O Último sorriso
8 Capítulo VIII – O próximo movimento
Notas iniciais
John acordou sentindo a cama e as cobertas mornas convidá-lo para continuar deitado, o que ele estava muito tentado a fazer quando ouviu a voz de Sherlock um pouco acima do seu ouvido.
– Eu sei que a cama está muito agradável, mas já amanheceu e temos que fazer uma visitinha para o meu irmão. Vamos, levante-se John.
– Que horas são? – John perguntou coçando os olhos enquanto sentava-se na cama percebendo que Sherlock estava de pé, trajando o sobretudo e o costumeiro cachecol azul enquanto o olhava impaciente.
– Seis e meia. – Sherlock respondeu depois de olhar rapidamente o relógio de pulso.
– Tenho plantão hoje. – o médico informou se alongando.
– Não tem, não.
– Tenho sim, Sherlock, eu não me engano com a escala de plantões.
– Esqueci de te avisar ontem, pedi para o Mycroft providenciar uma licença para você.
– Licença? Sem me consultar? Sherlock! Eu preciso trabalhar. – o loiro disse jogando as cobertas para o lado e ficando imediatamente de pé.
Sherlock o observou verificando que de fato o amigo dormiu com o roupão de banho, o que lhe pareceu muito engraçado e um tanto exagerado, depois analisou o rosto inchado pelo sono pesado e bem dormido, parando a análise nos cabelos claros despenteados somados a expressão chateada do médico, que para o detetive resultava numa imagem que fazia lembrar um filhote de cuco despencado do ninho. Ele riu e antes do amigo brigar por conta da sua reação, tentou amenizar a situação.
– Não se preocupe, John, a licença não prejudicará o seu salário, você está sob proteção do governo e precisa se manter afastado do trabalho para sua própria segurança. O incidente do vestiário masculino deixou claro que a sua rotina não poderá se normalizar até eu resolver esse caso.
– Então resolva logo, eu gosto do meu trabalho. – disse o médico dando as costas no habitual estilo militar e foi tomar banho.
Depois de tomarem café, John e Sherlock pegaram um táxi rumo ao escritório de Mycroft, local onde foram diligentemente recebidos por Anthea que os guiou até o escritório do Holmes mais velho.
Mycroft estava sentado atrás de sua imponente mesa sustentando diante do rosto um exemplar do periódico The Sum, parecendo bastante interessado em algo escrito nele.
– Você lê essas porcarias, irmão? – Sherlock perguntou se jogando no meio de um amplo sofá no meio da sala, pondo os pés na mesinha de centro.
– Só quando tratam de assuntos que me dizem respeito. Retire os pés da mesinha, por favor. – Mycroft respondeu jogando o periódico de lado.
John sentou-se ao lado do amigo observando-o fazer uma careta para o irmão mais velho.
– Bom dia, Mycroft. – John cumprimentou reprimindo um riso por conta da expressão feita por Sherlock segundos antes.
– Bom dia, John. Como se sente? Soube do seu desmaio.
– Oh, me sinto bem, obrigado.
– Não viemos aqui para um chá entre comadres, Mycroft, eu quero notícias! Notícias sobre Dylan Connor.
– Imaginei. – disse Holmes mais velho levantando-se e atirando uma pasta sobre a mesa diante de Sherlock.
– O que é isso? – John perguntou vendo Sherlock pegar a pasta e passar as folhas.
– Cópia do prontuário de Dylan Connor. Na página cinco, consta o óbito ocorrido às uma e quarenta e duas da madrugada de hoje por insuficiência cardíaca. – Mycroft respondeu.
–Ele não recobrou a consciência em nenhum momento? – Sherlock perguntou jogando a pasta sobre a mesa.
– Não.
– Não sussurrou nada em meio a um delírio? Nada? – Sherlock encarou o irmão com ansiedade e irritação.
– Nada, sinto muito, Sherlock.
– Droga! – o detetive resmungou levantando e passando a andar de um lado para o outro na sala. – Agora não temos mais uma ponte para chegar até a Mensageira! – a frustração era palpável nos movimentos do homem.
Mycroft ficou observando o vai e vem do irmão e um sorriso foi se formando em seus lábios finos, como se uma decisão se estabelecesse em sua mente.
– O que resta agora é esperar o próximo movimento no tabuleiro, Sherlock. – Mycroft comentou caminhando em direção ao pequeno bar no canto direito da sala para servir-se de uísque.
– O que quer dizer? – Sherlock parou e o fitou com interesse.
– O próximo movimento no tabuleiro é muito óbvio, meu irmão. Dr. John Watson é o cavaleiro que está guarnecendo o rei, ele será eliminado e a Mensageira se aproximará de você para o xeque e mate. Esse jogo tem suas regras bastante claras, não se pode derrubar o rei sem antes quebrar o cavaleiro que bloqueia a casa à sua frente, ela não se aproximará de você antes de matar seu amigo. – concluiu bebericando o uísque que acabara de servir em seu copo.
– Jamais permitirei isso! – Sherlock parecia enfurecido com a ideia. – Eu não serei um oponente passivo nesse jogo!
Sherlock virou-se e saiu batendo a porta atrás de si. John que ainda estava sentado no sofá meio atarantado com a reação do amigo, levantou-se, fez um gesto gentil de despedida para Mycroft e seguiu o detetive.
Mycroft rodeou sua mesa e sentou-se confortavelmente em sua poltrona sob o olhar de sua secretária que acabara de entrar prevendo alguma ordem por parte do seu chefe.
– Anthea, prepare a toxina, a hora do Dr. Watson, chegou.
– Como quiser, Sr. Holmes.
A secretária ausentou-se deixando o Holmes mais velho encarando a foto do ex-militar numa página de fichário recém-aberto sobre a mesa, o homem analisava a fotografia sustentando um indecifrável olhar frio e um sorriso de canto.
– O cavaleiro deve cair agora, querido irmão. – Mycroft sussurrou para si jogando o jornal The Sum sobre a foto do médico.
A manhã avançou para uma tarde fria que deslizava para uma noite gélida. No final da tarde daquele mesmo dia, John foi ao supermercado depois de reclamar com Sherlock sobre o fato do amigo nunca se dispor a ir no lugar dele ou pelo menos ir junto com ele para ajudar a carregar as sacolas de compras.
Depois que chegaram da visita a Mycroft, o detetive havia se atirado no sofá e resmungado recorrentemente estar ficando entediado com a falta de novidades sobre o caso da Mensageira e simplesmente não deu atenção a nenhuma das reclamações do médico sobre a geladeira quase vazia.
– Ele é um grande folgado, isso sim! – John resmungou segurando várias sacolas carregadas de mantimentos.
O céu escurecia rapidamente naquele final de tarde, recebendo as primeiras estrelas esparsas, as lâmpadas na rua já estavam sendo acesas apesar de ainda haver uma meia luz mortiça do por do sol que finalizava no horizonte refletindo-se em algumas nuvens que prometiam chuva ou neve para mais tarde.
O médico atravessou a rua quase deserta e aprumou os pés na calçada do sobrado onde morava. Imaginou o trabalho que teria para pegar a chave no bolso já que estava com ambas as mãos ocupadas, certamente teria que largar as sacolas que estavam seguras pela mão direita e fazer malabarismo para colocá-las novamente entre os dedos já doloridos pelo peso da carga. Mas antes que ele se movesse para executar os movimentos planejados, um corpo esbarrou nele derrubando os pacotes.
– Ei! Olha por onde anda! – reclamou se agachando para catar o que havia caído.
– Oh! Desculpe-me! – uma voz feminina pediu se aproximando de John que levantou a vista a tempo de encarar um sorridente rosto feminino já conhecido.
Ato contínuo, sentiu uma rápida picada em seu braço direito, seguida de queimação extrema que correu célere na sua corrente sanguínea provocando-lhe arritmia cardíaca e turvamento da visão de forma quase imediata. Ele entendeu imediatamente o que estava acontecendo. Envenenamento.
– Era...você... esse tempo todo? – John caiu de joelhos estarrecido e já quase sem ar.
Ele não podia morrer naquele momento, tinha que alertar Sherlock sobre a identidade da Mensageira. Tentou se erguer, mas o máximo que conseguiu foi cair de costas na calçada. Seu corpo começou a pesar com o alastramento da paralisia motora, seu peito foi parando os movimentos de sobe e desce desesperados por ar, sua pressão arterial despencou, um intenso formigamento tomou conta da sua face e por fim seus olhos vidrados encararam o céu que virou tela de fundo para seu último pensamento: a imagem de Sherlock tocando violino perto da lareira, misturada com a sensação de desespero por não ter podido dizer nada do que realmente sentia pelo detetive.
Os doces olhos do médico perderam o brilho. Em seu peito, sorria nostálgico para a noite fria, um grande crisântemo branco. John Hamish Watson estava morto.
Rapidamente algumas pessoas começaram a se aproximar, a princípio imaginando que se tratava de alguém que passara mal, no entanto, não demorou para alguém tomar-lhe o pulso e gritar por ambulância e solicitar a chamada da polícia.
A Sra. Hudson foi atraída pelo burburinho de pessoas na sua calçada e saiu para saber do que se tratava. Depois de três passos dados no sentido do aglomerado de pessoas em torno de alguém deitado no chão frio, a mulher deu um grito horrorizado e correu para trás. Subiu as escadas rumo ao apartamento de Sherlock, como se tivesse a vitalidade dos seus tempos como dançarina de cabaré.
– Sherlock! – gritou a senhora batendo na porta com força. – Sherlock!
– O que foi, Sra. Hudson? Estamos sofrendo um ataque nuclear? – inquiriu o detetive com péssimo humor.
– Muito pior que isso, Sherlock! O John... – ela não conseguiu falar, pois estava em lágrimas e isso comprimia sua garganta de maneira a dificultar o ato de verbalizar.
– Onde? – o detetive ficou pálido.
– Ca-calçada... – respondeu a mulher entre lágrimas.
Sherlock desceu o mais rápido que conseguiu, quase caiu pelos degraus, sua presença sacou pela porta esbarrando com o aglomerado de pessoas em torno de um corpo perto do qual se podia ver várias sacolas caídas.
– John! – Sherlock correu para o circulo de pessoas afastando-as com violência, recebendo protestos e xingamentos. – John! John! – o moreno jogou-se de joelhos perto do corpo. – John, aguente firme, irão tratá-lo, irão salvar você, John! – falava aflito procurando sinal de vida no pulso do médico.
Depois de alguns segundos firmando tremulamente o pulso do loiro, seus dedos relaxaram e a mão do médico caiu no calçamento. Sherlock encarou estarrecido o olhar vidrado que John mantinha para o céu, ciente que ele não mais podia contemplá-lo. Um profundo estado catatônico se apossou do moreno que se largou sentado perto do corpo do amigo, sem conseguir reagir. Seu rosto pálido estava desfigurado em sofrimento e seus olhos perdidos sustentavam uma profunda cortina líquida que não demorou a escorrer quente pelas maçãs do seu rosto petrificado em agonia e desamparo.
Braços fortes o ergueram do chão arrastando-o para dentro do 221B. Muito tempo depois, Sherlock ficou sabendo que os braços que o arrastaram da rua foram os de Lestrade. Greg o levou para dentro do apartamento e o deitou no sofá pedindo para uma chorosa Sra. Hudson cuidar do amigo.
– Tenho que descer... Registrar o ocorrido e providenciar o recolhimento do corpo... – Greg sussurrou ainda não acreditando na identidade do corpo estendido na calçada do 221B. Um dos homens mais honrados, bondosos e competentes que ele conhecia, havia partido para sempre.
Lestrade desceu exigindo que as pessoas dessem mais espaço para os peritos trabalharem, enquanto Anderson rodeava o corpo com visível respeito.
– Eu falei para o Dr. Watson se afastar do maluco, se ele tivesse me ouvido... – Donovan comentou próxima à Lestrade.
– Sargento, pelo amor de Deus, agora não! – repreendeu o detetive inspetor se afastando.
A essa altura, no São Bartolomeu, Molly quase engasgou com o suco de laranja ao receber uma mensagem em seu celular informando o ocorrido com John e solicitando um cuidado especial com o corpo do médico que estava prestes a chegar ao necrotério do hospital. Ela largou o copo de suco, fechou os olhos e respirou fundo.
– Preciso ser profissional... – ela estava tremendo. – tenho que ser profissional, agora mais do que nunca! John merece o melhor. – sussurrou para si buscando forças, depois levantou-se para aguardar o corpo do amigo.
Continua...
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