O vendedor de livros
12 Capítulo 12 – Abaixo de zero
Notas iniciais
Quando a consciência de Sherlock voltou, ele sentiu uma dor aguda atrás da cabeça, abriu os olhos e foi impactado pela escuridão. Passou a mão pela raiz dos cabelos na parte de trás do seu crânio e identificou um grande calombo proveniente de uma pancada precisa. Ele não se lembrava de muita coisa, apenas de ter ido até a sala do seu apartamento e virado de frente para a lareira na intenção de apagar as chamas. Daí para frente tudo fora breu.
Seu corpo estava largado na horizontal em contato com uma superfície dura e metálica. Tentou se mover para os lados, mas esbarrou os membros em paredes laterais de ferro, tentou levantar o corpo, mas teve que voltar a se deitar, pois havia algo a poucos centímetros dele que o impedia de ficar sentado sem bater a testa. Estava muito frio, seu corpo tremia e os músculos contraiam reclamando do pouco aquecimento que o simples pijama de algodão cinza podia lhe proporcionar.
Tentou respirar com calma, pois algo lhe dizia que o lugar onde estava preso era bastante apertado e com baixa renovação de oxigênio. Depois de um longo tempo de silêncio, ele ouviu passos ecoarem pelo recinto e em seguida a escuridão foi dissolvida pela iluminação de algumas lâmpadas que revelaram aos olhos do detetive a estrutura de uma velha e abandonada fábrica de laticínios.
A iluminação elétrica também permitiu que ele entendesse a razão de não conseguir mover-se livremente. Estava preso num tanque retangular de metal de dois metros de comprimento por oitenta centímetros de largura e meio metro de profundidade, cuja parte superior continha uma tampa de vidro grosso moldurada com barras de ferro presas por tarraxas nas laterais, a sensação era de estar literalmente dentro de um caixão com a tampa parafusada.
Leve apreensão se apossou de Sherlock. Estar deitado num tanque metálico tapado por uma espessa placa de vidro não poderia indicar boa coisa.
— Olá, Sr. Holmes. – um homem branco de cabelos castanho claro o cumprimentou aproximando-se do tanque. – Vejo que recobrou a consciência, isso é bom, podemos começar nossa conversa.
— Quem é você? – Sherlock perguntou tentando distrair a mente dos efeitos do frio intenso que estava sentindo deitado na superfície metálica do tanque vazio.
— Presumo que já conheça minha identidade britânica. – o homem respondeu com um sorriso educado e gélido.
— Você não é inglês, de onde vem? Quem é você? – Sherlock insistiu.
— Tem razão, eu sou russo. Me chamo Andrei Logovoi e aquele ali – disse apontando para um segundo homem que Sherlock não havia notado ainda. – é o meu colega, Ivo Koutun. Ele está bem chateado com você, Sr. Holmes. Você estragou um espetáculo que foi planejado por anos.
— Sinto muito, mas achei que o espetáculo merecia uns ajustes. – Sherlock respondeu com petulância encarando o segundo homem que era sardento e ruivo e o olhava de modo pouco amigável na extremidade do tanque para onde apontava os pés do detetive.
— Sei... mas nós não apreciamos seus ajustes, Sr. Holmes, eles foram de muito mau gosto. – Andrei pontuou fazendo um gesto para Ivo.
Sherlock não havia entendido o que o gesto significava até sentir algo gelado invadir o tanque onde era mantido deitado. Água gelada. Ivo havia aberto uma válvula que fazia fluir água com pequenos pedaços de gelo para dentro do tanque. O detetive remexeu-se sentindo o líquido gelado agravar os tremores em seu corpo fazendo seu maxilar começar a bater. A água jorrou por alguns segundos elevando alguns centímetros dentro do tanque e então o fluxo foi interrompido.
— Sei que não descobriu nossos planos por acaso, Sr. Holmes. – Andrei voltou a falar. – isso foi culpa de um agente duplo, ele nos enganou, pena que só descobrimos o engodo às vésperas do grande dia.
— Aí, vocês o mataram. – Sherlock afirmou buscando mover sua concentração para a conversa e não para o frio intenso que retalhava seu corpo.
— Matamos e carregamos o corpo para a livraria, era certo que a polícia não ia encontrar evidências no lugar, a morte tinha ocorrido muito longe dali. Ficariam andando em círculos e arquivariam o caso. Pernoitamos em Londres naquela noite e voltamos para Alnwick dois dias depois para executar a tarefa que nosso grupo havia confiado a ele, ou seja, buscar as instruções para execução do ataque, ele seria responsável pela bomba na estação de trem próxima a livraria que usava como fachada para suas atividades de espionagem. Mas qual não foi nossa surpresa ao descobrir que o maldito havia feito a visita à loja de bonecas antes de ir nos encontrar. Surpresa maior foi descobrir que havia alguém ameaçando nossos planos. Você. E precisava ser eliminado.
— Fico lisonjeado com a atenção, mas me esclareça uma coisa, se vocês não conseguiram a boneca, como conseguiram executar o plano?
— Backup. Cópia de segurança, Sr. Holmes. Havia outro microcard com as coordenadas enviadas por nosso grupo para serem executadas. Tudo o que precisávamos era dar cabo de você e o planejamento de anos não precisaria ser refeito.
— Interessante explanação... E então? Vocês trabalham para o governo russo ou para um grupo político radical? – o detetive perguntou sentindo a voz falhar por conta do tremor constante dos maxilares.
— Essa informação é ultra confidencial, Sr. Holmes, não a revelamos nem para aqueles que vão morrer. – Andrei disse fazendo novo gesto para Ivo.
Dessa vez Sherlock sabia o que isso significava e seu corpo sentiu o volume de água congelante aumentar fazendo seus pulmões começarem a reclamar e falhar a respiração. Ivo deixou o fluxo correr por uns trinta segundos e depois bloqueou novamente a passagem da água.
— Tenho uma única pergunta para fazer a você, se me responder, prometo lhe dar uma morte rápida e piedosa. Acredite, eu sei como matar lenta e dolorosamente e sei como fazer alguém morrer sem nem se dar contar. A segunda opção é a melhor para você, Sr. Holmes, garanto. – Andrei pontuou.
— O que você quer? Os números da mega-sena? – o moreno debochou tentando elevar o tronco para fora do acúmulo de água gélida enquanto seu corpo tremia violentamente.
— Não, eu não gosto de jogos, não acredito em sorte, só no resultado de um trabalho organizado e disciplinado.
Novo gesto foi feito pelo homem e nova corrente de água fez o volume do líquido frio aumentar no tanque.
— Sr. Holmes, acredito que Alexander não era o único agente duplo da MI6 infiltrado no nosso grupo, diga-me, quem são os duplos da inteligência internacional britânica?
— Garanto que eu não sou um deles. – Sherlock respondeu tentando rir, mas seus lábios trêmulos não conseguiram reproduzir o riso.
— Certamente. – Andrei respondeu fazendo novamente o gesto para Ivo.
Nova onda de água com pedras de gelo foi sentida dentro do tanque vedado e Sherlock já estava com dificuldade para manter o rosto fora da água. Seu pulso estava acelerado descontrolando seu ritmo cardíaco e respiratório, os tremores aumentaram e sua pele manifestava uma palidez maior do que a natural.
O detetive sentia um grande cansaço abater seu corpo e ele sabia, estava entrando na fase moderada de hipotermia. Se a sua temperatura seguisse caindo, muito em breve entraria na fase severa com a redução de todos os seus sinais vitais. Daí para a morte era um caminho bem curto.
— Vamos, colabore, deve não estar sendo nada fácil suportar ficar de molho em água fria numa noite de inverno com os termômetros apontando cinco graus. Quem são os outros duplos atuando a serviço do MI6?
— Eu...não faço... ideia... – Sherlock respondeu em meio aos tremores trincando os dentes para conter o tremor dos maxilares.
— Francamente, Sr. Holmes, acho que está mentindo. Colabore, senão seu corpo não será o único a servir de adubo para o gramado do cemitério. – Andrei riu do par de olhos assustados que Sherlock lhe lançou. – É, estou melhorando minha proposta. Acredito que seu companheiro deverá ficar muito feliz em acompanhá-lo na morte, mas acho que você não ia querer isso. Se me contar, você desce sozinho, se teimar em não responder minha simples pergunta, garantirei uma lenta e dolorosa morte para o Dr. John Watson assim que terminar com você.
— D-deixe... J-John em paz! – Sherlock rugiu com todas as suas parcas reservas de força.
— Presumo que a água esteja congelando seu corpo. – Andrei observou. – É como centenas de agulhas rasgando a carne, não é? Dói, eu sei que dói. Um britânico atingiu meu tórax com um tiro de pistola uma vez e eu caí num rio parcialmente congelado. Foi um inferno, mas eu sobrevivi, o mesmo não posso dizer de você, Sr. Holmes. Então? Quero nomes, diga-me quem mais do MI6 está infiltrado no meu grupo.
O corpo inteiro de Sherlock sacudia de forma incontrolável, ele não sentia mais os pés nem as mãos, seus lábios estavam ficando azulados e seus olhos tinham dificuldade em ficar abertos e focados. A fase severa da hipotermia estava a caminho.
— Eu... não sei. – respondeu num fio agoniado de voz. – é a v-verdade! Juro! D-deixe o John!
— Oh. Tudo bem, já vi que não é possível conversar com você. Uma pena. – Andrei comentou observando Sherlock se debater de frio espalmando as mãos instáveis no vidro tentando inutilmente movê-lo. – Ivo, encha.
Koutun abriu a válvula da corrente de água e o tanque foi enchendo, completando sua capacidade e aos poucos submergindo o corpo do detetive que tentava empregar toda a sua força já muito enfraquecida pela hipotermia, na tentativa de quebrar o tampo de vidro que o aprisionava.
Vendo que o tanque estava em sua capacidade máxima, Koutun desligou a torneira e ficou assistindo os movimentos de Sherlock irem se acalmando. O moreno tentava se agarrar a um último fio de oxigênio que restava em seu pulmão, regrava-o como um andarilho perdido no deserto regra uma gota de água. Mas os segundos iam passando e pequenas bolhas de ar foram empreendendo fuga por suas narinas até não restar nada para se manter debaixo d’água, os alvéolos do seu sistema respiratório queimavam e seu peito parecia ter o peso de um saco de cimento comprimindo-o. Os cristalinos olhos de supernova olharam para o alto sentindo a consciência fugir e as imagens se perder.
A falta de oxigenação em seu cérebro estava provocando alucinações e a última imagem que cruzou suas íris, foi o rosto de John Watson. Depois tudo foi tomado por escuridão profunda.
O que o moreno não teve clareza para perceber antes de apagar dentro do tanque d’água era que John à beira do tanque não era uma alucinação e sim o médico que havia entrado no galpão atirando e alvejando com precisão mortal os dois sequestradores assassinos e agora tentava desesperadamente remover a tampa de vidro que prendia o corpo imóvel do detetive imerso em água gelada.
O desespero de ver Sherlock com olhos vidrados e sem reação dentro do tanque com água deu força sobre-humana para John que conseguiu destravar e arrastar a tampa para o lado e acessar o corpo do detetive puxando-o de dentro do tanque com urgência pondo-o no chão diagnosticando imediatamente a necessidade de uma massagem cardiopulmonar, iniciando o procedimento logo em seguida.
O corpo do detetive estava gelado e as extremidades estavam azuladas, sinal claro de hipotermia grave, John sabia, mas primeiro precisava expulsar a água dos pulmões do moreno.
— Vamos lá, Sherlock! Você já voltou uma vez, volte mais uma! – John pedia enquanto bombeava o peito do detetive e aplicava respiração boca a boca tentando recuperar o ritmo cardiorrespiratório dele.
Depois de poucos minutos, o corpo do detetive se contraiu e um jorro d’água fluiu pelos lábios cianóticos do homem que mesmo depois de expulsar a água presa nos pulmões, permaneceu desacordado e com fracos sinais vitais.
— Aguente firme, Sherlock. – John falou tirando o próprio casaco para cobri-lo e em seguida abraçá-lo na tentativa de passar um pouco de calor para o corpo pálido e gélido do companheiro.
John discou para a emergência que manteve a sua respeitável marca de oito minutos para chegar ao local. Os socorristas removeram rapidamente as roupas molhadas do detetive e depois o deitaram na maca, cobrindo-o com cobertores secos por cima dos quais fora posta uma manta térmica para em seguida conduzi-lo às pressas para a viatura médica.
Enquanto a ambulância avançava pelas ruas esbranquiçadas de neve, os socorristas iam dando continuidade aos procedimentos em volta do corpo hipotérmico e inconsciente de Sherlock na tentativa de reanimar e estabilizar suas funções orgânicas.
— Paciente com hipotermia em estágio três, perda de consciência, temperatura abaixo de vinte e oito, evoluindo para o coma. – avisou um dos paramédicos.
— Ok. – respondeu o outro manobrando equipamentos médicos. — Aplicando ressuscitação volêmica aquecida a quarenta e três. Oxigênio umidificado a quarenta e dois.
Um dos paramédicos espetou o dedo do detetive e colheu uma gota de sangue numa fita de teste rápido glicêmico, aguardou alguns segundos e sentenciou para o colega:
— Glicemia em queda! Elevar! Elevar!
John observava inquieto os esforços para reaquecer o detetive para barrar o agravamento do estágio de hipotermia. O loiro havia deixado dois corpos para trás, mas não se importava com as implicações disso agora, deixou a tarefa de notificação para os paramédicos que a essa altura já tinham informado a polícia metropolitana sobre os dois mortos que haviam sido encontrados no velho galpão. Se explicaria com os policiais depois, sua mente estava completamente focada em um único mantra: “aguente firme, Sherlock!”.
Já no hospital, os procedimentos se completaram restando ao médico de plantão promover a internação de Sherlock que foi posto num quarto, ficando devidamente agasalhado, recebendo soro glicosado morno enquanto inalava oxigênio umidificado aquecido e tinha seu ritmo cardíaco monitorado.
Depois de ser deixado a sós no quarto com o detetive, John se aproximou do leito do moreno e buscou a mão do homem por baixo dos lençóis sentindo que aos poucos o toque estava voltando a ficar morno. O médico suspirou audivelmente apertando a mão do companheiro. Não queria nem pensar no que teria acontecido se ele não tivesse encontrado-o a tempo.
John estava cochilando com a cabeça encostada no colchão da cama de Sherlock quando percebeu a entrada de alguém no quarto.
— Você o encontrou. – Mycroft afirmou se aproximando da cama onde o irmão estava deitado.
— Eu disse que encontraria. – o médico respondeu se levantando da cadeira onde havia sentado e cochilado.
— Valorizo homens de palavra.
Holmes olhou para o irmão e John pôde perceber que a mão do homem tremeu levemente, isso fez o médico deduzir que o mais velho deteve no último segundo o desejo de afagar a cabeça do irmão caçula. John achava uma perda de energia essa postura dos irmãos Holmes, eles se importavam um com o outro, mas se esforçavam por esconder o óbvio.
— Obrigado por cuidar do Sherlock, Dr. Watson.
— Disponha. – John respondeu voltando a entrelaçar sua mão na de Sherlock.
Mycroft observou o gesto por alguns segundos, depois deixou a linha fina dos lábios manifestar um sorriso satisfeito, meneou a cabeça num breve cumprimento e foi embora.
O resto da noite transcorreu tranquilamente com o organismo de Sherlock reagindo bem aos procedimentos e medicações, possibilitando a John um pouco de confiança para afastar-se da cama e ir deitar no estreito sofá de dois lugares que havia no quarto. O sono não foi dos mais satisfatórios, mas aliviou um pouco do cansaço e da tensão acumulada nas últimas horas.
Na manhã seguinte Lestrade apareceu no quarto dando três toques leves na porta para não assustar John que ainda estava encolhido no sofá.
— Bom dia. – o inspetor cumprimentou entrando no local.
— Bom dia. – John respondeu se alongando fazendo algumas caretas de desconforto.
— É muito bom ver o Sherlock novamente. – o homem confessou olhando para o detetive adormecido sob as cobertas.
— Realmente. Me sinto mais em paz agora. – o médico comentou se levantando. – Presumo que você veio aqui para colher minhas declarações sobre s dois homens mortos no galpão. – o loiro concluiu.
— Oh, não, de jeito nenhum. – Lestrade esclareceu balançando vigorosamente a cabeça. – O caso não é da competência da polícia metropolitana, sabe? Os federais assumiram, e quer saber? Estou dando graças a Deus por isso.
— Ué, pensei que não gostasse quando os federais se intrometiam em investigações de assassinatos.
— Eu nunca disse que fico chateado quando assumem investigações de assassinato, eu só não gosto quando tiram de mim casos promissores em andamento, nos fazendo passar por incompetentes e ficar com cara de idiotas. – Lestrade se defendeu. – Esse caso nem passou pela minha divisão, quando chegamos, os caras já estavam lá, então só fiz dar meia volta e me desloquei para cá, estava ansioso para ver como o Sherlock estava.
– Oh. – John murmurou compreendo o que significava o caso ter sido assumido pelos federais. Isso queria dizer que Mycroft iria varrer qualquer problema que pudesse respingar sobre o médico.
— Ele vai ficar bem, não vai?
— Vai, sim. – John respondeu. – Ele está reagindo bem, em breve vai poder ter alta.
— Isso é ótimo. – Lestrade comentou rindo de modo sincero e aliviado. – bem, agora tenho que ir, mas se precisar de alguma coisa, me ligue.
— Ligarei, obrigado. — John respondeu vendo o inspetor sair.
Lestrade saiu do hospital refletindo sobre a sorte que Sherlock tinha de ter uma pessoa como John Watson ao seu lado. O detetive chegou bem perto da morte por duas vezes em menos de uma semana e foi arrancado dos braços do ceifeiro pelo médico militar que lutou por Sherlock incansavelmente. O inspetor tinha que admitir que Sherlock estaria duplamente perdido se Watson não estivesse do seu lado. Que Deus conservasse John Watson sempre ao lado de Sherlock Holmes, para o bem e salvação do detetive!
Continua...
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