O que importa?
9 Colocando o coração em ordem
Wonder this time where she's gone
Wonder if she's gone to stay
Ain't no sunshine when she's gone
And this house just ain't no home
Anytime she goes away
(Bill Withers: Ain't no sunshine – Just I am, 1971)
O sol nascia quando Bulma deixou a Corporação Cápsula no seu pequeno helicóptero cor de rosa, que ela direcionou para o Monte Paozu, a Oeste. Ia muito bem humorada, certa de que aquela era uma viagem ideal para arejar sua cabeça e colocar as ideias em ordem.
Na véspera, Chichi telefonara para ela e avisara que ia fazer aniversário no sábado e queria que ela fosse a festa com Yamcha. Bulma então comentou que eles haviam terminado e que ela estava muito chateada, porque ele a havia traído. Imediatamente Chichi perguntou se ela não queria passar uns dias lá, para espairecer.
Ela amou a ideia, e comprou presentes para todos antes de ir. Foi difícil imaginar alguma coisa para dar para Piccolo e ela acabou comprando alguns pares de meias. Também comprou um lindo vestido para Chichi, alguns livros interessantes para Gohan e encheu uma capsula com uma mesa repleta de chocolates e doces para Goku.
Quando chegou, Chichi supervisionava Gohan, que fazia uma lição, visivelmente contrariado. Não podia sair para treinar enquanto não terminasse os deveres que Chichi passava, e ela seguia extremamente rigorosa cobrando que o menino estudasse. Goku e Piccolo estavam treinando em algum lugar além da montanha e ela disse que aparentemente estavam satisfeitos com o progresso. Bulma então começou a reclamar de Vegeta e contou o episódio da câmara de gravidade e o quanto ele parecia se esforçar para se matar.
Chichi ouviu-a em silêncio e de repente perguntou a Gohan se ele não queria ir treinar. O garoto nem esperou uma segunda autorização, deu um beijo na mãe, um adeusinho para Bulma e saiu voando pela janela. Chichi então olhou para Bulma e disse:
— Porque você não me disse logo que estava gostando do Vegeta?
Bulma gelou. Se havia algo que ela não gostaria nunca de admitir para ninguém era que tinha algum sentimento pelo sayajin. Para todos os efeitos, Vegeta era um facínora que quase matara o marido de Chichi e ela realmente não sabia como lidar com o que sentia por ele.
— Eu não quero me envolver com ele – ela disse, e sentia-se sendo sincera – eu acabei de terminar com Yamcha. Não preciso de outro obcecado por luta na minha vida... ainda mais alguém com um coração tão ruim...
Chichi riu e disse:
— Às vezes as coisas simplesmente acontecem, Bulma. Goku me disse que quando não permitiu que Kuririn matasse Vegeta foi porque sentiu que, no fundo, ele e Vegeta eram iguais. Todos nós havíamos achado estranho quando Goku deu uma semente dos deuses para Piccolo e ele hoje é um aliado e amigo de Goku. Talvez Vegeta siga o mesmo caminho. E talvez precise de você para ajudar a segui-lo.
De alguma forma Bulma sentiu-se aliviada porque percebeu que não estava sendo julgada por sentir atração por um cara que até pouco tempo atrás era um inimigo cruel de Goku. Ela sorriu para Chichi e disse:
— Ele nunca pede ajuda, nem se preocupa em dizer coisas agradáveis ou gentis, mas isso acaba fazendo dele alguém muito verdadeiro. Só que, realmente não estou preparada para me ferir outra vez. Terminei há pouco com Yamcha, e embora agora eu pense que foi a melhor coisa que me aconteceu, eu não quero investir em alguém que provavelmente vai me magoar porque está pensando apenas em se tornar super sayajin.
— Eu sei tudo sobre essa obsessão sayajin, acredite – suspirou Chichi. – mas Goku, apesar de obcecado por luta e força, nunca me disse uma palavra que não fosse doce ou gentil. – ela sorriu e corou, acrescentando – E você não tem noção de como essa história de manipular o ki pode ser fantástica quando estamos na cama...
Bulma fechou os olhos. Aquilo era mais informação do que precisava para viver e, além disso, a horrível piada de Yamcha sobre Goku transando como super sayajin veio imediatamente à sua mente. Ela então disse:
— Então acho bem melhor eu não me aproximar de Vegeta mesmo, porque ele parece ter todos os defeitos do Goku sem nenhuma grande qualidade para compensar: é grosseiro, teimoso, insuportável, na verdade.
— Poderoso Kami – disse Chichi olhando para ela perplexa – acho que você está mesmo caidinha por ele, Bulma.
Mas logo precisaram esquecer Vegeta, Chichi precisava fazer o almoço e Bulma a ajudou, mesmo tendo quase nenhum talento na cozinha. Enquanto as duas cozinhavam, Chichi contou sobre o progresso de Gohan, que, ainda que treinando com o pai, continuava estudando e sendo genial e, eventualmente, acabou mudando de assunto e mesmo sem dar muitos detalhes, fez Bulma acreditar que, apesar de parecer completamente ingênuo, Goku sabia muito bem como manipular seu ki para satisfazer a esposa.
Quando Goku, Gohan e Piccolo chegaram para o almoço, Bulma se lembrou dos presentes e deu a cada um seu pacote. Quando entregou a capsula de Goku ele disse:
— Você veio nos dizer que está grávida?
— Goku, você está maluco? É a segunda vez que você me faz essa pergunta idiota, e eu nem estou mais com Yamcha!
— Ah, é, deixa para lá.
Ela pôde ver que Piccolo dava um sorrisinho malicioso de canto de boca por um rápido instante, mas pensou estar vendo coisas. Piccolo agradeceu as meias e pediu um copo de água para Chichi, e quando todos sentaram-se à mesa ele ficou calmamente sentado, bebendo sua água, já que não comia.
Naquele ambiente, Bulma finalmente sentia-se relaxada e feliz, certa de que cercada de amigos e conversas diferentes das habituais poderia colocar a cabeça e, quem sabe, o coração em ordem.
Os dias passaram rápido e a festa do aniversário de Chichi, naquele sábado, foi bem divertida, mesmo com ela tendo que fugir das inconvenientes investidas do velho mestre Kame. Tenshin Han e Chaos apareceram, e ela soube pelo guerreiro de três olhos que Lunch, antiga namorada dele, estava agora tratando o distúrbio de personalidade na Cidade do Leste. Bulma percebeu que Tenshin parecia um pouco desapontado porque a personalidade predominante acabara sendo a Lunch boazinha, que, infelizmente, não era apaixonada por ele.
— Mas isso acontece, não é mesmo? Como aconteceu com você e Yamcha.
Sim. Acontecia o tempo todo de relacionamentos acabarem, ela pensou. E ficar só não era necessariamente uma sentença de infelicidade.
No dia seguinte, quando finalmente pegou seu helicóptero para voltar para casa,ela se despediu de todos e ouviu de Goku que ela era a melhor amiga do mundo e que quando quisesse dar um presente para ele que fosse sempre aquelas cápsulas maravilhosas cheias de comida, e ganhou um abraço terno e sincero de Chichi que ainda disse para ela que desejava que tudo de melhor acontecesse. Ela sorriu, desejando o mesmo para a amiga.
Só quando o helicóptero estava no ar, rumo à cidade do Leste, é que ela se permitiu pensar em Vegeta, sentindo um sorriso malicioso formar-se nos seus lábios. Se sua suposição estava certa, o sayajin vivera alguns dias de puro desespero.
Vegeta estava naquele momento dentro da câmara antigravidade escondido. Apavorado, na verdade.
— Onde ela se enfiou? Por que ainda não voltou?
Naquele momento a pessoa que ele mais queria ver no mundo era Bulma, e isso não tinha nada a ver com atração ou amor. Ele queria que ela o salvasse das gentilezas dos pais dela.
Tudo começara no dia em que ela desaparecera. Toda hora a mãe dela aparecia no comunicador para oferecer a ele alguma coisa. Chá, chocolate, doces. Queria dar uma voltinha? Ela estava saindo para passear com os cachorros, seria bom ter companhia, se ele não se importasse.
Era claro que ele se importava! Ele era um príncipe, um guerreiro, não um passeador de cachorros! E a loucura, pelo jeito se estendia ao pai dela, que toda hora também o chamava para mostrar invenções malucas e banais nas quais ele não tinha qualquer interesse especial. Sendo interrompido toda hora, ele sentia-se furioso, estressado e se perguntava o que havia provocado aquele comportamento maluco dos dois.
Foi então que, de repente, entendeu: "Sobreviva à minha ausência". Eles não tinham se tornado loucos de repente: eram assim o tempo todo! De alguma forma, ela impedia que os pais o abordassem ou tentassem ser gentis com ele, provavelmente dizendo "não faça isso, mamãe" ou "papai, essa não é uma boa ideia". E aquilo provocava nele um estranho paradoxo: ele não sabia se sentia grato porque ela passara meses evitando que eles enchessem o seu saco ou se estava furioso porque ela se ausentara e o deixara preso com aqueles dois malucos.
Provavelmente as duas coisas ao mesmo tempo. E era por isso que ele dera um jeito de quebrar o comunicador e praticamente se trancara na câmara antigravidade desde o segundo dia em que ela estivera ausente, voltando à casa apenas tarde da noite, faminto, cansado e furioso.
Mais ou menos por volta do meio dia, ele simplesmente desistiu de treinar. Deitou-se no chão da sala, desligou a gravidade aumentada e fechou os olhos, decidido a espera-la. Já aprendera a detectar o ki de Bulma. Mesmo sendo uma mulher normal, tinha uma energia peculiar, fácil de rastrear. E se aproximava, finalmente. Ele sentiu uma alegria inexplicável dentro dele. Era muito, em parte, porque ficaria livre dos pais dela, mas também, ele não podia negar, era apenas e simplesmente por ela. E, apesar da alegria, isso criava nele uma pontinha de irritação.
Uma parte dele pensava que, talvez, ela fosse a causa dele chegar tão perto de se tornar um super sayajin e não conseguir, mas a outra dizia que não, que ele era sua própria limitação e que o interesse dele nela era apenas um sinal de que ele mesmo estava se tornando fraco e sentia necessidade de culpar alguém por sua incompetência para superar Kakarotto.
Assim que o pequeno helicóptero pousou, Vegeta abriu a porta da nave e foi até ela, com passos largos e rápidos. Bulma saltou e, com um gesto rápido, guardou o helicóptero numa capsula e depois em um pequeno estojo. Nesse momento, ouviu a voz dele, logo atrás dela.
— Então... eu realmente sobrevivi à sua ausência! – ele disse. Ela sorriu e se virou para ele.
— Meus pais estão bem? Você não matou nenhum deles, né?
— Onde você se enfiou?
— Embora não seja da sua conta, eu vou dizer: estava na casa de Goku. Chichi me chamou para passar uns dias lá, foi aniversário dela.
— K-Kakarotto? Ele está mais forte?
— Não sei – ela disse rindo – não lutei com ele. Meu Deus, Vegeta, há quantos dias você não toma um banho? E não me diga que esse farrapo é uma das malhas de luta novinhas que comprei para você! Vai ter que tomar banho se quiser sentar na mesma mesa que eu! E colocar roupas decentes.
Ele bufou. Mas não pôde deixar de dar razão a ela. Enquanto ela estava linda e cheirosa, apesar de ter vindo de uma viagem, ele parecia ter saído de um lixão. E estava faminto. Mas não sabia se queria encontrar com os pais insuportáveis dela. Ela pareceu adivinhar isso, porque disse apenas:
— Tome um banho, vai. Vou te levar para almoçar fora, acho que tão cedo você não vai aguentar a cara dos meus pais nas refeições.
Ele meneou a cabeça em concordância e, repentinamente disse:
— Você mudou o cabelo.
— Não foi apenas o cabelo, mudei de atitude, meu caro. Vai, se apresse. Estou morrendo de fome e se demorar mais um pouco, te largo com meus pais e vou comer sozinha.
Ele não precisou de nenhum estímulo mais eficaz que esse para correr para o banho.
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