O primo do noivo
2 Capítulo 02
Notas iniciais
A segunda-feira tinha começado uma bela bosta, quase todas as segundas eram iguais, mas aquela conseguiu superar todos os limites do meu estresse com um único toque no telefone, o barulho infernal meio abafado tocava insistentemente em baixo do meu travesseiro, nos primeiros sinais do toque eu tentei veemente ignorar sua presença, mas quando aquele toque chato veio acompanhado de vibrações, fazendo todo o meu travesseiro tremer em um ritmo incomodante foi quando peguei aquele maldito aparelho.
— Quem é? — perguntei ao colocar o telefone no ouvido, não me prestando o papel de olhar quem estava me ligando aquela hora.
"Ótimo dia para você também, bela adormecida” a voz falou no outro lado da linha..
— Droga! — praguejei inaudível reconhecendo a voz fina e desagradável do meu chefe. — O que aconteceu, Kabuto? — o questionei, querendo acabar com aquela conversa logo e voltar para o meu merecido descanso.
“Eu preciso de você aqui na empresa, tudo aqui está uma bagunça” ele parecia estar nervoso.
— Como tudo está uma bagunça, Kabuto? — afastei o celular do rosto constatando que ainda eram dez para seis horas da manhã. — ainda nem deu seis horas.
“Eu não consigo te falar o que aconteceu por telefone, eu preciso que você despenque aqui em menos de dez minutos… e por favor, venha apresentável"
Aquilo tinha sido como um tapa na cara, olhei mais uma vez o relógio do celular conferindo que ele, realmente, estava marcando agora seis horas da manhã.
— Kabuto, você está de sacanagem com a minha cara né? — falei recebendo como resposta o silêncio de uma ligação desligada. — Ótimo, Sakura! mil vezes ótimo.
Deveria ser proibido alguém se estressar antes do café da manhã!
Levantei a contra gosto tacando o celular na cama para ir tomar um banho, se o Kabuto estava pensando que eu iria aparecer lá em dez minutos ele estava perdidamente enganado com essa informação. Tirei meu pijama confortável e me arrastei para dentro do banheiro, tinha que tomar um banho e lavar muito bem meus cabelos. O cheiro de champagne de sábado ainda estava ao meu redor, e eu poderia jurar que eu ficaria bêbada outra vez só de sentir o cheiro de álcool no apartamento.
Tomei meu merecido banho e lavei tudo que deveria ser lavado, meu cabelo estava mais sujo do que meu pé, e olha que nem me dei ao trabalho de tomar banho — isso se vale ao fato da indisposição ter me abraçado assim que eu cheguei em casa no sábado, depois de passar aquele vexame.
Foram quarenta minutos e muitas ligações recebidas da parte do Kabuto, eu não estava animada para atender meu chefe e também não estava me importando em chegar atrasada na editora — o que eu não estava, pois ainda era seis e quarenta da manhã. Sai do meu apartamento, descendo pelas escadas ao invés de pegar o elevador, aquela lata velha estava quebrada a um bom tempo, desde antes de comprar o apartamento eu lembro que o antigo dono informou que o elevador estava quebrado e ninguém até hoje veio resolver isso, já se passaram quase três anos.
— Senhor Kai, quando a empresa vai vir olhar aquela lata velha? — eu estava ofegante e exausta, nem parecia que eu tinha dormido o domingo inteiro. — O senhor não tem mais idade para ficar descendo do sexto andar até aqui. Se eu estou morrendo por descer do terceiro, o senhor deve ter princípio de infarto todos os dias.
— Eu cobro todos os dias aquela administradora, minha menina! Eles sempre falavam que vão mandar alguém. — Kai era um senhor na faixa dos sessenta anos, com seus cabelos grisalhos e seu olhar gentil, um senhor muito simpático que trabalhava na recepção do prédio, era como se fosse um bico para complementar sua aposentadoria.
— Me mande o telefone da administradora que vou resolver eu mesma esse assunto, eles acham que podem enrolar o senhor, por ser de idade, mas eles vão ver quando eu ligar e ameaçar colocar um processo neles. — ele me olhou assustado e depois abriu um enorme sorriso.
— Ai senhorita, eu me divirto com sua sinceridade. — confirmou.
Lancei um beijo e um tenha um “bom dia” para o senhor Kai, antes de sair pelas ruas, peguei o metrô na estação perto do meu apartamento, seguindo entre as pessoas para um dos prédios mais famosos da cidade de Nova York, um prédio comercial que estava alugado para a editora que fazia o desenvolvimento e betagem dos maiores exemplares de livros do mundo. Eu sou editora da categoria romance e fantasia, o que me causa muitas noites mal dormidas, sonhos acordados e uma compulsão ridícula por bebidas alcoolizadas. Não falo em bebida alcoólica, eu falo em bebidas levemente alcoolizadas. Só o fato de mudar a categoria, ou nesse caso “só o nome" me causa um conforto no coração. Talvez eu tenha que ouvir Ino e parar de beber um pouco… Talvez… mas só talvez.
O saguão da empresa estava vazio, o que era normal para aquele horário — a empresa em sí começava a funcionar a partir das oito horas, dando tempo suficiente para todos acordarem de seus belos sonhos e prepararem um café — o que a falta estava me causando uma séria dor de cabeça.
O elevador chegou em poucos minutos, ele estava vazio ao ponto de um arrepio subir pela minha coluna quando o vento saiu dos furos de ventilação e bateram contra meus calcanhares exposto. Eu não tive muito tempo para escolher uma roupa, então me contentei com uma calça jeans um pouco mais justa e uma blusinha social branca, além de não conseguir usar uma bota, pois meus calcanhares ainda doíam por causa do salto de sábado; eu usava uma sandália baixa, que não combinava nem um pouco com a roupa, mas que era a única coisa que eu conseguia colocar em um pé cheio de calos.
O elevador piscou ao chegar no sétimo andar, e ao abrir a porta para o departamento editorial eu não notei o “caos” que Kabuto tinha falado, pelo contrário, Kabuto estava parado com um olhar de poucos amigos, beirando a antipatia, na frente do elevador, seus braços estavam cruzados em frente ao seu corpo, sinal que ele estava me esperando a um bom tempo — só isso para entender sua cara de desgosto quando eu dei dois passos para fora da cabine de metal.
Antes mesmo de chegar próximo ao meu chefe um perfume invadiu minhas narinas.
— Está atrasada, senhorita Haruno! — Prendi meu fôlego enquanto virava o corpo em direção aquela voz, meu campo de visão ficou turvo ao identificar o homem de terno preto, com seu perfume característico que na hora me fez lembrar do seu cheiro impregnado no banheiro, uma mistura dele com nicotina.
Ele estava encostado na parede ao lado do elevador, seus olhos… Aquele olhar que me encarava com a mesma intensidade de quando eu falava atrocidades com um microfone, aquele olhar que me sugava para dentro das duas obsidianas tão intensas, o olhar predatório de um predador nato…
E olhando bem para minha situação naquele momento; eu estava parada, com as mãos suando frio, com a cabeça parecendo que iria explodir a qualquer momento, o coração batendo tão rápido que eu poderia infartar a qualquer momento.
Minhas pernas se tornaram gelatina no primeiro passo que dei para trás e agradeci por estar usando uma sandália dessa vez ao invés de um salto agulha, porque eu teria caído no chão igual uma jaca podre depois de ver aquele homem na minha frente.
E eu… eu tinha a completa certeza que eu estava, perdidamente enrascada.
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