O sabor da lembrança
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Cheguei com meu conto para o desafio do grupo Caneta Tinteiro de fevereiro, cujo tema (olha eu usando pronome relativo nas notas hahahah) deixei explicadinho no índice.
Faz muito tempo que não escrevo em terceira pessoa, espero que não tenha ficado esquisito.
O texto possui trechos confusos e contraditórios, mas tem uma razão de ser assim.
Boa leitura.
Ela não queria estar ali. Ou talvez não se lembrasse que queria. Estava meio indiferente e um pouco alheia ao que acontecia ao seu redor naquele momento. A senhora Aurora, há algum tempo, andava confusa.
Num instante, o ambiente cheio de burburinhos de uma clientela animada, onde mesas num tom claro encontravam-se forradas com delicadas toalhas e cercadas por cadeiras confortáveis, lhe pareceu muito familiar. No momento seguinte, no entanto, teve certeza que nunca estivera ali antes. Ao observar os pequenos quadros dispostos nas paredes do restaurante, com vasinhos de flores em cores suaves e alegres, voltou a acreditar que conhecia bem o lugar e que havia um bom motivo para estar sentada à mesa àquela hora da manhã. Ou talvez — suspeitava — já fosse início de tarde.
Seus olhos experientes cercados por profundas rugas escrutinaram uma figura feminina ao seu lado. Teve vontade de dizer a ela que queria ir embora, estava cansada e não entendia por que tinham ido àquele lugar para começo de conversa. Queria voltar para casa que, infelizmente, não lembrava se ficava em cima do estabelecimento ou do outro lado daquela rua. Contudo, a incapacidade de lembrar também do nome da pessoa ao seu lado lhe despertou certa vergonha. Ela adiou a ideia de ir embora até esquecê-la, algo que aconteceu rápido pois se deu conta de que, na realidade, estar ali tinha sido sugestão sua.
A mulher ao seu lado, cujas roupas possuíam um tom predominantemente claro, ajeitou o casaco da senhora Aurora com delicadeza e sorriu de um jeito atencioso para ela. Esse gesto lhe trouxe a frágil memória de algum momento vivido mais cedo, quando teve ajuda para se vestir e calçar os sapatos depois de um banho revigorante assistido de perto. Cinthia — agora lembrava seu nome — era sua cuidadora. Já há algum tempo, só não tinha condições de precisar quanto porque sua memória andava cada vez mais traiçoeira.
De repente, a senhora Aurora sentiu um cheiro saboroso e quente no ar e parou de observar a sua cuidadora e grande amiga. Só depois de algum tempo percebeu que as duas tinham companhia agora. Um homem jovem, alto e muito bonito havia se aproximado da mesa em algum momento e colocado diante delas duas xícaras com algo fumegante, além de uma porção generosa de algo que ela deduziu ser bolinhos de chuva.
Adorava bolinhos de chuva. Aurora ficou muito feliz por se lembrar desse detalhe.
Teve vontade de agradecer ao desconhecido que devia trabalhar ali. A dificuldade em formular as palavras certas levou à desistência logo depois.
A visão, que já não era mais a mesma havia muitos anos, se fixou no semblante dele por alguns instantes. A senhora Aurora ficou intrigada quando ele sorriu com carinho, puxou uma cadeira e sentou de frente para ambas. Ficou ainda mais chocada quando reparou numa terceira xícara diante do homem que logo a levou aos lábios e bebeu.
Não entendia que tipo de funcionário era aquele. Talvez fosse algum amigo de Cinthia.
— Eu vou contar uma história. Uma história só não, uma receita — o homem anunciou com um olhar penetrante, depois de tomar mais um generoso gole do que ela acreditou ser café. Ou talvez fosse chá mesmo. — Quando era criança, um menino muito levado, eu tinha um anjo que sempre cuidava de mim quando meus pais não podiam estar por perto.
A senhora Aurora perdeu um pouco da concentração quando Cinthia aproximou a xícara da sua boca, oferecendo a bebida já não tão quente de uma maneira gentil e cautelosa.
— Obrigada, minha querida. Obrigada — conseguiu dizer ao final, dando alguns tapinhas na mão da cuidadora.
O homem aguardou pacientemente até que os olhos da experiente senhora se fixassem nele mais uma vez. Então prosseguiu com o tal relato:
— Quando eu me sentia sozinho, esse anjo me mostrava que eu nunca estaria sozinho de verdade. Quando eu acordava com medo de algum pesadelo, me dizia para não temer nada porque estava bem ali comigo e sempre estaria para me proteger. Brincava à exaustão e voltava a ser criança comigo correndo pelo quintal e pela casa. Me deixava comer a sobremesa antes do jantar e eu sempre serei grato por isso. E, uma coisa que eu nunca esqueci nem vou, ela fazia o melhor e mais gostoso bolinho de chuva que eu já comi em toda a minha vida. Eu copiei a receita e ela virou uma especialidade desse restaurante, sabia?
A senhora Aurora não entendia por que aquela história estava começando a embaralhar sua visão. Seus olhos ardiam como se ela quisesse chorar, embora no fundo se sentisse misteriosamente feliz. Tão feliz quanto o rosto estranhamente familiar na sua frente também parecia estar.
Então ele pegou um dos bolinhos de chuva do recipiente no centro da mesa, levou à boca da senhora e depois que ela comeu, prosseguiu:
— Ela dizia que a receita não era só misturar tudo. Não era só farinha de trigo, açúcar, leite, ovos, tampouco apenas o fermento. Tinha um ingrediente extra que ela sempre misturava à canela em pó e ao açúcar para polvilhar os bolinhos no final de tudo. Sabe como o meu anjo chamava esse ingrediente especial, dona Aurora?
Um sorriso sereno surgiu no rosto dela enquanto os olhos do homem brilhavam emocionados com uma ansiedade crescente.
A resposta soou baixinha, mas com muita convicção:
— Amor.
O homem, dequem até poucos minutos não se recordava, sorriu com satisfação, visível alívio, e segurou as trêmulas e envelhecidas mãos dela sobre a mesa.
— Exatamente, vovó. Amor. O ingrediente mais especial do mundo, que torna tudo mais doce e leve, inesquecível. Foi isso que eu coloquei aqui para a senhora. — Ele indicou o recipiente com os bolinhos e, em tom de desafio, indagou em seguida: — E sabe qual o sabor que essa receita tem pra mim até hoje?
Aurora teve a impressão de já ter ouvido aquela parte antes. Teve certeza logo depois. Um lampejo de memória ganhou nitidez e venceu, pelo menos naquele efêmero momento, a doença cruel que debilitava sua mente há anos. Ela se agarrou à lembrança de um tempo antigo e feliz com todas as forças que conseguiu reunir e soube exatamente o que ouviria a seguir. Decidiu se antecipar e responder por si só:
— Sabor de lembrança, Carlinhos. — Seus dedos tocaram carinhosamente o rosto familiar na sua frente. — De uma doce lembrança que sempre será nossa, meu netinho querido...
Ele apertou a mão dela com mais vigor e assentiu com um meneio de cabeça. Depositou um beijo demorado e respeitoso em seus cabelos totalmente brancos ao se levantar. Afastou-se a fim de conter a forte emoção que sentia e foi tocar o restaurante cujo nome era uma homenagem à avó: Cantinho daAurora.
Ele tinha consciência de que no dia seguinte contaria a mesma história, no mesmo horário e naquela mesma mesa, para a mesma senhora de expressões cândidas que foi tão importante em sua infância e que sempre seria por mais que ela esquecesse dele com frequência.
Tinha esperança que, dia após dia e mais uma vez, a avó se lembrasse dele sempre que ouvisse aquela mesma receita. Que o sabor doce da lembrança infantil e o ingrediente especial entre eles nunca fossem totalmente esquecidos.
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