O quarto escuro
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Existe um “Quarto Escuro” nesse mundo, um quarto escuro cheio de medo, monstros, tristeza e nada menos que trevas. Parece que está vazio, inabitável; visualmente é impossível imaginar o que ou quem vive ali, mas eu o conheço muito bem, o “Quarto Escuro” é o que um dia já chamei de lar e hoje chamo de prisão.
Há muito tempo ele era chamado apenas de “Quarto”, nesse tempo ele costumava ser iluminado não só pelas lamparinas e as explosões de fogos de artifícios coloridos, mas também pelo sol e pelo luar. Havia sempre diversas pessoas entrando e saindo, nunca era possível estar só, porém, quando as luzes se apagaram tudo mudou. Eu estava como os cegos, não enxergava mais nada ou mais ninguém e não ouvia nada além do meu próprio medo e desespero.
“Plim, plim, plim” era o som das minhas lágrimas caindo no chão.
“Rork, rork” era o som das minhas unhas arranhando as paredes.
“Glub, glub” era o som do medo bebendo meu sangue.
Eu me perdi de todos ou todos que se perderam de mim? Por que a solidão é minha única companhia para todas as ocasiões? Eu me afogava no mar de confusão e as dúvidas foram aspiradas por meus pulmões. Ninguém ouvia meus gritos de socorro, se alguém ouvia me ignorava. Por que ninguém me ajuda? As vozes ajudaram.
As vozes me avisam para não tentar lutar, elas me dizem verdades que eu acredito. “Você é inútil”, elas diziam; “Ninguém nunca te amará” elas gritavam. Verdades amargas são melhores que mentiras doces, mas eu preferiria o gosto azedo da omissão. A verdade tão necessária acabou por não ser tão útil no final, pois mesmo eu não tendo dons, dinheiro ou beleza no fim ainda sou usada pelas pessoas. Sou usada por porque não consigo evitar, as pessoas que me usam são aquelas que clareiam ao menos um pouco da escuridão do “Quarto Escuro”, se eu não as agradar sei que a luz vai embora com a pessoa e por isso me esforço tanto permitir que cada pessoa me use por completa, pois tenho medo do escuro. No entanto elas nunca ficam. As vozes sábias me avisam que eu não sou alguém “para a vida toda”, as pessoas me esquecem e não conseguem me enxergar. O quarto é muito escuro.
Minha prisão perpétua com pena de morte. Minha condenação foi anos atrás, o motivo foi “existir” e a sentença foi ser condenada à morte por solidão eterna. É impossível sair desse lugar, não importa o tanto que eu tente iluminar o quarto, eu nunca vou conseguir, pois para falar a verdade já nem sei mais o que quero. O meu mais íntimo sonho é sair desse lugar, mas não posso, não ouso tentar, aqui estou segura do mundo, aqui é o meu lugar: presa em algum lugar em minha própria alma ouvindo as diferentes vozes da minha própria consciência.
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