O Último Sayajin
6 Urgência
Jenna afastou a cortina com cuidado, observando o jardim lá fora. Em um banco de pedra, sentado de costas para ela, estava Trunks. Ainda usava as mesmas roupas rasgadas do treino e o cabelo caía solto pela nuca e ombros. Jenna suspirou, escondendo-se mais atrás da cortina.
— Não precisa se esconder. – Bulma disse atrás dela, fazendo-a saltar de susto. — Ele sabe que você está aí.
Jenna corou, envergonhada por ter sido pega espiando.
— Ele sabe? Digo, ele pode me ouvir? – ela perguntou, um pouco sem graça.
— Os saiajins não tem a audição assim tão apurada, mas podem sentir nossa presença através do nosso ki.
— Desculpe. Eu não queria bisbilhotar. É que ele está assim há duas horas. Nem mesmo se mexeu. Achei que talvez algo estivesse errado.
— Ele está pensando. — Bulma explicou. – É um hábito que herdou do pai, eu suponho. Vegeta fazia muito isso. Ficar assim, imóvel, pensando.
— Acha que ele está bem?
— Fisicamente sim, eu não tenho dúvidas. Mas não sei como ele deve estar por dentro agora.
— Deve ser difícil... – Jenna solidarizou-se.
— Para ele, muito mais difícil. Ele é o último da sua espécie. Não há mais ninguém para explicar a ele o que está acontecendo com seu corpo e por quê. Gohan talvez soubesse algo, mas ele foi morto pelos andróides. Tudo o que podemos fazer é estudá-lo e esperar pelo melhor.
Jenna assentiu, um pouco descontente.
—_____
Exatos quinze minutos depois, Jenna caminhava pelo jardim, na direção do banco de pedra. Sentou-se ao lado do saiajin, sem dizer nenhuma palavra e lançou uma olhadela em Trunks. Ele estava levemente inclinado, com os cotovelos apoiados nos joelhos e um olhar um pouco distante. Não pareceu ter notado que ela estava ali.
— Como você está? – ela disparou, do nada, imitando a posição dele.
Trunks inclinou a cabeça, olhando para ela. Pensou um pouco antes de responder.
— Me sinto bem fisicamente. Meus batimentos já não estão tão acelerados, não tenho palpitação e nem...
— Não. – ela o interrompeu. Não assim. Quero saber como está se sentindo. – ela fez uma pausa, tocando-o no peito, do lado esquerdo. – Bem aqui.
Trunks piscou.
— Isso é para fins científicos?
— Te respondo se me responder primeiro.
Trunks suspirou, deixando escapar uma risada sem humor.
— Eu não sei, Jenna. Só queria saber mais sobre tudo isso. Tenho medo de perder o controle do meu poder. Se ao menos Gohan... – ele parou de falar, subitamente, desviando o olhar.
— Eu compreendo. Nessa época, você é o último guerreiro saiajin restante. Mas se usar a máquina do tempo e voltar ao passado, talvez possa encontrar respostas.
Trunks pensou por alguns segundos, assentindo para si mesmo.
— Você tem razão. Talvez... Talvez meu pai saiba algo a respeito dessa nova transformação.
Jenna sorriu. Tudo o que precisamos fazer é carregar a máquina do tempo.
— Isso leva meses. Não é um processo rápido.
Jenna deu ombros.
— Eu não vou a lugar algum. Você vai? Além disso, você tem um treinamento para fazer, e eu tenho uma pesquisa, lembra?
Trunks sorriu.
— Vamos estar bastante ocupados.
—_____
Jenna digitava freneticamente em seu notebook, parando de vez em quando para acompanhar Trunks com o canto do olho, observando-o pelo painel da Câmara de Gravidade. O monitor cardíaco já tinha virado poeira com as constantes rajadas de energia e explosões. Em algum momento ele tirara a regata, e Jenna fixou o olhar em suas costas nuas, observando o suor que escorria por entre os músculos delineados. Apoiou o queixo na mão, se esquecendo até mesmo do que estivera digitando. Era tão fácil esquecer que ele não era humano...
— Jenna. – Trunks a chamou pelo microfone da Câmara de Gravidade.
Ela pulou de susto.
— Sim?
— Mais intensidade, por favor.
Jenna assentiu e apertou alguns botões no painel. Instantaneamente mais robôs apareceram e uma voz monocórdia anunciou "Intensidade nível dois ativada"
Trunks lançou algumas rajadas de energia e os robôs as ricochetearam na direção dele. Mais rápido e mais rápido e ele grunhiu com o esforço. Pouco depois sentiu uma energia fluindo por suas veias, uma nova carga de poder intenso.
Com um grito, liberou seu ki ao nível máximo e o poder o inundou, deslizando por ele e saindo em forma de densas rajadas de energia.
Revigorado, Trunks rebateu os golpes dos robôs com precisão letal. Nem precisava virar seu rosto. Sentia de onde viriam os ataques sem nem mesmo olhar. Quando terminou, dezessete robôs jaziam quebrados parcial ou totalmente.
Ele sorriu para a câmara, e Jenna sorriu de volta para o guerreiro saiajin sem sobrancelhas e cabelos compridos. Ela desviou o olhar, satisfeita. A cada treinamento, Trunks conseguia manter a transformação por mais e mais tempo.
A transformação vinha cada vez mais fácil agora. Bastava aumentar um pouco nível do treinamento e Trunks alcançava o nível três na transformação de super saiajin.
— Pausa para almoçar? – ela sugeriu, baixando a prancheta.
Ele assentiu, revertendo a transformação. Em poucos segundos, seu cabelo voltara ao normal e ele aparentava ser um humano comum de novo. Respirou fundo algumas vezes e saiu. Do lado de fora, Jenna já esperava por ele, com uma toalha grossa nas mãos.
— Aqui está. – ela entregou-lhe.
— Obrigado. – Ele apanhou a toalha das mãos dela, secando o rosto e jogando-a sobre os ombros em seguida. Surpreso, notou que ela o encarava. – O que foi?
— Nada... Só queria compartilhar com você alguns resultados da minha pesquisa. Você se incomoda de discutirmos isso durante o almoço?
— Estou curioso para saber como você está se saindo. – A princípio ele tinha dito aquilo para parecer educado, mas descobriu que era verdade. Tudo o que sabia sobre sua raça era o que tinha ouvido de outros saiajins, Gohan, em sua época, e seu pai e Goku, no passado.
No restaurante da corporação cápsula, Jenna tirou o jaleco e o pendurou na cadeira, fingindo não reparar na imensa quantidade de comida no prato do saiajin.
Ela esperou que ele se sentasse.
— Minha pesquisa apresentou resultados interessantes a nível celular. Eu não tenho nenhuma amostra de DNA de um saiajin puro, mas segundo os meus estudos, tudo me leva a crer que o DNA dos saiajins é dominante, enquanto que o humano é recessivo. Isso significa que não importa quantas gerações se passem, desde que os saiajins continuem procriando, ainda haverá saijins no nosso planeta.
Trunks mastigou a comida com calma, digerindo a informação, levemente ciente dos olhos da geneticista cravados nele. Ela tinha começado a fazer isso com frequência. Ele não sabia exatamente o que pensar daquilo, especialmente quando se lembrava do início, quando ela mal olhava para ele, tratando-o unicamente como um experimento científico.
— Eu não sei o que pensar...
Jenna sorriu.
— Você deveria começar a pensar em procriaçã... Digo... constituir uma família. Assim, não seria o último da espécie e a proteção da Terra estaria assegurada, mesmo em gerações futuras. É quase um dever passar os seus genes adiante. – Ela fez uma pausa, observando a reação dele. – Não me diga que você não quer ter filhos?
— Não é isso. – Ele desviou o olhar. Na verdade, a ideia de ter uma família nunca havia passado pela cabeça de Trunks. Crescera aprendendo a ter medo dos androides, lutando com todas as forças para superá-los e um futuro pacífico, onde ele pudesse ter uma família simplesmente não tinha lugar em sua cabeça, de modo que nunca tinha feito planos para mais de dois dias a frente. – É que eu nunca tinha pensado nisso.
— Não quero reviver a pior fase das nossas vidas, mas pense no que teria acontecido com a Terra se não tivesse restado nem um único saiajin para exterminá-los. Você é tudo o que temos agora, e não devemos esperar por outra ameaça ainda pior para pensar a respeito disso.
Ele assentiu e os dois continuaram a almoçar em um silêncio pensativo.
—__
Um banho revigorante e ele estava pronto para outro treinamento, se não fossem as palavras de Jenna rodopiando em sua mente. Não, nunca tinha pensado realmente em ter filhos. Mas agora, nesse período relativamente pacífico que estavam vivendo, a ideia de ter uma família não era mais tão distante.
Trunks vestiu-se e foi até o laboratório onde sua mãe estava trabalhando, um pouco indeciso sobre compartilhar com ela seus pensamentos. Encontrou-a conversando com os funcionários, falando em voz baixa. Seus olhos se encontraram e ela se despediu dos trabalhadores, tirando o jaleco enquanto caminhava até ele.
— Dia cheio? – Trunks perguntou.
— Você nem sabe o quanto. Você no entanto, parece ótimo. – ela comentou, olhando-o de cima a baixo – Eu não sei... Parece até... maior.
— Maior? – Trunks riu.
— Sim. Maciço. – ela sorriu, observando-o. De repente, Trunks levou as duas mãos até as têmporas, arquejando e curvando-se levemente. Os funcionários que ainda estavam presentes trocaram olhares e comentários preocupados. Todos suspeitavam que havia alguma coisa errada com o herdeiro dos Briefs, mas ninguém costumava falar disso na presença de Bulma. Ela envolveu o filho, tentando tolamente segurá-lo pelos ombros, empurrando-o para fora do laboratório e para longe dos olhares curiosos. – Trunks? O que há de errado? O que houve, filho?
— Estou sentindo um ki... Nunca senti nada assim antes. – Ele explicou entredentes.
Uma empregada passou por eles no corredor e Bulma apontou para ela.
— Você! Mande chamar Jenna! – A mulher olhou para a diminuta cientista tentando segurar aquele homem enorme sozinha e decidiu apressar o passo, procurando pela geneticista.
— É saiajin? – Bulma perguntou.
— Não é saiajin, não é humano. Eu não sei o que é essa coisa. Mas é muito, muito forte.
Bulma olhava para ele, apreensiva, quando Jenna chegou, arfando.
— Eu vim assim que pude. – ela explicou. – O que está acontecendo? – ela perguntou, checando as pupilas de Trunks, a cor da pele, a pulsação. Bulma explicou rapidamente enquanto ela fazia o breve exame. Não parecia haver nada errado com ele.
— Mãe, eu preciso... – ele balbuciou, endireitando-se.
— Eu compreendo. – Bulma assentiu, com um olhar feroz e determinado. Era para isso que vinha preparando o filho. Não podia demonstrar fraqueza, tinha que confiar que ele era forte o suficiente para proteger a si mesmo. E a Terra. – Vai, filho.
Trunks apertou a mão dela, gentilmente, voltou-se para a porta e saiu voando na escuridão. Ainda teve tempo de ouvir Jenna gritando:
— Se puder me traga algumas amostras!
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