O preço da Coroa
9 Dores e compressas
A partida de Hadassa deixara um silêncio pesado no Castelo Mackenzie, um vazio que nem mesmo o som das trombetas e as ordens dos generais conseguiam preencher. O Rei Dhorwack, outrora a imagem da força indomável, parecia ter envelhecido dez anos em uma única noite.
As notícias da união de Hadassa com Urtred Styles chegaram como um golpe de misericórdia. O mensageiro tremia ao entregar o pergaminho com o selo de Norfolk, e com razão. Dhorwack não gritou, não quebrou nada. Ele apenas leu as palavras, a caligrafia elegante de Hadassa confirmando sua escolha, e o mundo ao seu redor pareceu perder a cor.
— Que assim seja — sussurrou ele, a voz desprovida de qualquer emoção. — Tragam-me minha refeição no quarto esta noite. E um chá forte. Com uma compressa para dor de cabeça.
A ordem foi transmitida, e o silêncio voltou a reinar no Grande Salão.
Horas depois, uma batida leve na porta do quarto real quebrou a quietude. Dhorwack, deitado na cama maciça com o braço sobre os olhos, ignorou-a no início. A dor de cabeça era uma fera implacável, roendo suas têmporas e dificultando até o ato de respirar.
A batida repetiu-se, um pouco mais insistente.
— Entre — murmurou ele, sem mover o braço.
A porta abriu-se com um rangido suave, e uma figura entrou, equilibrando uma bandeja de prata com uma graciosidade surpreendente. Era uma jovem, vestida com o uniforme simples das criadas, mas algo nela a distinguia das outras. O cabelo ruivo, cor de cobre em brasa, caía em ondas suaves ao redor do rosto, e os olhos, de um verde intenso e curioso, observavam o quarto com uma mistura de respeito e audácia.
Era Malya, a nova criada, vinda de um vilarejo distante no oeste.
Dhorwack, ainda imerso em sua própria dor, não notou a beleza da jovem. Seus olhos mal se abriram ao ouvir o som de algo sendo colocado na mesa de cabeceira.
— Sua refeição, Majestade — disse ela, a voz suave, mas com um tom de determinação. — E o chá. E a compressa, conforme ordenado.
Ele suspirou, abrindo os olhos lentamente. A luz da lua que entrava pela janela iluminava o rosto de Malya, realçando o brilho de seu cabelo e a inteligência em seus olhos. Mas para Dhorwack, ela era apenas mais uma criada, cumprindo seu dever.
— Deixe-me — disse ele, voltando a fechar os olhos. — Não quero comer.
Malya não se moveu.
— Majestade, a dor de cabeça não passará se não comer nada — disse ela, com uma franqueza que o surpreendeu. — E o chá esfriará.
Dhorwack levantou o braço, surpreso com a audácia. Criadas não questionavam as ordens do Rei.
— Como se atreve? — perguntou ele, a voz rouca. — Eu dei uma ordem. Saia.
Malya encarou-o, sem recuar. Os olhos verdes brilhavam com uma mistura de desafio e preocupação.
— Atrevo-me porque sei que o senhor precisa de ajuda — disse ela, a língua afiada e inocente ao mesmo tempo. — E porque não quero que o senhor morra de fome e dor de cabeça, Majestade. Se morrer, quem governará o reino? E quem pagará meu salário?
A franqueza da jovem desarmou-o. Ele nunca ouvira uma criada falar com tanta ousadia, com tanta inocência e sagacidade ao mesmo tempo. Era como se ela visse através de sua máscara de força e dor, enxergando o homem vulnerável que ele tentava esconder.
Dhorwack olhou para a bandeja, o aroma do chá e da comida quente preenchendo o ar. A dor de cabeça parecia ter diminuído um pouco, como se a presença da jovem tivesse trazido um raio de esperança para seu mundo sombrio.
— Traga-me a compressa — disse ele, a voz mais suave. — E deixe o chá. Comerei a refeição depois.
Malya sorriu, um sorriso que iluminou seu rosto e fez seu cabelo ruivo parecer ainda mais vibrante. Ela aproximou-se da cama, a compressa úmida e fria em suas mãos. Com uma suavidade que o surpreendeu, ela colocou a compressa em sua testa, aliviando a dor instantaneamente.
— O chá é de camomila e valeriana — disse ela, enquanto arrumava os travesseiros. — Ajudará a relaxar. E a refeição é sopa de frango e legumes. Nutritiva e fácil de digerir.
Dhorwack fechou os olhos, sentindo o alívio trazido pela compressa e pelo aroma do chá. A presença da jovem, com sua língua afiada e inocente, trouxera um conforto inesperado para seu coração partido.
— Qual é o seu nome? — perguntou ele, sem abrir os olhos.
— Malya, Majestade — disse ela, a voz suave. — Malya do oeste.
Dhorwack assentiu suavemente.
— Obrigado, Malya — disse ele, a voz rouca. — Pode ir agora.
Malya fez uma reverência suave e dirigiu-se à porta. Antes de sair, ela virou-se e olhou para o Rei, deitado na cama, cercado pelo silêncio e pela dor.
— Melhore logo, Majestade — disse ela, com uma franqueza que o fez sorrir. — O reino precisa de seu Rei. E eu preciso de meu salário.
A porta fechou-se com um rangido suave, e Dhorwack voltou a ficar sozinho. Mas desta vez, o silêncio não parecia tão pesado, e a dor de cabeça não era tão implacável. A presença de Malya, com sua língua afiada e inocente, trouxera uma fagulha de luz para seu mundo sombrio, uma promessa de que talvez, apenas talvez, o sol voltaria a brilhar no Castelo Mackenzie.
Fale com o autor