Notas iniciais
Foi um pedido feito por um usuário do Amino, então tive o total prazer de escrever algo desse gênero, mesmo nunca tendo o feito antes, acho que não está tão ruim assim, mas tenho minhas sinceras inseguranças. SHSHSH' Em momento algum estou romantizando ou glorificando os atos retratados nesse texto, afinal sei o quão é ruim lidar com esse tipo de situação. Caso esteja passando por isso, recomendo buscar ajuda profissional e pessoas com quem você possa contar, de sua confiança. Desejo uma boa leitura e se cuidem, afinal alguém se importa com você. ♥ [recomendo ter assistido ou lido a parte 05 de JJBA, pois o texto está repleto de spoilers.]

Durante o silêncio noturno, soava cabível entender que era tarde da noite.

Isso pude espiar cuidadosamente de soslaio, percebendo no relógio digital que se acomodava na mesa de madeira refinada, apontando por volta de 04:00. Os números eram sequencialmente vermelhos, não muito diferente da cor de meus olhos naquele momento. As paredes do quarto escuro rangiam calorosamente, mas nem nove cobertores eram capazes de realizar meu resguardo daquele maldito e precário frio imensurável que eu sentia. Como se um soco tivesse atravessado pelo meu peito, as palavras não conseguiriam descrever o quão horripilante e vazio meu corpo estava.

O sono não se achegava, nem se prestasse uma prece. Os dias parecem apostar entre si qual deles me causariam mais insônia derradeiramente indescritível: Eu não conseguia dormir, por conta de tudo que passou. E minha imaginação parece rir de minha insolência: Ser um gangstar não era tão fácil. Mesmo que tenha conseguido realizar o grande desejo de cessar a comercialização de entorpecentes— drogas, para ser mais específico – para crianças. Após esse empreendimento, as responsabilidades avizinharam-se sem discriminação alguma.

Que desgraça.

Um soluço ecoou por todo o cômodo, fazendo-me estremecer sorumbaticamente contra a cabeceira da cama. Sinto meus ossos remexerem e rangerem ruidosamente, ao movimentar os ombros. Por que eu estava frágil diante dessa situação? As lágrimas assemelhavam-se à penedo, doendo apenas por ousar fechar os olhos e as deixar transcorrerem pelo meu rosto. As fungadas e os leves murmúrios que escapavam involuntariamente de minha existência eram dolorosos, eu estava confuso.

Isso era chorar? Após todo esse período segurando as próprias angústias, reconheço enfim a sensação que é pura e inocente aos olhos das pessoas. Não é justo, queria poder estar chorando de felicidade genuína.

As horas pareciam não passar: Ainda era 04:05. O período noturno tem sido lentamente duradouro e os dias de sol parecem tentar agarrar-se a algo para durar mais um pouco, mesmo que seja inútil. A madrugada chega para todos. Essa situação é humilhante para alguém que sempre buscou viver unicamente todos os dias, afinal essas noitadas têm sido o mesmo filme de terror.

Pavor. Horror.

Meus dedos trêmulos manejam receosamente a navalha no meu pulso direito, ousando encostar o aço gélido na pele, fazendo-me ofegar pelo resultado. O líquido rubro esvaía-se pela pequena abertura recém franqueada, escorrendo paulatinamente até pequenas gotículas pingarem no cobertor alabastrino da cama. A primeira vez doeu muito. No entanto, ao acostumar-se com pequenos cortes causados por si próprio, isso se tornou mais frequente. Facilmente conseguia apontar diversas cicatrizes deixadas ali e era estranhamente prazeroso estar tão demarcado.

Nada parecia saciar essa vontade insana. A lâmina se aprofundava cada vez mais, permitindo que o sangue desbravasse com mais insolência e atrevimento pela extensão do meu corpo. Os cortes simultâneos pareciam vibrar sutilmente conforme maior a abertura e, oscilantemente, solevo a proveniência sangrenta sempiterna até minha boca, entaramelando a língua vagarosamente pela ferida, sentindo a ardência consumir o interior. Pequenos queixumes escapavam de meus lábios, forçando-me a vedar os olhos.

Nessas horas, eu agradecia por estar sozinho. Imagino que seria difícil explicar o que diabos o chefe da máfia estava fazendo se automutilando. Ao invés de se divertir com bebidas e mulheres, o único entretenimento era descobrir quantos litros de sangue iria conseguir consumir com uma única lambida, antes de sucumbir por cortar errado e atingir uma veia.

Mórbido, Giorno Giovanna.

Não sou de negar o direto das pessoas ao expressarem suas opiniões e, eventualmente estarem corretas. Talvez o ponto de vitória fosse de Abbacchio: Eu nunca estive em posição alguma de assumir tamanha responsabilidade. Todas aquelas frases rudes talvez fossem uma veleidade grosseira e autêntica. Por que pensar nele? Poderia estar pensando no Bucciarati, o homem que me proporcionou a realização do meu profundo sonho e morreu no cruel processo. Fingir indiferença nessa situação só aumenta o peso e a profundidade dessas lágrimas, que parecem pesar cruelmente meu coração e minha mente. Passo a mão lesionada no rosto, na tentativa de alentar meu pranto.

“Vamos, Giorno. Isso não é nada comparado ao que você passou.”, teimosamente cicio, tentando engolir à seco. Em meus pensamentos imaginava que acaso eu deitasse igual à quando era mais novo, talvez o sono se aproximaria. É. Ou colocar na cabeça que estava sozinho e poderia apenas contar comigo mesmo, me convenceria a largar essa lâmina e fechar os olhos. Que vergonha alheia. A navalha fora aprofundada incautamente na zona traumatizada, deixando com que um estrépito rouquenho escapulisse de minha garganta. O flácido carminado debulhava briosamente por toda coberta, forçando-me a ficar de joelhos, cingindo o braço ensanguentado, enquanto resmungava e pronunciava diversos xingamentos.

Boa, Giorno. Boa. Olha só o que você fez.

O quão ridículo pareço agora? Digno de julgamentos. Bucciarati deve estar se rastejando pelas paredes enquanto sentencia negativamente minha reputação, onde quer que esteja. Posso pressupor que Narancia e Abbacchio estão rindo da minha cara, igualmente. Estou patético. Parecendo um moleque fazendo birra, completamente sujo e desarrumado. É um vexame estar nessa posição. Eles tiveram que morrer para que eu chegasse aonde estou. É assim que retribuo? Que cômico. Se fosse assim, era melhor eu ter morrido no processo de ascensão à chefe da máfia.

Morrer.

Desfalecer.

Era melhor.

Essas palavras não saem de minha cabeça. Mesmo que tenha sobrevivido a tudo, estou desejando minha própria morte com o decorrer dos dias. Esse aperto no peito se torna cada vez maior, me fazendo ambicionar gritar aos quatro ventos o tamanho sofrimento que sinto. Nada alivia minha angústia. Vacilantemente a mão direita alcança a navalha, tentando desferir as incisuras no pulso esquerdo. No entanto, os manejos soam aleatórios, assemelhando-se à uma criança brincando de cortar massinha. Os intervalos entre os cortes são curtos, pois eu precisava ansiosamente disso. A dor física é mais aturável que a emocional; afinal o Golden Experience fecharia essas feridas.

O quão tolo poderia ser, ao achar que um stand desses poderia salvar totalmente as pessoas? Bucciarati era a prova viva de que meu poder era efêmero. Foi necessário perder também Narancia e Abbacchio, para que entendesse a findável durabilidade dessa experiência áurea. Aquelas flores despostas em seus corpos dormentes foram uma representação simbólica de que tudo um dia se extingue. Indago se valeu a pena tamanha imprudência. Irresponsável.

Eu sou Giorno Giovanna e tenho um sonho.

Insignificante. Esse “sonho” não passava de uma utopia sangrenta, que só se concluiu por lutarmos pelo mesmo ideal. Percebo apenas agora, uma vez que a poeira abaixou, deixando toda turbulência e caos de lado: Eu sempre fui imprudente. Minhas perguntas são voltadas à uma única teoria: Se tivesse dado ouvidos aos alertas e não se atirar ao perigo, teria adiantado de algo?

Inconsequente. Reconheço meu defeito. Imprudente. Vou morrer por isso.

E isso é importante? Bobagem, eu tenho sido mais inútil que o normal. Uma criança como eu, assumindo grande responsabilidade, estando rodeado de funcionários e papéis importantes, já poderia se pressupor onde iria parar: Ansiosamente depressivo, lutando para não se afogar no meio disso tudo. A navalha escorregou descabidamente, fazendo deitar de barriga para cima, mirando silenciosamente o teto, contemplando a lâmpada, que exercia a ausência de luz.

Como eu não queria existir.

Me pego dando razão a quem menos espero: Minha mãe, que me deixou para trás, mas acredito em sua tese de “és apenas um atraso na vida das pessoas”. Provavelmente é uma crise existencial, porém parece ser algo que transcende esse sentido. Suponho que é a veracidade de todos meus pensamentos. Um pedaço de abismo está se montando aos poucos, no fundo de minha cabeça: Todo o raciocínio lógico está pulando no vazio desmedido.

Minha mão direita que estava fria, trêmula e dormente, alcançou a cômoda localizada próxima à cama, abrindo a gaveta e após tatear tanto, retirou uma pistola. Admiro a facilidade que meus dedos brandiam o objeto. Meus elogios vão ao Mista, por contribuir para este aprendizado.

Grande amigo.

Admito que foi uma grande aventura, trenaram-me o suficiente nesta jornada. A lição mais importante que apreendi foi: Nem todos que chegam irão ficar. As pessoas foram feitas para partirem, uma hora ou outra. Outro soluço involuntário toma todo o quarto, me fazendo esbravejar novamente.

Maldita decisão de querer ficar sozinho por um dia, apenas para repensar nas próprias decisões.

O pior da solidão é as horas se negarem a passar. Era para ser por volta das 06:00, assim seria fácil explicar que a minha ansiedade de reencontrar as pessoas não permitiu descansar os olhos certamente. Todavia, ainda eram 04:14. Minha respiração é profunda, enquanto apoio a arma na barriga. Os ferimentos em meus braços doíam, mas recordar daqueles que já foram e a minha incompetência mediante à situação, pareciam soar como um joelho ralado.

Meus olhos descendem-se à navalha que estava perto de mim, completamente ensanguentada. Um suspiro longínquo tomou conta de todo o ambiente, deixando-me questionar silenciosamente: O quão longe posso arrastar isso? Eu sinceramente não ligo para mais nada. Os maiores dos problemas foram resolvidos.

Me sinto estranhamente egoísta e egocêntrico. Sou um lixo. Isso não passa de uma mera arrogância e é tão ríspido segurar as próprias lágrimas, enquanto a garganta amarra diversos laços, embolando-se confusamente em um emaranhado de miscelâneas desconexas.

Minha mente está uma bagunça que é impossível de organizar. Há muito a ser feito e não consigo fazer. Quantas pessoas competentes existem lá fora e eu não chego aos pés delas? Tudo que faço, qualquer um pode fazer. Sou substituível, um zero à esquerda. Qualquer coisa que eu diga, qualquer um pode dizer.

Cheguei tão longe para quê?

Essa aflição aumenta de forma decorrente. Minha garganta parece amarrar cada vez um nó e tenho grandes unhas a cortando parte por parte, misturando diversas giletes e bolas de fogo. Eu não consigo aguentar.

O ar gélido se achegava cada vez mais, me deixando apenas com o desejo de acabar com tudo isso. Seria rápido. Seria fácil. Minhas mãos covardemente se encaminharam à arma, engatilhando-a. Manuseando simplesmente pelos meus dedos, o coração pareceu palpitar pesadamente mais rápido, ao colocar o objeto contra minha cabeça. Com o estrondoso disparo da pistola, sinto minha visão titubear lentamente, fazendo a mão abrir e largar o utensílio decorrente de minha morte.

Os meus orbes aos poucos deixaram de focar no cenário do quarto, enquanto a zonzeira tomava conta de cada sentido meu. Não estava arrependido dessa escolha. Mesmo que estivesse... Tudo parecia tão distante.

Tão silencioso.

Tão tranquilo.

Os olhos nortearam ultimamente para o relógio, que apontava 04:40.

Nem que tudo que reluz é de ouro, muito menos, brilha para sempre.

Notas finais
Ai, ai. Essas crianças brincando de serem gangstars... Agradeço pela leitura, caso tenha chego aqui.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!