O segredo das sombras
1 Prefácio
Notas iniciais
Estava prestes a sair de casa, andou vagarosamente para que a sua mãe não a ouvisse, dava passos largos e inquietos. Desceu as escadas com a ponta dos pés para não fazer barulho algum, sua mãe costurava uma manta em seu quarto, portanto não poderia fazer barulho. Olhou para um relógio posto em uma das paredes da casa, marcava 14:23h, deveria se apressar, em menos de meia hora deveria estar em casa para não levantar suspeitas. Estava nervosa, nunca havia saído de casa sem pedir permissão, entretanto se solicitasse à sua mãe, esta a encheria de perguntas e a última coisa que desejava seria que esta soubesse que ela estava a caminho de Ellon. Caminhou vagarosamente até a porta principal e desejou com todas as forças que a maçaneta não fizesse um som alto, não o fez, a menina suspirou baixinho e saiu de casa, deixou a porta encostada para evitar sons excessivos, ela carregava uma antiga lamparina nas mãos.
A cidade estava adornada de laços escuros e fitas brancas. O dia do festival do eclipse estava próximo. A maior parte dos habitantes compravam suas máscaras e estes começavam a ficar animados pelos festejos que ocorreriam na cidade.
A menina começou a passar pela cidade e correu o mais célere que pôde, para que ninguém pudesse vê-la indo para a floresta. Ninguém podia vê-la indo para o local amaldiçoado.
Ao entrar nela, seus olhos não mais enxergavam, o mundo escureceu. Principalmente por ter saído de um local claro e ir para a escuridão eterna da floresta. Deu seus primeiros passos adentro da negritude, o solo era seco e poeirento, algo incomum para um bioma daquele gênero.
Não ouvia absolutamente nada. Os troncos grossos, negros e tortuosos das árvores inibiam o som. A copa das árvores era densa, tão inexplicavelmente densa, que a luz não transpassava por entre elas, nem mesmo o som transpassava por entre esses caules grossos e labirínticos, havia somente total escuridão e silêncio, além da solidão tétrica e aterrorizante de Ellon.
A menina pegou uma caixa de fósforos de um dos bolsos do vestido, retirou um palito de dentro e acendeu-o, o som do mesmo foi como um estrondo devido ao intenso silêncio que reinava. Ela acendeu a lamparina, vagarosamente e logo começou a caminhar pela trilha de pedras brancas, vagamente e inexplicavelmente incandescentes, sem se distanciar das mesmas nem mesmo um centímetro, pois sabia o quanto aquela floresta poderia ser ameaçadora. Chamava pelo menino que morava por lá, resposta alguma era ouvida.
– Ricky! – Gritou enquanto posicionava a lamparina em um melhor ângulo.
A escuridão daquela densidade arbórea bloqueava a maior parte da visão da menina, ela mal conseguia ver o que estava sendo iluminado pelo lampião, mas ainda persistia em achar o menino. Seus passos eram curtos e estremecidos e ela sentia certo desconforto por andar por aquelas árvores, conhecia as lendas dos que passaram por lá e não voltaram. Não cria muito nisso, todavia tinha de admitir que a aura daquela floresta era intrigante... Estranha até.
Andara por alguns minutos, começava a cansar-se, e o receio que sentia se transformava cada vez mais em medo, a cada segundo que se passava. A menina vira uma luz, no fim do mar enegrecido que se tornara o ar da floresta.
Entre um espaço livre da copa das árvores de Ellon, onde a luz do sol já conseguia atravessar, ela achara a casa do menino. Era uma casa de dois andares totalmente feita de madeira, aparentava ser recém-construída. Acima da casa, não havia copa, não havia árvores, havia apenas o céu, límpido e azul que sempre permanecia estagnado no alto.
Olhou para cima e seus olhos arderam. Viu o céu, e olhou novamente para a casa. Havia um grande espaçamento sem árvores onde a casa estava, com exceção de uma árvore que ficava próximo a uma das janelas da casa.
A menina seguiu até a porta da frente, onde chamou por Ricky algumas vezes. Ela não ouviu nada, olhou para as janelas e não havia nenhum sinal de que havia alguém na casa. Deu meia volta e começou a trilhar os passos de retorno. Ela olhou novamente para a casa, uma sombra passou por uma das janelas do segundo andar. Ela escalou a árvore próxima à janela para observar quem estava por lá. Era Ricky.
O que a menina viu foi algo perturbador... a negritude começava a consumi-lo, sua pele ia enegrecendo, vagarosamente.
A menina deixou um agudo silvo escapar pelos seus lábios, mas rapidamente tapou os mesmos com as duas mãos. Os seus braços tremelicavam e ela acidentalmente deixou um de seus braços esbarrar no galho fazendo um estardalhar que despertou a atenção do menino.
Ele olhou para a janela, e a menina estava estática, permaneceram-se em silêncio por alguns segundos, até que a garota, repentinamente, pôs-se a descer rapidamente da árvore e correr. O mais célere que pôde.
O menino a seguiu.
A menina arquejava, cada vez mais. Correu o máximo que pôde.
Seu corpo estava prestes a abandoná-la, e ela caiu debilmente.
Sentiu o sangue escorrer no seu joelho.
Por fim o menino a achou.
A menina tentou se levantar, entretanto, ele já estava próximo demais.
Um grito estridente e aterrorizante foi ouvido.
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