O que dizem de nós.

3 Elyn de Ryioniss, Arcaent de Lugar Nenhum


Notas iniciais
Atrasei para atualizar porque esqueci, desculpa :( A história da Elyn a gente já conhece, mas hoje vamos saber um pouco mais do Arcaent! E ver um pouco do porquê do ódio pelos feiticeiros. (Ignorem o banner carregadíssimo, não tive tempo de editar para deixar mais clean) Música - Nuvole Bianche de Ludovico Einaudi: https://www.youtube.com/watch?v=4VR-6AS0-l4

— E se fôssemos para Yaz?

Arcaent levantou os olhos, pois repousava a cabeça na perna de Elyn. Com o mapa em mãos, ele traçava planos e mais planos. Quais seriam os melhores lugares para se estabelecerem, quais reinos seriam menos hostis. Elyn, apoiando as costas contra uma árvore, mesmo aproveitando as últimas horas de luz do dia na leitura de seu livro de magia de cura, comprimiu os lábios em desagrado.

— Yaz não é bom para nós.

— Nas fronteiras, em lugares como Geordra, é verdade. Mas na Capital os feiticeiros até são tolerados.

— Arcen, você ouviu o que disse? “Tolerados” não é o suficiente.

— Incendiaram a torre com a gente dentro, Rish. Eu fico satisfeito em ser “apenas” tolerado.

Elyn não se deixou distrair pelo apelido recém-adquirido, embora ele a agradasse bastante. Gostava de ouvir Arcaent chamá-la daquela forma, desde que a ouvira pela primeira vez. Parecia tão correto na voz dele quanto seu próprio nome.

— Sua presença era tolerada em Ryioniss e veja o que aconteceu.

Arcaent espirou longamente, cansado do dia. Haviam interrompido a viagem para a noite e improvisaram um acampamento, já que não alcançariam qualquer vila ou cidade em dois dias.

— Sinto de verdade em informar isso, mas não há lugar em que encontraremos uma recepção melhor. Em toda Teris, o máximo que conseguiremos é isso: sermos tolerados. Seria bom decidirmos logo onde vamos ficar, pois precisamos continuar andando.

Arcaent tinha essa preocupação. Se os primeiros boatos anunciavam a morte do feiticeiro e da princesa de Ryioniss, logo a verdade seria descoberta e soldados por toda Teris estariam em alerta. Elyn e Arcaent conseguiam se manter a frente dos mensageiros e por isso não enfrentavam grandes dificuldades na jornada, mas, se desacelerassem, encontrariam ainda mais desconfiança e resistência em cada cidade pela qual passassem, que já teriam sido informadas do feiticeiro fugitivo.

— Ah, sim, vamos fugir das notícias para sempre. Quando chegarmos à costa, vamos nos jogar ao mar com os cavalos. – Elyn pousou o livro na grama, descendo o olhar até o dele. – Você quer ir para uma cidade?

— Você não quer? Quero dizer, precisamos ficar em algum lugar…

— Precisamos?

— Onde quer chegar, Rish?

Elyn levantou o rosto para o céu. Ainda estava claro, mas duas brilhantes estrelas já haviam aparecido.

— Em alguns minutos, poderemos ver o teto mais belo que já tive sobre a cabeça. Eu gosto dessa vida, Arcen.

— Só conhecemos essa vida há duas semanas. Não é fácil…

— A vida não é fácil para a maioria das pessoas, sejam elas andarilhas ou gente da cidade. Se eu não precisar viver onde não me querem e onde eu teria que passar o resto dos meus dias provando a minha índole, estou satisfeita. Além do mais, se a qualquer momento mudarmos de ideia sobre essa eterna viagem, encontramos um lugar para nós. Realmente para nós, sem cidades nem nada.

— Isso é um alívio. – Arcaent pensava que, nascida e criada na capital de um grande reino, Elyn gostaria do ambiente urbano. Mas ela era uma exploradora nata desde a infância. Ter uma vista diferente a cada dia era um deleite, e dormir sob as estrelas, um alento. – Confesso que não estava animado para a cidade. Não gosto muito de pessoas.

— Ah, eu estava pensando em como lhe contar isso, mas… eu sou uma pessoa, Arcen.

— Não! Mesmo? – Ele fingiu surpresa. – Tudo bem, então acho que eu não gosto muito das outras pessoas. – Elyn voltou a ler enquanto ainda podia. Segurava o livro com a mão esquerda, enquanto a direita brincava nos cabelos de Arcaent. – O que está fazendo?

— Incomoda? – perguntou, pois estava fazendo sem ter percebido. Ele negou, e Elyn voltou a mexer nos cachos escuros. – É quase instintivo. Meu irmão adorava. – Ela riu, lembrando-se do pequeno príncipe Emrys. “Pequeno” não mais, pois mesmo sendo seis anos mais novo que Elyn, já se tornara um rapaz mais alto que ela.

— Você tem um irmão?

— É claro. Quem você achou que assumiria o trono após meus pais se livrarem de mim? – Seu coração apertou. – Emrys deve estar preocupado… Contei a ele que fugiria do castelo, mas quem sabe as notícias que chegaram para minha família após o nosso cerco?

Arcaent não respondeu. Elyn desistiu do livro, já que agora a noite já estava quase ali, cruzando os braços pelo frio. Havia uma pilha de galhos secos à poucos metros deles, destinados a formarem uma fogueira.

— Quer acender o fogo? – Arcaent perguntou. Aproveitavam as pequenas chances de praticar sempre que podiam.

— Claro! Espera, eu anotei em algum lugar… – Na capa interna do livro, haviam os feitiços que Elyn julgava mais úteis e que precisaria rever com certa frequência. Ao encontrar, estendeu a mão aberta para a futura fogueira e falou, sentindo o calor em seu peito deslizar como uma palavra quente em sua língua. – Feivrn.

Diferente da chama que invocavam na meditação, o fogo não foi lançado dela, surgiu espontaneamente dentre os galhos. Elyn recolheu a mão, sentindo-a formigar como uma febre. Todos os feitiços fora da sua inclinação natural precisavam de prática e técnicas para não terem um custo físico.

— Tudo bem?

— Sim, estou quase dominando esse – respondeu, empolgada, voltando a brincar com o cabelo dele.

— Se continuar fazendo isso, vou acabar dormindo.

— Não tem problema se dormir. – Apesar do alerta, Arcaent não disse para parar. Em vez disso, cobriu os olhos com o braço para evitar a luz. Estava mesmo cansado. Só porque sabia que ele não se oporia, Elyn continuou: – Eu não tinha lhe falado do meu irmão? Acho que ainda não sabemos nada das vidas que tínhamos antes.

— Pode perguntar o que quiser.

Vindo de alguém geralmente tão fechado, o incentivo era significativo. Elyn decidiu começar com coisas simples.

— De onde você é?

— Yrilla – respondeu de imediato. Elyn estreitou os olhos.

— Não, antes de Yrilla, antes de você ir viver com os feiticeiros. De onde você é? Deve ser de algum reino do norte, pela forma como fala o seu nome.

— Eu falo meu nome certo, é você que tem sotaque. – Pensativo, Arcaent demorou alguns instantes em silêncio. – Yhriam. Eu sou de Yhriam.

— Nunca fui lá. Como é?

— Eu não sei. – Arcaent falava com naturalidade, mas Elyn via algo de estranho em suas respostas.

— Você tinha ou tem família?

— Sim. Vivíamos eu, meu pai e minha mãe, e eu também tinha um irmão.

Apesar da fala no passado e da impressão de tê-lo visto tenso por um segundo, Arcaent soava melancólico, não pesaroso, e Elyn decidiu explorar o assunto da família.

— O que houve com eles?

— Eu não sei.

— O seu irmão, qual era o nome dele?

— Eu não lembro.

— Arcen! – Ela não conseguiu conter uma exclamação surpresa. Ele descobriu os olhos, comprimindo os lábios em uma linha reta, e não a encarou, deixou a vista perder-se no céu noturno.

— Eu era muito novo quando descobrimos. Então fui levado para Yrilla. E as coisas antes disso são muito distantes na minha memória.

Ele se mexeu no lugar. Instintivamente levou a mão ao recente ferimento feito por Oizus, só para descobrir que não era o ferimento que lhe provocava aquele desconforto. Elyn notou o gesto, mas Arcaent segurou sua mão quando ela tentou ver como estava se recuperando. Já tinham conversado sobre como ela não deveria se sentir responsável por aquilo.

— Não é tão incomum, sabe? A maioria das crianças não voltam para as famílias. Não entendo como o mesmo não aconteceu com você. Como pode ter despertado sua natureza sem ter chamado a atenção dos mestres de Yrilla?

— Ah, mas eles apareceram. Dois feiticeiros apareceram em Ryioniss quando eu tinha 16 e falaram com meus pais uma semana depois de eu ter feito magia por acidente. Ofereceram me levar para Yrilla para me treinarem, mas meus pais os mandaram embora.

Ali estava de novo, não era só impressão. Havia alguma ansiedade em Arcaent relacionada àquele assunto, pôde ver rapidamente a tensão no maxilar sob a pele, como se estivesse a trincar os dentes, ainda que permanecesse quase inexpressivo.

— Pelo visto, só filhos de reis têm opção… – Sua voz saiu tão baixa que, mesmo com a proximidade, Elyn quase não o ouviu. O olhar vagueava distante, ora perdido no céu, ora nas sombras das árvores, mas nunca direto sobre ela. Não era um assunto que Arcaent expressava com facilidade. – Filhos de camponeses são arrastados de casa… e têm como última imagem da mãe uma mulher correndo descalça pelo campo ao anoitecer, tentando alcançar as pessoas que estão levando seu filho… E que mesmo assustado por estar sendo levado à força, era novo demais para entender que nunca mais a veria.

Era estranho como o tempo apagara tantas memórias, mas todos os detalhes daquela imagem haviam se fixado em sua mente para nunca mais sair. Não lembrava do nome de sua mãe, mas a voz dela gritando pelo seu pai no campo, enquanto corria atrás de Arcaent e dos feiticeiros que o levavam, ainda lembrava com nitidez. Não lembrava da palavra, do nome, mas a voz ele jurava que ainda poderia reconhecer. Com o tempo, aprendeu a conviver com o que acontecera, mas às vezes sentia seu coração apertar ao pensar em quanto desespero ela deve ter sentido à ponto de correr atrás deles. Mesmo que pudesse alcançá-los, o que faria contra os feiticeiros? Diferente do que acontecera com Elyn, eles não perguntaram nada para seus pais, apenas informaram que o levariam. Não perguntaram nada nem mesmo para ele.

Acho que feiticeiros não conseguiriam imaginar. Nunca devem ter sido alienados de uma escolha.”

Se Elyn tivesse escolhido palavras diferentes quando se conheceram, talvez não tivesse conseguido convencê-lo a ajudá-la. Só então levantou os olhos para ela, apenas para percebê-la emudecida pela informação inesperada. A luz do fogo refletia nos olhos úmidos da sua rish, a quem faltavam palavras para responder a tamanha dor.

— Eu não falei para culpar você. De forma alguma desejaria que você tivesse passado por isso também, só…

— Eu jamais pensaria isso – murmurou. – Eu… não sabia que era assim. Como podem…? E nunca lhe deixaram vê-los? Você nunca os procurou depois que deixou Yrilla?

— Elyn, eu… Sei que vai soar ruim, mas eu não sinto…— Ele suspirou, tentando organizar as emoções em que sempre evitava pensar. – Isso foi 23 anos atrás, eu tinha 3 anos. Nunca vi muita razão para voltar. Eu sinto empatia, pois imagino o quanto devem ter sofrido ao perder um filho assim, mas não saudade ou pertencimento. Eu não tive tempo de criar pela minha família o mesmo sentimento que você criou pela sua, o mesmo que você sente pelo seu irmão. É como se eu nunca os tivesse conhecido, e apesar de às vezes pensar em como teria sido crescer com eles… é só isso.

O olhar pesaroso que recebeu o surpreendeu. Talvez Elyn sentisse a tristeza por aquilo mais do que ele mesmo. Nunca a tinha visto tão séria. Elyn percebeu, com horror, que talvez Arcaent sequer tivesse consciência do quanto havia sido tirado dele.

— Isso é horrível, Arcen. O que fizeram foi um crime. Dois crimes foram cometidos, um contra você e sua família, tendo lhes causado tanta dor. – Ela segurou seu rosto com carinho, deslizando delicadamente o polegar em sua pele. – Outro contra sua mente e seu coração, por terem feito você ver isso como algo comum. Por terem feito você crescer achando que não tinha mais lugar para você entre a sua família. E se você quiser, nós podemos ir para Yhriam. Podemos ir até eles.

A proposta o surpreendeu. Mesmo vagando sem rumo há semanas, nunca pensara, nem por um segundo, em ir para o lugar onde nascera. Porque nada o prendia àquele lugar, era como qualquer outro. Mesmo após deixar Yrilla, anos antes, jamais teve o anseio de retornar.

— O que eu faria em Yhriam, Rish?

— Não precisa decidir agora, apenas pense sobre isso. Se a qualquer momento quiser voltar para lá, nós vamos.

— Podemos… parar com essa conversa?

— É claro.

Seu sorriso triste e compreensivo foi a última coisa que ele viu, jogando o braço novamente sobre os olhos, que ardiam talvez pelo sono negligenciado, pelo ar frio ou a luz da fogueira. Com certeza algum desses era a razão, e não aquela memória tão distante que há anos não o afetava mais. Mesmo após deixar Yrilla, nunca olhara na direção do lugar onde nascera, e que sequer podia chamar de casa, embora às vezes gostaria de poder chamar assim.

Mesmo após deixar Yrilla…

Mesmo após deixar Yrilla…

Quase adormecido, a voz baixa e sonolenta de Arcaent chamou sua atenção.

— Dois feiticeiros apareceram por você quando tinha 16 – repetiu, de modo vago. – Quantos anos você tem?

— 22 – respondeu, sem entender a pergunta. Os feiticeiros haviam aparecido no castelo 6 anos antes, na esperança de levá-la como aprendiz. – Por quê?

Arcaent demorou a responder, tanto que Elyn pensou que já tivesse adormecido. Mas ele soltou uma última frase antes de finalmente entregar-se ao sono.

— Porque Yrilla queimou há 10 anos.

Notas finais
Horrível que os dois lugares tem nomes parecidos, né? Só para não ter dúvida... Yrilla é a Ilha dos Feiticeiros, onde Arcaent foi criado. Ele mencionou esse lugar no primeiro cap dessa fic. Yhriam é um reino bem pequeno no norte de Teris, esse continente, onde a família de Arcaent vivia e >talvez< ainda vive. Esse foi meu capítulo preferido de escrever até agora ♥ Apesar de ter pensado em outras cenas adoráveis, nos próximos capítulos, Elyn brincando com o cabelo do Arcaent para mim é ♥ ♥ ♥ :v Até o próximo! ♥