O Último Sayajin
2 Cicatrizes
Notas iniciais
Mesmo durante a noite, o barulho das máquinas não parava. A reconstrução das cidades destruídas pelos androides se iniciara assim que Trunks os eliminara.
Não houvera comoção como Bulma achou que haveria. As pessoas saudaram seu filho nos jornais e por algum tempo ele foi manchete de algumas revistas. Mas não houve comoção. Aquela gente havia sofrido e perdido tanto nas mãos dos androides que parecia ter se esquecido de como comemorar uma vitória, como se tivessem se acostumado à rotina de recolher as sobras da destruição e tentar recomeçar, da maneira que pudessem.
Em alguns lugares, o caos era tanto que as pessoas mal conseguiam se lembrar de um período em que o céu não escurecesse com a fumaça de cidades em chamas. Não havia uma única pessoa que não tivesse perdido algo para aqueles monstros. Os que tinham mais sorte, perderam coisas materiais: uma casa, um carro, uma fazenda. Mas esses eram uma minoria escassa. A grande maioria havia perdido pessoas, e Bulma estava entre estes. Perdera tudo: seus pais, seus amigos, o homem que amava. A única coisa que ainda a mantinha de pé era seu filho.
A cientista se levantou, como tantas vezes fizera antes, vestiu o robe por cima da camisola e calçou os chinelos. Saiu do quarto andando, mas conforme avançava a velocidade de seus passos aumentava mais e antes que percebesse, estava correndo. Parou diante daquela porta, ofegante e trêmula, com aquela necessidade urgente de vê-lo, de precisar saber se ainda estava bem e respirando. A porta automática abriu e Bulma forçou a si mesma a acalmar sua respiração. Na ponta dos pés ela entrou sem fazer barulho, refazendo o trajeto de muitas noites iguais a aquela. Arquejou assustada. Os lençóis estavam revirados, o travesseiro atirado ao chão com indiferença, mas foi a cama vazia que fez seu sangue congelar e sua respiração parar. Antes que as lágrimas caíssem de seu rosto, a voz dele, vinda da sacada do quarto a tranquilizou.
– Estou aqui, mãe. – ele disse num tom de voz calmo.
A tensão escoou de Bulma como água, e ela a deixou sair com um suspiro de alívio. Fechou os olhos e inspirou fundo, duas, três vezes, até que a tremedeira passasse e ela se acalmasse por completo. Não podia deixar que ele visse sua fraqueza. Ela era tudo o que ele tinha. Devia ser forte, por ele.
Caminhou na direção da sacada, afastando as cortinas que balançavam com o vento. Ele estava debruçado no parapeito, os olhos fixando o horizonte. Ainda vestia suas roupas de dormir, shorts e uma regata pretos, com o logo da corporação capsula.
Nenhum dos dois disse nada por um momento. Ele sabia há muito tempo dessas visitas noturnas. Muito antes de Gohan morrer, Bulma visitava o seu quarto a noite para olhar para ele. Nem todas as vezes ele estava dormindo, é claro. Mas sempre mantinha seus olhos firmemente fechados. Não queria mostrar a ela que não conseguia dormir por causa das coisas que vira.
Costumavam ficar assim, naquele silêncio confortável. Trunks sabia das visitas noturnas e fingia não saber, e Bulma sabia que ele sabia, mas fingia não saber. Escondiam sua fraqueza um do outro: ela, que acordava no meio da noite, desesperada para checar se seu único filho ainda estaria respirando, dormindo em seu quarto, em segurança. Ele, forçando-se a ficar imóvel na cama e fingir que dormia, para não preocupá-la ainda mais com os pesadelos horríveis que tinha.
Bulma parou ao lado do filho, debruçando-se no parapeito junto com ele. Estava frio, ventava muito e o céu estava repleto de nuvens. Os primeiros pingos caíram, leves, mas nenhum dos dois fez menção de se mover. Por fim, Bulma quebrou o silêncio.
– Não vai me dizer o que é? – perguntou, sem olhar para ele.
– Dizer o quê? – Trunks respondeu com outra pergunta, mas sabia ao que ela se referia. Bulma sempre fora boa em ler as emoções dele.
– O que está te preocupando. Você não tem dormido direito. Achei que depois de destruir os androides, você conseguiria dormir melhor. Não te vejo ter uma boa noite de sono desde que Gohan... – ela se interrompeu antes de terminar a frase, baixando os olhos para as próprias mãos.
A perda de Gohan ainda doía muito nos dois.
Em silêncio, a mão de Trunks procurou a dela. Bulma sorriu de leve e envolveu a mão do filho com as suas. Depois, colocou-as uma de cada lado do rosto dele, se inclinou na ponta dos pés e o beijou na testa. Quando se afastou, Trunks sorria.
– Tente dormir um pouco Trunks. Você precisa descansar. – ela pediu, em um tom suave.
– Você também, mãe.
– Eu vou. Boa noite, filho. – Ela despediu-se e virou-se para ir embora, mas antes de sair da sacada olhou-o por cima do ombro. — E eu te amo.
As sobrancelhas dele subiram, transformando sua expressão em surpresa, mas ele logo se recuperou.
– Eu também te amo, mãe. Boa noite.
Trunks ficou olhando Bulma partir, em silêncio, perdido em seus próprios pensamentos. Em breve Cell apareceria. E quando isso acontecesse, seria destruído, assim como os androides, então, só então ele poderia dormir tranquilo outra vez. Mas ainda não era a hora.
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