O que dizem de nós.
6 Princesa dos Feiticeiros
Notas iniciais

Elyn não se aproximou do estrado no centro, mas subiu na mesa de um dos comerciantes, que não reclamou. Ele, assim como todos os outros, assistia à cena com uma atenção mortificada.
— Eu sou a Princesa Elyn de Ryioniss, e tenho certeza de que não estou morta – repetiu, encarando o cavaleiro. O cenho franzido e a hesitação mostravam que a revelação era uma surpresa até para ele, seja porque talvez acreditasse mesmo que Elyn tivesse sido assassinada, ou porque não esperava encontrá-la ali. Mas logo desfez as dúvidas, novamente cético.
— E pode provar?
Elyn revirou os olhos.
— Desculpe, não lembrei de pegar meus documentos quando fugimos. – Apesar de representar a Rainha Scylla, o cavaleiro não era importante, então Elyn virou o rosto para a multidão. – Escutem-me… Não se deixem levar para essa perseguição. Não se permitam arrastar para algo que só levará ao sofrimento de gente inocente, e que nem sequer tem uma razão, pois se baseia em um crime que não aconteceu!
— Gente inocente…? – Uma voz frágil murmurou na multidão, mas Elyn não conseguiu encontrar sua origem no mar de rostos. – Está falando de feiticeiros? Os malditos que levam embora nossas crianças, para nunca mais voltar? Eles levaram minha irmã… Eles não são inocentes.
— E eu jamais ousaria defender essas atrocidades. Mas o que acham que acontece com as crianças? De onde acha que surgem os feiticeiros? Contra quem vocês acham que vão lutar se aceitarem essa convocação? Os crimes cometidos contra a sua família são indefensáveis, mas a sua irmã foi levada porque era uma feiticeira, e você está sendo chamado para guerrear contra ela. Suas crianças não são culpadas de nenhum desses crimes, mas vocês estão sendo chamados para derramar o sangue delas! Ou acham que os soldados diferenciam um feiticeiro de outro?
— Vocês estão sendo chamados para impedir que eles continuem levando seus filhos para longe, para mostrar que os crimes dos feiticeiros não ficarão impunes. Alguém tire ela de lá! – O cavaleiro tentou retomar atenção, Elyn podia sentir o peso do julgamento e da dúvida em seu olhar.
Elyn esperou, mas os soldados apenas se aproximaram hesitantes, sem atravessar a multidão. As mãos nos cabos das espadas eram um alerta de que usariam violência, mas as lâminas permaneciam embainhadas. E na praça, ninguém se adiantou para alcançá-la. Eles estavam ouvindo. A energia que lhe atravessava era sedutora. Elyn sentiu a urgência eufórica de continuar falando. Via rostos céticos e desconfiados em qualquer direção, mas eles estavam lhe ouvindo. Mesmo que não acreditassem em nada do que dissesse, Elyn resolveu continuar. Porque se suas palavras pudessem plantar a dúvida mesmo que em apenas uma pessoa daquela aglomeração, valeria a pena.
— Se isso é verdade, por que iniciaram essa perseguição apenas com a morte do Príncipe Oizus? – Elyn insinuou, testando os limites. O cavaleiro vacilou por um instante, mas não avançou. Ela seguiu: – Os crimes cometidos contra crianças plebeias não valem o tempo dos cavaleiros? Agora um príncipe foi morto e a rainha espera que lutem pelo filho dela, quando nunca fizeram nada pelos filhos de vocês.
“Terreno perigoso”, Elyn pensou, ouvindo os murmúrios, alguns rostos assentindo em concordância e outros em pura desconfiança. Seguir aquela linha podia facilmente inflamar a população ainda mais contra os feiticeiros, além da Coroa. Se o cavaleiro fosse esperto, faria aquelas palavras voltarem contra ela.
— Você disse que estamos perseguindo inocentes, mas parece reconhecer os crimes dos feiticeiros, não apenas o assassinato de Sua Alteza, mas também os raptos das crianças. E ainda insiste que não devemos persegui-los?
O cavaleiro era esperto.
As pessoas falavam umas com as outras. Sobrancelhas arqueadas, cenhos franzidos, sem saber em quem confiar.
— Não – respondeu, atravessando um rápido instante de dúvida. Os segundos lhe deram tempo para pensar. Se estavam ouvindo, que ouvissem a história toda. – O que eu estou dizendo é que muitos não podem pagar pelos crimes de alguns. E eu disse que vocês mentem sobre a causa, pois a morte do Príncipe Oizus não foi um desses crimes.
O cavaleiro esboçou desdém, mas Elyn não permitiu que falasse.
— Porque o príncipe não foi vítima de magia traiçoeira, estávamos nos defendendo. E até nisso vocês erraram: O feiticeiro não matou Oizus, eu matei! – continuou. A reação foi mais visível dessa vez. Arquejos de surpresa e revolta espalharam-se pela praça, e o som metálico de lâminas deixando suas bainhas, mas apesar da iminência de violência, ninguém se aproximou. Elyn começava a estranhar. – O príncipe me atacou por não aceitar que eu fugi para a torre do feiticeiro e escolhi ficar lá. O príncipe tentou me matar. O feiticeiro que estão acusando foi quem me defendeu. E fui eu, não ele, quem matou o príncipe.
— É melhor parar com as mentiras agora, moça. – Apesar da irritação, o cavaleiro tinha uma postura confiante. – Você se entregou dizendo esses absurdos. Espera que acreditemos mesmo nisso? – Ele riu, desdém e soberba em seu olhar. – Por que a Princesa de Ryioniss fugiria do castelo para ir viver com um feiticeiro?
— Porque sou uma feiticeira também. – Elyn segurou o pingente verde contra a palma, exibindo para todos a joia com seu leve brilho mágico. – E eu esperava encontrar um lugar onde isso não significasse nada. Mas acho que me enganei. Não existe lugar assim em Teris.
“Deuses, o que estou fazendo?” Apesar de todos os alertas em se expor assim, Elyn sentia-se compelida a continuar. Sabia que aquilo era o certo. Dessa vez, até o cavaleiro puxou a espada, quebrando o torpor o suficiente para avançar alguns passos. Elyn não se moveu.
— Já chega disso! Como se revelar-se uma feiticeira desse credibilidade ao que falou. Agora tenho mais certeza de que é apenas uma mentirosa se passando pela princesa, sem respeito algum pela morte dela!
Elyn comprimiu os lábios, lançando-lhe um olhar aborrecido e condescendente. Como uma professora cansada de lidar com crianças teimosas.
— Escute-me, senhor. Independente de acreditar em mim ou não, eu sou Elyn de Ryioniss, e fugi com Arcaent, o feiticeiro, por minha própria vontade, e ainda que eu me torne Princesa de nada, não permitirei que continuem usando meu nome para promover uma guerra! Se insistem em perseguir os feiticeiros… Não, espere… – interrompeu-se, corrigindo-se imediatamente. – Se insistem em nos perseguir, arranjem outra desculpa para isso. Diga que nos perseguem porque nos odeiam, porque nos temem, ao menos seria mais honesto.
Seja qual fosse a causa da inércia dos soldados, ela havia passado. Elyn andou sobre as mesas dos comerciantes, mantendo-se distante deles, agora com as armas em riste, pulando para o chão ao final das mesas. As pessoas recuaram, abrindo caminho instintivamente. Princesa, assassina confessa e feiticeira, não era uma surpresa que ninguém quisesse ficar em seu caminho.
O cavaleiro, julgando que seus subordinados conseguiram silenciá-la e logo a prenderiam, voltou a proclamar o texto elaborado em nome da Rainha Scylla.
— Em razão da tragédia caída sobre o Príncipe Oizus e a Princesa Elyn, esperamos que…
— O senhor não me ouviu?! – Elyn gritou, atrevendo-se a subir no estrado em que o cavaleiro estava, o rosto erguido de forma desafiadora. A surpresa por ela ter se aproximado tanto o impediu de reagir. – Eu disse que meu nome não será usado por vocês!
.
Arcaent assistia, tão absorto pelo discurso quanto os outros.
À cavalo, ele alcançara a cidade de Nordalius só um pouco depois de Elyn. Desmontou, não querendo chamar atenção, e seguindo caminho adentro, encontrou a população envolvida na discussão de uma mulher com um cavaleiro de Prusvart.
Seu coração falhou uma batida.
Elyn.
Arcaent não poderia descrever o alívio que sentiu ao vê-la bem. Como se só então pudesse voltar a respirar. Instintivamente deu um passo em sua direção, mas algo o fez parar. Um ruído inaudível, uma energia imperceptível. Olhou ao redor, para todos aqueles olhares atentos. Alguma coisa estava acontecendo em plena vista, e Arcaent não iria intervir. Ouviu quando a mulher ao seu lado questionou Elyn sobre os raptos das crianças, ouviu quando o cavaleiro a acusou de ser indulgente com o assassinato de Oizus.
Acima de tudo, ouviu Elyn derrubar cada uma das acusações com a destreza de alguém que fora criada para governar. Naquele momento, Arcaent sentiu que tinha sorte de poder acompanhar alguém como ela.
Elyn falava sem esconder quem era e o que era. Isso o preocupou, percebendo os soldados, mas eles também não se aproximaram. Quando Elyn finalmente desceu das mesas, Arcaent sentiu aquela barreira esvair-se e tentou chegar até ela antes dos soldados, abrindo caminho entre as pessoas. Mas Elyn não estava deixando a praça. Ela subiu ao estrado, o desafio e orgulho brilhando através de sua postura. Arcaent aproximou-se.
— O senhor não me ouviu?! Eu disse que meu nome não será usado por vocês!
Arcaent parou, surpreso. As pessoas também estranharam, cochichando umas com as outras:
— O que ela disse? Que língua é essa?
Pelo olhar de Elyn, ela também só percebera que tinha usado a língua dos feiticeiros ao ouvir as próprias palavras. Um soldado deixou cair as folhas que seriam coladas nos murais, e Arcaent rapidamente estendeu a mão agarrando uma delas sobre o estrado. Todas tinham uma lacuna no mesmo local, de bordas escurecidas como se alguém tivesse aproximado o papel de uma vela acesa. A folha ainda soltava uma fina fumaça cinza quando Arcaent a pegou.
Era onde ficava o nome de Elyn.
A Princesa Elyn de Ryioniss havia sido apagada de todas aquelas convocações. Guerra alguma aconteceria em nome dela.
O soldado percebeu o mesmo ao recolher as folhas.
— Talvez ela seja mesmo a princesa… – sugeriu para o líder.
Arcaent ficou ainda mais impressionado quando o cavaleiro apontou para ela. Ele não tinha feito muito até então, pois apesar do aborrecimento, Elyn não tinha se mostrado uma ameaça de verdade, mas não podia permitir que a feiticeira continuasse livre depois de lançar um feitiço claramente sobre os soldados de Prusvart, seja lá qual fosse o resultado do feitiço. Finalmente convencido, o cavaleiro disse:
— Prendam a princesa… a princesa… – Ele franziu a testa, sem compreender. O nome que um segundo atrás estava em sua mente agora tinha desaparecido. Também não se importou muito. Se a princesa renegava ao reino de Ryioniss, não merecia nada além de desprezo de sua parte. – Prendam essa princesa dos feiticeiros.
Dessa vez, não houve hesitação. Elyn recuou, mas seria cercada no pequeno palco. Arcaent avançou, colocando-se entre ela e o soldado que se aproximava por suas costas, parando o caminho da espada com o cajado de metal, revidando instintivamente para forçá-lo a se afastar. Sua chegada os surpreendeu, o brilho mágico da joia no topo do cajado era um alerta silencioso, e os soldados olhavam de soslaio para o líder, esperando instruções. Agora eram dois feiticeiros. Ninguém queria arriscar se aproximar.
— Arcaent!
Elyn o envolveu em um abraço sereno, à despeito da posição de vulnerabilidade em que estariam se os soldados resolvessem atacar. Apesar da felicidade em reencontrá-lo ser genuína, o abraço não foi um descuido. Arcaent percebeu, no rosto das pessoas, que com aquele gesto espontâneo, tudo o que Elyn disse estava confirmado. O feitiço provara que ela era a princesa desaparecida, e agora o gesto provava que estava com o feiticeiro porque queria. Ninguém poderia correr com tanto afeto para os braços de alguém que tivesse lhe ameaçado.
Arcaent retribuiu com a mão livre, apertando-a contra ele.
— Que rainha Ryioniss perdeu – falou, baixo. A admiração sincera na voz a fez sorrir. – Ainda tem algo a dizer, ou podemos ir embora?
— Ah, não, com certeza podemos ir!
— Não os deixem sair! – O cavaleiro gritou, indo ele mesmo na direção do casal.
Arcaent fez os soldados recuarem e, segurando a mão de Elyn, os dois correram aproveitando a brecha. As pessoas comuns se dispersaram, abrindo caminho pelo instinto de se afastarem dos feiticeiros, e os que tentavam pará-los, soldados ou não, eram forçados a recuar para evitar a magia que os circundava. A vantagem da magia de Arcaent é que podia se defender sem atacar. Nem sempre sua magia era perigosa, só precisava assustá-los. Em um mundo onde feiticeiros eram tão malvistos, isso era fácil.
Elyn montou primeiro, agarrando as rédeas do cavalo, com Arcaent subindo logo atrás dela. Os soldados também estavam montando, eram persistentes.
— Deixa comigo, apenas nos mantenha em movimento – Arcaent falou, usando magia para evitar as flechas disparadas contra eles.
Elyn levou a orientação a sério. Guiava o cavalo ao máximo, enquanto Arcaent os defendia e enganava os sentidos dos soldados, confundindo-os em sua própria cidade. Inesperadamente, Elyn o ouviu rir.
— Finalmente aprendeu a se divertir? – insinuou.
Arcaent passou o braço em volta de sua cintura, agora que tinham os despistado e alcançado a estrada para fora de Nordalius. Ele respondeu:
— Acho que vamos ser a história da semana nessa cidade.
~*~
Com a lua brilhando alto e Nordalius deixada para trás, Elyn e Arcaent dividiam o mesmo manto grosso próximos ao fogo. O frio veio pior do que esperavam. Arcaent podia ver a dúvida no rosto de Elyn, ela sempre ficava em silêncio antes de perguntar algo, pensando na melhor forma de abordar um assunto. Daquela vez, no entanto, Elyn decidiu perguntar diretamente.
— Você sentiu algo hoje, na praça?
— Além de uma absurda admiração?
Ela sorriu.
— Sim, além disso… Você sentiu algo estranho? Tipo uma energia?
Arcaent assentiu.
— Se eu não tivesse certeza de que você precisa dessa joia, eu pensaria que você é uma surn. As pessoas, os soldados, você fez eles lhe ouvirem quando tudo o que queriam era atacá-la. Eu também tentei ir até você e não consegui. Tinha magia na sua voz, Rish. Você fez magia ressoar por aquele lugar inteiro. E transformou em um feitiço as palavras que disse para o cavaleiro.
— Mas eu não sou uma surn, então o que foi aquilo?
— Uma benção – ele respondeu calmamente.
Elyn buscou em sua memória. Os livros diziam que os deuses podiam emprestar poder às pessoas na forma de bênçãos, o que era extremamente incomum, mas acontecia. Mais raro ainda era entre pessoas como eles. Apenas uma deusa abençoava feiticeiros.
— Iyrteran?
Arcaent concordou. Deusa do conhecimento e da magia, a própria matrona dos feiticeiros. Aquela que ensinara os humanos a usar uma magia que antes pertencia apenas às surnul, criando então os yrnul. Por isso, feiticeiros eram malvistos por deuses e humanos. O poder deles tinha sido roubado das bruxas.
Assim diziam as lendas. Elyn não acreditava em tudo que os livros contavam. Muitas coisas pareciam apenas fábulas infantis.
— Bênçãos de Iyrteran – Arcaent começou, ajeitando o manto sobre os ombros de Elyn – são essas habilidades específicas que podemos dominar com maestria mesmo sendo distintas da nossa inclinação natural.
— Como a sua magia de transporte.
— Isso. Não tem nada a ver com magia ilusionista, mas eu consigo usá-la bem. Porém, não devemos confiar nelas. Uma bênção é um “poder emprestado”, por assim dizer… Talvez não esteja sempre acessível, é melhor confiar no poder que é realmente seu. E você tem uma bênção de Discurso. Bênçãos são raras, então não sabemos bem os detalhes. Mas li que é uma habilidade mediadora impressionante. Eu, pelo menos, acho impressionante. É o tipo de habilidade que pode parar guerras sem derramar sangue.
— Eu não poderia parar uma guerra. As mentiras continuarão se espalhando e Prusvart não vai parar por minha causa. Só falei umas palavras para uma cidade pequena.
— E com certeza evitou que aquelas pessoas se voluntariassem para um massacre. Ninguém de Nordalius caçará os feiticeiros, ninguém de Nordalius morrerá combatendo feiticeiros. Você salvou pessoas dos dois lados.
— Você acha que as pessoas acreditaram em mim?
— Mesmo se apenas uma pessoa tiver acreditado, já seria uma pessoa a menos sendo enganada por mentiras. Uma pessoa a mais passando a verdade adiante. Quem sabe o que isso pode causar? O mundo é muito grande, Elyn. Não podemos mudá-lo por inteiro. Mudar o que conseguirmos para algumas pessoas é mais do que suficiente.
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