O vazio que habita em mim

1 PROLOGO - JOÃO NINGUEM


— Qual a causa da morte?

Esperançoso por uma resposta, o homem de jaleco branco passeou o olhar duvidoso diante dos adolescentes recém chegados aquela sala onde o corpo de um homem jazia inerte e sem vida.

Como de costume não houve nenhuma resposta.

O lugar cheirava a uma mistura de álcool e produtos de higiene recém aplicados ao piso e as paredes de cerâmica branca, além de estar em uma temperatura de -18° porém, nada tirava dali o cheiro entranhado da morte. Aquela era a primeira aula deles em um ambiente como aquele, uma das salas de Biologia Humana dentro da Universidade Federal de Medicina Santa Cecilia, conhecida internacionalmente por sua excelência acadêmica, ou como os alunos costumavam chamar – IML Santa Cecilia. Um lugar nada acolhedor, diga-se de passagem mas necessário se eles quisessem passar para a próxima etapa do curso, deveriam passar horas em um lugar como este, estudando e conhecendo a fundo a anatomia humana.

Haviam gavetões frigoríficos espalhados por toda partes o homem simplesmente se aproximou de uma das portas cuja placa apontava o indigente n° 4552 separado para aquela aula algumas horas antes, o colocou em uma das mesas desocupadas e pegando um bisturi fez uma incisão que ia do início da caixa torácica ao fim do abdômen abrindo-o sem nenhuma cerimônia.

Abel esperou alguns segundos antes de dar continuidade a aula, para que o grupo misto com idade entre 18 e 30 anos se acostumasse ao que acabavam de presenciar, como era de se esperar a maioria dos alunos acabou não gostando do que viu, alguns viraram o rosto no exato momento em que a lamina passeava pelo cadáver, outros não se aguentaram em pé e desmaiaram. Ele por sua vez apenas o observava as características do grupo heterogêneo naquele primeiro dia.

— E aqui que separamos os homens dos ratos. Vamos lá pessoal, não precisam ter medo. Ele não vai sair do lugar. — O professor deu um leve empurrão na mesa fazendo com que as carnes mortas do indigente tremessem, o que fez uma das alunas ao fundo soltar um gritinho de pavor. — Ok, eu escolho... você!

Abel apontou para um rapaz franzino de óculos que parecia não estar prestando atenção a aula naquele momento.

— Qual o seu nome rapaz?

— He... Heitor... senhor. — Disse ele com a voz baixa e tremula.

— Como se chama garoto? Fale mais alto!

— Heitor senhor!

— Muito bem Heitor, qual a causa da morte deste rapaz?

Heitor se aproximou da mesa de autopsias receoso, ajeitou os óculos mais uma vez e se pôs a analisar o corpo, e só depois de um tempo cogitou dar uma resposta.

— Eu... Eu diria que este homem foi morto a pedradas enquanto dormia. — Ele respondeu com confiança. – ou talvez em uma briga de rua.

— Muito bem, muito bem, mas o que o leva a esta hipótese meu jovem?

— Pelas inúmeras lacerações ao longo de todo o corpo, as marcas nos braços e pernas indicam que ele tentou se proteger pondo-os em frente ao corpo evitando órgãos vitais.

— O que o levou a conclui isso? — O professor esboçou um leve sorriso, fazendo o garoto sorrir também.

— As marcas estão concentradas na parte posterior dos braços, bem como poucas marcas no rosto. E como o número é de um indigente, só pode ser um João Ninguém.

— Correto... mas não em tudo meu jovem! Nem todos os corpos aqui são de indigentes. Alguns foram cedidos ainda em vida para a nossa universidade. Os números são apenas uma forma de respeito para que todos sejam tratados da mesma forma.

— Então a universidade conhece todas essas pessoas? — Perguntou uma garota baixinha ao lado de Heitor.

— Não, apenas uma pequena parte, menos de 5% da anatomia deste espaço é conhecida da universidade, a maioria veio parara aqui como Marias e Joãos Ninguéns da vida, e mesmo assim todos eles merecem respeito. E é isso que vocês vem aprender aqui...

— “Antes de tudo respeito pelos seus pacientes!” — Disse toda a turma em uma só voz.

— Isso mesmo. Agora vamos continuar a aula.

Ninguém o percebeu ali, mas ao longe outra pessoa além do professor Abel os observava em segredo.

***

Eu tive uma vida..., uma vida miserável não há dúvida. Mas eu á vivi do meu jeito, como eu pude e da maneira que as circunstancias me permitiram viver.

Antes de contar a minha história, e como fui parar ali, com aquele monte de gente me olhando, estudando e me diminuindo como pessoa eu preciso me apresentar a vocês.

Eu sou o M’icelus, e antes que vocês me perguntem, sim, esse é o meu nome, é um nome fora do comum eu sei, mas o que eu posso fazer se meus pais são exóticos e preferem o que é diferente.

Se preferir pode me chamar de Mick, é assim que todos me chamavam, isso antes de ser apenas um número, antes de eu ser o indigente 4552. Sim eu estou morto, mas não se assustem eu não vim para me vingar de ninguém estou aqui para mostrar a vocês o que acontece quando uma pessoa morre.

Ao que parece eles estão querendo saber como eu morri, levantando hipóteses do que pode ter acontecido comigo nos momentos finais de minha existência. Os fatos vão muito além do que os vestígios em meu corpo.

O que realmente é importante está dentro da minha cabeça. E só eu posso mostrar o que realmente aconteceu antes do final trágico ao qual vocês presenciaram. É como dizem, quando se morre um filme passa diante dos seus olhos