O que deixamos em Santa Guevaute

1 Introdução - O problema


Já estava tão tarde, Não tinha percebido que o resto do escritório havia saído. Apenas quando senti as mão do “quase-mudo’’ gentilmente me avisando das luzes. Mas eu mal notara que haviam se apagado. Mas ele desculpava-se um tanto. Tirei um lado do fone e percebendo que ele estava nervoso só disse ‘está tudo bem, já estou saindo’. Juntei minhas coisas rapidamente, meu casaco, imprimi o que tinha conseguido terminar e coloquei na pasta. Não era capaz de ver uma tabela pelos próximos dias, me recordo de pensar em alto som enquanto enchia meus dois copos de café na máquina do escritório, ‘bem chegado é esse feriado’. Ia e direção ao elevador, olhando as inúmeras sessões onde infelizes se sentiam tão importantes trabalhando engravatados. Na realidade era um estado de quase morte, que pagava muito bem. “Quase-mudo” saiu correndo torto atrás de mim, preocupado, estava sempre preocupado, se esforçando para ser gentil. Me entregou a última folha que eu havia deixado na impressora. Falou meia dúzia de palavras que não achei tão importantes. Eu agradeci e entrei no elevador. Lembro de ver as portas se fecharem e ele voltar rapidamente ao trabalho. Se eu fosse ele não limparia a sala de café com tanta vontade. As pessoas desse lugar são um bando de porcas. Acho que ninguém merece chegar aqui pela manhã e ver tudo cheirando a novo. Eu não mereço, pensei. Nem o nome dele eu sei direito para felicitar pelo trabalho. “Quase-mudo’ era um apelido, obviamente. Por se parecer com Quasímodo. Tanto o apelido, quanto o jovem trabalhador. Tinha uma deformidade nas costas que não lhe davam a corcunda, como no personagem do filme, mas puxava todo seu corpo para a direita, e para cima. Dava a impressão de seu suas pernas serem de tamanho diferente. E um dos braços sempre parece estar pendurado apenas, chacoalhando conforme andava. Talvez fosse por andar sempre com a mão esquerda serrada, como quem quisesse dar um murro em qualquer um daqueles idiotas que o chamam de ‘quase-mudo’. O rosto também não ajudava. Era realmente diferente. Os grandes e saltados olhos azuis eram tão afastados que os boatos eram que sua mãe havia feito sexo com um peixe. Quem diz que criança tem capacidade para a maldade, não sabe os absurdos que um grupo de social azul claro é capaz de falar. Ele estava sempre preocupado, com medo de incomodar que ficava até de noite preenchendo os valores das tabelas — eu geralmente. A única verdade que me falaram sobre ele era de que com o salário miserável sustentava quase quarenta cães que tirará da rua. Droga, foi aqui que derramei um dos copos de café, quando pensava no cheiro que esse lugar deveria ter.

Fui para casa como se corresse uma corrida da Nascar. Percebi que era realmente tarde quando percebi estar sozinho nas ruas. Vermelho. Subitamente o carro havia se iluminado com a luz barata do semáforo. Eu estava completamente cor de sangue. Olhei para o lado e pude ver as mulheres que vivem da noite. Questionei como conseguem não sentir medo, observei um carro preto parar para uma delas. Ela tinha nos pés um salto de acrílico, quem olhasse rápido acreditaria estar descalça, o vestido roxo era uns três ou quatro números abaixo de seu tamanho, exprimiam não somente os seios esféricos, mas ressaltaram as dobrinhas das costas. Era quase possível completar o desenho da sua tatuagem nas costas. Uma mistura perfeita de mau gosto, em estilo tribal tinham flores havaianas, borboletas e estrelas impossíveis de decifrar. Mas de fato carregavam um mistério, tanto quanto a jaqueta de couro metálico, nitidamente infantil e a calcinha verde neon que exibia por conta do comprimento do vestido. Ela se abaixo, a pessoa abriu a janela. Era fantástico esses segundos, ela jogava os cabelos secos, esticados artificialmente. Eram dourados nas pontas, como joia antiga, não daquelas que tem muito valor, mas sua avó guarda, conforme subiam para a raiz tomavam outra textura, mais saudável, mais natural, e uma coloração castanha. Me perdi até perceber que outras duas se aproximavam com velocidade ao carro. Que os ânimos estavam aflorados. Uma delas, de shorts e regata laranja, jogou a bolsa prateada no chão enquanto se abaixava para pegar uma pedra. Voltei o olhar para a janela e a moça estava gritando com ele. Algo sobre devolver as coisas dela. A que estava do outro lado, de vestido preto ficou parada na frente do carro preto. Batia no capô e apontava o dedo, puxava a alça da bolsa de volta ao ombro. O homem, agora mais visível movia o carro para os lados. Mas elas o cercavam. A moça de roxo em um reflexo que sou incapaz de decifrar pulou dentro do carro pela janela. Pegou aparentemente o que era dela. As outras saíram e o cara acelerou. Amarelo. Por que eu sempre acho que vai acontecer algo de pior? Eu tenho sempre a sensação de tragédia. As amigas seguiram a vida, como se nada fosse nada. Já atravessavam a rua sorrindo para os poucos carros que passavam, mas passavam, de farol baixo. A que antes eu observava ficara ainda mais indecifrável. Virasse para o meu lado da calçada de cabeça baixa, melancólica, segurando com força suas coisas. Foi aí que me viu e eu finalmente a olhei nos olhos. Pude ver a pele judiada, mas brilhosa. Como quem tem vinte anos, mas já fumou como se tivesse cinquenta. Ela secou os olhos que estavam contornados por uma tinta preta e gritou, ‘O que é caralho?!’. Verde. Acelerei sem responder.

Talvez eu só precise descansar.

Chegando em casa me recordo de observar, que os prédios da cidade eram possíveis se identificar seu ano de construção a partir do padrão. E o do apartamento era muito semelhante ao do escritório. O que só me lembrava de terminar a planilha. Talvez por isso eu tenho trabalhado tanto. Eu só lembro do trabalho. Entrei pelo estacionamento C, mesmo meu bloco sendo o A. Mas eu tinha uma vaga no C1, a que alugava da síndica. Instantaneamente me lembrei que havia esquecido de colocar o dinheiro dela na caixa de correio como combinamos. Quando mirei minha vaga eu vi o quadrado branco colado no chão. Aquela velha era muito passiva agressiva. Desci do carro antes, peguei o papel cheio de fita. Pensei muitas vezes que eu precisava daquela vaga. Ou meu carro teria que passar a noite do lado de fora. Estacionei. Reclamei de quem havia projetado aquilo. Nitidamente meu carro, que não era um carro grande, não cabia na vaga sem estar espremido. Subindo o elevador até o térreo abri, não li, abri a carteira. Coloquei o dinheiro e o papel na caixa de correio do bloco C, apartamento 01. Voltei ao primeiro bloco, passando pelos jovens ricos que fazem medicina nas bases do bloco B. Quanta festa. Que barulheira. Parecia que todos os três primeiros andares correspondiam à uma balada. Mas, ainda bem que era feriado. Entrei no bloco A. Apertei o 20 do elevador. Mas antes de entrar me lembro de sentir algo estranho. Como se estivesse sendo observado. E eu sabia por que olhos. Mas não poderia ser. Esses olhos já não abriam mais.

Dentro do elevador forrado por espelhos a sensação persiste. Olhava rapidamente para mim mesmo nas paredes. Era como uma experiência extra-corpórea. Como se por alguns instantes eu não estivesse em meu corpo. Eu estava observando. Era como se estivesse alguém, além de mim mesmo, olhando, por de trás do espelho. Percebi que não respirava faziam alguns segundos. Soltei um suspiro envergonhado, como se não quisesse mostrar para quem quer que fosse, e para mim mesmo, que eu estava só cansado. Olhei para o letreiro dos andares e estava ainda no 12º andar. Me concentrei em olhar para baixo, nos meus pés, no mármore branco que refletia o espelho dourado do teto. Tentando não me desesperar com as possibilidades de rostos que minha mente formava.

Finalmente meu andar.

Entrei rapidamente. Jogando a pasta em minha mesa. Que ficava na sala da entrada. Fui tirando a camisa de dentro da calça e correndo para minha parte do guarda-roupa. Cheirei a camisa e conclui que não deveria por para lavar. O mesmo não foi possível dizer do resto. No banheiro joguei tudo no cesto. Voltei para pegar a gravata que estava dentro do casaco. Abri novamente o meu lado do guada-roupa. A porta estava mais leve do que o normal. Liguei o chuveiro. Abri o armário em cima da pia. Comecei a escovar os dentes ouvindo a água cair e o vapor subir. Me encomodei e desliguei. ‘Aonde estou com a cabeça’, falei. Foi quando voltei ao armário para guardar a escova que me toquei. ‘Os seus remédios não estão aqui’. Silâncio. Abri o cesto e não havia nada, só minhas roupas. Amarrei uma toalha na cintura e voltei na porta do quarto. Abri as portas e tudo, havia apenas a metade, havia apenas a minha parte. Procurei no resto da casa e não havia nenhuma evidência. Que a partir de agora, eu morava ali sozinho. O único registro de que um dia existia um ‘nós’, eram o prato, o copo e os talheres sujos na pia. Nem as embalagens do que jantara havia deixado. Respirei. Era novamente aquele sentimento de que as coisas iam sair do controle. Fui até a sala da entrada, onde deixávamos as burocracias da vida a fim de respostas. Nem as cartas, contas em seu nome, percebi que os livros, não tinha mais nada.

Há quanto tempo vinha planejando isso? Quando saí de manhã os livros estavam aqui? Quem estava aqui?

Uma carta se destacou. Em meio ao calmo caos que se desenhava, uma catástrofe. Vi o semblante da Santa Guevaute. E o meu se tornou o mais puro horror gótico. Era como se mesmo na fraca luz do espaço surgissem braços negros em minha direção. Era um selo pequeno que só poderia vir de um lugar. Da cidade que homenageia sua padroeira. A imagem fazia alusão ao episódio da lenda em que Guevaute após curar o líder da revolta do Rio dos Roxos toma seu lugar de motivadora do massacre. A revolta que havia acontecido no interior buscava vingança pelas famílias de italianos pobres calabresos. Que eram mantidos à margem esquerda do Rio dos Roxo em loteamentos com água contaminada pela limpeza dos tecidos tingidos. Contra, justamente, seus irmãos descendentes de romanos, que possuíam dinheiro, sabiam falar português e por tanto eram donos das fábricas de tecido. Quando um ataque à mansão dos Goribaldi, os maiores produtores de corante vermelho e roxo do país, deu errado, Sérgio Grasso Maria, o líder calabreso, voltou gravemente ferido. Guevaute o cura em sua tenda, e após ver que o amante precisava descansar antes de bolar uma fuga do estado, incita um massacre que duraria por mais de um mês à todos na margem direita. Foi assim que fora denominada santa pela região. E o que eram povoados se aglomeraram. Quando eu nasci, comemoram os 150 anos da formação da cidade, e assim a criação do novo selo, exclusivo de nossos correios. A ilustração então estava em toda minha infância. Nos uniformes, nos materiais, nas placas, nas praças, nos avisos do governo, na carteira de vacinação, no plastico que davam para proteger o RG. Faziam mais de 20 anos que não me viam os olhos de Santa Guevaute. Então peguei a carta na mão. Não possuía muita coisa por fora. Mas era um envelope gordo. Do tamanho de uma folha sulfite. Parecia ter umas cem folhas alí. Não tinha meu nome, mas meu endereço, escrito à mão. No verso, apenas o CEP da cidade. Abri com um misto de medo e cuidado. Algo que deve ter percorrido alguns minutos. Puxei as folhas. Eram um manuscrito intitulado “Os cinco da Sra. Violência”. Era o bastante. Não havia nome. Passei os dedos nas folhas e ali estava um lado da pior história da minha vida. Não me concentrei em ler algo, mas onde meus olhos batiam, eu sabia completar a frase, a situação, sabia do que se tratava e sabia que não era bom. Ainda dentro do envelope existia uma carta, em papel de caderno, aquele que dava na escola com a logo no canto, dizia o seguinte:

Olá amigo, fazem muitos anos e você está longe. Serei direto, o quanto conseguir ser. Primeiramente devo esclarecer que não o julgo, todos nós agimos de maneira egoísta, insensível e monstruosa nessa história. Era pedir demais para qualquer um dos quatro permanecer na cidade, quase cruel. Ma eu precisei. Então em segundo lugar, peço exijo que compreenda minha parcela também.

Precisei retornar à Santa Guevaute.

Precisei escrever o que me lembrava para me trazer paz.

Nós precisamos contar o que aconteceu naqueles meses. Precisamos falar da nossa frustração adolescente. Como fugimos do controle.

Como fomos responsáveis pelo que aconteceu.

Escrevi o livro e irei publicá-lo. Terá um grande lançamento na próxima semana. A editora acredita que será um sucesso. Pensei muito se deveria entrar em contato, afinal o mundo não saberá que foram vocês nós. Mudei os nomes. Mas não queria que fossem pegos de surpresa.

Não voltarei a entrar em contato, peguei o endereço de vocês na lista telefônica.

Espero de coração que esteja bem, mesmo que não compreenda meus motivos.

Fique bem.

Abraços cordiais,

Um amigo de antes

Era muito para processar, muito para ler. Quando seria semana que vem? Quando isso havia chegado? As letras eram tão pequenas, de que tamanho seria esse livro? Quanto de verdade iria ter? O que era verdade naquela altura?

Olhei envolta, para todo aquele vazio que era meu apartamento. Entendi que o que me restava da vida antes eram a louça suja e uma vaga extra no estacionamento, por enquanto naquela semana.

Abri o computador. Lembrei do meu primeiro e-mail. De quando a escola recebeu os primeiros computadores e implementou as aulas de informática em 1997. Digitei ciscodemaria@bol.com.br. Abri a aba de de novo e-mail com uma empolgação que me lembrou andar pela nossa quadra, eu subindo a Alameda da Lamentação que saia do lado da minha casa, e visitava todos os quintais deles, até sair na rua acima.

É o Francisco.

Da escola Padre Emanuel. O Cisco. Estou voltando p SG velhos amigos. Acho que vocês sabem o porq. Não sei quem me enviou o livro. Mas precisamos resolver as coisas. Deixar claro o que aconteceu em 1998. Antes que o mundo saiba. Porq podem não saber quem éramos fora de SG, mas lá, bom, todos saberão quem são ‘os cinco’.

Luiz, Pedro e Santo, temos muito o que conversar. Precisamos bater as histórias.

Não há mais espaço para dúvidas nesse passado.

Att,

Cisco.

Eu fechei o computador. Levante. Fui a cozinha. Lavei a louça. Fiz uma mala simples. Escrevi um bilhete sem esperança que mais alguém leia. Avisando, ‘Fui para Santa Guevaute. Foi onde nasci, quando voltar explico. Espero que possamos conversar’.

Sai pelo estacionamento C.

Notas finais
A presente fic foi reformulada depois de 9 anos de sua escrita. Apaguei a antiga.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.