O Último Shirian [hiatsu]

17 Capitulo 17 – Eu te amo


Notas iniciais
Como Kyo lidará com uma vida de vingança sendo colocada a prova?

Pena que Hiroshi não era um guerreiro e coragem não basta para tornar fantasias reais. A faca de Edward fincou-se profundamente no ombro de Hiroshi e seu gritou foi tão alto quanto as labaredas que se alastravam pelo quarto. Respirou com dificuldade, fosse pela dor ou pela fumaça que invadia o cômodo.

Reaja.

A mão foi com tudo, fincando fundo a injeção no rosto de Edward, ficando pendurada quando ele se afastou, chocado por ser atingido. Hiroshi não pensou, impulsionou o corpo tentando correr pela porta. Sangue lhe descia pelo braço, em uma linha rubra e vermelha.

Como se o destino dos irmãos estivesse eternamente interligado, o tornozelo de Hiroshi foi segurado o desequilibrando, dessa vez quando caiu a faca fincou-se mais fundo em seu ombro, fazendo sua visão ficar escura e embaçada por breves segundos que pareceram eternos.

—Eu vou te matar para você parar de me encher o saco, ai vou descer e matar aquela merda de vaso ruim que não quebra. Vou colocar os corpos de vocês em pilhas, ver arderem em chamas e contar como tragicamente os meus sobrinhos deixaram esta terra e como em luto e dor eu precisei assumir o poder. —Prometeu Edward arrancando a injeção, a pele puxou-se antes de se soltar, um filete de sangue descendo por ali.

Subindo em cima de Hiroshi, Edward pressionou o pescoço de Hiroshi, os dedos fechando-se com precisão e força. Hiroshi não pensou, suas mãos não foram até as dele em um pedido para que pare, não. Seus dedos evolveram o cabo da faca o puxando com força, o som dele saindo de sua pele e osso embrulharia o estomago, mas Hiroshi não conseguia escutar mais nada naquele instante.

Porque a faca mal saiu de si e enterrou-se fundo no braço de Edward o fazendo soltá-lo.

Hiroshi se levantou, as mãos não estancavam sua ferida e seus passos descompensados se desordenaram ao virar o corredor, caindo. Logo atrás de si a figura de Edward parecia inabalada. O seu machucado era um incomodo não planejado, assim como a fuga daqueles pirralhos anos atrás. Estava cometendo o erro novamente sem aprender com suas experiências, subestimando novamente Hiroshi e Dilan.

A sua expressão não se alterou quando puxou a faca de dentro de si, as mãos envolvendo o cabelo de Hiroshi o puxando para cima, erguendo-o de forma que um grito rouco saiu dos lábios de Hiroshi.

A faca de Edward seguiu até o pescoço de Hiroshi, pressionando.

Hiroshi não poderia morrer agora, precisava viver, viver com Kyo, buscar ajuda para Dilan, ter mais um misero dia de felicidade agora que tinha a certeza da obscuridade.

A sua visão estava escurecida e ao mesmo tempo tudo parecia cada vez mais tão claro, tão tão tão claro, e azul, azul do mesmo tom dos olhos de Kyo. Sorriu, era bom lembrar dele naquele instante. Torcia para ele salvar Dilan. Parecia até uma miragem a imagem dele, parado no final do corredor, suas vestes vermelhas, como o cabelo de Hiroshi.

Com um brilho intenso em volta de si. Espera, um brilho em volta de si?

—Kyo? – Chamou Hiroshi

Os olhos do Shirian estavam opacos, a voz fraca de Hiroshi foi como um fio de consciência que havia se perdido na mente dele, seus passos eram estranhos, as mãos dele pingavam sangue, um sangue que não era dele.

Edward congelou olhando-o sem acreditar. A faca pressionada em Hiroshi fraquejou sem saber se afundava-se no pescoço do menor ou se era direcionada para o ser que se aproximava cada vez mais. Ele era um Shirian? Como isso era possível? Um vivo, anos depois, ali na mesma mansão que eles?

—Kyo! – Gritou Hiroshi novamente tentando se afastar de Edward. Interligando os pontos rapidamente Edward puxou mais os fios do cabelo de Hiroshi. O grito do ruivo parecia comandar o Shirian, que aproximou-se com um olhar ameaçador. Como um aviso Edward moveu a faca, o reflexo dela refletindo a luz das chamas que se alastravam e o sangue que pingava. O movimento fazendo o Shirian parar, como se temesse que em um movimento errado Edward machucasse o servo.

—Não se aproxime. Vocês todos deveriam ter sido mortos anos atrás quando demos a ordem.

As palavras de Edward entraram corroendo os pensamentos de Kyo, o fazendo parar de andar. Ao redor dele a temperatura se gelou, em uma completa oposição com o quarto que se incendiara, o calor que irradiava pelo corredor diminuindo a medida que um frio gélido percorreu a espinha de Edward e Hiroshi.

As palavras pareciam distantes e desconexas até se interligarem. As íris de Kyo estavam finas, o seu olfato não se abalou com a fumaça, ele sentia tudo, o cheiro de sangue das feridas de Hiroshi, de Edward, de Dilan do lado de fora, o sangue de Youru que cobria seu corpo da batalha que ocorrera minutos atrás, quando seu amigo fora tolo de se colocar no seu caminho, sentia o zumbido do trepidar do fogo que havia alcançado um tapete e se espalhava pelo chão e sentia acima de tudo o ódio subindo por sua garganta, secando-lhe a boca e cegando sua vista.

Se era para ser um jogo de gato e rato, onde Edward brincava com Kyo enquanto se afastava, não daria certo. Shirians podiam exigir a verdade, podiam muito mais do que aquele humano pensava.

—Repita.

Edward sorriu prepotente, mas antes que conseguisse impedir sua boca se abriu, além de seu controle, obedecendo a ordem enquanto uma luz azul intensa rodeava seu corpo, cada molécula de ar reluzindo como se uma fumaça fluorescente o cercasse.

—Vocês todos deveriam ter sido mortos anos atrás quando demos a ordem.

A luz não se apagou em uma confirmação da verdade daquelas palavras e Kyo não sabia o que o mantinha são para perguntar.

—Sua família deu a ordem para o massacre?

Era um tom frio que Hiroshi não conhecia, a verdade que Kyo ouvia era a mesma que fraquejava as suas pernas. Anos depois de ninguém falando sobre a temida batalha para em um segundo Hiroshi sentir um enjoo lhe abater com a proximidade de seu sangue com o corrido.

Kyo não deveria perguntar, se arrependeria disso, e ainda assim o fez.

—Quem deu a ordem?

Edward tentou fechar os lábios que não obedeceram

—Princesa Rose.

Kyo já ouvira esse nome, em uma das mil conversas com Hiroshi, e da mesma forma que tudo ficou negro em sua visão, também ficou na de Hiroshi, ambos compartilhando um terror pela verdade dita.

Não houve batalha ou um conflito que exigisse muito esforço, Kyo treinara cada segundo o seu poder para aquele instante.

—Morra.

Não era um grito solto em um desejo pela morte de Edward, era uma ordem. A mão de Edward largou Hiroshi que caiu sem forças no chão, a faca em sua mão girou até ficar em direção ao próprio coração, um terror doentio passava pela primeira vez nos olhos de Edward, um medo verdadeiro que nunca havia sentido que foi aumentando a medida que sentia o corpo obedecendo.

A faca fincou-se com tudo, o corpo recuando alguns passos, lutando por um controle que não veio enquanto seus passos o levavam até o alto da escada do segundo andar, e como se não bastasse a dor que se alastrava em seu peito, o som do seu corpo chocando-se nos degraus enquanto caia soou mais alto que o alastrar do fogo que tomava a mansão.

Deveriam sair dali, fugir daquele lugar para algum ambiente seguro, mas nem Kyo nem Hiroshi se moveram.

—Dilan precisa de ajuda. –Sussurrou Hiroshi, a frase perdida ali onde a mente se recusava a falar o assunto que rondava eles, a verdade que estava mudando toda a jornada que eles tinham tido.

Kyo em sua mente descordava de sua fala. Não, ele não precisava, Dilan precisava morrer, assim como Edward, assim como todos que carregavam o sangue dos que decidiam aquela ordem. Instintos moviam Kyo mais do que pensamentos lógicos. Foram anos desejando uma vingança, anos sonhando e vivendo por isso.

Anos não seriam jogados fora por meses de uma paixão.

Era isso que se passava na mente de Kyo quando segurou Hiroshi, sua mão subiu até o rosto do ruivo, em uma caricia breve antes de descer, tremendo, em uma mistura de receio e adrenalina, de raiva e pavor. Os olhos encararam o pescoço de Hiroshi, onde marcas leves causadas por Edward foram cobertas por seus longos dedos.

As unhas dele, longas e afiadas se fincaram na pele fina do pescoço de Hiroshi, sua mão envolveu o pescoço de Hiroshi, sem apertar a princípio, uma voz dentro de da mente de Kyo lhe pediu para parar, era um tom estranho que lhe lembrava Youru, e assim como ignorou o amigo ignorou ela.

Matar Edward não trouxe a Kyo a paz que queria, o cheiro de sangue do lado de fora da casa e os gemidos de dor de Dilan não aliviaram seu ódio, ele queria que Edward sofresse, que Dilan sofresse, e por um segundo, percebendo a conexão de todos ali, que Hiroshi sofresse.

Os olhos de Hiroshi olharam por detrás de Kyo e pela janela avistaram a longe Furt, seu cavalo vindo em direção a casa, sobre ele a figura de Alexander era inconfundível. Ele salvaria Dilan, sabia disso, precisava acreditar nisso, que o que tinha feito havia bastado, que dessa vez foi o salvador ao invés da mera vitima refém.

Seus olhos encontraram os de Kyo, ele não lhe olhava de forma amistosa, o choque das palavras de Edward ainda fazia efeito em ambos. Hiroshi sentiu a mão dele fechando-se em seu pescoço, e automaticamente lagrimas lhe subiram aos olhos.

Kyo não lhe salvaria. Porque iria afinal? Ele estava ali pagando novamente pelos infortúnios de terceiros, fora ingênuo achar que tudo daria magicamente certo pelo simples fato de ter se apaixonado por um ser magico. Até a magia tinha limite.

Usado e descartado, era essa a sensação que Hiroshi sentia em cada dia e se fazia presente ali naquele instante. Desta vez quando a frase soou por sua mente e a dor que tomava seu corpo se fez maior por sua garganta decidiu de forma trágica não resistir. Hiroshi não tentou afastar o Shirian, acalmá-lo, implorar por algo.

Tudo que Hiroshi sentia que tinha era Kyo, de forma verdadeira e sincera, não a maneira distorcida que era sua relação familiar ou a submissa que era seu trabalho forçado. E agora não tinha ele, não mais, diante daquele olhar frio Hiroshi via perdendo-o a cada segundo que passava.

Usado e descartado, repetiu para si, dessa vez sem acreditar naquelas palavras. Sabia que o que havia sentido com Kyo foi sincero, que cada momento que o salvou, que conversaram, que se arriscaram em se abrir um pro outro. Os olhos de Kyo se estreitaram, Hiroshi não queria isso, podia aceitar que não ficariam juntos, que serviria eternamente Dilan distante daquele lugar, mas aquele ódio? O machucava mais do que a possibilidade de morrer que se aproximava a cada segundo. Não me odeie, por favor, pensava Hiroshi. Faça o que tiver que fazer, mas não me odeie. Ele se agarrava a cada segundo a essa ideia distorcida e esperançosa, como se sua paz dependesse disso, não mais ao plano de estar vivendo com Kyo e sim de estar com ele, seja como for.

Hiroshi reuniu todas suas forças, do lado de fora o relincho de Furt acusava da chegada de ajuda, mas isso não importava mais. Com os braços caídos, a cabeça encostada na parede e os olhos aos poucos se fechando, Hiroshi se entregou com um sorriso triste no rosto, e em um fraco esforço, aceitando o que viesse em seu destino, confessou.

—Eu te amo.

Notas finais
Capítulos curtos, porque assim cumpro a promessa.