Notas iniciais
Quando eu penso que sei exatamente o que vou escrever, a história foge do meu controle. De um jeito bom, eu espero. Para degustação temos um angst familiar de entrada, seguido por um leve banter de aperitivo e como prato principal: Swan Queen. Espero que vocês apreciem esta refeição. xx Liv

Após seu encontro com Mary Margaret, não bastasse seu cansaço, Emma se vê assombrada por um singular incômodo. O sentimento não é provocado por nada que sua mãe tenha lhe dito em especial, mas algo inferido em seu tom. Algo que Mary Margaret não se atreveu a colocar em palavras, mas que Emma foi capaz de captar mesmo assim. Assim, os resquícios de seu encontro se manifestam através uma inquietação que a Xerife não consegue ignorar, tal qual um formigamento provocado por uma posição desconfortável ou mesmo os constantes acessos de bocejos que a acometem no decorrer do dia.

A ausência de qualquer ocupação remotamente emocionante em seu trabalho chega a ser bem vinda uma vez que em seu atual estado Emma se considera menos do que capacitada para lidar com grandes perseguições ou qualquer coisa do gênero. Contudo, o tédio provocado pelo perpétuo preencher de papéis em nada a ajuda a se manter desperta. Pelo contrário; O exercício tedioso acaba produzindo um efeito quase hipnotizante junto a Xerife, a ponto de que Emma, mais de uma vez, quase caia de sua cadeira quando seu piscar de olhos acaba se convertendo em um não intencional cochilo.

Com uma desculpa esfarrapada qualquer, oferecida em meio a um bocejo e um resmungo, sua pronuncia ininteligível e insignificante aos ouvidos de um desinteressado Leroy, a Xerife dá graças quando o telefone toca no meio da tarde. Sua satisfação, entretanto, dura pouco e dá todo um novo significado ao provérbio ‘cuidado com o que você deseja’.

“Delegacia de Polícia.” A loira leva o aparelho ao ouvido prontamente, arregalando os olhos na esperança de que eles não se fechem por completo a despeito de seus esforços. “Sim, essa é a Xerife Swan.”

Suprimindo mais um inconveniente bocejo, Emma quase derrama o café do copo de plástico que tem em mãos no instante em que a voz do outro lado da linha se manifesta informando o motivo da ligação.

“Sim, no momento eu sou a responsável por Henry Mills.” A Xerife confirma prendendo o fôlego sem estar consciente disto. Com a testa franzida sinal de evidente alarme, Emma procura assimilar o que acabou de ouvir, o cansaço momentaneamente esquecido. “E-espere um minuto. Isso não pode estar certo.”

De sua mesa, no canto oposto do posto policial, Leroy não é capaz de ignorar o semblante de preocupação exibido por sua chefe. Sua expressão subitamente alerta, aguardando por qualquer informação sólida que justifique sua evidente atribulação.

“Não, não há necessidade. Eu já estou a caminho.” Com um baque seco Emma deposita o telefone sobre gancho, sua mão permanecendo esquecida sobre o aparelho nos diversos segundos em que a xerife permanece imóvel decidindo seus próximos movimentos.

“O que aconteceu? Quem era?” A voz grossa do anão arranca Emma de seu torpor.

“Era da escola do Henry.” Ela responde com uma expressão distante ao passo que suas próprias palavras lhe instigam uma súbita urgência. “Eu preciso ir.”

Sem oferecer qualquer explicação concreta Emma simplesmente veste a jaqueta vermelha e se dirige à saída em passos largos, apressados. Com um tom apreensivo, a voz de Leroy a alcança antes que ela passe pela porta. “Tá tudo bem com o pirralho?”

“Não,” Emma admite com um suspiro, mordendo o interior de sua boca, a preocupação obscurecendo seu semblante. “Eu não acho que está.”

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No instante em que chega à escola e se depara com a figura do filho sentado em um dos bancos de madeira que ficam no corredor do lado de fora da sala da diretoria, Emma se dá conta, pela primeira vez, da raiva que está sentindo.

A intensidade a pega de surpresa. Além disso, sua origem é confusa, contaminada por uma série de eventos que precederam esse momento, mas também temperada pelo acúmulo de uma porção de pequenas coisas que não possuem nenhuma relação direta com o ocorrido, ao menos não que ela possa ver.

É procurando não despejar tudo sobre o garoto, ainda que ele indiscutivelmente esteja diante de uma merecida punição, que Emma não lhe dirige uma só palavra.

Com um olhar atento ela inspeciona o filho rapidamente apenas para se certificar de que fisicamente não houve realmente nenhum dano. Henry se mostra envergonhado o suficiente para não encontrar o seu olhar, o queixo pressionado contra o peito enquanto os cabelos desobedientes apontam em todas as direções, o que Emma acaba considerando ligeiramente reconfortante. Significa que, ao contrário do que suas recentes ações indicam, os genes delinquentes herdados de seus pais biológicos ainda não se revelaram inteiramente predominantes.

A diretora da escola recebe Emma em seguida e atrás de sua mesa de mogno e seus óculos de aro grosso, a mulher a qual Emma não consegue recordar o nome – o que ela está certa que Regina seria capaz de fazer sem qualquer esforço – lhe oferece detalhes de todo o ocorrido, bem como das medidas que deverão ser aplicadas ao jovem acusado.

Sem se manifestar, Emma escuta ao relato completo atentamente e se surpreende quando a supostamente severa diretora se mostra inclinada a deixar uma mais que provável suspensão de lado pela garantia de que Henry jamais faça algo de semelhante natureza novamente. A mulher menciona a ficha exemplar do garoto, as notas em seu histórico escolar com a caligrafia de Mary Margaret recomendando seu bom comportamento, mas é com distinta clareza que Emma de repente compreende o motivo de sua inesperada benevolência.

Henry Mills é filho de Regina Mills. E por mais que Emma atualmente responda como sua responsável, a última coisa que qualquer pessoa nessa cidade deseja – incluindo a diretora da escola de seu filho – é enfrentar a ira da Rainha Má.

Mesmo que isso signifique abonar o comportamento inadequado e potencialmente perigoso do garoto.

Com renovada determinação – e também uma certa repugnância — Emma não precisa pensar duas vezes ou sequer consultar Henry a respeito. Ela vai se certificar de que nada remotamente parecido aconteça outra vez e isso é uma das poucas certezas que ela tem nesse exato momento. Uma garantia que ela oferece a diretora com total segurança.

O importante é que ninguém saiu ferido, é o consolo oferecido pela mulher quando esta acompanha Emma até a saída e ao se deparar mais uma vez com a figura cabisbaixa do filho, sentado sozinho, os cotovelos ossudos apoiados em seus joelhos e as costas arqueadas em sinal de completa derrota, Emma não pode deixar de pensar justamente o contrário.

“Vamos garoto.” Ela anuncia em uma voz seca e segue até a saída sem olhar para trás, esperando que ele siga seus passos. Emma já colocou a chave na ignição quando Henry abre a porta do passageiro e entra no carro, as pernas compridas demais exigindo um ajuste na posição do banco.

Em sua defesa o garoto não faz qualquer pergunta, ainda que a incerteza esteja evidente em suas feições e se torne ainda mais proeminente à medida que o carro de Emma toma um percurso que em nada se assemelha ao caminho de volta para casa. Não demora, no entanto, a que Henry identifique a rota escolhida. Especialmente quando, à distância, os dois pares de olhos avistam a figura disforme de um familiar castelo.

Mesmo sem olhar para Henry, Emma sente a tensão em seus músculos atenuar em reconhecimento ao ponto de encontro que ainda carrega tanto significado para mãe e filho. Porém, ao estacionar o carro, ela não faz qualquer movimento que indique a intenção de abandonar o conforto oferecido pelo aquecedor do interior da viatura.

Henry aceita sua deixa sem questionamentos, as mãos enfiadas nos bolsos apertados de sua calça e os olhos fixos no painel do carro, a espera de algo que nem mesmo ele sabe o que é.

As reprimendas sempre vieram de Regina. Por mais que nos últimos meses Henry tenha estado bastante ciente de seu comportamento menos que estelar, Emma sempre se mostrou infinitamente mais complacente do que sua mãe adotiva jamais foi – especialmente em vista dos mais recentes acontecimentos. Ainda assim, ele jamais fizera algo que realmente fosse passível de uma punição mais severa.

Essa é a primeira vez.

“Eu realmente gostaria de entender de onde vem essa inclinação em atirar objetos que você e sua mãe parecem compartilhar.” Henry não oferece qualquer resposta, sem saber o que dizer, de modo que Emma insiste. “Não que exista uma razão que justifique, mas por que você faria algo assim? Jogar a sua cadeira contra a parede no meio da aula? Você poderia ter machucado alguém, garoto.”

“Eu sei.” Ele parece enfim encontrar sua voz, após uma pausa carregada separando sua confirmação e sua confissão. “Eu queria machucar alguém.”

Desconcertada diante de sua sinceridade, Emma pergunta calmamente, embora um turbilhão de dúvidas esteja inundando seus pensamentos. “Quem?”

“Um idiota qualquer.” Henry responde com descaso, sua voz quase inaudível, embora a raiva nela contida se faça perceptível.

“Preciso dizer garoto, toda essa agressividade... não combina com você.”

“Talvez eu estivesse contando com o elemento surpresa.” Henry ousa um rápido olhar de esguelha na direção de Emma, medindo sua reação.

Emma se esforça para permanecer impassível. É algo que ela já testemunhou Regina fazer muitas vezes, e somente agora lhe ocorre a dificuldade por trás de tal gesto.

“Você tem sorte de ter herdado a mira do seu avô.” A Xerife suspira longamente, os indícios finais de sua paciência evaporando por completo. “O que teria acontecido se você tivesse mesmo acertado? Se tivesse ferido alguém? Não só o babaca que andou pisando nos seus calos, mas um colega que tivesse por perto, um completo inocente? O que você teria feito Henry?”

Algo no frêmito que abala o discurso de Emma, na forma como a cada pergunta suas palavras ganham uma conotação cada vez mais severa, parece finalmente afetar o garoto. Ele desvia os olhos de Emma mais uma vez, o rubor provocado pelo inesperado peso de seus atos espalhando-se pelo seu rosto. “Eu não sei.”

“Bem, essa é uma resposta estúpida.” Emma mal consegue conter a réplica, sua frustração vencendo seu autocontrole. É o suficiente para despertar escancaradamente a raiva que garoto vem guardando dentro de si.

“O que você quer que eu diga?” Henry responde desafiadoramente, sua afronta colidindo diretamente com temperamento inflamado de Emma.

“Não é óbvio? Eu quero que você diga que sente muito! Que você jamais machucaria alguém propositalmente. Que isso tudo não passou de um mal-entendido. Porque esse não é o garoto que eu conheço.” Ocorre que o indisfarçado desapontamento de Emma acaba servindo apenas para instigar a revolta do garoto.

“Bom, eu sinto muito sim! Sinto muito por não ter acertado aquele idiota na cabeça!”

A intensidade da explosão do filho não é algo que Emma jamais tenha testemunhado, não nessas proporções. É o suficiente para deixá-la sem palavras. “Henr--”

O garoto continua apesar do fraco protesto oferecido por sua mãe biológica, seu rosto vermelho, mas desta vez de fúria incontida. “E quer saber? Talvez você não me conheça de verdade! Talvez eu seja mesmo o filho da Rainha Má!”

Quando suas palavras escapam em alto e bom som, ecoando na ausência de reação de Emma perante o seu desabafo, o espaço confinado do carro se torna pequeno demais. Sem esperar pela resposta de sua mãe, Henry foge à sua presença, batendo a porta do carro com força ao sair.

“Hey garoto!” Emma o chama se recuperando em seguida e saindo em seu encalço. “Henry!”

“Me deixa em paz!” Ele grita de volta, sua voz abafada pelos ruídos do vento.

“Eu não posso fazer isso!” Emma grita tentando fazer com que sua voz se sobressaia a ventania, a distância entre os dois cada vez maior. “Se eu voltar pra casa sem você sua mãe me mata!”

Henry se volta na sua direção de uma só vez, os cabelos rebeldes completamente alvoroçados pelo vento, as lágrimas correndo livremente pelo seu rosto. “Você por acaso é cega? Ela mal consegue suportar a minha presença. Se você voltasse pra casa sem mim ela ficaria aliviada, isso sim!”

Não são tanto as palavras, mas a mais pura convicção existente nelas o que faz com que Emma congele onde está. Isso e o sofrimento escancarado nos olhos vermelhos de seu filho.

Quando finalmente alcança Henry, ele está sentado em seu castelo, sua respiração ofegante em virtude de sua fuga ou de suas lágrimas (Emma não sabe dizer ao certo), enquanto suas pernas balançam a poucos centímetros do chão.

Em silêncio Emma se aproxima e senta ao seu lado, seus ombros se encostando pelo mais breve dos momentos. Henry seca insistentemente as lágrimas que teimam em continuar escapando ao seu controle, o queixo erguido enquanto ele encara um ponto invisível qualquer com absoluta ferocidade.

“Você quer me contar o que foi que o tal babaca fez pra merecer levar uma cadeirada no meio da aula de biologia?” A loira pergunta buscando o mesmo ponto invisível que o filho, mas se deparando apenas com um espaço vazio.

“Não particularmente.” Henry responde fungando.

A visão de seu filho com o coração em pedaços faz com que Emma queira matar Regina. Violentamente. Mas então ela olha para o menino mais uma vez, a forma orgulhosa como ele mantém a cabeça erguida, como ele seca as lágrimas copiosamente se recusando a dar ciência de sua existência, e tudo o que ela consegue ver é Regina fazendo o mesmo. Regina se recusando a assumir sua fragilidade mesmo que isso lhe custe tudo o que ela mais ama. Regina se recusando a expor seu coração fragmentado pela simples e estúpida noção de que essa é a única forma de sobrevivência.

Tudo isso deixa Emma ainda mais furiosa, mas ao mesmo tempo, torna o alvo de sua ira um enorme borrão.

“Vou te dizer uma coisa garoto e você tem que acreditar em mim.” Emma olha para Henry esperando que ele faça o mesmo.

“O quê?” Ele pergunta suavemente, desconsolado. Seus olhos azuis pousando sobre a figura de Emma enquanto o vento assovia junto ao seu ouvido.

“Eu não sei muito de muita coisa. Mas se tem uma certeza que eu trago comigo é a de que não existe nada nem ninguém nesse mundo, ou em qualquer outro, que a sua mãe ame mais do que você.” Algo na gravidade de sua voz faz com que Henry aceite a declaração de Emma sem objeções. Com certeza e seriedade ela complementa, no que pode ser apenas um conselho embora soe também como uma ordem. “Não se atreva a duvidar disso, entendido?”

No caminho de volta para casa quase nenhuma palavra é trocada. Mas então, pouco depois de Emma estacionar e antes que ela saia do carro, Henry coloca a mão sobre a sua, seus olhos imensos e suplicantes.

“Por favor, não diga nada para ela.”

“Garoto, você está pedindo que eu minta pra sua mãe?” Emma hesita por um instante, franzindo a testa.

“Não. Quer dizer, acho que sim.” Henry responde desajeitadamente.

“E por que eu deveria fazer isso?”

“Eu não quero que ela se preocupe.” O menino admite com uma voz pequena e envergonhada. É o suficiente para desarmar as defesas de Emma e fazer com que ela considere suas opções por um momento.

“Você tem que me prometer que nunca mais vai fazer algo assim. Não importa o quão babaca seja o outro cara.” Emma dita suas condições com inabalável firmeza. “Sua mãe te criou melhor do que isso.”

“Eu sei.” Henry consente prontamente. “Eu prometo.”

“Ok, então.” É a resposta simples que Emma oferece. E pela primeira vez em muito tempo ela aprecia sua habilidade em identificar quando alguém está mentindo. Especialmente se esse alguém é seu filho.

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Quando o dia finalmente chega ao seu fim – e Emma tem a distinta sensação de que esse dia em particular durou muito mais do que deveria –, ao invés de oferecer um inarticulado ‘boa noite’ e se entregar ao conforto de sua cama, aquiescendo a uma força propulsora a qual não ousa reconhecer conscientemente, Emma desce as escadas de volta à sala, esperando encontrar Regina em seu habitual posto junto ao sofá.

De costas para Emma, sem qualquer indicação de que tenha notado sua presença, Regina murmura algum insulto pouco inteligível direcionado ao controle remoto que tem em mãos.

“O que você tá fazendo?” Emma pergunta coçando a cabeça. Ao som de sua voz, Regina recobra sua compostura, embora seu foco permaneça no aparelho de televisão que tem diante de si.

“Eu estava tentando programar uma gravação, mas apesar de estar seguindo precisamente as orientações do manual, esse aparelho simplesmente se recusa a colaborar.” A impaciência contida na voz de Regina não é sequer disfarçada. E por um breve instante Emma se contenta em observar as tentativas frustradas da ex-prefeita com algum divertimento.

O momento – assim como a paciência de Emma – não dura muito. “Regina, não dá pra você fazer isso outra hora? Nós vamos perder as finais.”

“E o que exatamente você acha que eu estou tentando gravar?” Regina lhe oferece um olhar exasperado ao qual Emma não está certa de como responder.

“Por que a gente não pode simplesmente assistir ao vivo?” Emma pergunta sem ser capaz de encobrir sua lamentável falta de perspicácia. Irritada por não conseguir fazer o aparelho eletrônico funcionar de acordo com o seu desejo, Regina lhe oferece uma resposta desnuda de qualquer artifício.

“Por que você está exausta e claramente precisa de uma boa noite de sono.” Os olhos de Regina continuam analisando com total atenção o manual que ela tem em mãos, buscando desvendar onde está o seu erro e não fosse pela total falta de resposta de Emma, ela talvez sequer notasse o estranhamento provocado por suas palavras.

Mas então, como um eco dessincronizado, ela escuta o que acabou de dizer e congela momentaneamente, sentindo o peso do silêncio que se arma entre as duas. É quando o controle remoto em suas mãos deixa de se tornar o foco para transformar-se em um refúgio.

“Eu não pude deixar de notar, durante o jantar.” Regina oferece a justificativa desajeitadamente.

“Oh.” E o máximo de resposta que Emma consegue articular. E então ela faz o que lhe é mais familiar e opta por se ater as questões práticas ao invés dos milhões de sentidos que podem ou não estar atrelados nesse pequeno gesto oferecido por Regina. “Por que você não me deixa tentar?”

Sem discutir – o que revela muito do atual estado de espírito da ex-prefeita – Regina lhe entrega o controle remoto e o manual. Emma só pega o primeiro.

“Manuais são superestimados.” A loira fala com um excesso de confiança que Regina retribui com um expressivo revirar de olhos. O que apenas se intensifica quando em questão de poucos minutos Emma consegue fazer o aparelho funcionar. “Viu?”

“Isso foi sorte de principiante.” Regina não dá o braço a torcer, embora tampouco contenha a sombra do sorriso que se esboça em seu rosto quando Emma praticamente resplandece satisfação.

“Diga o que quiser, se isso te ajudar a dormir a noite Senhora Prefeita.”

“Boa noite Miss Swan.” É o máximo que Regina concede antes de lhe dar as costas e se dirigir aos seus aposentos.

“Durma bem.”

As palavras de Emma chegam ao seu encontro enquanto ela ainda sobe as escadas e mais tarde, quando acorda pelo som de seus próprios gritos no meio da noite, o suor ensopando seu corpo enquanto as memórias de seus pesadelos ainda se encontram em uma distância quase tangível, Regina se recorda precisamente do porque de ter passado tantas noites em claro até então.

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É provavelmente devido ao seu estado de exaustão física, em conjunto as duas (talvez três) taças de vinho que tomou no jantar, que a loira não desperta com os gritos de Regina e sim com os cutucões nada gentis de seu filho de doze anos.

“Emma, acorda!” O garoto insiste obstinadamente e não demora a que ela perceba que a presença de Henry em seu quarto não faz parte de um sonho.

“Henry?” Emma esfrega os olhos, tentando assimilar o que está acontecendo. “O que você tá fazendo aqui garoto? Que horas são?”

“Você precisa vir, acho que tem alguém atacando a minha mãe!” Ele fala com urgência, sem oferecer nenhuma resposta ou explicação, apenas uma expressão de pânico estampada em suas feições.

As palavras de Henry são mais que o suficiente para que Emma desperte por completo de sua letargia e com o menino em seu encalce, se dirija ao quarto de Regina. Com a mão sobre a fechadura, é com um mau pressentimento que Emma percebe que a porta está trancada.

“Regina!” Emma chama a ex-prefeita com urgência, mas não obtém qualquer resposta. Ao seu lado, com a mão segurando firmemente a barra de sua camiseta de dormir, Henry acompanha o menor de seus gestos com evidente ansiedade. Batendo na porta, Emma insiste. “Regina, por favor, abra a porta!”

Os apelos de Emma são recebidos pelo mais absoluto silêncio.

“Por que ela não tá respondendo?” Henry pergunta em um sussurro assustado. Emma está prestes a responder com o intuito de oferecer ao filho algum conforto, quando um som indistinto chama sua atenção.

Pressionando o ouvido contra a porta de madeira, Emma tenta identificá-lo a qualquer custo. A ressonância é quase imperceptível, mas então ela escuta um soluço abafado e com uma clareza desconcertante as peças se encaixam em sua cabeça.

Quando acordou e se deparou com a presença de Henry em seu quarto no meio da noite, Emma deduziu que o garoto tivesse tido um pesadelo. Mas não é ele quem tem fantasmas de um passado sangrento povoando suas lembranças.

Regina, sim.

“Garoto,” Emma se volta na direção de Henry e se curva até que seus olhos estejam no mesmo nível dos de seu filho. “Sua mãe não está sendo atacada, ok? Foi só um pesadelo.”

“Como você pode ter certeza?” A pergunta de Henry é perfeitamente razoável, mas ainda assim Emma hesita, sem saber ao certo como explicar.

“Porque... É o que acontece quando coisas ruins acontecem com a gente.” Ela responde com base em suas próprias experiências.

“O que a gente faz então?” Emma mal contém um pequeno sorriso. O menino que tem diante de si agora, esse sim é seu filho.

Você volta pra cama. Deixa que eu cuido da sua mãe.” Emma informa com firmeza, mas o garoto não se mostra inteiramente convencido. Diante da resistência do filho, Emma faz o possível para emular alguma autoridade parental – por mais que esta ainda soe estranha em seus lábios. “Anda, você me ouviu. Já pra cama. Não esqueça que você tem escola daqui a algumas horas.”

Com um suspiro vencido, Henry recebe o cafuné desajeitado que Emma faz em seus cabelos antes de se dirigir de volta ao seu quarto.

Uma vez sozinha diante da porta do quarto de Regina, Emma força a fechadura mais uma vez, somente para se certificar de que a mesma se encontra de fato trancada. O que vem a ser o caso. Então não lhe resta alternativa senão fazer uso de uma das primeiras habilidades que desenvolveu em sua juventude transviada: arrombamento e invasão.

Não lhe custa absolutamente nada senão alguns leves movimentos com o uso de um dos utensílios de seu canivete suíço e um grampo de cabelo para desarmar a tranca. Então Emma abre a porta lentamente, procurando não causar alarme em Regina e incerta do que irá encontrar.

Imersa na penumbra de seu quarto, Emma identifica Regina sem dificuldades. Sentada sobre a cama, os braços envolvendo seus joelhos dobrados enquanto embala seu próprio corpo, a ex-prefeita parece sequer notar a presença de Emma, nem mesmo quando esta lhe fala diretamente.

“Regina?” Emma a chama pelo nome em um tom suave, quase imperceptível. A ausência de qualquer reação por parte de Regina a remetendo a um passado ainda dolorosamente recente. Com um aperto no peito, Emma insiste. “Regina, você tá bem?”

Nenhuma resposta. A ansiedade de Emma se desdobra, embora ela se esforce para não demonstrar. Então, com uma delicadeza que não lhe pertence, Emma atravessa o quarto e se senta diante de Regina, seu corpo pesando sobre o colchão macio da imensa cama de casal. “Henry ouviu você.”

Os olhos de Regina não encontram os de Emma em qualquer momento e por um instante a loira nem mesmo está certa de que a mulher que tem diante de si esteja ciente de sua presença. Mas então a voz de Regina se manifesta, rouca pelas lágrimas que ainda estão presas em sua garganta.

“Quando eu adormeço ela volta. Nem morta, nem viva...” O timbre de Regina é quase um suspiro exaurido de forças. “Como Daniel.”

Emma não se recorda de Regina jamais ter mencionado o nome dele em sua presença. O fato de ela fazê-lo agora é o suficiente para roubar-lhe o fôlego.

“E da mesma forma que eu fiz com ele, eu tenho que matá-la de novo.” Seus olhos castanhos finalmente recaem sobre a figura da Xerife que escuta seu relato atentamente. “E de novo e de novo e de novo. Nunca pára. Nunca termina.”

“É só um pesadelo.” Emma procura confortar Regina, e o seu desejo é o de tocá-la nem que seja apenas para ancorá-la nesse mundo e se certificar de que nunca mais ela escape a essa realidade. “Não é real.”

“Mas é real.” A voz de Regina estremece e mesmo à meia-luz, Emma consegue identificar o brilho das lágrimas não derramadas que turvam seus olhos escuros. “Eu ainda consigo sentir. O cheiro de sangue. O coração dela pulsando em minhas mãos. E então ele pára. E é tudo o que eu consigo sentir. É o que eu consigo sentir.”

“Era por isso que você estava gritando?” Emma pergunta com delicadeza, sem conseguir disfarçar a infinita tristeza que pesa em seu íntimo.

“Eu achei que era ela, mas era ele. Como antes, mas ao contrário.” As lágrimas de Regina escorrem livremente agora e dessa vez Emma não contém seu impulso, suas mãos buscando o calor de sua pele enquanto ela procura compreender o sentido de suas palavras.

“Ele quem? Daniel?” Emma repete com certa apreensão. O nome do cavalariço soando uma violação em seus lábios.

“Não.” Regina balança a cabeça, negando com urgência, sua respiração cada vez mais ofegante até o ponto em que a confissão finalmente abandona seus lábios. “Henry... Eu arranco seu coração. Como fiz com ela, como fiz com todos os outros.”

Arquejando, Regina esclarece. “Essa é a vingança dela.”

O peso de sua confissão parece ser mais do que Regina consegue suportar e agitada pela simples recordação de seu mais vívido pesadelo, a ex-prefeita mal consegue respirar, o horror estampado nitidamente em suas feições, enquanto os soluços fazem seu corpo estremecer sem o seu controle.

Angustiada, Emma age por instinto, suas mãos amparando o rosto de Regina até que a testa dela encoste junto a sua e seus sussurros afastem as vozes de seus fantasmas.

“Tá tudo bem, tudo bem...” Emma repete incessantemente, por mais tempo que qualquer uma das duas é capaz de calcular. Seus olhos abertos encarando diretamente o abismo existente nos cantos mais obscuros da mente de Regina. “Henry está bem. Você está aqui. É só o que importa.”

É um lado de Regina que Emma jamais viu até então. Um segredo que ela guarda a sete chaves. É assustador e indescritivelmente triste, testemunhar assim de tão perto as ruínas de alguém. E ainda assim, Emma persiste incapaz de se afastar e sem qualquer intenção de fazê-lo. Uma realização que somente então se revela para a Xerife.

Existe uma longa lista mentalmente compilada por Emma após noites e noites de sonhos que ela jamais ousaria admitir. Uma lista com todos os motivos pelos quais se deixar envolver pelos encantos de Regina é uma ideia terrivelmente estúpida. Uma lista com todas as razões pelas quais ceder aos seus impulsos seria não apenas um erro colossal, mas com implicações verdadeiramente desastrosas não só para Emma, mas para todos que a cercam.

Trata-se de uma longa, longa lista.

Estranhamente, todos os seus itens parecem desaparecer no mais fino ar quando Emma se vê assim tão próxima de Regina, o espaço existente entre seus corpos quase insuficiente para suas respirações e o som das violentas batidas de seu coração.

Quando Regina ergue os olhos, é para se deparar com a presença quase sufocante de Emma, a forma como a mais pura empatia parece se derramar de seus olhos azul-esverdeados, tal líquido quente se espalhando por suas veias inertes.

Então, em um gesto quase natural e indecorosamente íntimo, Emma colhe uma de suas lágrimas com seus lábios, depositando o mais suave dos beijos sobre suas pálpebras. E quando ela se afasta, o sal mapeando seu paladar, é por pouco tempo antes que os lábios de Regina deslanchem sobre os seus.

De imediato, Emma não reage, seu corpo inoperante pelo espiral de emoções que a acometem de uma só vez. Então a língua de Regina invade sua boca, quente e sem aviso, e Emma mal consegue conter o gemido que reverbera entre as duas e morre algum momento mais tarde nas curvas do corpo da mulher que certamente será sua ruína.

No momento, no entanto, Emma não luta, não resiste.

Ela apenas fecha os olhos e se entrega.

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Continua...