O vendedor de livros
9 Capítulo 9 – Noite da Fogueira
Notas iniciais
Quando John acordou na manhã seguinte, sentiu-se solitário na cama. Abriu os olhos e percebeu que o lado em que Sherlock esteve deitado, estava vazio. O médico passou a mão pela área percebendo que ainda estava morna, o que indicava que o detetive havia se levantado a bem pouco tempo.
— Estou aqui, John. – Sherlock falou próximo à janela do quarto chamando a atenção do loiro.
— O que está vendo na rua? – John quis saber percebendo que o moreno observava atentamente algo lá fora.
— Eles trocaram a guarda... – Sherlock respondeu meio reticente.
— O quê?
— O homem que observava nosso apartamento ontem foi substituído por outra pessoa do outro lado da nossa calçada.
— Tem certeza?
— Absoluta.
— Mas o que eles querem se acham que você não conseguiu acessar os dados do microcard?
— Querem garantir que de fato eu não descobri nada até que toda a operação “noite da fogueira” seja concluída. Algo me diz que seremos seguidos hoje o tempo todo. – Sherlock comentou sem desgrudar os olhos da rua.
— E agora? Como vamos fazer para executar o seu plano? Se nos virem indo para os pontos das coordenadas, irão desconfiar e realizar a detonação fora dos intervalos cortando nossas chances de encontrá-las à tempo.
— Estou pensando nisso, John. – o moreno respondeu sentando-se na beirada da cama próximo ao loiro. – acho que devemos aproveitar o dia de “Bonfire”.
— E deixar que Londres se exploda?
— John... termine de acordar... seu cérebro está muito lento. – Sherlock disse encarando-o de um modo entre brincalhão e enfadado. – É claro que não será um passeio de casal, mas deve parecer com um. Compreendeu?
— Ah... entendi... – John meneou a cabeça positivamente, um pouco frustrado por não se tratar de fato de um dia normal em que ele poderia aproveitar um bom passeio com Sherlock.
— Iremos sair e despistar o vigia. Temos algumas horas até a detonação da primeira bomba no Piccadilly. – Sherlock disse se levantando.
— E o Lestrade?
— Já mandei mensagem avisando-o para estar no Piccadilly às duas da tarde. – disse olhando o relógio na mesinha de cabeceira. – São seis e vinte agora, vamos, iremos tomar café na rua.
John levantou-se rápido e trocou de roupa, Sherlock também se trocou e em menos de quarenta minutos ambos estavam prontos. O detetive foi para a cozinha e acondicionou as bombas de bromo-acetona em duas bolsas médias de viagem, passando uma delas para John.
— Não acha que soa meio suspeito passear por aí com duas bolsas de viagem? – John ponderou recebendo a bagagem.
— Não quando se está indo para a estação King’s Cross para pegar um trem rumo à Cambridge. – o moreno respondeu abrindo a porta de saída tomando o rumo das escadas.
— E o que faremos em Cambridge? – o médico perguntou descendo as escadas logo atrás de Sherlock.
O homem abriu a porta da rua e correu para a calçada a tempo de parar um táxi que ia passando naquele exato momento. Sherlock segurou a porta para John entrar primeiro e entrou em seguida, começando a responder a pergunta do médico.
— Vamos nos hospedar numa pousada pagando adiantado pela diária inteira, passear por uns trinta minutos, voltar e demonstrar o desejo de ficar o resto do dia fechados no quarto. Isso certamente irá entediar nosso vigia, o que nos possibilitará fugir e voltar para Londres. Serão cinquenta minutos para ir de Londres à Cambridge, quinze minutos alugando o quarto na pousada, dez para por as coisas no quarto, trinta para passear, mais trinta para empreender fuga até a estação de trem, cinquenta para voltar, o que me faz deduzir que em três horas e cinco minutos estaremos indo no sentido do Piccadilly encontrar Lestrade, ou seja, chegaremos lá antes das duas horas da tarde para iniciar nossa busca sem olheiros para nos atrapalhar. – explicou enquanto olhava discretamente para trás, percebendo que havia um táxi a uma certa distância seguindo a mesma rota deles.
Em poucos minutos os dois chegaram à estação e as lembranças dos momentos terríveis vividos na estação Waterloo há pouco tempo, atingiram John em cheio, impulsionando-o a buscar a mão de Sherlock e apertá-la bem forte, fazendo o moreno o encarar com curiosidade.
— Não importa o que diga ou o quanto reclame, não vou largar a sua mão, se empurrarem você novamente na frente de um trem, eu vou junto! – o médico declarou de forma feroz encarando o namorado que limitou-se a rir de canto e retribuir o aperto.
O trem que esperavam chegou e os dois permaneceram parados atrás da faixa amarela de segurança enquanto os passageiros esvaziavam as cabines dando espaço para os que iram embarcar. Subiram com a bagagem e partiram para Cambridge sendo seguidos por um homem de gorro escuro.
Em menos de uma hora, Sherlock e John chegaram à cidade universitária mais antiga da Inglaterra. Cambridge, distante oitenta quilômetros ao norte de Londres , foi fundada em 1209 e possui pouco mais de cento e vinte e três mil habitantes, destes, vinte e dois mil são estudantes. Por se tratar de uma aglomeração urbana compacta, torna-se perfeita para explorações a pé ou mesmo bicicleta, Sherlock desejava ser amplamente visto perambulando pelas ruas acadêmicas, disposto a ser seguido de perto pelo homem que havia acompanhado sorrateiramente os dois até ali.
A temperatura de 8 ºC não era das mais animadoras para passeios, mas Sherlock não desistiu de andar pelas ruas com John e parar debaixo de uma larga árvore esquelética no parque às margens do rio Cam.
— Aqui é bonito. – John comentou olhando as águas calmas do rio seguirem seu caminho no leito.
— No verão é bem mais agradável. – Sherlock comentou.
— Já passeou por aqui no verão?
— Fiz pesquisas.
— Ah... naturalmente. – John disse rindo com a imagem mental de Sherlock enfurnado em algum laboratório penumbroso de uma das várias universidades em volta, enquanto um belo dia ensolarado escorria fora das paredes acadêmicas.
— Ainda estamos sendo seguidos? – John perguntou olhando discretamente para os lados tentando captar alguma presença suspeita.
— Estamos. Quinta árvore à sua direita, John. Um homem de gorro preto e óculos escuros. – o moreno indicou. – é impressionante como não são discretos! – concluiu fazendo uma careta um tanto engraçada.
John riu da expressão que Sherlock fez e não resistiu puxá-lo para um beijo à beira do rio Cam. Apesar do frio matinal em Cambridge, o beijo foi quente embora calmo. Os lábios deslizaram carinhosos um sobre o outro estabelecendo uma conexão cúmplice e devotada convidando as línguas a se visitarem com lentidão morna e pacífica. Quando o ato se desfez, John encarou os cristalinos olhos do detetive deixando-se perder naquele universo ocular que o observava enquanto lambia os lábios.
— O tempo do passeio acabou, John. – Sherlock alertou ajeitando o cachecol que havia ficado meio torto.
— Uma pena, eu estava começando a aproveitar. – o médico disse rindo abertamente.
Os dois saíram das margens do rio e voltaram rapidamente para a pousada onde haviam deixado as coisas e trancaram-se no quarto. Sherlock havia feito questão de pegar um quarto térreo com janela para o quarteirão seguinte. Em pouco tempo, o médico e o detetive estavam esgueirando-se para longe do pequeno hotel, carregando sua preciosa bagagem sem serem seguidos por ninguém.
Faltando pouco para duas da tarde, Lestrade já bebericava nervosamente uma xícara de café numa lanchonete no Piccadilly Circus, olhando minuto a minuto para o relógio e se perguntando se Sherlock havia conseguido deduzir o lugar onde a bomba estaria escondida naquele lugar. Aquele seria o “dia da fogueira” mais tenso que ele já viveu, acreditava piamente que nenhum outro evento na sua carreira superaria o pico de tensão e adrenalina que aquele estava lhe proporcionando.
Se alguma coisa saísse errado, Londres não teria ânimo para seus espetáculos de fogos de artifícios e incineração de bonecos em fogueiras na noite daquele dia. Lestrade suspirou fundo tentando relaxar. Sentia como se o fantasma do militar conspirador Guy Fawkes, pairasse sobre a cidade, desejando efetivar seus planos frustrados de destruir o governo.
Greg cresceu ouvindo a história do militar naval inglês que se revoltou contra a coroa, arquitetando a revolta da pólvora no século dezessete, planejando explodir quarenta e seis barris de pólvora no porão do parlamento durante a abertura da temporada parlamentar. Muitos ingleses consideram esse o primeiro atentado terrorista da história inglesa, e como o plano de Fawkes falhou, anualmente a população comemora a captura e execução do conspirador.
Sherlock conseguiria frustrar os planos terroristas pairando sobre Londres nesse cinco de novembro, mais de quatro séculos após a primeira tentativa de ataque terrorista perpetrado contra o lugar? Lestrade se agarrava ao fio de esperança que o detetive excêntrico lhe oferecia.
— Se tomar mais um copo de café, a cafeína vai abrir um buraco no seu estômago.
Lestrade levantou a vista e deparou-se com a imagem de Sherlock com as mãos no bolso e John ao lado segurando duas bolsas médias de viagem.
— Ah, graças a Deus, vocês já estão aqui! – o inspetor comemorou sentindo uma leve onda de alívio percorrer seu corpo como se a simples presença da dupla fosse capaz de resolver o problema que se acercava deles.
— Não perderia os preparativos para a “noite da fogueira” por nada, inspetor. – Sherlock disse rindo enquanto acomodava-se num dos assentos à mesa de Lestrade.
— Não brinque, um pandemônio pode literalmente estourar em breve. Então? Já sabe onde devemos procurar? – Lestrade perguntou voltando a ficar tenso.
— Sei. Na verdade, o Piccadilly foi o mais fácil. – Sherlock respondeu olhando para fora através da larga janela de vidro ao lado deles.
— Onde ela está? – Lestrade parecia disposto a arrancar a informação com um machado se fosse necessário.
— Está no ponto central do lugar, onde a grande maioria das pessoas se aglomeram para admirar e tirar fotos sem pressa de seguir adiante. A bomba está na estátua de Eros. – O detetive respondeu observando o monumento a vários metros da lanchonete onde estavam.
Confeccionada por Alfred Gilbert em 1892 em puro alumínio, a estátua de Eros, pairava delicada sobre alta e larga base ricamente trabalhada em motivos e contornos vitorianos, ao redor do qual aglomerava-se centenas de nacionais e turistas, fotografando ou simplesmente apreciando a vista. O céu daquele cinco de novembro era nublado e a temperatura teimava em ficar nos 9º C, mas mesmo com o frio de uma tarde cinza, as pessoas não se intimidavam, transitavam às centenas pela praça Piccadilly inocentemente sem a mínima noção do que estava prestes a acontecer.
Sherlock saiu da lanchonete sendo seguido por John e Lestrade que dividiam a carga das bolsas. John sentia a velha adrenalina das missões no Afeganistão voltar a ativar seus nervos deixando-o em alerta máximo, cada movimento era avaliado criteriosamente pelo olhar do soldado como um perigo em potencial. Dessa vez, não havia deixado a arma em casa.
O detetive avançava pela multidão com passos imponentes e olhar cravado na base do monumento logo adiante. Venceu os degraus que levavam à base da estrutura de alumínio e começou a procurar o ponto de fissura que seus cálculos afirmavam estar ali em algum lugar.
O médico e o inspetor postaram-se à dois degraus da base e ficaram observando o movimento em volta segurando as bolsas com bombas bromo. As pessoas continuaram a caminhar, conversar, rir e fotografar sem se importar com aquele estranho homem alto de sobretudo rodeando o monumento.
Lestrade olhou para o relógio e sentiu uma onda fria congelar sua medula. Os ponteiros já indicavam duas e quarenta da tarde, o detetive só tinha vinte minutos para descobrir o lugar da bomba letal, desarmá-la, substituí-la pela falsa e detoná-la exatamente às três horas.
— Rápido, Sherlock! – Lestrade incentivou sentindo suor frio descer por sua espinha.
— Não me apresse, isso não vai fazer a bomba aparecer! – Sherlock resmungou em resposta.
— Evitem discutir aqui, ok? – John intrometeu-se olhando de um lado para o outro como se a qualquer momento os três pudessem ser atacados.
— Achei! – Sherlock comemorou. – me passe a sua bolsa, John.
O médico atendeu a solicitação vendo o detetive se esticar para revelar um cilindro de aproximados cinquenta centímetros, feito de material de cor idêntico à estrutura onde estava grudado em perfeito mimetismo. Com um canivete, Sherlock a desgrudou cuidadosamente do lugar e em seguida depositou um cilindro composto de alumínio fino onde havia envasado a sua solução caseira de gás lacrimogêneo. Concluída essa tarefa, o moreno pegou o cilindro arrancado do monumento e o colocou cuidadosamente na bolsa que ficara vazia.
— O que vamos fazer com isso? – John perguntou olhando o relógio, notando que eles tinham só doze minutos para desativar a bomba na bolsa e detonar as bombas falsas na estátua.
— Vamos para os fundos da lanchonete onde estivemos. Tem um beco vazio lá – Sherlock disse andando de forma célere com a bolsa do lado.
Chegado ao local, o detetive abriu a tampa de um contêiner de lixo metálico e pôs o artefato dentro enquanto o avaliava. A aparência grosseira não enganava, quem a fabricou dominava bem a técnica e acreditava no alcance dos seus efeitos.
— Quatro minutos, Sherlock – John avisou.
— Certo, certo, temos pouco tempo. – o moreno concluiu tirando um dispositivo de detonação remota de dentro do bolso do sobretudo e esticou-o para Lestrade. – Vá para a praça junto o John e detone o cilindro de lacrimogêneo exatamente às três horas.
— Como é que é? – John franziu o cenho. – eu não vou sair de perto de você, o Lestrade pode fazer isso sozinho, eu ficarei aqui.
— John... – Sherlock ia questionar, mas a cara enfezada que o médico lhe lançou foi o suficiente para calá-lo. – Ok. Lestrade, vá para a praça e realize a detonação na hora marcada.
— Certo. Boa sorte, rapazes. – Lestrade disse se afastando às pressas rumo à praça.
Sherlock pulou para dentro do contêiner para manusear a bomba, mas antes voltou a dar instruções:
— John, se não der certo, preciso que feche a tampa do contêiner, entendeu?
— O quê? – John parecia chocado com o pedido.
— Tem que fechar a tampa imediatamente, não deve tentar me tirar, entendeu? Cada segundo com a tampa aberta tornará maior a quantidade de agente infeccioso no ar. Às exatas três horas, feche! Prometa! – Sherlock insistiu enquanto avaliava a bomba ante o olhar revoltado do médico.
— Esqueça, Sherlock, eu nunca vou prometer uma coisa dessas! Dane-se Londres inteira, eu tiro você dessa lixeira nem que eu morra tentando!
Sherlock o encarou rapidamente de forma muito séria, mas um brilho no fundo dos seus olhos cristalinos davam conta de que aquela reação, apesar de totalmente sem lógica por parte do namorado, o deixou feliz.
Lestrade observava as pessoas rirem e caminharem em volta da estátua de Eros, crianças apontavam pombos que voavam em volta, namorados andavam de mãos dadas trocando beijos, homens e mulheres aglomeravam-se e passavam despreocupados pela praça que teria sua paz perturbada por ele, um inspetor de polícia com longos anos na Yard, em todos aqueles anos na polícia metropolitana de Londres, nunca imaginou que um dia teria que ser a face não letal do terrorismo.
Dois minutos...
Sherlock analisava uma intrincada rede de pequenos fios coloridos.
Um minuto...
Lestrade olhava o relógio e deslizava o dedo suado sobre o detonador rezando para que Sherlock conseguisse desativar a bomba letal.
Trinta segundos...
John respirava fundo fechando os olhos para sentir o ar frio percorrer livremente suas vias aéreas enquanto ele pedia a todos os santos para que aquela não fosse a última vez.
Dez segundos...
Lestrade encarou a multidão em volta da estátua sentindo seu coração querer romper o peito.
Cinco segundos...
Sherlock soltou um palavrão dentro do contêiner assustando John.
Dois segundos...
Lestrade aspirou profundamente e ao liberar o ar pela boca vendo-o condensar-se em fina névoa branca dando-se conta do quanto aquela tarde estava fria, apertou o botão às exatas três horas da tarde.
A “noite da fogueira” havia começado em Londres.
Continua...
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