O uivo
1 Capítulo 1
O UIVO
Aos poucos, ela foi recobrando a consciência. Cada vez que abria seus olhos esmeraldas, a mulher de tez morena e longos cabelos castanhos, deitada no chão frio daquele quarto, pedia que fosse tudo um pesadelo.
Se acreditasse em Deus, Consuelo poderia orar para acabar com aquilo, mas há muito tempo a jovem deixou de crer. Desde o dia que perdeu sua família de maneira abrupta e violenta, passou a questionar a existência de um Ser Divino, que permitia que coisas ruins acontecessem com pessoas boas.
O mesmo Deus que permitiu que homens encapuzados a dominassem com uma arma de choque e algum tipo de entorpecente, a arrastassem para dentro de uma van, numa fria madrugada de sábado, e a trouxeram para este lugar. Amordaçada, drogada, acorrentada.
A mulher ergueu seu olhar até o aço inoxidável em seus pulsos, impedindo que andasse livremente pelo espaço da sua cela, que tornou seu “lar” há tantos dias que nem conseguia mais calcular. Estava ali há dias? Semanas? Não sabia mais dizer.
O cheiro inconfundível de mofo misturado à sangue, seu próprio sangue, alcançava suas narinas causando um momentâneo mau estar. A escuridão amável, que lhe dava um certo conforto diante de tudo, foi dissipada por uma luz ofuscante que surgiu de repente, machucando seus olhos sensíveis e acostumados à penumbra.
Sua cela parecia um grande quarto com paredes que um dia já haviam sido brancas em sua existência, com uma pia do lado oposto onde pingava constantemente água por uma torneira velha, as janelas eram pequenas e estavam bem no alto das paredes, por onde a luz não tinha como passar por estarem cobertas com tinta negra. Os únicos móveis do local eram uma mesinha de instrumentos cirúrgicos e uma mesa metálica que já tinha visto antes em séries de policiais na televisão, onde legistas realizavam autópsias. Diante dela, havia uma porta de metal, a única coisa que parecia nova naquele lugar. Não havia nada ali que a ajudava a descobrir onde estava e como sair dali.
Novamente seu algoz iria entrar por aquela porta e recomeçar a sessão de tortura que se tornou corriqueira para a mulher. Novamente ele tentaria em vão dobrar sua força de vontade com seus jogos sádicos, a machucaria e quando se cansasse, a deixaria novamente no escuro, a alimentaria mais tarde e iria esperar o dia seguinte.
—Dormiu bem? – A voz rouca, com um sotaque que não conseguia identificar a origem, do seu “anfitrião” surgiu por uma porta que abria com um rangido denunciando as dobradiças enferrujadas que possuía, conseguia lhe incomodar mais que a luz forte, que a impedia de ver com nitidez a face do maldito que a prendeu, apenas suas roupas brancas que lembravam as de um médico. –Dormiu mais que o normal dessa vez. Cheguei a ficar preocupado que não fosse acordar mais, Consuelo.
O homem tentava criar um diálogo, enquanto colocava uma maleta sobre a mesinha de instrumentos. A mexicana respondeu com um suspiro pesado e impaciente, e uma tentativa frustrante de tentar arrancar a corrente que a prendia da parece, fazendo seu carcereiro dar uma risada abafada.
—Não percebeu que não tem forças para fazer isso? Por muito tempo queria te capturar, não poderia facilitar qualquer tentativa vã de fuga, não é? – Ele a provocou, enquanto arrumava o que pareciam ser instrumentos cirúrgicos em uma mesinha.
—Só me mantem aqui porque está me drogando de alguma forma. ME DEIXA IR EMBORA! –Esbravejou impaciente.
—Só estou tomando precauções, minha cara. Fico feliz em dizer que logo minha pesquisa estará completa e tudo estará acabado.
—Vai me soltar? –Perguntou, com um sorriso debochado, ciente de que isso nunca aconteceria.
—Certamente que não. –Ele riu. –Há planos para seu corpo quando eu terminar minha pesquisa.
—“Pesquisa”? Palavra interessante para classificar tortura. –Comentava enquanto esfregava os pulsos doloridos e marcados pelas algemas, fitando novamente seu captor. –Se não vai me soltar, poderia me dizer quem é você ao menos.
Pela primeira vez desde que chegou àquele lugar amaldiçoado, o estranho aproximou-se dela e retirou a máscara cirúrgica que ocultava seu rosto, ajeitando o par de óculos de aros negros sobre o nariz. Ele era um homem magro e envelhecido com um olhar frio e ameaçador sobre ela. Uma estranha sensação tomou conta de Consuelo. Parecia conhecer aquele homem de algum lugar, ou pelo menos tinha visto o homem antes.
—Não me reconhece mesmo?
O velho insistiu e diante da negativa de um menear de cabeça da mulher, ele afastou-se e pegou uma seringa vazia que havia depositado na mesinha e a encheu com um líquido amarelado, aproximou-se novamente dela e sem cerimônia alguma injetou o conteúdo desta diretamente em seu braço esquerdo por uma agulha. Consuelo gritou e o xingou em sua língua nativa, olhando com fúria desmedida para o velho, sentindo logo em seguida seu corpo ficar pesado e a vista turva, denunciando que fora novamente rendida por algum tipo de entorpecente injetável.
—Vamos colher as amostras agora...
Ouviu-o falar, pegando um bisturi e se aproximando da jovem mulher, segurando firme em seu braço esquerdo e cortando sem hesitação a carne e músculos de seu antebraço. Consuelo grita de dor e tenta em vão se afastar dele, mas o velho apenas observava e fazia anotações de suas reações. Pegou outra seringa da mesinha e recolheu uma grande quantidade de líquido vermelho, guardando em frascos numa caixinha logo em seguida.
—Meus chefes estão curiosos sobre sua raça. Querem saber mais sobre sua longevidade e resistência.
—Só isso? Era só me perguntar que eu responderia que tomo muita vitamina C pela manhã.
O velho ignora a provocação da mulher e caminha até a porta, abrindo e haviam outras pessoas com ternos esperando. O velho entregou àqueles homens a caixa com amostras de seu sangue e saíram logo em seguida, deixando apenas um para conversar com o raptor.
—Obrigado, doutor. Cumpriu sua parte conforme prometido. –Disse o homem com uma expressão séria.
—Sou um homem de palavra. –Respondeu entregando suas anotações. –Agora, posso ter meu pagamento?
—Quem... –a voz de Consuelo chama a atenção deles. –Seu cheiro... FORAM VOCÊS QUE ME TROUXERAM PARA CÁ.
—Calma. –O homem chamado Smith leva o dedo indicador aos lábios como se pedisse silêncio. -Não adianta gritar, ninguém pode ouvir seus gritos. -O misterioso homem olhou para a mulher caída e sorriu. -É toda sua. Já temos o que queríamos saber. Mas precisamos que esteja no laboratório na segunda feira.
—Estarei lá sem falta. –Disse o velho.
Enquanto conversavam, alheios à sua presença ou simplesmente por não a considerarem uma ameaça, Consuelo novamente tentava forçar seu pulso a se libertar da algema que a prendia. Focando toda sua força em seu braço direito, Consuelo tentava libertar sua mão. Ela pressionou o frio metal, sentindo as bordas afiadas machucando-a, cortando sua pele. Ignorando a dor e o sangue que começava a surgir da pele cortada, até finalmente retirou a mão toda marcada e arranhada da algema que antes a prendia.
O som de um gemido abafado dos lábios da mulher chama a atenção do velho por um instante, virando o corpo para observá-la, enquanto o outro homem continuava sua conversa. Consuelo escondeu com o próprio corpo o resultado de seu esforço, pedindo intimamente que o sequestrador não percebesse o que fazia.
Alguém lá em cima, se realmente houver alguém, deveria gostar dela. O velho voltou a atenção ao colega, deduzindo que tudo estava normal com sua presa, acreditando que o gemido de dor que ouviu deveria ser por causa do corte que havia feito por diversão em seu braço. Com isso, Consuelo voltou a atenção ao outro pulso, realizando o mesmo esforço para libertar-se logo. Ela tinha que se libertar agora.
Então seu captor retornou no momento em que Consuelo estava sentada no chão, libertando sua segunda mão. O velho entrou.
—Bem que o senhor Smith havia dito que estava se libertando antes de sair. –O velho não parecia intimidado ao ver a jovem levantar-se desajeitadamente, ainda grogue pela ação da droga em seu sangue. –Eu deveria ter considerado a sugestão de prender os seus pés também.
—Já chega... –ela disse ofegante, se apoiando na parede atrás de seu corpo. –O que quer de mim...?
—Henderson. –O velho respondeu e a garota arregalou os olhos, como se reconhecesse aquele nome. –Lembrou-se?
—Os Henderson mataram minha família... –a garota falou em um tom acusador, fitando o velho diante dela. –Ainda me lembro daquela noite... dos gritos de minha mãe e irmã, enquanto arrancavam seus corações... meu irmão e meu pai tendo suas cabeças cortadas...
—Eles não imaginaram que havia mais alguém na casa escondida.
Consuelo fechou os olhos, lembrando daquela noite terrível. Moravam em uma cidade do Novo México, longe de grandes centros urbanos, próximos à natureza, em um rancho. Havia nascido ali, e nunca imaginou que as pessoas que caçavam sua gente os encontraria lá. Tinha só doze anos e era a caçula, e a família havia acabado de jantar. Seu pai e seu irmão mais velho a distraiam com algum jogo de tabuleiro, enquanto a mãe e sua irmã arrumavam a cozinha.
De repente, seus pais sentiram algo errado. Perceberam que a casa estava cercada. O pai a escondeu em um fundo falso no assoalho da sala e ordenou que não saísse de lá ou fizesse algum barulho. Quando se preparava, junto ao filho primogênito, para defender sua família, a casa foi invadida. Com horror viu os homens dominarem com armas de fogo seus entes queridos e estes serem cruelmente assassinados. Em seus corpos atearam fogo. E a tudo faziam entre risos, comemorando.
Consuelo ouviu atentamente os nomes deles. Henderson. Uma família que dedicava seu tempo a vigiar as fronteiras para impedir que pessoas como ela chegassem na América. Eles se dedicavam a caçar e matar cruelmente seu povo.
Por quatro anos viveu longe da cidade, isolada, no deserto. Sobrevivendo e deixando seus instintos falarem mais alto. Quatro anos até se tornar mais velha e mais forte, e se vingar. Em uma noite caçou cada um deles, eliminando sua presença da face da Terra. Eliminou cada um deles... com exceção de um.
Houve um que ela não teve coragem de eliminar. Um menino de pouco mais de seis anos, que a fez hesitar quando o fitou assustado, encolhido e abraçando um ursinho de pelúcia, enquanto a via tirar a vida de seus pais com as próprias mãos.
—Henderson...-ela repetiu o nome com um sorriso. –Ah, era você o garotinho? Agora me lembrei de seus olhos. Não pensava em você há uns.… setenta anos.
—Ha, finalmente lembrou de tudo. – O velho manteve a voz surpreendentemente calma. — Você tirou tudo de mim, senhorita Maldonado.
—Acho que retribui o favor que sua família fez a mim.
—Eu sobrevivi a você, aos orfanatos onde me jogaram. Eu pedi que me deixasse participar da missão e em troca só pedi que tivesse a chance de me vingar.
—E eu achava que eu sabia o que era rancor... Diga-me, Henderson... É noite, não é?
—Não se esforce muito, logo perderá a consciência pelo ferimento e pela droga que apliquei em você. Aí terminaremos nossa pendência familiar. -O velho dizia, ajeitando seus instrumentos. –Aprendi mais sobre sua raça nesses dias mais do que séculos de estudos de minha família.
—Você passou sete décadas da sua vida apenas dedicado a me caçar? –Consuelo perguntou, mas foi ignorada por Henderson.
—Meu intelecto me permitiu estudar em boas escolas, me formar, encontrar outros iguais a mim e te encontrar. Minha vida toda me dediquei a procurá-la. Há alguns anos observávamos você. Meus superiores cogitaram a ideia de te deixar em paz, já que não ficava mais do que dez anos em cada localidade que morou e nunca se envolvia com a população local. Te considerava inofensiva. Mas eu sabia que isso não era verdade. Eu vi o animal assassino que você é... que todos iguais a você são.
—Sua família matou a minha. Meus pais nunca fizeram nada de errado. Eles foram mortos por serem diferentes de vocês.
—Não! –Henderson se alterou. –Vocês são monstros! Você e sua espécie são assassinos, alimentando-se da raça humana. Nenhum de vocês, Cães do Inferno, deveria ter existido!
As palavras de Henderson tiveram um efeito avassalador em Consuelo, que se moveu a uma velocidade incrível, segurando o pescoço do idoso firmemente com uma das mãos e a outra fazendo-o soltar o bisturi que carregava.
—Os humanos são os monstros! –rosnou Consuelo. –Matam e torturam por preconceitos e diversão! Destroem tudo o que a natureza lhes dá, matando as criaturas que já viviam aqui antes mesmo que sua raça ou a minha existissem. Nós caçamos sim para nos alimentar, nunca por diversão! – À medida que falava os olhos antes esverdeados vão se tornando rubros, presas se formaram em sua boca, ameaçadoras e afiadas contra os dentes normais restantes. –Por milênios vivemos em harmonia com a natureza, até que sua raça saiu das cavernas e começou a destruir tudo o que tocavam e não compreendiam. Sua maldita família e outras tentaram nos levar à extinção, mas aprendemos em nossas longas vidas a nos misturar entre vocês e a viver em paz. MAS VOCÊS NUNCA ACEITARAM ESSA PAZ!
Consuelo ergue o velho acima do chão, este tenta se soltar da mão poderosa que o segurava em vão. De outra sala, um grupo de homens assistia a tudo impassíveis por um monitor de uma câmera de segurança oculta.
—Caçadores arruinaram vidas, destruíram famílias. Quanta dor já causaram ao meu povo? Já se perguntou? Passei anos como um animal no deserto, me alimentando de carcaças depois daquela noite. Tinha vergonha do que havia feito, de ter me tornado igual a vocês. –A pressão na garganta do velho ia cedendo e ele sentia os pés tocando o chão novamente. –Até encontrar alguém da minha espécie que me salvou e me fez recuperar minha sanidade. Prometi que não mataria novamente, a não ser para proteger outras pessoas.
—V-vocês são monstros... –Henderson colocou a mão sobre o peito, sentindo uma dor aguda. –m-minha pesquisa vai mostrar como impedir que vocês...se... se espalhem pela Terra novamente.
—Não, não vai. –Consuelo o soltou e o velho cai ao chão, sentindo o peito arder. –Você não vai sair daqui vivo, Henderson. E nem preciso fazer nada contra você mais. Hoje vamos acabar com esse ódio todo que sente por mim. Mas... seus amigos é outra coisa.
—M-Maldito Cão... do inferno.
—Não me respondeu. É noite lá fora?
—S-sim.
—Lua cheia? –Ela o fitou com um sorriso frio nos lábios antes de passar ao lado do corpo do velho que já dava o último suspiro, vitimado por seu coração velho, assim que a mulher atravessava pela porta em direção à liberdade.
Do lado de fora de um enorme barracão no meio de um campo, três homens levavam pastas e um notebook para dentro de um carro negro apressados.
—Senhor Smith. –Um deles chama o que seria o líder daquela equipe. –Devemos chamar reforços?
—Não, ela vai ficar ocupada com o velho um tempo. –Smith respondeu, segurando a caixa com as amostras de sangue. –Vamos embora. Temos que entregar o trabalho de Henderson à Cúpula e...
Súbito, os outros homens ficaram pálidos de medo ao escutarem um uivo assustador que havia congelado suas almas e logo perceberem a presença de uma criatura enorme e coberta de pelos que saiu de dentro do barracão, e a uma velocidade fora do normal, venceu a distância entre eles se colocando logo atrás de Smith.
A criatura erguia seu grande tamanho, chegando a mais de dois metros de altura ao ficar ereto sobre as patas traseiras. O ser, que lembrava um lobo gigante negro, fitava os homens com os olhos vermelhos fazendo Smith dar passos vacilantes para trás deixando a caixinha com as amostras cair ao chão.
Um dos homens tenta sacar uma arma, mas a criatura o impede ao atravessar seu peito com as garras afiadas e com um movimento joga o corpo para trás como se livrasse de um rejeito. O terceiro larga a arma ao chão e corre pelo campo desesperado deixando o parceiro para trás.
Smith até aquele momento nunca havia lidado com um licantropo pessoalmente, sempre havia feito o trabalho burocrático e de apoio aos caçadores, trabalho de campo não fazia parte de suas atribuições. Ver a licantropo matar um dos caçadores que o acompanhava com tamanha facilidade fez o homem cair ao chão trêmulo de medo e gritar.
—Calma.—A criatura dizia, levando o dedo indicador aos lábios caninos como se pedisse silêncio. -Não adianta gritar, ninguém pode ouvir seus gritos.
FIM...
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