O sorvete

1 Capítulo 1


Me lembro que era um dia quente, eu andava na rua como quem não quer nada, mas na realidade estava tentando convencer a mim mesmo que tomar um sorvete em plena quarta-feira antes do almoço não seria a pior ideia do mundo.

Tecnico Marcos diria que seria sim, a pior ideia do mundo. Ele me diria sobre todas as formas que isso poderia acarretar danos para o meu peso e a categoria em que eu luto. "Hábitos ruins são fáceis de criar e difíceis de quebrar. Esse sorvete hoje pode muito bem virar um sorvete todas as quartas feiras e depois todos os dias" escutei sua voz em meu cérebro. Mas entre na sorveteria mesmo assim, o meu ato de rebeldia fazendo com que eu, em plenos 25 anos de idade, me sentisse um adolescente bebendo pela primeira vez escondido dos pais.

Eu olhei em volta da sorveteria — em parte para ter certeza que meu técnico não pularia de traz de alguém de repente me perguntando o que eu estava fazendo ali.

Em uma mesa do canto dois adolescentes pareciam estar em um encontro pelo jeito estranho que evitavam olhar nos olhos um do outro e encaravam os sorvetes. Mais a frente um homem e uma mulher conversavam animadamente, pareciam amigos próximos pelo jeito que riam e se falavam com familiaridade. E mais distante ainda uma moça tentava ajudar duas meninas gêmeas que pareciam ter cerca de 5 ou 6 anos a comer sorvete sem sujar completamente suas roupas.

Me fui em direção ao caixa pensando em o que ia pedir. Eu tinha duas opções, pegar apenas uma pequena bola para satisfazer essa minha vontade espontânea de comer sorvete. Ou eu podia extrapolar completamente, quem sabe um milkshake bem grande. Afinal, já que eu ia sair da dieta mesmo, porque não sair direito?

Decidi estrapolar, de alguma forma meu técnico ia descobri mesmo então melhor fazer valer a pena.

Foi quando olhei para o lado e vi que congelei e todos os meus pensamentos de sorvetes, técnicos e adolescentes em seus primeiros encontros se foram.

Substituidos por um terror intenso e um medo pelo futuro que não sei como descrever. Sei que nunca me senti mais ameaçado na minha vida do que naquele instante.

Na televisão no topo anunciava-se o resultado das eleições: Jair Bolsonaro seria o presidente pelos próximos quatro anos.

Virei as costas, enjoo substituindo minha necessidade de tomar sorvete. Nas ruas eu podia ver o pânico escondido nos olhos de muitos que tinham acabado de ver a mesma noticia que eu.

O que fazer?

Me lembrei que recusei na semana anterior uma proposta de me aposentar mais cedo e virar técnico em Portugal. Técnico Marcos tinha me encorajado a continuar lutando por mais alguns anos, meu corpo ainda em forma.

Peguei meu celular para mandar um e-mail, estaria a oferta de pé?

Notas finais
I regret nothing
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!