O rastro de seu perfume
1 Capítulo 1
Pode ser que não seja certo, muito menos seja algo coerente. Pode ser que as pessoas se recordem de algumas cenas e jamais saibam quem somos e que fazemos parte de uma história secreta. No fim das contas, acabaremos eternizados em linhas e entrelinhas, em versos rimados ou não, perdidos por um momento de distração. O dia chega, o dia vai; a noite chega de mansinho e logo cai. Nem sei porque prestava tanto atenção na janela de seu apartamento aquele dia. Talvez soubesse que aquelas seriam minhas últimas lembranças e eu as queria eternizar sem sequer compreender essa necessidade. Pois bem, tudo chega ao fim. Não foi planejado, eu juro! Não culpo ninguém, ninguém além de quem fez com que meu corpo desaparecesse do mundo. Fora isso, todos são inocentes até que provem o contrário.
Nunca pensei que alguém pudesse morrer de amor. Sempre pensei nisso como alguma idiotice narrada em livros de romance e dramas clichês. De qualquer forma, estou relativamente morta e pode ser que tenha morrido de amor, ou não! A verdade é que ninguém sabe ainda o que é real ou não. A essa hora, todos ao meu redor estão acordando e dando o primeiro passo para enfrentar o seu longo dia. Creio que os olhos já estejam abertos, as pálpebras ainda pesam e se arrastam preguiçosas sobre os orbes. São tão traiçoeiras que podem muito bem embalar sua vítima no sono profundo e adiar seus planos. Sei que alguns de meus amigos afastarão o sono com uma digna caneca de café forte e amargo. Servirão sua dose e acabarão por sentar em suas cadeiras; alguns lerão jornais, outros assistirão tevê enquanto o líquido fumega e firma uma delicada cortina acima da porcelana. Essa visão é linda, tão linda que nem sei a razão pela qual deixamos esses detalhes escaparem por nossos dedos.
Nunca fui do tipo que pensa demais sobre a vida. Nunca vi necessidade de tantos pensamentos, reflexões e a razão pela essência de meu ser. Sabe aquelas crises existenciais que todos os adolescentes têm? Eu pulei essa etapa. Não porque minha vida tenha sido perfeita, somente porque não queria mais perder mais tempo que o necessário com questões simples. O que nos torna jovens? O que nos torna velhos? O que nos leva a crer que a idade pode valer de alguma coisa nesse mundo? Nem sempre números são importantes e eu descobri isso da melhor maneira possível, ou seja, na prática. De todo modo, isso não vem ao caso agora. Quero dizer, pensei bastante ao me sentar no banco da frente daquele carro e nem sequer sabia o que me aguardava depois disso. Eu queria ter ficado, mas estava tarde demais para prolongar meus minutos, talvez até para prolongar meus últimos suspiros.
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