O preço da Coroa

28 O Canto da Sereia de Porcelana


O resgate que deveria trazer paz ao espírito de Dhorwack acabou por plantar uma serpente dentro das muralhas de Mackenzie. Hadassa, longe de se mostrar grata à mulher que arriscou a vida para tirá-la das chamas de Norfolk, viu na proximidade com o Rei a chance de recuperar o trono que ela acreditava ser seu por direito de sangue.


​Hadassa foi instalada na Ala Sul, em aposentos luxuosos, sob o pretexto de "recuperar-se do trauma". No entanto, a palidez doentia logo deu lugar a uma beleza estratégica. Ela começou a circular pelo castelo usando sedas leves, sempre cruzando o caminho de Dhorwack nos momentos em que Malya estava ocupada com os líderes do vilarejo.

​— Dhorwack... — chamou ela, certa noite, encontrando-o sozinho na biblioteca real. Ela não usava joias, apenas um vestido branco que realçava sua fragilidade. — Sinto que o ar deste castelo mudou. Está mais... rústico. Sinto falta das nossas conversas sobre poesia e sobre o futuro que planejamos sob as macieiras de Norfolk.

​Dhorwack, tenso, manteve a distância.

— O futuro mudou, Hadassa. Mackenzie agora é um reino de ferro e terra. E eu sou um homem casado.

​— Casado com uma camponesa que te trata como um soldado de infantaria — ela se aproximou, a voz como um sussurro de seda. — Eu vi como ela fala com você. Ela não te entende, Dhorwack. Ela não conhece o peso da sua coroa como eu conheço. Eu fui criada para ser a sua metade. Ela... ela é apenas a sua aventura.

​Ela tocou o braço dele, os dedos frios deslizando pelo veludo da túnica do Rei.

— Urtred não me tocou. Eu me guardei para a memória do homem que eu realmente amava. Diga-me... você consegue olhar para mim e dizer que o fogo que tínhamos se apagou por completo?

​O Flagrante de Fogo

​O que Hadassa não contava era que o castelo agora tinha "olhos" em todos os cantos. Malya entrou na biblioteca sem fazer barulho. Ela não trazia chá, nem documentos. Trazia apenas o olhar de quem já tinha enfrentado um incêndio e não tinha medo de cinzas.

​Ela parou na porta, observando a mão de Hadassa no braço de seu marido.

​— A "Dama de Porcelana" parece ter se recuperado rápido demais — disse Malya, a voz gélida ecoando pela sala. — Eu deveria ter deixado você em Norfolk, Hadassa. Pelo menos lá, o fogo era real. Aqui, você só exala fumaça e mentiras.

​Dhorwack se afastou bruscamente, o rosto vermelho de confusão e culpa por ter permitido a proximidade.

— Malya, eu estava apenas...

​— Você estava ouvindo o que queria ouvir, Dhorwack — cortou ela, caminhando até Hadassa. Malya era mais baixa, mas sua presença parecia ocupar toda a biblioteca. — Escute bem, "nobre" protegida. Eu queimei um arsenal para te salvar. Posso queimar este quarto com você dentro se você tocar no meu marido novamente.

​Hadassa tentou manter a postura, um sorriso cínico surgindo nos lábios.

— O Rei Mackenzie precisa de uma Rainha que saiba se comportar na corte, não de uma batedora de mato que grita como uma lavadeira. Ele se cansará de você, Malya. Homens como ele sempre voltam para o que é familiar.