O silêncio dos inocentes
1 She laughs like God
Notas iniciais
Desde pequena, Aurora viu o mundo apenas como um teatro. Pessoas subiam ao palco, se apresentavam e contavam suas verdades, mentiras e maneiras de convencer alguém com ambas ou só uma. Ouvia em silêncio desde o incidente com suas cordas vocais serem definitivas.
Era isso o que ela sabia fazer de melhor, ouvir e prestar atenção no que acontecia, observar era seu forte, mas se colocar no meio não. Por que deveria? Seria covarde demais não querer se intrometer quando o assunto não chamasse a ela com urgência?
Em silêncio viu sua mãe escutar sobre ter uma filha negra, ser censurada por ser mãe "solteira" e não ter um pai para seus filhos. Olhava com atenção as pessoas admirarem os olhos azuis lindos de seu irmão mais velho, mas com espanto para a garotinha de cabelos cheios pelos cachos, a pele negra e o mesmo olhar azul que o irmão.
Nem sempre foi assim, poucas palavras poderiam ser ditas com um máximo de esforço. Ela conseguia parcialmente falar algo, mas não se esforçava por conta do tratamento. Quando se é criança, não se precisam de tantas palavras quando se vai brincar com outra criança, a não ser que tenha uma historinha a ser contada.
Então ela ouviu a história dela, as gêmeas Maria e Elizabeth Thorpe. Não precisou apenas ouvir a história, o pai delas berrava de raiva quase toda noite, algo se quebrando ecoava na rua silenciosa e alarmava Aurora, essa que corria até o quarto da mãe, Jeniffer Scott Kenway.
Mesmo agora com dezenove anos, se lembra com clareza das luzes vindas do carro da policia, o pouco caso que eles fizeram com o ocorrido e pela janela do quarto junto de seu irmão Edward, Aurora pode ver o horror e medo no rosto mãe das gêmeas. Ela queria gritar para que aqueles policiais estúpidos não irem embora, mas a ironia era justamente essa, não podia.
Suspirou e sentiu o corpo gelar com o frio, se lembrava de tudo isso novamente por estar voltando da visita ao hospital psiquiátrico. O tratamento com Maria estava melhorando ultimamente e as visitas a antiga amiga de infância de tornaram menores, atravessar dois estados e ficar um tempo na casa da mãe não era tão economicamente viável, mesmo que seu tio Haytham tivesse disponibilizado um pequeno apartamento a quadras de distância da faculdade dela e do irmão, ainda não era economicamente legal.
Pensava como a distância poderia afetar tanto uma relação. Gostava muito de Maria e não pode falar nada a ela quando sua irmã morreu, quando soube da morte da outra gêmea foi apenas depois de cinco meses. Era indelicado chegar de muito tempo e escrever ao invés de usar a pouca voz que tinha. Bem, poderia culpar a Charles sobre isso
Sentiu o celular tremer no bolso de seu casaco, uma mensagem de Malik sobre São Francisco e uma foto para deixar Aurora com inveja, um pouco, porque ele e Altair estavam sofrendo um pouco por conta da estação, então de todos os males, o tempo fazia a vingança da Kenway contra o Al-Sayf.
Malik. Lembrava que seu melhor amigo desaprovava totalmente as visitas de Aurora ao hospital psiquiátrico, a careta e face de decepção a abalaram, mas apenas um pouco. Sabia o que a outra tinha feito, mas não era realmente ela. Soava confuso e era, no tempo em que se via livre das provas do semestre, passava um tempo para ficar na casa da mãe e arrumar a casa dos Thorpe, já que a mãe de Maria estava sendo tratada com seu vicio não só com drogas, mas com a bebida.
|sinto muito não estar do seu lado e sujar sua cara com torta|
Essa foi a mensagem que recebeu depois da foto, estava tentando adivinhar se era Altair ou Malik, mas a confirmação só veio depois.
|relaxa, cabeça de vento, sou eu, a pessoa mais adorável desse mundo|
Definitivamente era o Malik.
|não é só por ser meu aniversário que deixaria você borrar minha dignidade|
Respondeu de volta e dessa vez o retorno foi rápido. Olhou para os lados, o metro estava consideravelmente cheio aquele dia, não era horário de pico, mas ainda haviam estudantes do colégio ou faculdade ali.
|só tô preocupado. Kadar viajou pra França com aquele ventilador gordo|
|e restou a mim ser a mira da sua preocupação? que tocante, me conte mais|
|você já sabe de todos eles, querida Aurora|
|fico feliz em saber, adorável Malik|
E assim terminou a troca de mensagens, ela sabia que o Al-Sayf não ligaria para ela por conta do tanto que gastaria com o feito. Ele poderia adora-la, mas não pra tanto.
Chegando a estação que queria, faltava apenas pegar o ônibus para chegar no condomínio do prédio onde sua mãe morava. O trânsito seguiu tranquilo e pela janela, pode ver todos bem agasalhados, mas a vontade tocou ela para poder andar de bicicleta naquele frio, esquentar o corpo e esquenta-lo, comer uma sopa com bastante couve e um creme brulee feito por si mesma.
Andava com presa, chegando a entrada do condomínio e pegando a chave magnética que abrir a porta e entrando, vendo um morador chegar perto com outras pessoas para sair e não fechando a porta, os permitindo passar e se afastando, mas não tanto para conseguir ouvir o que falaram.
— Não acredito que deixaram o zoológico morar aqui.
Uma frase poderia ser levada pra vários sentidos. Uma pessoa mais cética declararia aquilo como banal, outra pessoa falaria que era um comentário infeliz e na última das pessoas vinha os que gritariam. Essa sempre era a ironia.
— Mais respeito, mãe.
Ela tinha parado no meio do caminho e se virou, o cenho franzido levemente e a face de "eu realmente ouvi essa porra?"
— Estou mentindo, Klaus? Vai que essa preta roubou a chave daqui, nunca se sabe a índole dessa gente.
— Ela mora aqui, eu conheço ela de vista — O filho da mulher rebateu.
— Amante de alguém, certeza — Retrucou.
Passos leves e o celular na mão, enviou uma mensagem pra sua mãe descer e falar com o porteiro urgentemente e não deu tempo de explicar nada, apenas se aproximou o suficiente e cutucou o ombro da mulher.
— Você? — Ela a olhou com claro desprezo.
Aquele olhar não era novidade para Aurora, muitas das "amigas" de sua mãe a olharam da mesma forma até sumirem dos contatos e pessoas para mandar o cartão de natal. O olhar de que parecia ter voltado para o século XIX, na Guerra Civil em Nova Iorque ou não havia como comparar. Mudava o mundo e tecnologia, mas não as pessoas.
— Desculpe por ela, Aurora — Seu vizinho falou e digitando rapidamente no celular, mostrou a tela do aparelho para ele, dando de ombro quando ele terminou de ler.
|tô acostumada, mas não esperava da sua mãe|
— O gato mordeu sua língua? — Zombou a senhora — É falta de respeito não falar com os outros dessa forma, se quiser falar algo, fale olhando pra mim.
"Desculpe, senhora, mas sou alérgica a gente ridícula" Aurora pensou, o cenho franzido e a leve vontade de rir da ignorância dela.
— Mãe...
— Nem defenda ela, fala na minha cara — Exigiu, os braços cruzados.
Aurora também cruzou os braços, o cenho franzido em desafio pra sua pessoa e em pensamento passava "não me provoca".
— O que está acontecendo aqui? — Um dos porteiros apareceu e quando Aurora achava que o assunto se encerraria e aquela mulher iria embora com uma cara feia, se enganou por completo.
— Essa preta está me provocando e me difamando — A senhora "explicou".
O porteiro olhou descrente para o que ela tinha falado e olhou para Aurora, essa que sustentou o olhar de "ela não tá bem não, viu?"
— Desculpe, Kevin — O vizinho Klaus falou, tentando tocar no ombro da mãe pra se afastarem, o que foi em vão pelo movimento dela afastar a mão do filho de si — É apenas um mal entendido.
— Se eu fosse você, checava se essa garota realmente mora aqui — Disparou.
Estava frio demais para ela conseguir segurar a mascara de quem não se importava, mas se importava sim. O que ela tinha feito pra atrair além de um comentário infeliz e aquela discussão?
Digitando novamente, mostrou a tela do aparelho por porteiro meio que explicando o que tava acontecendo.
|Eu só queria saber o porque do comentário infeliz dela sobre o zoológico ter deixado alguém vulgo eu morar aqui|
O porteiro nem pareceu ler tudo a tempo por uma mão pegar o celular e Aurora e taca-lo no chão, o quebrando. O susto foi tamanho que temeu por segundos o dedo apontado na sua cara.
— Vê se cresce e aprende a encarar os outros! Seu povo não fazia isso?
— Que porra tá acontecendo aqui?
Não precisava olhar de soslaio para saber quem era. Sua mãe, Jeniffer já estava do seu lado e afastando Aurora da mulher enquanto o porteiro e o filho daquela mulher faziam o mesmo com a outra.
— Mas que inferno, Kevin! O que tá acontecendo aqui? — Exigiu saber e Aurora apenas apontou para o celular no chão e para mulher.
— Para de apontar pras coisas e falar logo — Esbravejou a mulher, se soltando dos dois.
— Minha filha é muda — Jeniffer falou — E você acabou de quebrar o meio de comunicação dela, sua escrota — Rebateu.
Aurora apenas tocou seu ombro e negou com a cabeça.
"Não vale a pena, mãe"
— Espero que pague o que fez — Amenizou a voz, olhando para o vizinho Kevin e a senhora já alterada.
— Filha? Pagar? No inferno — Retrucou, se preparando para retirar, mas sendo segurada pelo filho — Vai me dizer que está do lado dela?
— Senhora, peço que aguarde aqui para chamarmos a policia, a câmera logo ali registrou o que aconteceu e seu filho e a senhorita Kenway são testemunhas — O porteiro falou.
Dessa vez Aurora não precisou nem observar, mas chegou perto do palco. Só ficou satisfeita em não ver os policiais fazerem pouco caso como antes, ainda bem que entre eles estava seu tio Haytham.
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