O preço da Coroa Amor ,Sedução e ilusão
6 Munição e Farpas no Veludo
O silêncio da Sala do Trono era quebrado apenas pelo riscar compassado da pena de ganso de Claire sobre os documentos oficiais. Contudo, o foco da jovem rainha não estava na burocracia do reino. A imagem de Sebastian Blackwood — com seus olhos audaciosos, sua postura arrogante e a audácia de desrespeitá-la diante do parlamento — ainda fazia seu sangue ferver.
Claire ergueu o rosto, ajeitou a gola de seu vestido de luto e chamou a guarda.
— Tragam o Conselheiro Von Kinsky imediatamente — ordenou ela, com a voz firme.
Poucos minutos depois, as portas de carvalho rangeram e o velho barão adentrou o recinto, curvando-se em uma reverência impecável.
— Chamou, Vossa Majestade?
— Deixe os protocolos de lado por um momento, Von Kinsky — Claire indicou a cadeira à sua frente. — Quero informações. Precisas e detalhadas. Quem é exatamente o novo Duque de Suffolk? Quero saber tudo sobre Sebastian Blackwood.
Von Kinsky ajeitou os óculos na ponte do nariz, soltando um pigarreio hesitante antes de começar a falar.
— Bem, Majestade... O título de Duque foi transferido a ele recentemente por seu pai, Stefan Blackwood, apenas para garantir sua assento imediato no parlamento austríaco. Mas a reputação do jovem Sebastian na Inglaterra... não é das mais puras.
— Desenvolva, conselheiro — pediu Claire, apoiando o queixo sobre as mãos unidas.
— Ele é conhecido em toda a corte inglesa como um homem brilhante, mas terrivelmente devasso — explicou Von Kinsky, escolhendo as palavras com cuidado. — Sebastian é um habituado de tavernas, casas de jogos e noites de libertinagem. Acumula escândalos com cortesãs e damas da nobreza, quebrando promessas e corações sem o menor remorso. Dizem que nenhuma mulher dura mais de uma semana em suas garras e que ele enxerga a sedução como um mero jogo de poder.
Um sorriso frio e calculista desenhou-se nos lábios de Claire. A joia ruiva da Áustria agora tinha exatamente a munição de que precisava.
— Um libertino disfarçado de nobre virtuoso que quer me ensinar sobre responsabilidade... — murmurou ela, os olhos verdes brilhando com uma nova determinação. — Excelente. Obrigada, Von Kinsky. Está dispensado.
À noite, o Grande Salão de Banquetes resplandecia sob a luz de centenas de velas de cera de abelha. O cheiro de assados nobres, vinhos encorpados e especiarias preenchia o ar enquanto os membros do parlamento e a alta nobreza ocupavam a longa mesa.
Claire entrou no salão trajando um vestido de veludo verde-escuro, cujos bordados prateados desenhavam os brasões de sua família. Sua caminhada era serena, mas sua aura emanava a firmeza imponente de quem herdara a coroa de Kenan e Seyran.
Ao sentar-se na cabeceira da mesa, seu olhar cruzou com o de Sebastian, que ocupava um assento lateral. Ele vestia um terno escuro sob medida e ostentava aquele mesmo sorriso de canto provocativo, erguendo a taça de cristal em um brinde silencioso para a rainha.
Durante o banquete, a conversa transitou por temas econômicos até que o Conde von Wertheim voltou a tocar no assunto do matrimônio real.
— Como eu dizia mais cedo — começou o conde —, a estabilidade da Áustria exige um rei forte ao lado de Vossa Majestade para guiar as decisões militares e morais da corte.
Sebastian aproveitou a deixa, inclinando-se para a frente com a voz aveludada e irônica.
— Concordo plenamente com o conde. Afinal, a coroa pode se tornar pesada demais para ombros tão delicados e sem a devida experiência na arte da liderança.
O salão silenciou. Todos esperavam a reação da rainha. Claire devagar pousou seu talher de prata na mesa, encarando Sebastian fixamente.
— É fascinante ouvi-lo falar sobre 'liderança e virtude moral', Lorde Blackwood — começou Claire, com uma calma mortal que pegou o duque de surpresa. — Especialmente vindo de alguém cuja maior especialidade não é o campo de batalha ou a diplomacia, mas sim as tavernas e os leitos vergonhosos da Inglaterra.
Sebastian franziu o cenho levemente, a compostura vacilando por uma fração de segundo.
— Majestade? — provocou ele, tentando manter o tom debochado. — Não sabia que minha vida pessoal interessava tanto à coroa austríaca.
— Não me interessa em nada a sua vida pessoal, lorde — rebateu Claire, a voz ecoando cortante por todo o salão. — Mas me interessa a hipocrisia de um homem devasso, cuja reputação é manchada por escândalos e promessas vazias a damas inglesas, vir até a minha corte querer me dar aulas de como governar um império. Se o senhor passa suas noites trocando de mulher como quem troca de luvas, sugiro que reserve sua arrogância para suas conquistas fáceis, pois a Áustria não é uma de suas tavernas.
Os parlamentares prenderam a respiração. Murmúrios chocados percorreram a mesa.
Sebastian sentiu o sangue subir-lhe ao rosto. O sorriso sarcástico desapareceu por completo, dando lugar a um olhar ardente e perigoso. Ele levantou-se devagar da cadeira.
— Vossa Majestade parece muito bem informada sobre meus passos... e surpreendentemente preocupada com a minha moral — retrucou Sebastian, dando um passo em direção à cabeceira. — Mas confundir a experiência de um homem do mundo com fraqueza é um erro crasso. Pelo menos eu conheço a natureza humana e a política real fora destas paredes de pedra. A senhora, por outro lado, continua escondendo sua inexperiência atrás da memória de seus pais.
A audácia da resposta fez Claire colocar-se de pé bruscamente, o vestido esvoaçando com fúria.
— Chega — declarou ela, o tom de voz tão gélido que fez o salão congelar.
Claire olhou nos olhos castanhos e intensos de Sebastian, apontando o dedo na direção da saída.
— Agora. No meu gabinete.
Sem esperar por uma resposta, a rainha virou-se e caminhou a passos rápidos e decididos rumo aos seus aposentos privados. Sebastian, com a mandíbula travada pela indignação e o orgulho profundamente ferido, ajustou os punhos da túnica e a seguiu sob os olhares atônitos de todo o parlamento.
As portas duplas do gabinete privado de Claire se fecharam com um estrondo assim que Sebastian passou pelo umbral.
Claire virou-se imediatamente para ele, os olhos verdes faiscando como fogo puro sob a luz da lareira.
— Você perdeu completamente o juízo?! — esbravejou ela, encurtando a distância entre eles. — Como se atreve a me afrontar publicamente diante do meu próprio parlamento? Você é apenas um convidado nesta corte, um lorde com um título recém-transferido! Eu sou a Rainha da Áustria!
Sebastian deu um passo à frente, dominando o espaço com sua altura e sua presença intimidadora. Ele encarou a jovem rainha sem demonstrar um único pingo de temor.
— Eu me atrevo porque a senhora prefere ser adulada por conselheiros velhos a ouvir a verdade! — rebateu ele, a voz grave e intensa ressoando pelas paredes do escritório. — A senhora me atacou pessoalmente diante daqueles homens, jogando boatos de sarjeta sobre a minha reputação! Pensou que eu ficaria calado apenas porque você usa uma coroa de ouro na cabeça?
— Boatos? — Claire soltou uma risada debochada e sem humor, encarando-o de frente. — Não são boatos, Lorde Suffolk! Você é um libertino, um devasso calculista que pensa que pode usar seu charme barato para manipular a nobreza e conseguir influência nesta corte! Mas eu vejo exatamente quem você é através desse seu terno elegante.
Sebastian inclinou-se ligeiramente na direção dela, o olhar descendo para os lábios de Claire antes de voltar a fixar-se nos olhos dela. A proximidade entre os dois era tão intensa que podiam sentir a respiração descompassada um do outro.
— Se eu quisesse usá-lo, minha rainha... garanto que a senhora não saberia como se defender — sussurrou ele, a voz descendo para um tom perigosamente aveludado e provocante. — Mas não confunda a minha audácia com fraqueza. A senhora pode ter a coroa, mas é uma menina assustada tentando governar um mar de lobos. E, goste ou não, eu não vou me curvar ao seu orgulho.
— Então prepare-se para ser destruído por ele — declarou Claire, mantendo o queixo erguido e sem recuar um único centímetro. — Este é o meu reino, Sebastian. Se você veio para Viena achando que jogaria seus jogos de sedução e poder comigo, saiba que isso é apenas o começo da sua ruína.
Sebastian encarou a jovem ruiva por longos segundos. O desdém inicial de sua missão em Viena havia desaparecido por completo, dando lugar a uma atração perigosa e a um desejo incontrolável de vencer aquela mulher. Um sorriso lento e sombrio voltou a desenhar-se nos lábios do libertino.
— Que assim seja, Majestade — murmura ele, fazendo uma reverência zombeteira. — Que venha o impasse. Porque eu garanto que não pretendo perder.
Ele deu meia-volta e deixou o gabinete, deixando Claire sozinha com o eco de suas palavras e o peito arfando de pura tensão. O jogo de intriga, paixão e poder na corte austríaca acabara de subir de nível.
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