O vale

2 Capitulo 1


Eu olhava para os lados, mas tudo o que eu via era um chão sem fim, branco. Se eu pudesse pular, alcançaria o teto que também era branco, então decidi correr, fiquei correndo por algumas horas, já que não me canso neste corpo etéreo, mas nunca alcancei alguma parede.

Após algum tempo parei de correr e sentei no chão. “Essa é a minha morte? Esse é o meu fim? ” Pensei. Fiquei ruminando esse pensamento e então, após alguma quantidade de tempo, não sei se foram minutos, horas ou dias, parecia que o tempo estava meio embaralhado, chegou aquela mesma pessoa que havia me transportado para esse lugar. Após eu virar o rosto para tentar ver alguma coisa no horizonte e voltar a encarar à frente, ele estava lá. Eu não sei quem é ele, mas seus olhos continham aquele mesmo brilho. Foi quando eu me perdi novamente naquele olhar e, ao olhar para o lado, eu estava em um campo verde.

Ao virar para frente, me deparei com uma placa que continha a frase: “Bem-vindo à cidade pós-mortem, Vale dos Espíritos. ” Eu estava confuso e foi quando uma pessoa se aproximou de mim. Um homem, parecia ter mais que 40 anos, com uma barba espessa e olhos caídos, vestia uma camisa branca e uma gravata preta, com calças também pretas e um sapato da mesma cor, além de um chapéu estilo Fedora preto com listras brancas. Algo me dizia que aquele homem não queria fazer mal a mim, pode se dizer que era um sexto sentido que eu havia ganhado depois de minha morte. Foi então que ele disse:

— Estávamos te esperando John, foi difícil te encontrar depois de correr tanto. Você deve se estar perguntando que lugar é esse, então eu irei te explicar conforme entramos na cidade. Venha, me siga. – Ele fez um gesto com a mão para que eu o acompanhasse.

Eu espero um pouco, então o sigo. De nada ia adiantar ficar parado na frente da entrada da cidade.

— Essa é a cidade pós-mortem, Vale dos Espíritos, uma das cidades do mundo dos mortos. É o local para onde aqueles que morrem vão. Seu espaço está sempre se expandindo e novas cidades nascem o tempo todo. Dentro dessas, há pessoas criadas apenas para facilitar a vida dos seus habitantes. Pense nelas como personagens de plano de fundo com algumas utilidades ou então NPCs*¹ dos jogos que você jogava. Ele disse: — Eu era um humano na Terra. Se não me engano, morri no ano de 1878. Meu nome é Charles e fui apontado para te ensinar como viver no mundo dos mortos. Alguma pergunta de imediato? – Ele havia me explicado tanta coisa, mas nada que eu não pudesse digerir. Já tive tempo para aceitar minha morte na Terra, só restavam duas perguntas na minha cabeça.

— Primeiro, quem era aquele que me trouxe aqui? Deus? – Eu perguntei, sempre falavam de uma luz no fim do túnel, mas nunca imaginei que ela pudesse ser os olhos de uma pessoa.

— Sim e não, sua concepção de Deus não é a mesma que a nossa. Existem vários Deuses e ele era apenas um deles, o encarregado de trazer os mortos para seu devido mundo, como disse primeiro. Imagino que tenha outras perguntas, pode perguntar. – Ele finaliza sua explicação.

— Eu não deveria reencarnar? Esquecer toda minha vida e reencarnar em um corpo novo? – Eu engulo um pouco de saliva, nervoso com a resposta que viria.

— Se você quiser, mas reencarnação não é feita da mesma forma que você pensa. Reencarnar seria o mesmo que parar de existir e poucas pessoas pensam nisso como a melhor escolha. Para criar uma nova vida a partir de outra, é necessário mais de uma pessoa, três pessoas no mínimo. Então, essas pessoas são desmanteladas e reconstruídas, como se fosse uma receita, e formam o mesmo número de pessoas que foram usadas a partir disso. Esse é o final de uma vida aqui no mundo dos mortos e o início de novas no mundo dos vivos, mas não é requerido que se faça isso para ter uma vida nova no mundo dos vivos. – Ao terminar a explicação eu fico um pouco aliviado com o sentimento de não ter que abandonar esse corpo, eu gosto de mim mesmo, não queria ter que perder isso também.

— Essas são minhas dúvidas, se surgir qualquer outra eu lhe comunico.

— Muito bem.

Nós continuamos a andar, a rua estava cheia de pessoas e ninguém parecia notar nada de estranho. Bem, várias pessoas morrem por dia, então acredito não ser uma ocorrência tão rara um novo habitante na cidade. Ficamos caminhando por um bom tempo, devem ter sido uns 40 minutos, quando chegamos em uma grande estrutura. Por que “estrutura”? Você se pergunta. Porque não tinha formato nem de prédio nem de casa, parecia um Coliseu, mas com seu teto fechado e dentro havia um grande saguão, que parecia ser apenas uma pequena parte do quanto seu exterior demonstra conter.

— Chegamos – Disse Charles – Esse é o centro de missões, o mundo dos mortos também tem um lar para aqueles que seguem o caminho do mal, daqueles que têm uma necessidade, um vício, que os fazem machucar outros. Quando algum desses seres consegue sair de seu lar, eles começam a maltratar o mundo. As missões são feitas para pessoas como você, que fizeram o bem em sua vida. – Nessa hora eu pensei na pessoa que eu quase atropelei e no meu irmão que eu salvei – Como você que escolheu a vida de outros no lugar da própria, pessoas com esse bem dentro de si são escolhidas para missões que ajudam o mundo dos mortos. Você aceita ter essa responsabilidade?

Com essa súbita pergunta jogada para mim, eu penso, e então falo.

— Aceito. – Eu aceitei porque não ia fazer diferença recusar, eu não teria nada para fazer nesse mundo e outra pessoa trabalharia no meu lugar. Ao menos, foi isso que pensei.

— Muito bem, bem-vindo ao centro de missões do Vale dos Espíritos. Você receberá missões para melhorar esse mundo a partir daqui, seja combatendo os seres do mal ou ajudando outros. Para isso, receberá um treinamento adequado de combate e de manipulação de energia. Energia é aquilo que todos os seres têm dentro de si, aquilo que move nós espíritos.

— Que tipo de treinamento seria esse? – Eu pergunto antes dele terminar de falar.

— Um que você nunca viu antes, isso eu posso garantir, mas começara amanhã. Por hoje, você deve ir dormir, pois começará a escurecer logo. – Ao me falar isso, me toco que realmente está ficando mais escuro rapidamente, para ser exato, o céu está metade branco e metade preto.

— Por que o céu está assim? – eu falo apontando para a divisória entre o preto e branco do céu.

— Imagine uma esfera, estamos dentro dela, metade dela é branca e a outra metade é preta. Simples, não? Quando chega perto da noite, a metade preta começa a cobrir o céu, quando chega perto do dia é a metade branca, entende?

— Sim, entendo.

— Muito bem, agora vou te levar até seu quarto.

Charles começa a andar e eu o sigo. Logo após entramos no salão do centro de missões e subirmos um andar de escadas, após algumas curvas chegamos em frente a uma série de portas. “Imagino eu que aqui seja meu quarto. ” Penso, então paramos e ele diz.

— Assim como pensou, aqui é seu quarto, número 217. – Ele aponta para uma porta.

Vou até lá e me encontro dentro do quarto, um pouco confuso, sento na cama.

— Parece que ainda tenho muito com o que me acostumar.

Essas palavras não deixam de escapar da minha boca.

*¹— NPC: Em inglês: non-player character ou NPC. É um termo utilizado em jogos que indica um personagem não jogável/manipulável, ou seja, é um personagem que não pode ser controlado por um jogador, mas que se envolve de alguma forma no enredo de um jogo. Ele exerce um papel específico cuja finalidade é a simples interatividade com o jogador.