a juventude, mas ele preferiu se casar com Sasha, por causa das finanças.
Edward sabia muito bem sobre a realidade financeira de sua “tia”. Antes de se casar com Phil Dwyer, ela havia fisgado um milionário irlandês, com quem tivera Irina e Tânia; depois que enviuvou, logo engatou o romance com o inglês multimilionário, herdeiro das indústrias Dwyer, e não demorou a dar à luz aos gêmeos Kate e Vasilii. Devido às idades próximas entre os gêmeos e Bella, não era difícil deduzir que uma pulada de cerca por parte do patriarca tinha acontecido, mas ouvir os relatos da própria Bella sobre o assunto o deixava angustiado.
— Então, a gente saiu de lá com 3 anos e só voltamos quando eu e Emmett já tínhamos de 15 para 16 anos, com o nosso tio Charlie, a quem eu chamo de pai. Ele cuidou de nós desde os nossos 12 anos e não parou desde então.
— Você e Emmett são gêmeos? — Edward perguntou, surpreso, ao notar, na fala de Bella, um detalhe que indicava a resposta positiva.
— Ah, sim, eu nunca te falei? — Bella balançou a cabeça com a negação de Edward e buscou a mão dele sobre a mesa — Bem, agora você sabe — brincou ela, com um sorriso — Ele é a minha metade e a única coisa que me magoaria perder.
Edward finalmente entendera o significado da tatuagem dela. Fazia todo o sentido, por experiência própria, sabia o quão forte uma ligação entre irmãos poderia ser.
— E por que vocês voltaram para a mansão?
— Essa foi a condição que Phil deixou para que todos recebessem a devida parte da herança, depois de sua morte. Se Emmett e eu não pudéssemos usufruir da mansão e dos bens dele, os demais ficariam de fora do testamento.
— Uau! Pelo menos ele fez uma coisa boa por vocês, já que não foi homem o bastante para assumi-los antes! — Edward exclamou. Ele não conseguia entender a irresponsabilidade de Phil, mas, o cara tinha tentado recompensá-los, de alguma maneira.
Bella concordou; ela nunca se sentiu filha dele de verdade, afinal, nunca havia tido chances de conviver com ele de verdade. A única coisa que fizera de bom para ela e Emmett fora realmente deixar algum dinheiro, com o qual ainda se mantinham e, no passado, puderam estudar Medicina Veterinária e comprar a fazenda.
— Não vou dizer que sofri com a ausência dele, mas voltar para lá foi bastante difícil, nunca foi o meu lar. Só a Kate, o Vasilii e a Rose gostavam da gente de verdade e nos tratavam bem.
Ela não era tão próxima assim do meio-irmão, comparado às garotas, mas o amava com todo o coração.
— Eu não conheço muito o Vasilii, mas pelo que Rose diz, ele parece ser um bom rapaz. Ela ia mais pra Inglaterra do que todos nós, acho que por causa desse grupinho entre vocês mesmo — Edward disse e Bella sorriu, concordando com a cabeça, pois era algo que sua amiga sempre tinha deixado bem claro — E por falar em Rose, ela nunca chegou a comentar, mas me diga, como vocês se conheceram?
O coração de Bella parou no peito enquanto seus olhos se arregalaram e se encheram de lágrimas. Por que ela tinha que trazer Rosalie à tona numa conversa sobre passado? Era culpa dela Edward ter feito aquela pergunta? Ou era inevitável, assim como as memórias se revelando em seu cérebro uma a uma, como se, juntas, formassem um quebra-cabeças horrendo e sombrio, cuja figura central era uma jovem desiludida e desolada?
Ela abriu e fechou a boca algumas vezes, incapaz de proferir uma resposta e Edward franziu o cenho. Pensava que, uma vez mencionada, a sua irmã seria o assunto principal pelos minutos seguintes, mas Bella estava paralisada, com um misto de horror e medo no olhar que o assustou, mais ainda quando algumas lágrimas escaparam de seus lindos olhos castanhos. Ele nunca a tinha visto chorar, definitivamente, não estava preparado para ver aquela cena, e sentiu-se pior por ser o causador dela.
— Me desculpe — ela murmurou e deu um sorriso sem a menor sinceridade, enquanto puxava a mão de volta para o próprio colo. Sabia que Edward não tinha feito de propósito, mas, ainda assim, abrira algumas feridas antigas e o seu toque já não parecia mais tão seguro — Você tem um cigarro?
Edward continuou meio atônito, perdido em pensamentos sobre o que poderia ter acontecido de tão grave para causar tão reação em Bella e o fato de Rosalie nunca tê-lo contado parecia tornar tudo ainda pior. Ele pediu desculpas a ela, por qualquer que fosse o motivo e estendeu-lhe um cigarro já aceso, lamentando-se por ter estragado uma noite tão especial.
A festa tinha, realmente, virado um enterro, foi a única coisa que Bella pôde pensar.
Apartamento alugado, sábado, 12 de setembro de 2015 – 09:00h, 12ºC, tempo aberto com ventos fortes.
Bella ignorou a vibração em seu celular e fez questão de colocá-lo no modo silencioso, não queria ninguém a incomodando. Dessa vez, era Kate ligando para ela, após não conseguirem se falar por mensagem. Ela, na verdade, vinha deixando de atender qualquer mínima tentativa de contato desde o fatídico domingo.
Enrolada nos cobertores e com o rosto vermelho e inchado de tanto chorar, ela se arrependia cada vez mais de ter cedido aos quereres de seu coração. As memórias de seu namoro com Edward iam, voltavam e se fundiam a algumas das experiências mais dolorosas de sua vida. Ele não tinha culpa, nem mesmo da sua pergunta tê-la provocado aquilo, ela sabia, mas ter tal consciência não a ajudava em nada.
Depois de alguns cigarros, ele a tinha levado de volta ao apartamento; Bella pediu-o que fosse embora e Edward a respeitou sem questioná-la, prometendo a si mesmo tentar descobrir o motivo de reagir tão mal a uma simples pergunta. Até então, não havia tido qualquer sucesso em inquirir Rose, pois ela relutava em dizer-lhe a verdade, tornando-o ainda mais preocupado com a situação, mas ele não podia forçar nenhuma das duas a contá-lo qualquer coisa. Ele detestava estar sem falar com Bella por tanto tempo, mas daria todo o espaço que ela precisasse.
Batidas fortes na porta de entrada a sobressaltaram. Parte dela torcia para ser Edward, para ele não desistir dela tão facilmente, mesmo que ela não tivesse retornado suas mensagens, ou ligações. Enquanto ela pensava se atenderia ou não à porta, uma voz estridente e preocupada a chamou. Surpresa, Bella se encaminhou até a sala, não se importando de estar trajando um pijama velho, cuja camiseta estava encharcada pelas lágrimas, porque aquele homem à sua espera já a tinha visto em condições muito piores.
— Emmett! — ela se jogou nos braços do irmão, que a segurou imediatamente, preocupado com o estado dela. Depois de receber telefonemas de Kate sobre o não contato de Bella, ele decidiu ir vê-la com os próprios olhos, sabendo que seria provavelmente a única pessoa a quem ela não se negaria a atender.
— O que aconteceu? Por que não está falando com ninguém? — ele não conteve as perguntas assim que entrou no apartamento e fechou a porta atrás de si.
Os dois se acomodaram no sofá, enquanto ele observava a irmã, cujos olhos não conseguiam esconder toda a dor emocional que vinha sentindo.
— Essa semana foi uma merda, como se todos os meus pesadelos resolvessem dar as caras de uma só vez. Eu sei que está tudo na minha mente, mas parece tão real, que tenho medo de verdade — Bella revelou.
— Aquele seu namorado, é ele o problema? — Emmett não o conhecia tão bem, apenas sabia o que Bella e Kate falavam sobre o tal Edward, mas ele não parecia ser do tipo que partiria o coração de sua irmãzinha de propósito.
— Eu sou o problema! — respondeu ela, sincera e chorosa. Não conseguiria esconder por muito mais tempo e decidiu contar ao irmão sobre os gatilhos do último domingo. Ele a escutou com paciência e a abraçou enquanto ela chorava. Se tivesse passado, na pele, pelas mesmas coisas que Bella, provavelmente também teria as mesmas dificuldades para confiar e se abrir num relacionamento, talvez, fosse até pior.
Emmett não fazia ideia do quanto Bella estava apaixonada pelo namorado até vê-la naquele estado; pensava que ela ainda não estava pronta para um novo relacionamento sério, mas tinha se mostrado tão firme, em todas as conversas por vídeo-chamada que ele não tivera outra opção, senão, apoiá-la. O irmão não sabia, então, se deveria incentivá-la a procurar o rapaz e esclarecer as coisas com ele, ou a deixá-lo de vez para evitar mais sofrimentos.
O’Connors Famous Pub, domingo, 13 de setembro de 2015 – 20:40h, 13ºC, chuva fraca.
O coração de Bella se acelerou quando ela se aproximou da parede amarela, torcendo para que ele já estivesse ali, assim como a primeira vez em que se conheceram. Seus olhos varreram a entrada do local e não demoraram a avistá-lo bem próximo, como na outra ocasião, fumando um cigarro.
Ela esperava que o seu rosto, ainda vermelho, e seus olhos inchados não o assustassem, nem o induzissem a perdoá-la, pois a última coisa que gostaria, era tê-lo de volta por pena, ao invés de paixão, ou pelos motivos que o levaram a querê-la antes. Assim, precisou tomar algumas lufadas de ar, de coragem, para se aproximar mais de onde Edward estava e tirou o capuz de sua cabeça para facilitar ser vista e reconhecida.
Bella percebeu o cenho franzido de Edward, antes de ele erguer o rosto e uma expressão surpresa tomar conta de suas feições ao finalmente notá-la, como se seus pensamentos pudessem ter atraído a atenção dele, ainda sem saber o porquê de ter causado tanta dor à namorada, acentuando o sentimento de culpa dentro de si. Tê-la ali, no entanto, indicava a possibilidade de uma conversa, afinal, mesmo se fosse para terminarem o relacionamento, ainda era melhor do que permanecer com dúvidas.
Um pouco desajeitado, por não saber ao certo como agir, ele abriu a porta do bar e indicou que ambos adentrassem-no; com o local praticamente vazio, os dois se sentaram, lado a lado, a uma das mesas, e ficaram em silêncio por alguns instantes. Bella se recordou do quanto o silêncio fora proveitoso durante o jantar, mas, naquele momento, parecia tão frágil, como vidro prestes a se espatifar no chão. Estaria o relacionamento dela na mesma condição, ou poderiam, juntos, segurá-lo antes de se partir num milhão de pedacinhos?
Era aniversário dela e, diante de tudo o vivenciado nos últimos dois meses, ela jamais tinha esperado passar a data daquela maneira. Edward não parecia hostil, nem bravo, mas permanecia quieto enquanto a encarava e Bella sabia: o mais justo seria ela começar a falar, a se justificar… Quando Emmett dissera para buscar a sua felicidade, se decidiu por pedir mais uma chance a Edward, porém, não havia pensado no quão difícil seria se abrir.
— Me desculpe por não atender às suas ligações, nem responder suas mensagens. — Aquela era a parte fácil, Bella não era orgulhosa, sabia reconhecer os próprios erros e se desculpar por eles. A parte difícil, explicar o motivo pelo qual tinha errado com ele era a pior. Gostaria de não ter de lidar com ela, mas não tinha outro jeito — Eu fui sincera quando disse que achava não estar pronta para um relacionamento…
Edward suspirou, ele já esperava por isso, pelo término, mas não tornava as coisas mais fáceis, ou menos dolorosas. Bella se calou diante da reação dele, esperando que ele dissesse algo, mas mais silêncio reinou entre ambos.
— Sei que minha reação à sua pergunta, no jantar, pode ter parecido desproporcional, mas ela me desbloqueou algumas memórias desagradáveis e passei essa semana inteira lutando contra os sentimentos de desprezo e humilhação que sempre senti ao revisitá-las — explicou, forçando-se a olhar diretamente nos olhos de Edward. Adoraria ver nada além de compreensão e carinho neles, como de costume — Você não tem nada a ver com isso e sinto muito por ter deixado que afetasse o nosso relacionamento dessa forma.
— Isso tem a ver com os seus pesadelos? — Ouvir a voz de Edward depois de quase uma semana a fez ofegar, não apenas pela pergunta inesperada. Ele sabia sobre os pesadelos? — Você tem um sono bastante inquieto e fala enquanto dorme, às vezes diz palavras mais cotidianas, mas quando está mais agitada, constantemente diz “não”, ou pede para alguém ir embora. Cheguei a pensar que falava comigo, em algumas dessas vezes, mas sempre estava dormindo pesado.
— Desculpe atrapalhar o seu sono… — Bella estava constrangida e despreparada para lidar com o fato recém-descoberto.
— Eu me acostumei. — Edward deu um pequeno sorriso, mas tornou a ficar sério quando percebeu que os pesadelos dela poderiam estar diretamente ligados à pergunta indevida feita no jantar — Isso tem a… — Ele não sabia como questioná-la novamente depois daquele episódio. Haveria como aquela conversa não terminar de maneira desastrosa como da outra vez?
— Isso tem a ver, sim, com a pergunta que você fez — afirmou Bella, percebendo que Edward estava sem jeito para falar sobre o assunto — Eu namorei um cara, durante a adolescência, bem mais velho e muito babaca. Ele se aproveitou de mim, coisa que só percebi depois de muito tempo, e me fez de trouxa o quanto pôde. Riley tinha feito uma aposta com os amigos e quando Kate descobriu e me contou, já era tarde demais. A Rose estava de visita, naquela época, e, por ter passado pela mesma situação… Inclusive, os dois merdinhas que fizeram isso conosco eram amigos; enfim, ela me ajudou a me reerguer, e foi assim que nos conhecemos, quase dez anos atrás.
Edward sabia a que Bella se referia, no caso da irmã. Quando adolescente, ela tinha namorado Royce King, um “aristocrata” idiota inglês que havia apostado com os colegas nojentos o quão rápido conseguiria levá-la para cama. A inocente e apaixonada Rosalie caiu nas garras dele e cedeu a virgindade só para ser largada às moscas dias depois. Edward testemunhou toda a tristeza dela, sem poder fazer muito para ajudá-la, e viu toda a transformação da moça anteriormente romântica, em alguém descrente de relacionamentos, mesmo tendo em seus pais o maior exemplo de amor verdadeiro.
— Eu sinto muito que tenha passado por isso, lembro de como foi difícil para Rosalie, ela tinha expectativas e sonhos com aquele idiota, imagino que não era diferente com você.
Edward esperava não causar mais dor à Bella, mas ela parecia mais preparada para conversar sobre o assunto com ele; talvez, não tudo, mas, principalmente, sobre o concernente à pergunta outrora fatídica. Claro, havia mais, muito mais a respeito do grandessíssimo idiota Riley Biers, inclusive o fato daquela não ter sido a única situação na qual Bella se deixou se enganar por ele, mas a vergonha em admiti-lo era tanta que ninguém – além do ex-terapeuta dela – sabia da segunda chance.
A chance mais transformadora, ainda mais que a entrega da sua virgindade, ou qualquer aposta. Um arrepio percorreu a coluna de Bella e seus braços se cruzaram automaticamente contra a sua barriga, como se pudesse protegê-la, como se ainda tivesse algo para proteger. Ela lutou contra as lágrimas, ao fechar os olhos, e respirou fundo; o momento já não era fácil e ficar remoendo o passado não a levaria ao seu objetivo: tentar reconstruir o seu relacionamento com um homem que realmente valia a pena.
— Eu gostaria de afirmar o contrário — Bella confessou e Edward refreou a vontade de abraçá-la, por não saber se estaria ultrapassando os limites dela, após o tempo separados — Você pode me perdoar?
Edward assentiu imediatamente. A semana havia sido ruim o suficiente sem a companhia de Bella; ele conseguia compreender melhor toda a ressalva e desconfiança por parte dela e estava aliviado por ter tido a chance de conversar com ela a respeito disso.
— Você me aceita de volta? — ela perguntou, fitando diretamente os lindos olhos verdes dele, tentando perceber qualquer hesitação. Edward, no entanto, apenas sorriu.
O dia estava melhorando cada vez mais, para ambos, e Bella retribuiu o sorriso antes de abraçá-lo apertado e colocar os braços dele ao redor dela, não suportando mais a ausência do toque dele.
— Feliz aniversário — ele murmurou, amando poder sentir o calor do corpo de Bella e ver refletido em seus olhos uma calmaria totalmente contrária de quando tinha chegado.
— Obrigada, obrigada! — Bella o agradecia duplamente, pelas felicitações e por tê-la perdoado. Ela tocou o rosto dele com as mãos e não demorou a selar os seus lábios, ansiosa por seus beijos e carinhos.
As mãos de Edward acompanharam o desenho das costas dela até chegarem à cintura, pela qual a trouxeram ainda mais para perto de si. Enquanto os dois desfrutavam e matavam a saudade com um beijo apaixonado, quatro mulheres super-conhecidas chegaram ao bar para mais uma noite de trabalho; elas gritaram, em espanto e, idem, alegria ao vê-los juntos de novo. Meio à força, eles se entregaram às loucuras de suas amigas-irmãs, aliviados por estarem de volta aos braços um do outro e comemoraram, claro, com várias rodadas de Guinness.
Apartamento alugado – 23:30h, 10ºC, chuva e ventos fortes.
Bella estremeceu com os beijos que Edward ia distribuindo na pele de suas costas conforme movimentava os quadris para frente e para trás de encontro aos dela. Os dois tinham uma sintonia incrível, sabiam dar e sentir prazer um com o outro de uma forma jamais experienciada com outros parceiros; eles se respeitavam e se encaixavam perfeitamente. Eles atingiram o ápice depois de um dia longo e emocionalmente inesperado, e Edward, ao sentar-se no tapete da sala, acolheu Bella, já meio cansada, em seus braços.
— Eu vou sentir falta desse tapete — ela brincou num murmúrio, enquanto se acomodava entre as pernas do namorado. Aquele tapete, bastante especial, tinha sido a testemunha das atividades físicas deles desde o primeiro dia em que se conheceram e seria um dos objetos de que Bella se lembraria com muito afinco quando se mudasse para a casa alugada, na semana seguinte.
— Pode levá-lo para a casa nova, vamos batizá-lo lá também, o que acha? — Edward também brincou ao beijar o ombro direito dela — Tenho certeza de que as garotas não vão se importar se você retirá-lo daqui.
— Já eu tenho certeza de que elas não vão gostar de serem furtadas.
— Ei, eu estou te autorizando, eu também mando aqui, você sabia?! Não é furto se tem permissão! — ele contrapôs, arrancando risadas dela.
— Vou pensar no seu caso. De todo modo, se eu levá-lo, vou precisar deixar outro no lugar e, no momento, prefiro focar em despesas mais urgentes do que um tapete, preciso arranjar um emprego, inclusive.
— Uma coisa de cada vez, vamos primeiro fazer a sua mudança, depois você se preocupa com isso. — Edward deu um beijo no pescoço de Bella, que suspirou e concordou com a cabeça — Eu senti saudades — ele admitiu depois de alguns instantes de silêncio.
Bella virou um pouco a cabeça, surpresa com as palavras dele. Os olhos verdes brilhavam para ela, com o carinho de sempre, e ela se sentiu um pouco culpada por ter se afastado tão repentinamente, por tê-lo feito sofrer da mesma maneira como Riley fizera com ela, talvez, em proporções menores, mas era insuportável a ideia de tomar atitudes parecidas com as daquele monstro.
— Também senti — ela confessou baixinho — Ainda vai ser difícil… — Precisava ser sincera, porque embora sua mente já estivesse bem melhor, não poderia garantir que nunca mais voltaria a se sentir daquela forma.
— Está tudo bem, agora eu já sei o que aconteceu e não vou mais tocar no assunto, a não ser que você queira — Edward disse docemente e beijou a ponta do nariz dela. Ele não sabia de tudo, mas sabia o suficiente e se fosse realmente compreensível naquele nível a que se mostrava disposto, então, Bella lutaria com todas as forças para não deixá-lo escapar.
Casa alugada, Galway, sexta-feira, 09 de outubro de 2015 – 14:00h, 15ºC, tempo aberto.
Bella não conteve as lágrimas assim que avistou a pelagem ruiva de Nymeria ultrapassar o portão de sua mais nova casa. Sua bebê de quatro patas parecia igualmente emocionada: ela choramingou, balançou o rabo e correu na direção da tutora que se ajoelhou na grama do jardim e afastou os braços para abraçá-la. Não era a favor de humanizar os animais, mas também não podia negar a importância da cadelinha na sua vida, menos ainda o fato de pertencer à sua família.
— Oi, meu amor! — Bella acariciou os pelos macios enquanto envolvia o pescoço de Nymeria rapidamente, pois ela, como todo cachorro, não era muito dada a abraços.
Ela riu quando, ao soltá-la, Nymeria a cheirou e deu algumas voltas ao redor dela antes de se deitar, como se estivesse se certificando de que estavam realmente juntas.
Acompanhados dela, estavam seu pai, Charlie, Emmett e Coragem, o seu Wheaten Terrier Irlandês de pêlo macio de 4 anos de idade, que não tardou a correr para Bella, um pouco menos empolgado do que Nymeria, mas ainda assim, parecendo saudoso.
— Ei, Coragem, como você está lindo! — Bella acarinhou os pêlos beges e recebeu uma lambida na mão em troca.
Ela se levantou, em seguida, para cumprimentar ao pai e ao irmão, e precisou respirar fundo algumas vezes, prestes a levá-los para dentro da casa e, finalmente, apresentá-los ao seu namorado. Antes que o fizesse, no entanto, o próprio apareceu no jardim, os olhos arregalados ao localizarem os dois homens, o mais jovem deles, tão grande quanto um armário, e quase tornou a se esconder, mas era tarde demais: eles já o tinham visto! Mesmo sabendo previamente da viagem deles, não podia se dizer completamente preparado para conhecê-los e a recíproca parecia ser verdadeira!
— Hum… Pai, Emmett, esse é Edward. Edward, esses são meu pai, Charlie, e Emmett, meu irmão gêmeo — Bella fez as apresentações e quase gargalhou com as expressões nos rostos dos três homens. Eles se encaravam como se estivessem anestesiados, meio perturbados, até que Nymeria começou a cheirar Edward; ela se apoiou nas patas traseiras e bateu as dianteiras na barriga dele, como se quisesse sua atenção.
Ele deu uma risada e acariciou a cabeça dela, que fechou os olhos e balançou o rabinho, muito feliz em fazer um novo amigo, como a criatura sociável que era.
— Olá, Nymeria! — ela pareceu ainda mais satisfeita com o cumprimento e Bella se deixou apaixonar um pouco mais por Edward, ao ver aquela interação tão doce.
Em seguida, assim que Nymeria voltou ao chão, ele tomou coragem para saudar os familiares de sua namorada. Os três foram suficientemente educados um com o outro, sem qualquer forçação para aparentarem uma simpatia que ainda não era natural entre eles. Ao entrarem para tomarem uma xícara de café, empenharam-se para manterem a cortesia e gentileza e não foi difícil, para Edward se dar conta de como a personalidade amável e generosa de Bella só poderia ter sido moldada pelo seu tio-pai, dadas as semelhanças cada vez mais evidentes entre ambos.
Emmett estava mais calado do que o normal, na visão de Bella. Ele geralmente sempre fazia piadas e se metia em assuntos alheios, às vezes constrangendo-a com seus achismos, mas, durante toda a tarde, tinha ativado o seu modo observador, assim, podia ficar em alerta, caso não achasse Edward confiável o bastante para estar com a sua irmã. O rapaz tinha um jeito parecido com o de alguns de seus amigos, embora mais sério, mais centrado, como se verdadeiramente comprometido, ou, ao menos, desse o seu melhor para sê-lo.
Apoiar as decisões da irmã não significava, necessariamente, fazer o mesmo com o relacionamento dela, pois mal conhecia o namorado, mas se esforçaria para confiar nas decisões que ela estava tomando para a própria vida. Pelo menos, de acordo com o analisado, Edward parecia bem entrosado e demonstrava o seu cuidado nos mínimos detalhes, como foi elogiado ao colocar a exata quantidade de açúcar que a implicante Bella gostava em seu café – duas colheres cheias e uma pontinha. Emmett mesmo, sempre ouvia reclamações quando tentava prepará-lo, por estar doce, ou amargo demais.
Além disso, mesmo tendo visto com os próprios olhos e até participado do momento, Edward não escondia a empolgação ao ouvir Bella falar sobre os mais diversos assuntos, inclusive o mais novo trabalho numa Clínica Veterinária onde era a mais antiga vila de pescadores da Irlanda, Claddagh, segundo a irmã.
— Então, eu ajudei a fazer o parto da cadelinha, uma Kerry Beagle, e o dono da clínica me chamou para trabalhar com ele! — Bella comentou, aliviada e animada pela oportunidade recebida havia algumas semanas — Os tutores até nos prometeram um dos filhotinhos, não é, Edward? — Ela se dirigiu ao namorado, cujas bochechas ficaram vermelhas ao ter toda a atenção voltada para si. Numa tarde relativamente quente de setembro, os dois caminhavam pelo South Park quando uma mulher chamada Charlotte surgiu nas redondezas correndo, pedindo ajuda, desesperada com uma cachorrinha, Perdita, nos braços.
Ao se aproximarem, ela contou que o animalzinho já estava em trabalho de parto desde a noite anterior, mas que ainda não tinha parido nenhum filhote. Nos últimos minutos, começara a sangrar bastante e Charlotte estava sem meios de levá-la ao veterinário, então, se decidira por pedir ajuda na vizinhança. Edward e Bella participaram do resgate de Perdita, levando-a no carro dele até a clínica, onde, devido ao pouco número de funcionários e à emergência da situação, o dono do local, Sam Uley, permitiu que Bella o assistisse na cirurgia e, assim, conquistasse o seu tão valoroso emprego.
No final de tudo, Charlotte prometera ao casal de namorados um dos quatorze filhotinhos, à escolha deles, quando parassem de ser amamentados, o que levaria em torno de 10 semanas. Os dois estavam muito extasiados, depois do pico de adrenalina, e nem conseguiram negar a “gentileza”, simplesmente aceitaram o novo compromisso, sem ao menos pensar nas responsabilidades conjuntas que teriam a partir de então.
— Ah, sim, mas temos que ver como faremos, se ele vai morar comigo, ou com você — disse Edward, tocando num dos pontos principais que envolvia à nova adição à sua… Família? Os dois eram uma família? Provavelmente ainda não, pois tinham apenas três meses de relacionamento, descontando a semaninha-pós-jantar-traumático.
— Você ainda mora com os seus pais, é melhor deixar o novo neném aqui — Bella sugeriu, rindo quando viu Nymeria se levantar, do lado de fora da casa e olhar ao redor do local, procurando pela voz dela, uma vez que “neném”, era um de seus apelidos — Estou aqui, meu Neném!
A cadela entrou na casa, acompanhada de Coragem, ambos praticamente inseparáveis, deitou a cabeça no colo da tutora e fechou os olhinhos enquanto recebia afagos no topo de sua cabeça.
— Espero que os dois não sofram quando formos embora. Os dois se provocam feito dois irmãos, mas não os quero tristes pelos cantos — Emmett falou, observando com carinho a dupla de quem cuidou com muito zelo nos últimos meses, fora o tempo de convivência anterior à mudança de Bella para Galway.
— Não vão não, nós vamos nos ver com mais frequência, não vamos? Por eles — Bella apelou para os seus animaizinhos, sabendo que seriam um motivo para lá de excelente para os humanos estarem sempre se encontrando.
— Vou tentar, também tenho meus cursos para finalizar — ele brincou, pensando na sua Pós-Graduação em Animais de Grande Porte, a partir da qual poderia cuidar ainda melhor dos animais da fazenda.
— Combinado, então! — Bella sorriu, feliz com o reencontro mais do que esperado nos últimos meses. De alguma forma estranha, estava ainda mais contente não só com a presença de Edward, mas por tudo o que ele representava, sendo seu namorado, ao estar ali com eles. Tê-lo apresentado como seu parceiro, era um passo à frente complexo diante de tudo o que já passara, mas ela se sentia satisfeita com a realização desse.
Casa Cullen, sexta-feira, 25 de dezembro de 2015 – 11:00h, 4ºC, chuva fraca.
— Tia Bella! — Um gritinho e uma pequena colisão contra a sua cintura desviaram a atenção de Bella das sobremesas que pegava da geladeira — Opa! — Bree exclamou quando percebeu que seu gesto poderia tê-la feito derrubar tudo no chão.
— Olá, meu pinguinho de gente! — Bella a cumprimentou com um sorriso e beijou o topo da cabeça dela, não achando necessário repreendê-la, ela nunca o faria se pudesse evitar.
Enquanto colocava as sobremesas no aparador ao lado da mesa de jantar, Bella custava a acreditar que tinha ganhado o posto de “tia”, mas internamente, estava cada vez mais animada em poder participar da infância de alguém, ainda mais sendo Bree uma criança tão adorável.
— Que bom que você conseguiu vir com o tio! — disse a pequena ao seu encalço. Ela tinha total razão: tempestades arrasadoras tinham perpassado as Ilhas Britânicas, com a destruição de telhados, quedas de energia e até mesmo inundações, e a família só conseguira se reunir para comemorar o Natal naquela hora.
— Sim, e que bom que você também veio! — Bella não resistiu em pegá-la no colo e abraçá-la apertado, sentindo o seu amor por aquela criancinha, que conhecia havia tão pouco tempo, crescer cada vez mais, como se seu coração fosse capaz de se expandir a cada batida.
— E o Pingo e a Nymeria, como que eles tão, hein? — Bree perguntou animada; Pingo, o mais novo adotado, completaria 3 meses no dia seguinte e fora muito bem recepcionado pela “irmã mais velha”, quando chegara três semanas antes.
Edward e Bella ainda estavam se acostumando com a rotina, o primeiro fazendo visitas diárias à casa dela – onde eles concluíram ser mais prudente deixá-lo, pois Esme e Carlisle, por mais compreensíveis e amorosos, não tinham qualquer obrigação para com os animaizinhos – e, juntos, trabalhavam para educar o pequeno e enérgico destruidor de sandálias – que além de tudo estava adorando usar os móveis de mictório.
— Eles estão ótimos, ficaram lá em casa junto com o Coragem pra não bagunçarem aqui — Bella brincou.
— Amanhã eu vou lá te ajudar a cuidar deles, tá bom? — Bree estava super entusiasmada para interagir com os cachorros, visto que seus pais ainda não tinham cedido aos seus pedidos de dá-la um bichinho de estimação. Suas mini-férias seriam perfeitas para passar bastante tempo com os seus tios favoritos e os animais deles.
— Tá bom, meu amor — Bella concordou. Ela deu um beijo carinhoso no rosto de Bree e a colocou no chão quando sentiu uma pontada no pé da barriga, um sintoma bem persistente nos últimos dias, indicando a chegada, em breve, de sua menstruação — Me ajuda a terminar de colocar a mesa?
Bree assentiu com veemência e sorriu ao acatar ao pedido da “tia”. Bella não sabia ao certo quem seriam os convidados dos Cullen, mas só de imaginar as possibilidades, sua espinha chegava a se arrepiar – não de um jeito positivo. Ela, no entanto, não poderia negar ao convite da família de passar o Natal com eles, principalmente depois de terem convidado Charlie e Emmett para acompanhá-la também. Esme estava finalizando os pratos quentes junto de Jasper e Kate, enquanto o restante do pessoal ajeitava a mesa e dava um trato na casa.
Salthill Promenade – 14:00h, chuva de neve com ventos moderados.
O saldo mais positivo da noite para Bella, certamente, tinha sido rever o seu irmão, Vasilii, com quem não falava havia vários meses. De resto? Bella pôde imaginar uma tragédia assim que viu os demais membros da família Dwyer, embora não conseguisse prever o que aconteceria com exatidão. Mesmo assim, fora pior do que poderia ter esperado.
Ela tremeu um pouco, de frio, ao sentir as gotas de chuva se misturando à queda de neve do céu. O caminho até o famoso Salthill Promenade, o mesmo feito por ela e Edward na primeira noite que passaram juntos, mostrou toda a agitação que a Irlanda estava passando, tanto pelas comemorações de final de ano, quanto por causa das tempestades. O mar estava igualmente revolto, como se tentasse competir com o céu.
Bella não conteve as lágrimas ao desligar o celular, ignorando as inúmeras chamadas de sua família e da família dele – a parte boa. O lado desagradável, composto por Sasha, Tânia e Irina Dwyer, esse, ela adoraria poder esquecer. No início, foram impagável as feições de surpresa quando viram Bella na Casa Cullen, porém, elas jamais perderiam a oportunidade de tirar toda e qualquer carta na manga para feri-la intencionalmente.
Começando com “Não sabíamos que você tinha a capacidade de fisgar alguém como Edward”, passando por vários comentários sobre o passado dele, como galanteador “Você se lembra do aniversário dele, uns dois anos atrás, quando viemos para a festa e ele não saiu do quarto até a hora dos parabéns? Estava com aquela menina, qual era o nome dela, mesmo, Tânia? Acho que era Maria, uma moça latina…” dissera Irina. “Não, Maria foi quem ele levou pro quarto depois do parabéns e só saiu de lá no dia seguinte. A de antes foi uma tal de Charlotte” completou Tânia. Antes mesmo que Bella pudesse ligar o tal nome, a sua “irmã postiça” foi ainda mais rápida “A cachorrinha dela teve filhotes recentemente, são beagles lindos!” Aquelas ridículas haviam ficado sabendo, de alguma forma, sobre o ocorrido em South Park e estavam fazendo de tudo para atingi-la.
Foi notável como Edward ficara desconfortável à menção daquela história e Bella ainda mais, sentindo-se idiota diante de toda a situação. Por que ele não tinha contado a ela que já conhecia a mulher a quem tinham ajudado? Não tinha nada demais! A não ser que, de fato, houvesse algo acontecendo.
Bella gostaria de ser mais forte e conseguir ignorar cada comentário, porque confiava em Edward e em tudo o que tinham construído em quase seis meses de relacionamento, mas depois de tudo o que já tinha passado, era inevitável o surgimento de certas dúvidas diante das novas informações.
E, para fechar com chave de ouro, é claro, as babacas tinham que mencionar o nome de Riley, como se fosse um anjo – tal qual Lúcifer, a única possibilidade. Aparentemente, ainda eram próximas o suficiente daquele crápula para serem convidadas a serem as madrinhas de um casal de gêmeos recém-nascidos dele. Ele estava casado e tinha formado uma família. Bella não sentia nada por ele, além de desprezo, mas o coração dela se afundou no peito àquela menção. Aquilo não era justo! Riley estava vivendo justamente o que tinha tirado dela!
Que tipo de monstro poderia ser presenteado em dose dupla depois do que fizera com ela?! Com o próprio filho(a) que nem tinha tido a chance de nascer!
Bella respirou fundo várias vezes, com um pouco de dificuldade, o coração acelerado no peito. Ela se sentou no calçadão e fechou os olhos enquanto deixava o vento envolvê-la, tentando se acalmar. Tinha saído da casa Cullen às pressas, sem nem se despedir das pessoas, mas precisava ficar sozinha, era assim que conseguia lidar melhor com suas questões mais difíceis.
Casa alugada, sexta-feira, 8 de janeiro de 2016 – 21:00h, 6ºC, tempo aberto.
— Tia Bella, você não sente falta do tio Edward? — Bree perguntou, curiosa, enquanto olhava diretamente nos olhos da ex-namorada do tio, querendo saber a verdade. As duas estavam deitadas sobre a cama de casal do quarto de Bella, pois a menina passaria o último final de semana de suas mini-férias lhe fazendo companhia, a pedido dela mesma.
Bella não sabia como respondê-la. Edward tinha sido uma das melhores coisas que já tinham acontecido em sua vida, mas isso não anulava todas as dúvidas e medos que sentia dentro de seu relacionamento. Depois de voltar para a casa Cullen para um Emmett muito puto da vida pela forma como havia sumido, ela até tentou fingir que nada acontecera, mas era tarde demais.
Por menor que fosse, havia sim uma rachadura em seu namoro devido à mentira, ou omissão de Edward em relação à Charlotte. Bella tinha até mesmo cogitado devolver Pingo, mas chegou à conclusão de que estava apegada demais ao cachorrinho – e jamais se igualaria a Riley no quesito se desfazer de algo com o qual já estava comprometida.
Ela tentou conversar com Edward, mas não viu qualquer sentido, pois os argumentos favoráveis para permanecer no relacionamento eram mais fortes do que os contrários, mas mais fracos se comparados aos seus medos. Fechara-se em sua casa, quase sem contato com o mundo externo a não ser pelo trabalho, e ignorava as ligações e mensagens de todos, por não estar preparada para lidar com eles.
A única pessoa a quem atendera, tinha sido Victoria, muito porque não esperava o contato dela, e também por pensar que talvez Bree estivesse querendo falar com ela – algo provado ser verdadeiro. De todas as pessoas a quem Bella sabia estar magoando com as suas atitudes, a única que jamais se perdoaria por fazer sofrer seria aquela doce criança, já machucada pela vida o suficiente com a perda dos pais.
Ela não queria magoar ninguém, na verdade, mas não via como poderia continuar mantendo contato com aquelas pessoas, muito menos Edward, sob pena de se apaixonar por ele de novo… Não de novo, porque era como se sentia, mas ainda mais.
— Tia? — Bree chamou a atenção dela, um pouco preocupada com a ausência de resposta — O tio tá meio estranho esses dias, não tá respondendo minhas perguntas igual você — ela comentou quando percebeu o silêncio de Bella.
— Ele está?
— Sim. A mamãe falou que ele tá ficando direto no apartamento, só vai na casa da vó pra dar comida pro Zack e pro Cody.
Bella franziu o cenho àquela novidade. Será que Edward estava sofrendo, ou estava se divertindo? Mesmo ele jamais tendo dito com todas as letras, ela sabia para que o imóvel era utilizado antes de começarem a namorar – inclusive havia sido usado por ambos com o mesmo propósito durante o período pré-namoro.
— Acho que já está na hora da gente ir dormir, hein! — Bella disse em tom suave, mas sério, tentando acabar com aquela conversa de forma que não parecesse tão óbvia a sua fuga das perguntas de Bree, afinal, não queria chateá-la, mas também não conseguia pensar em respostas não-comprometedoras.
— Ah! — Bree fez um biquinho, mas preferiu não insistir. Seus tios estavam muito esquisitos, mas ela era só uma criança e não sabia o que fazer para ajudá-los.
Clínica Veterinária de Claddagh, Galway, sexta-feira, 15 de janeiro de 2016 – 13:00h, 9ºC, tempo aberto.
Kate para Bella:
Juro que se você não vier para o nosso aniversário no domingo, eu mato você! Emmett estará lá, então, é bom você acompanhá-lo! O convite está em anexo.
Bella revirou os olhos ao terminar de ler a mensagem da irmã, em seu horário de almoço. Ao baixar a imagem do convite, constatou que a tal comemoração do aniversário dela e de Vasilii aconteceria no Pub do O’Connor pós-show da banda, e que seria “Dwyer Free”, ou seja, na cabeça de Kate, ela realmente não tinha motivos para não ir à festa… Exceto, talvez, a presença de seu ex-namorado.
Bella para Kate:
A gente poderia comemorar mais cedo, aqui em casa mesmo, o que acha? Vou para o curso segunda de manhã e prefiro estar inteira :)
Ela hesitou em enviar a mensagem, sabendo que Kate não concordaria, mas não custava dar aquela sugestão.
Kate para Bella:
Não se faz 26 anos todo dia, Isabella. Nós somos irmãs e não aceitarei a sua ausência, qualquer que seja a desculpa. Se a terapia estivesse em dia, você não estaria tratando todo mundo feito merda. Não é a primeira vez e, além de preocupação, você também está me dando rugas e alguns cabelos brancos antes dos 30. Ótimos presentes, hã? Esteja lá às 21h, como toda e qualquer irmã decente faria.
PS: Amo você, mesmo que isso te deixe ainda mais puta da vida.
Com amor, Kate.
Bella arfou, indignada e ligeiramente ofendida, embora consciente da verdade por trás das palavras de Kate. Seus olhos se encheram de lágrimas ao passo em que sua ficha caía e ela se sentia péssima; uma péssima namorada, amiga, tia, pessoa… Quanto dela mesma havia despendido para outras pessoas ao longo de sua vida? Quantas delas tinham retribuído minimamente? Decerto, ela precisara atravessar o oceano e chegar em Galway para conhecer a reciprocidade do amor de um homem e como uma família saudável se relacionava.
Todos eles, incluindo a parte boa da sua família biológica, faziam-na se sentir bem e pertencente, e não era justo fazê-los sofrer. Foi com esse pensamento, que ela decidiu ir em busca do perdão.
O’Connors Famous Pub – 17:30h, 8ºC.
Duas batidas na porta, alguns minutos de agonia e pensamentos sobre desistência depois, Edward apareceu na soleira. Ele estava diferente, mais magro, com olheiras acentuadas debaixo dos olhos verdes opacos e os cabelos mais desalinhados do que o normal. Encontrá-lo naquele lugar era paradoxalmente doloroso e especial, porque significava que estava disposto a conversar com ela, mesmo depois de tantos erros. Ele estava exatamente onde disse que estaria, pronto para ouvi-la; seria bom se resolverem antes da festa dos gêmeos e evitar qualquer “climão”.
O bar estava calmo, ainda não estava aberto, por isso poderiam tranquilamente tentar colocar as coisas em seu devido lugar sem interrupções ou bisbilhoteiros tentando ouvi-los. Edward seria eternamente grato ao Júnior por tê-lo concedido o ambiente para aquele momento:
— Será que eu posso entrar? — Bella o questionou.
Edward abriu passagem, meio no automático e fechou a porta quando Bella se sentou num dos sofás perto da saída. Ele estava sem jeito, por não esperar que ela fosse realmente aparecer; não se arrumara direito, nem tinha algo além de álcool e cigarros para oferecê-la, podia ter comprado algo para comerem e pensar nisso o fez constatar a falta de mantimentos e de organização em sua vida desde que ela o deixara.
Ele sabia ter errado, por não falar sobre Charlotte, mas Bella nem mesmo o deixara explicar que não se recordara dela até Tânia mencioná-la como uma das convidadas de sua festa dois anos antes. Ele estava bêbado, mal se lembrava da comemoração em si, muito menos da moça – que provavelmente também não se lembrava dele –, mas aquele era o Edward de antes, cuja mudança tinha ocorrido antes mesmo de conhecer a Bella.
Passara pela fase de curtição e irresponsabilidades e tinha se decidido por uma mudança antes de Bella entrar em sua vida; ela chegou como a cereja do bolo para confirmar que estava indo pelo caminho certo, para dar ainda mais segurança às suas escolhas. No entanto, as coisas se provaram meio tortuosas e incertas, pois ela se afastava a qualquer momento, sem dá-los a chance de se entenderem.
Mesmo que ele entendesse os seus motivos, não era fácil vê-la partir, ignorá-lo e depois voltar de repente. Edward queria uma estabilidade que, talvez, Bella realmente ainda não estivesse pronta para dá-lo.
— Como estão Zack e Cody? — ela perguntou-o, tentando quebrar o clima, meio sem saber como pedir desculpas. Ela estava constrangida por se encontrar na mesma situação pela segunda vez, não tinha nem mesmo ensaiado em sua cabeça como poderia interagir com o ex-namorado.
— Estão bem. — A voz de Edward estava tão rouca que era como se ele estivesse proferindo as primeiras palavras em um bom tempo, algo que se provou verdade quando o próprio franziu o cenho ao seu ouvir soando tão esquisito — Não posso dizer o mesmo sobre mim.
Ele não queria culpá-la pelo seu estado, pois era homem o suficiente para assumir as consequências de suas péssimas escolhas dos últimos dias, mas não podia desconsiderar o impacto que o término com Bella tinha trazido à sua vida.
— Eu sinto muito. — Ela suspirou e fechou os olhos — O nosso relacionamento foi bom e eu confiava em você, mas ter Tânia falando sobre você com outras mulheres e depois sobre Riley… — Lutando contra o embargo em sua voz, Bella abriu os olhos, não querendo que Edward pensasse por um segundo que ela poderia sentir algo além de desprezo por aquele homem.
— Você nem me deixou explicar… — disse ele, sentando-se ao lado dela.
— Eu sei — ela concordou, não poderia jogar toda a responsabilidade nas costas de Edward, mas não anulava a forma como tudo se desenrolara devido à informação sobre Charlotte.
— Aquela mulher… Charlotte, eu não me lembrava dela, estava bêbado demais em minha festa — Edward admitiu, observando a reação surpresa de Bella. Ela realmente achava que ele tentaria enganá-la? Era dessa forma que dizia confiar nele?
— Por alguns momentos eu achei que tivesse me escondendo esse seu… Rolo — Bella confessou. Ela via verdade nos olhos de Edward, mas era difícil aceitar que circunstâncias como aquela poderiam ser coincidências. Quantas vezes não tinha cruzado, pelas ruas, com ex-amantes de seus ex-namorados, principalmente o pior deles, Riley, as quais fingiam nem conhecerem? Se todos os homens fossem realmente iguais, Edward era um mentiroso. Ele era?
— Eu não tenho motivos para mentir, pode perguntar para qualquer pessoa que estava naquela festa. Tânia e Irina só queriam te atingir… E parece que conseguiram.
Bella abaixou a cabeça, fitando as próprias mãos em seu colo, envergonhada ao notar que as Bruxas Dwyer tinham conseguido, de novo.
— Não foi a primeira vez que elas tiraram algo de mim, ou com quem você acha que Riley apostou a minha virgindade? — Bella murmurou com raiva de si mesma por ter caído em mais uma das armadilhas daquelas ridículas — Quem você acha que eram algumas das amantes dele?
A expressão de surpresa no rosto dele se transformou em raiva também. Ele nunca fora próximo das irmãs Dwyer, mas não podia imaginar que elas seriam capazes de tantas crueldades com Bella – considerando que ela era meia-irmã de Kate e Vasilii.
— Como se não bastassem os terríveis exemplos de relacionamentos de minha mãe, que preferiu permanecer com um homem que quase abusou de mim, em detrimento de ficar comigo e Emmett, eu também tive a minha cota de humilhações — ela revelou, grata por Edward não interrompê-la. Raros eram os momentos em que falava sobre o passado mais distante, quando era criança — Por um longo tempo, achei ser amaldiçoada. Pensei estar condenada às mesmas repetições, aos mesmos ciclos vividos, um dia, por quem me trouxe ao mundo.
“Meu coração estava quebrado e completamente fechado para o amor quando te conheci. Não foi fácil me convencer de que o que eu via em você era real e não mais o meu lado esperançoso me dizendo para me jogar de cabeça porque você poderia valer a pena”.
E, pela primeira vez desde a conversa com a sua terapeuta, falou sobre a nova chance que dera a Riley, quando se encontraram na faculdade (ele na Pós-Graduação) e ele se dissera arrependido. Usara a cartada “eu era jovem e imaturo” para justificar suas atitudes e a “eu gostava de você de verdade” para convencê-la a voltar para ele.
Depois de alguns meses juntos, Bella descobriu que estava grávida e Riley, de início, rejeitou o bebê, chegando, inclusive, a tentar persuadi-la a retornar à Inglaterra e fazer um aborto, mas com a sua recusa veemente, “voltou atrás” em sua decisão, ou assim a fez pensar. Com um pedido de casamento, ele a iludiu, seriam uma família, e quando comprou as vitaminas do seu pré-natal, Bella acreditou que estava sendo finalmente cuidada pelo seu amado até começar a ter fortes sangramentos alguns dias depois.
Ela tentou contatá-lo, sem sucesso, para que a ajudasse a encontrar ajuda médica. Ao procurá-lo em seu apartamento, depois de ser acusada pelos próprios doutores de ter induzido um aborto, descobriu-o vazio, ele havia partido. Bella ficou desolada por meses, sentindo-se irada e culpada por ter acreditado em Riley novamente, por tê-lo deixado fazer o que quisesse com ela e por tirar dela a única coisa boa que havia feito.
Somente depois de anos na terapia, ela fora capaz de passar pelo luto de ver suas idealizações desmoronando. Colocar tudo aquilo em palavras pela segunda vez, a fez perceber que ainda tinha muito a ser trabalhado; precisava perdoar a si mesma pelas más escolhas para, enfim, entender como era merecedora de coisas boas, uma delas sentada bem à sua frente, como sempre, acolhedora, sem quaisquer julgamentos dirigidos a ela.
— Eu não fazia ideia — Edward murmurou após alguns instantes. Ele estava emocionado, pensando em toda a dor a que Bella já tinha sido submetida em apenas 25 anos de vida.
Ele a segurou num abraço apertado, deixando que ela chorasse em seu peito enquanto pedia perdão, tomado por um desejo intenso de protegê-la de todo o mal. Naquele momento, se deu conta do quanto ainda a queria perto de si, mesmo que ela o abandonasse mais mil vezes, do quanto estava disposto a sofrer por ela, e do quanto a amava. Entender a verdade e a intensidade de seus sentimentos por Bella era difícil diante da novidade desses, ainda mais pela real possibilidade de ser o único a estar pronto para vivenciá-los.
Entretanto, era disso que se tratava o amor, afinal, ter paciência e estar disposto a ouvi-la e compreendê-la quando necessário. Ele seria não, ele era o oposto de Riley e esperava ter tempo o suficiente para mostrar isso à sua amada.
PARTE III: THE LAST TIME
Menlo Castle, Galway, sábado, 07 de maio de 2016 – 11:00h, 12ºC, tempo aberto.
Edward colocou Pingo no chão e agarrou firme a guia do furacãozinho em forma de cachorro enquanto Bella conduzia a ligeiramente mais comportada – embora ainda espoleta – Nymeria. O casal decidiu comemorar os seus 10 meses de namoro com uma ida ao Castelo Menlo, um local que Bella sempre achara intrigante ao vê-lo do outro lado do Rio Corrib, quando estava em seu curso na Universidade.
Era a primeira vez que visitava o castelo e Edward era um ótimo condutor, visto que a maior parte do caminho poderia ser bem confusa para quem nunca tinha ido para lá. Ele havia passado boa parte da infância nas redondezas, pois ficava perto de onde morava com sua família biológica.
No meio da Primavera, era bem tranquilo passear pelas ruínas do que outrora havia sido um castelo, consumido pelo fogo em 1910. As paredes restantes eram cobertas por heras, fazendo com que se fundissem bem à paisagem e era interessante imaginar como era a vida num passado tão longínquo. O Rio Corrib dava um toque ainda mais especial à vista, mas pela segurança dos dois animaizinhos, Edward e Bella preferiram manter certa distância dele e eles se sentaram na grama enquanto os bichinhos se deitaram ao lado deles.
— Está animada para o término do curso? — Edward perguntou-a — Falta pouco mais de mês!
Bella já tinha parado para pensar sobre o assunto. Quando se mudara para Galway, exclusivamente para cursar sua especialização, jamais imaginou que poderia, em quase um ano, estar num lugar totalmente diferente do esperado. Ela estava namorando, apaixonada por um cara conhecido num bar, com quem achou que apenas passaria uma noite. Quase um ano juntos, considerando o período pré-namoro.
Os últimos meses em terapia tinham sido tão benéficos – até os pesadelos tinham diminuído! – que Bella se recusava a acreditar no quão insensível tinha sido com todos ao seu redor. Quando estava se afundando na escuridão e não via saída, a garotinha Bree e as mensagens de Kate tinham sido o estopim para as reflexões sobre suas atitudes. Ela pedira perdão a todos e estava aliviada de ter sido compreendida; já não tinha segredos com sua família – e isso incluía os Cullen e até mesmo Maggie, com quem desenvolvera uma amizade reconfortante. Até os pesadelos tinham diminuído!
— Estou super animada, a rotina está mais cansativa do que o normal! — Bella confirmou. Embora amasse o ambiente da Universidade e todo o conhecimento adquirido, a jornada dupla de estudos e trabalho estava muito puxada, sem contar os cuidados com a casa, os cachorros e o namoro com Edward — E ainda estou fora de forma, até ganhei um buchinho — ela riu e apontou para a barriga mais aparente do que o comum.
Estava sem fazer exercícios desde a Páscoa, quando a demanda na clínica tinha ficado maior devido ao alto abandono de Coelhinhos; era comum a compra deles como pet para presentear as crianças naquela época. O que os pais não contavam, era com os cuidados exigidos para se ter esse tipo de animal, acarretando, por final, na devolução e/ou desabrigo desses bichos.
— Está perfeita! — Edward se inclinou para dar um selinho nela, após receber um lindo sorriso como resposta ao seu elogio. Ele conseguia ver as mudanças em Bella e pequenas evoluções diárias em seu relacionamento. Desde sua reconciliação e a entrada na terapia, ela estava mais falante e confiante em si mesma, o que refletia na forma como ambos se tratavam. Ele mesmo estava empolgado para começar a sua própria jornada terapêutica na semana seguinte!
Tinha visto os efeitos de um bom tratamento psicológico com gente suficiente, além de Bella, para renegar a sua importância: Victoria, quando criança, era a rainha da carência, algo diretamente ligado à perda dos seus pais, como enfatizado na terapia, feita já na adolescência. Não fora um processo fácil, mas deu-lhe as ferramentas necessárias para lidar com um luto tão difícil e, para além, ajudar Bree com o processo, quando passou pelo mesmo.
A sua menina favorita de todas passava por psicólogo desde que perdera os pais e, por mais distintos que fossem os processos de luto para cada pessoa, era nítida a diferença entre suas infâncias, devido aos auxílios recebidos. Quanto mais cedo o aceite de apoio, é provável que haja menos sofrimento.
— Obrigada por me trazer aqui — Bella murmurou entre mais beijos e carinhos, ao mesmo tempo em que ficava atenta a Pingo e Nymeria, para que não se desembestassem a correr quando os dois se levantaram e começaram a andar próximos a eles. Sua frase significava duplamente a sua gratidão pelo local e também pela não desistência de Edward por ela. Se ela não tivesse sido perdoada, jamais estaria ali com ele, celebrando 10 meses de relacionamento — Eu amo você.
Era engraçado como ela vinha ensaiando dizer aquelas palavras nas últimas semanas, pela primeira vez, mas tinham saído de maneira completamente espontânea, surpreendendo não apenas a Edward, mas a si mesma.
— Eu também amo você — Edward afirmou pela enésima vez, porque ele já havia proferido aquelas três palavrinhas, e deu um largo sorriso, feliz por finalmente tê-las ouvido da boca da mulher que tanto amava.
Ele se inclinou mais uma vez para beijá-la quando Nymeria começou a latir, como num aviso, e os dois foram perspicazes o suficiente para ver Pingo correndo para longe deles. Levantaram-se rápido, Bella segurou a guia de Nymeria e os três correram juntos na direção do filhote que, por sorte, se decidira não ir para o rio.
Ele se embrenhou pelas árvores de modo que até Edward se confundira um pouco; a natureza tinha mudado um pouco e torcia para conseguir voltar ao castelo sem muitas dificuldades. Com um certo esforço, eles conseguiram alcançar Pingo, cujas partes brancas da pelagem de suas costas se encontravam completamente cobertas de limo e terra.
— Não fuja mais desse jeito! — Edward tentou repreendê-lo, mas a carinha de sapeca de Pingo lhe dizia que não estava dando muita trela para as palavras dele.
Uma Bella ofegante pediu algum tempo para se recompor; mesmo com as temperaturas baixas, o horário somado à correria de encontrar Pingo a deixara com calor. Ao se sentar em frente ao rio, ao lado dos três seres que tanto amava, ela se deu conta do quão completa estava se sentindo por finalmente formar uma pequena família, a sua própria família. No momento em que jamais ousou se imaginar vivenciando aquilo, ela se emocionou ao notar como a vida a fez transpor seus medos e anseios para presenteá-la com um sentimento tão verdadeiro e recíproco.
Pela primeira vez, estava em pé de igualdade, estava amando e recebendo amor na mesma proporção e se sentia digna desse nobre sentimento.
— O que foi, está tudo bem? — Edward perguntou ao ver seus olhos marejados. Ele tinha notado certo aumento nas variações de humor de Bella, mas, dado o seu acompanhamento psicológico, confiava de que tudo não passava de uma fase; afinal, ela estava prestes a concluir o seu curso e os dois ainda tinham muito a se decidir para o futuro, já que a família dela morava em Dublin e, de início, ela não tinha tido a intenção de ficar em Galway permanentemente.
Certo, ela também não tinha tido a intenção de arranjar um relacionamento, mas não tornava as decisões seguintes mais fáceis.
— Está. — Bella concordou com a cabeça e sorriu antes de dar um beijo carinhoso nos lábios dele. Edward ficou aliviado ao perceber que ela não estava realmente triste e usou a mão livre (a que não segurava firme a guia de Pingo) para trazê-la mais perto de si.
E, então, trovoadas começaram a ressoar pelo local. Os dois se levantaram rapidamente e Edward tentou guiá-los de volta ao castelo, sem muito sucesso, quando se viram ensopados e embrenhados ainda mais na mata. No entanto, algo lhe parecia familiar e seu coração se apertou no peito quando entendeu o porquê.
Bella notou certo fascínio nos olhos dele, ao se aproximarem de uma construção ao fundo de uma clareira e não entendeu de imediato o motivo para tanta emoção. Somente quando ele explicou que a alguns metros, estava a casinha onde passara os seis primeiros anos de sua vida, ela pôde imaginar como Edward devia estar rememorando suas vivências naquele lugar.
— Ainda é da minha família, mas faz muitos anos que ninguém vem aqui — explicou ele, tocando com carinho na porta de entrada; ele buscou a chave sempre guardada consigo e a abriu, apresentando o local que outrora fora o seu lar para a mulher da sua vida.
Foi muito claro constatar a verdade nas palavras de Edward, dado o estado empoeirado e antigo da casa, mas ainda assim, era especial para ambos, saber que tinha abrigado uma família tão amorosa cujos laços jamais se desfariam, nem mesmo com a ausência de alguns de seus membros. Além do mais, seria muito mais seguro ficar ali – tanto para eles, quanto para os bichinhos – esperando a chuva passar do que se arriscarem a voltar para o castelo naquelas condições.
Clínica Veterinária de Claddagh, quinta-feira, 09 de junho de 2016 – 17:40h, 18ºC, tempo aberto.
Bella terminou de colocar os instrumentos cirúrgicos para esterilização na autoclave antes de se sentar na cadeira de sua salinha, exausta, após uma longa operação de uma gatinha que havia quebrado uma das patas. Seu estômago estava estranhamente embrulhado para alguém acostumado a lidar com sangue, entranhas e os mais diversos tipos de machucados.
Ela, então, respirou fundo e contou até vinte antes de abrir a gaveta de sua mesa e tomar coragem para fazer um teste que havia comprado no último final de semana, quando a sua menstruação se recusara a chegar pelo segundo mês seguido. Recusava-se a acreditar na possibilidade, mas não podia mais ignorar os sinais, mesmo torcendo para ser somente o estresse das provas do final do curso e o trabalho sobrecarregando-a.
Ao entrar no banheiro, Bella pensou em como era estranho fazer aquele teste no trabalho, mas seria melhor do que arriscar Edward encontrá-lo em sua casa, visto que passavam a maior parte do tempo juntos e não queria alarmá-lo desnecessariamente. Ela fechou os olhos enquanto ativava um alarme no celular para dali a cinco minutos, o tempo indicado nas instruções para o resultado aparecer, mas apenas alguns segundo foram necessários para uma segunda listrinha rosa se fazer presente e as lágrimas encharcarem o rosto dela: Bella estava grávida!
Casa alugada, 23:00, 15ºC, chuvisco.
Bella fitava a chuva da janela de seu quarto, enquanto espantava as memórias ruins, inevitáveis dado o estado em que se encontrava. Sair da clínica sem deixar Sam perceber como estava alterada havia sido difícil, pois quanto mais tempo trabalhavam juntos, mais reconheciam as emoções um do outro. Naquele caso em específico, ela não queria que nem ele, nem ninguém soubesse o acontecido até decidir os seus próximos passos.
Ela teria um bebê! Ela o teria? Uma criança não estava nos planos dela, ou de Edward pelos anos seguintes, eles mal tinham tocado no assunto desde que Bella lhe revelara sobre o que Riley lhe tinha feito! Riley, aquele desgraçado! Bella já teria tido um bebê se ele não o tivesse matado!
A criança teria cerca de cinco anos de idade e nunca seria exatamente fácil, para Bella, pensar em como ela poderia estar; se ela seria uma boa mãe, se conseguiria fazer a criança se sentir especial… As mesmas dúvidas perpassavam pela cabeça dela, embora estivessem tendo a chance de se concretizar pela primeira vez. Ela tinha a convicção de que, mesmo não estando pronta para enfrentar a maternidade e tendo muito mais medos do que certezas, não se perdoaria jamais se cometesse qualquer ato contra a vida em seu ventre, porque era como a enxergava: uma parte de si e outra de seu amado.
Ela se sentou na cama e pegou o celular, mas desistiu de ligar para Edward quando apesar de ter certezas sobre sua escolha, não podia dizer o mesmo sobre ele. Estaria pronto, ou disposto a ser pai? Ele trabalhava de noite, como seria lidar com um bebê ainda desregulado cujas necessidades apareciam em horas totalmente aleatórias? Seria justo pedir que ele a apoiasse em sua decisão, ou ele nem ao menos quereria participar daquilo?
Monkey Business, Galway, terça-feira, 14 de junho de 2016 – 21:30h, 14ºC, chuva.
Era um vício, um ciclo. Estaria Bella fadada aos mesmos erros, com as mesmas pessoas? Seria ela uma pessoa tão fria e má quanto Riley? Era como se sentia, ao rejeitar um homem tão compreensível e amoroso quanto Edward pela terceira vez. Nem mesmo a terapia estava ajudando-a a se salvar de seu próprio buraco.
Depois de tantos meses felizes, como pudera se deixar ter uma recaída?
— Tia Bella, me ajuda a escolher a pintura! — Bree a chamou animada, enquanto gesticulava com as mãos. Naquela noite, Bella estava de babá da menina, ou melhor, acompanhando-a num aniversário de um colega de escola, após um pedido de Victoria e James, que estariam trabalhando no mesmo horário e os demais membros da família estavam ocupados na data.
Ela não tinha tanta certeza se Victoria teria cumprido o combinado, se esse não tivesse sido feito antes do último afastamento. Quando a ex-cunhada a enviou uma mensagem àquela manhã, perguntando se ainda poderia acompanhar Bree na festinha, chegou a duvidar se ela estaria brincando, mas não poderia renegar ao compromisso – muito menos decepcionar a menininha.
— Já vou! — Bella levantou-se da cadeira e dirigiu-se à Bree, que estava escolhendo a pintura facial para uma das maquiadoras infantis fazer em seu rosto.
Ela ainda não havia mencionado o nome do tio, mas foi só avistar um desenho de um trevo de quatro folhas para conectá-lo à banda a qual ele integrava:
— O tio gosta bastante desse, acho que vou escolher o trevo pra deixar ele felizinho — disse a garotinha.
Bella não precisava perguntá-la o motivo, era desnecessário, mas sentiu-se triste por estar cometendo os mesmos erros. Sentou-se numa das cadeiras próximas à maquiadora e apoiou a cabeça em ambas as mãos ao tentar engolir o choro. Era justo que sofresse, depois de magoar o homem mais especial de sua vida!
— Tia Bella, não chora, o bebê vai ficar triste também.
Os olhos dela se arregalaram às palavras de Bree. Quando ergueu o rosto para fitá-la, notou que ela tinha plena convicção do que tinha dito, como se soubesse… Ela sabia! Como?
— O que você disse?
— O bebê na sua barriga. — Bree apontou para o ventre de Bella sem pestanejar — A mamãe falou que quando uma mulher tá grávida, o bebê sente tudo o que a mãe dele sente; aí, não é bom ficar triste, porque ele também fica.
— A sua mãe? — Bella estava embasbacada. Será que todos sabiam, ou estavam desconfiados? Ou Bree relatava uma conversa aleatória que havia tido com Victoria?
— Sim, ela me contou uma vez, quando eu queria saber como os bebês iam parar na barriga das mulheres — a menina esclareceu e sorriu. Em seguida, ela levou as duas mãos para o ventre de Bella e fez um carinho.
— Como você soube? — Bella já tinha ouvido sobre a sensibilidade de crianças, mas nunca presenciara tamanha demonstração.
— Ela falou comigo, bem aqui. — Quando Bree apontou para o próprio coração, Bella desatou a chorar, sem mais conseguir se conter e abraçou-a apertado — Eu acho que o tio ia ficar feliz se soubesse disso também, mais feliz do que se eu pedir pra moça desenhar o trevo no meu braço.
Aquela era uma criança sábia, embora Bella não tivesse tanta certeza assim, da reação de Edward sobre terem um bebê, menos ainda se ele queria vê-la, depois de tudo. Apenas alguns dias enclausurada poderiam ter sido o suficiente para colocar tudo a perder, mesmo sabendo que fora um tempo necessário para assentar tudo em sua mente. O único problema era como o fazia.
Podia tê-lo avisado, conversado sobre precisar ficar um tempo sozinha, ele com certeza teria entendido, muito mais do que colocá-lo novamente naquela situação, totalmente às escuras. Esse era o erro. Esse, e as falhas de comunicação, pois quando retomavam o relacionamento, não voltavam a tocar em assuntos dolorosos, aqueles que tinham feito Bella se afastar das outras vezes e, então, um gatilho reaparecia para assombrá-la e ela caía em velhos (maus) hábitos.
— Você ficaria muito chateada se a gente fosse embora logo? — Bella perguntou-a. Ela tinha feito a cagada, então, não seria justo impor à Bree que deixassem logo a festa porque queria ir atrás de Edward.
— Só vou fazer a pintura primeiro, tá bom?
Bella concordou e, ao observar a maquiadora dando pinceladas na pele do bracinho de Bree, teve uma ideia para ajudá-la a mostrar a Edward que o seu pedido de perdão seria definitivo, ela se comprometeria com ainda mais afinco a não cometer os mesmos erros e, se necessário fosse se afastar, conversaria com ele antes, não o faria mais de supetão.
O’Connor’s Famous Pub, 22:30h, tempo aberto.
Aquele não era o ambiente mais apropriado para uma criança, mas era o único lugar onde Bella poderia encontrar a Edward; já tinha feito nas outras duas ocasiões nas quais arriscara perder o amor dele. Esperava, realmente, que ele estivesse disposto a dá-la mais uma chance, a última delas.
Assim que cruzaram a porta, todas as cordas do violino de Edward se romperam de uma vez e a banda seguiu a apresentação, enquanto ele, xingando mentalmente, se dirigiu à uma das mesas para poder trocá-las. De vez em quando, era tolerável que uma ou outra corda se quebrasse, mas todas juntas? Era como se o próprio instrumento dele o estivesse abandonando, como se tentasse imitar a mulher que tanto amara!
Ele balançou a cabeça algumas vezes quando pensou ter tido um vislumbre dela, junto a Bree, à porta de entrada do pub; devia estar ficando meio louco, pois tinha passado os últimos dias vendo o rosto dela pela cidade, como se o seu desespero fosse capaz de fazê-la brotar em sua frente a qualquer instante. Quando ela voltara a ignorá-lo, depois de tantos meses sem um problema aparente, Edward sentia que aquele devia ser o fim definitivo.
Não conseguia pensar em uma explicação coerente para mais indiferenças por parte de Bella; não se recordava de um possível deslize da parte dele, nem de uma mudança em suas atitudes. Realmente, Bella devia ter se cansado do relacionamento, ou, então, desistido de tentar permanecer nele – embora não demonstrasse mais as mesmas dificuldades do início.
— Tio Edward! — sua sobrinha correu em sua direção e o abraçou antes de mostrá-lo a figura de um trevo de quatro folhas no braço esquerdo, todo colorido e cheio de brilho — Agora tenho o meu trevinho também! — Bree sorriu-lhe largo e em seguida gesticulou para Bella se aproximar deles — A tia Bella quer falar com você.
Então ela estava mesmo ali, não era só uma miragem!
— Essa aqui é a Bree, ela vai cantar uma música especial para vocês! — Victoria improvisou e chamou a filha para longe da conversa dos adultos. Ela não parecia brava por Bella tê-la levado ao bar, muito porque adoraria que o casal se acertasse de vez.
A menina aceitou, sem delongas, o pedido da mãe e pegou o microfone do suporte antes de começar a cantar Rattlin’ Bog com uma afinação impecável.
— Eu não sei se temos algo para conversar — Edward foi direto ao ponto, quando Bella permaneceu em silêncio. Ele estava machucado pra caramba e mal conseguia manter o contato visual com ela, por isso, fingia concentrar-se na troca de cordas do violino.
Bella não queria vê-lo agindo daquela maneira, mas sabia que era uma forma de Edward se proteger, afinal, era ela a maior inconstância de todo o seu relacionamento. Precisava reconquistar a confiança dele e mudar o seu próprio comportamento.
— Sei que errei de novo. Só vim aqui te pedir desculpas, você não merecia ter sido tratado dessa forma mais uma vez — Bella murmurou, aproximando-se um pouco mais dele — Eu precisava de um tempo sozinha e deveria ter te avisado, e não sumido, como sempre, quando alguma questão surge.
— O que foi dessa vez? — Ele perguntou com uma carranca, mesmo tentando conter uma atitude mais grosseira, pois sabia, em seu íntimo, que Bella não o machucava de propósito; eram os próprios medos dela que, engatilhados, a faziam se afastar dele. Entretanto, ele não sabia se aguentaria viver com tantas incertezas, com tantas indiferenças em relação aos próprios sentimentos, como tinha pensado antes; era mais difícil de lidar, quando tinha passado por tantas vezes pela mesma coisa.
— Se você ainda sentir algo por mim, prometo: essa é a última vez que me verá te pedindo perdão pelos mesmos erros — disse ela, sabendo que mencionar a gravidez seria injusto; Edward poderia não querer o bebê, mas, sem dúvidas, quereria o relacionamento de volta pela família. Ambos sabiam, por circunstâncias completamente distintas, como era viver sem a presença dos pais e, ele jamais permitira um filho passar pelo mesmo, se pudesse evitar.
Aos poucos, a ficha de Bella ia caindo, de como tinha sido insensata ao sequer cogitar que Edward não a apoiaria naquele momento. Se ela não tivesse se afastado, os dois poderiam estar focando nos exames de pré-natal e pensando em como nomear o seu bebê, porém, Bella precisava encarar a realidade incerta devido às antigas e reincidentes escolhas.
— A última vez? — Edward suspirou; Bella parecia estar sendo sincera, assim como das outras vezes. Ele poderia aceitar o perdão, mas significava, necessariamente, retomar o relacionamento? Será que Bella realmente estava pronta? Será que ele estava disposto a correr novos riscos de se machucar mais? Como poderia garantir a quebra de ciclos e não mais a de seu coração?
— Eu juro, entendo, sempre fui eu, Edward, e peço desculpas se, em qualquer momento dei a entender que você poderia ter me gerado algum sofrimento — Bella afirmou com veemência — Tudo estava na minha mente, criei situações nas quais me enclausurei para proteger a mim mesma, porque a ideia de te perder, de te ver sendo parte dessas situações era muito mais dolorosa do que a própria ideia de partir, mesmo não querendo te fazer sentir da maneira como eu me sentia quando era abandonada. É a última vez, não vou mais te machucar.
Edward suspirou mais uma vez; ao olhar profundamente para as orbes castanhas da mulher que ainda amava, ele soube que ela estava sendo sincera. Bella sempre era, mesmo quando suas incertezas eram grandes, ela deixara claro que não seria fácil, por achar não estar pronta. Se ela tinha voltado pela terceira vez e fazia aquela promessa, era porque acreditava realmente ser a última vez, o último pedido de perdão necessário para seguirem em frente.
— A última vez — Edward concordou, sentindo um peso sair de seu coração ao abraçá-la. Podia estar sendo totalmente masoquista em aceitá-la de volta, mas ela era a única mulher que amara na vida e não queria desistir dela. Se ela conseguisse cumprir com a palavra, seria a última vez que precisaria dá-la o perdão e a ideia alimentava a fé dele, de que tudo daria certo a partir dali.
— Tenho algo para te mostrar. — Bella tirou a jaqueta e mostrou o braço com a antiga tatuagem em gaélico. Abaixo dessa, o desenho de uma Abélia Edward Goucher em seu tom rosa-lilás e muito brilho. Ela obviamente detestaria perder Emmett, não suportaria, mas o sentido atribuído à frase era totalmente diferente para os dois homens.
Edward sorriu ao reconhecer a flor. Pertinho da frase tatuada: Você é a única coisa que me magoaria perder, ele teve a certeza das intenções dela, algo que superava ainda mais as suas expectativas. Seus olhos se arregalaram ainda mais quando Bella tirou um pequeno e simbólico anel de plástico do bolso de suas calças jeans.
— Eles estavam dando como lembrancinha na festa… Você quer namorar comigo de novo? — Ela perguntou, oferecendo-lhe um anel Claddagh, cujos símbolos pareciam ainda mais significativos diante de tudo o que os dois tinham passado. Nem em seus mais estranhos sonhos, Edward poderia imaginar que ganharia o anel de Bella.
Quando pensara num momento semelhante, era ele quem dava um a ela, mais precisamente o anel de sua mãe biológica, cuja pedrinha de esmeralda deixava um toque especial na peça dourada. Esperava não faltar a oportunidade perfeita para retribuir o pedido de Bella.
— Eu quero. — Ele sorriu e deixou que Bella colocasse-o no dedo anelar da sua mão direita (que mal passara da unha, devido à circunferência específica para crianças), com a coroa voltada para fora.
— Tioooo! Tiaaaa! Venham aqui! — Bree chamou-os pelo microfone — A mamãe falou pra vocês cantarem essa!
Quando os dois se aproximaram mais da banda, Rosalie foi a primeira a iniciar os acordes de Start of Something New no piano. Eles sorriram um para o outro, enquanto se embalavam pela canção; Bella se emocionou ao se aconchegar contra Edward, soltando a voz embargada e agradecendo-o com o olhar. Ela faria o impossível para jamais machucá-lo de novo, cumpriria a sua promessa e lembraria-se de que sempre poderia começar – ou recomeçar – algo novo, como a canção dizia.
23:10h, 13ºC
— Uma rodada de Guinness pra comemorar a volta desses dois fodi… Lindos! — Kate gritou, animada, e disfarçou o palavrão devido à presença de Bree na mesa.
Seth os serviu e Bella até tentou disfarçar, mas não demorou a ser a única – com a exceção óbvia de Bree – cuja caneca ainda estava cheia de cerveja, enquanto os demais já estavam na segunda rodada.
— O que foi, Bella, você tá de regime? Uma cervejinha não mata, não! — Kate brincou, chamando a atenção de todo o grupinho.
Bella deu uma risada. Ela não pretendia contar a todos de uma só vez, queria ter a oportunidade de conversar primeiro com Edward, então disse apenas que estava em semana de provas e não queria consumir álcool. O próprio Edward foi o único a desconfiar da resposta dela, porque mesmo sendo muito responsável, Bella já tinha bebido, noutra época, nas mesmas circunstâncias. Uma ideia maluca passou pela cabeça dele, que logo a espantou, mas ela não o deixou pelo resto da noite.
Talvez um dos motivos comuns para as mulheres recusarem o álcool – quando tinham o hábito de beber – era o fato de ter engravidado, mas Bella jamais teria escondido isso dele… A não ser que aquele tivesse sido o gatilho para ela deixá-lo! Ele olhou, perplexo, para a mulher ao seu lado, porque uma gravidez poderia sim tê-la feito agir daquele jeito! Edward se lembrou, então, das mudanças de humor e do ligeiro aumento de peso de Bella – atribuído à falta de exercícios – nas últimas semanas.
— A gente já vai, então, né? — Edward se levantou, surpreendendo a todas, principalmente Bella — Você precisa estar descansada para a prova de amanhã. — Ele deu uma piscadinha discreta e ela também se levantou para acompanhá-lo, ainda sem saber o porquê de seu rompante.
Os dois se despediram e mal chegaram à calçada, Edward não se conteve em perguntá-la, ansioso para saber se os seus achismos poderiam ser confirmados, ou se seriam totalmente refutados. Ele nunca tinha pensado em ser pai, até aquele momento em que a realidade de se tornar um parecia tão próxima. E, por mais assustador que pudesse parecer, ele estava pronto para lidar com o desfecho trazido por sua pergunta:
— Você está grávida?
EPÍLOGO: ONCE IN A LIFETIME
Lar Swan-Cullen, Galway, terça-feira, 24 de dezembro de 2019 – 20:00h, 8ºC, tempo aberto.
Quando Bella terminou de abrir a massa de biscoitos de gengibre, Lizzy e Bree começaram a usar os seus cortadores preferidos em formatos natalinos para moldá-la. Conforme iam cortando, ela colocava-os delicadamente sobre a assadeira enfarinhada e, depois de completá-lá, deixou-a no forno por cerca de 15 minutos até ficarem prontos.
Ela teve que distrair as meninas com a cobertura, pedindo-as para tingirem com os corantes enquanto esperava os biscoitos esfriarem para poderem enfeitá-los. Quando o pequeno Edward Neto começou a chorar, ela deixou Lizzy sob a supervisão da prima mais velha para acudi-lo; o bebê tinha completado quatro meses na semana anterior e Bella estava sendo a sua babá naquela noite, pois a banda estava fazendo uma apresentação de Natal especial naquela noite.
— Ele tá assim porque tomou vacina — Bree comentou com a prima — Você sabe porque a gente tem que tomar vacina?
— Pra não ficar dodói, a mamãe falou — respondeu a pequena Lizzy. Ela era uma criaturinha muito inteligente e incrivelmente talentosa para a música, uma perfeita cópia do pai, exceto pelos olhos castanhos e cabelos ondulados, ambos puxados da mãe.
— Isso mesmo, você é muito esperta! — Era ótimo ver a relação das duas; Bree jamais tinha sentido qualquer faísca de ciúmes pela priminha, muito pelo contrário: desde o momento em que soubera de sua existência, a tinha tratado com amor e carinho, e era um verdadeiro modelo para Lizzy.
Apesar da diferença de sete anos, as duas se davam muito bem e faziam diversas atividades juntas, Bree tinha nela a sua irmãzinha mais nova – ou do meio, considerando a novidade da chegada do pequeno Neto.
— Papaaaiii! — Lizzy exclamou com alegria assim que viu Edward cruzando a porta de entrada da cozinha. Ela teve a ajuda de Bree para descer do banquinho, o qual usava para conseguir alcançar a bancada e enfeitar os biscoitos, e correu na direção dele.
Edward a pegou no colo e a abraçou apertado. Aquela menininha tinha ampliado a sua percepção de vida e amor de uma forma que ele jamais poderia explicar. Ela viera para selar o relacionamento dele com Bella de maneira perfeita, não para apagar os erros e dores, mas para lembrá-los que a esperança poderia surgir dos momentos mais terríveis se eles estivessem dispostos a enfrentar os maus momentos juntos, como vinham aprendendo a fazer havia tempo.
Os dois tinham a família perfeita, não porque estavam isentos de imperfeições, mas porque trabalhavam diariamente para superá-las. A perfeição se estendia à casa, antiga morada da família de Edward e Victoria, que o casal havia conseguido reformar recentemente e, com a filha, haviam se mudado para lá pouco antes do terceiro aniversário dela.
Ao se encaminharem para a sala junto das crianças, o casal sorriu ao mesmo tempo ao ver o porta-retratos do dia do seu casamento, pouco depois de Bella contá-lo da gravidez de Lizzy. A vida tinha conseguido mostrá-los como o amor e a união eram valiosos; eles podiam, através da filha, e futuramente dos bebês crescendo no ventre dela, revisitar e ressignificar a própria existência, ao darem-na a infância mais saudável possível, regada de afetos positivos e todo o apoio do mundo – dado não apenas por eles, mas pela família estendida e amigos, todos acomodados naquele que estava sendo o primeiro Natal no lar Swan-Cullen. Todos sempre os apoiaram, nos bons e maus momentos – e nem mesmo os seus bichinhos de estimação escapavam de ajudá-los, cada um com o seu jeitinho!
Prestes a iniciar a troca de presentes no Amigo Secreto, Rosalie, olhando para a poça de água sob os seus pés e apoiando as mãos na enorme barriga, soltou um gritinho assustado:
— Emmett, o seu filho vai nascer!
Aquele Natal, sem dúvidas, estava sendo o melhor, desde o nascimento de Lizzy, com toda a leveza e emoção que a data requeria e eles esperavam poder continuar experienciando aquela magia por muitos e muitos anos!
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