​O tempo, esse tecelão implacável e silencioso, encarregou-se de costurar as arestas mais cortantes do passado. Ele levou consigo o peso das dores mais recentes, desbotou a intensidade das lágrimas e transformou antigas tempestades em histórias sussurradas ao redor da lareira, guardadas com carinho e respeito no cofre do coração.

​Na fazenda do conde Frederick — agora transformada em um lar autêntico e pulsante —, a rotina de Sebastian e Elin seguia embalada por uma paz que parecia quase milagrosa diante de tudo o que haviam enfrentado. O casarão, antes revestido por um silêncio pesado e aristocrático, vivia agora invadido por risos descontraídos, passos apressados, conversas ao pé da mesa e, sobretudo, pela doce e iminente expectativa da chegada do primeiro filho.

​A tarde caía suavemente sobre os campos, tingindo o horizonte com pinceladas douradas e alaranjadas. Na varanda de madeira clara, Elin repousava confortavelmente em uma poltrona de vime, com as pernas estendidas e uma das mãos espalmada delicadamente sobre o ventre já visivelmente arredondado. O vestido leve de linho balançava ao sabor da brisa mansa que trazia o perfume da terra molhada.

​Sebastian, com as mangas da camisa dobradas até os cotovelos e os cabelos ligeiramente desgrenhados pelo trabalho no campo, estava agachado bem ao lado dela. Seus olhos escuros, outrora endurecidos pela desconfiança e pela guarda alta, derretiam-se em uma ternura infinita a cada segundo em que fitavam a barriga da esposa. Ele mantinha a palma da mão grande e calejada repousada logo acima da dela, atento a qualquer mínimo movimento, como se quisesse proteger aquela vida contra qualquer vento indesejado do mundo.

​— Você acha, no fundo do seu coração cético, que será um menino forte e teimoso como o pai... ou uma menina que vai herdar essa sua mania irritante de querer consertar o mundo? — perguntou Elin, arqueando uma sobrancelha com um sorriso travesso nos lábios, enquanto afagava os cabelos dele.

​Sebastian ergueu o rosto, soltando uma risada baixa, rouca e genuína que fez o peito de Elin vibrar de alegria.

​— Seja menino ou menina, dondoca, já está decretado que será a criança mais insuportavelmente mimada e amada de todo este reino — respondeu ele, aproximando-se para depositar um beijo demorado e terno bem no centro da testa dela. — E, se puxar a mãe, terá pelo menos a decência de ser sensata. Se puxar a mim... bem, cozinhe o dobro de paciência desde já.

​Elin riu, balançando a cabeça em sinal de resignação divertida.

​— Com um pai que acha que sabe ferver água e chama isso de café, terei que cozinhar o dobro de tudo para garantir que esta casa não pegue fogo.

​— Tratando-se de culinária, declaro minha rendição incondicional — admitiu Sebastian, beijando agora a palma da mão dela, antes de voltar a colar o ouvido de leve contra a barriga. — Ei, pequeno... escute bem o seu pai: sossegue um pouco aí dentro, deixe sua mãe respirar em paz, senão quando você nascer vai ter que lidar comigo.

​Um pequeno empurrãozinho de dentro para fora fez com que Sebastian arregalasse os olhos, boquiaberto. Elin soltou uma gargalhada cristalina ao ver a expressão de pânico misturado com êxtase no rosto do marido endurecido pela vida.

​Próximo dali, nos limites do curral e dos estabulados, Thomas cuidava dos cavalos com a mesma dedicação obstinada e exemplar de sempre. Passava uma escova de cerdas macias pelo dorso do mesmo cavalo negro que o ajudara a estreitar laços com Sebastian meses atrás. Agora, porém, o ambiente era outro. Thomas vestia roupas limpas, exibia um sorriso satisfeito no canto da boca e assobiava uma melodia antiga enquanto trabalhava.

​Para ele, a fazenda havia deixado de ser há muito tempo um mero local de subserviência ou um teto temporário. Era o seu refúgio. Era a sua família.

​— Se continuar mimando esse animal desse jeito, Thomas, daqui a pouco ele vai querer dormir na sua cama e comer na mesma travessa que você — alfinetou Julian, aproximando-se com as mãos nos bolsos da calça de montaria, ostentando um sorriso irônico.

​Thomas sequer interrompeu os movimentos com a escova.

​— O cavalo tem mais recato e educação do que a metade dos nobres que frequentavam esta casa, Julian. Logo, ele merece privilégios.

​Julian soltou uma gargalhada sonora, cruzando os braços.

​— Tocado e afundado. Mas venha cá, preciso de um conselho urgente de quem entende da fauna humana desta região.

​Thomas parou, erguendo os olhos com desconfiança fingida.

​— Se o assunto for casamento ou etiqueta cortesã, procure outra pessoa. Minha única especialidade é feno e ferraduras.

​— Não é nada disso — murmurou Julian, corando levemente nas maçãs do rosto, um fenômeno raro. — É sobre... bem, você soube da minha visita ao clã vizinho na semana passada, não soube?

​— Todo mundo na comarca soube, principalmente porque você voltou atrasado e com uma expressão de quem foi enfeitiçado por uma dríade da floresta.

​— Acontece que... a senhora Beatrice... — Julian pigarreou, ajeitando o colarinho da camisa de forma nervosa. — Ela demonstrou um interesse genuíno pelos meus tratados de agricultura sustentável. E ela é incrivelmente perspicaz! Lê em três idiomas, acampou duas semanas na cordilheira e não tem medo de lama nas botas.

​Thomas cruzou os braços, fitando o jovem nobre com um brilho divertido nos olhos.

​— Espere um pouco... Deixe-me ver se entendi. O herdeiro de uma das famílias mais tradicionais da região está completamente desconcertado porque uma mulher inteligente o superou em uma discussão sobre adubação de solo?

​— Não seja cínico, Thomas! Estou dizendo que... bem, trocamos cartas nos últimos dias. E creio que, quem sabe, uma nova história esteja começando a germinar por aí. O que você acha?

​— Acho que a senhorita Beatrice tem muita paciência e péssimo gosto para pretendentes, mas tirando isso, formam um belo casal — ironizou Thomas, voltando a escovar o flanco do animal.

​Julian riu, jogando a cabeça para trás, enquanto respirava o ar puro da fazenda com a leveza de quem finalmente encontrava o seu próprio rumo no mundo.

​Enquanto isso, a centenas de quilômetros dali, em meio ao esplendor gélido e imponente da corte austríaca, a realidade respirava em outra frequência.

​Claire havia se transformado em uma lenda viva em tempo recorde. Na corte, era amplamente conhecida e respeitada — e, por vezes, temida — como uma princesa de uma determinação férrea, fria e cirúrgica. Com inteligência brilhante e uma firmeza implacável que desconhecia hesitações, ela redigia tratados de paz de madrugada, liderava comissões econômicas, impedia conflitos de fronteira e consolidava alianças políticas inquebráveis entre reinos que antes viviam em pé de guerra.

​Os homens mais poderosos da Europa curvavam-se diante de sua sagacidade diplomática; os cronistas da corte elogiavam sua mente brilhante; e os inimigos da coroa sussurravam sobre sua suposta falta de coração.

​Ela seguia absolutamente sozinha.

​Em seu escritório particular, iluminado apenas pela luz fria de candelabros de prata e pelas chamas estalantes da lareira, Claire repousava a cabeça esbelta sobre a palma da mão, encarando longamente um mapa desdobrado na escrivaninha. Seus traços estavam mais maduros, a postura ainda mais ereta, mas havia um vazio intransponível em seus olhos cor de âmbar.

​Quando, meses atrás, as notícias cruzaram as fronteiras trazendo o eco do casamento simples de Sebastian e Elin na fazenda, Claire sentiu como se uma lâmina enferrujada tivesse sido girada lentamente dentro de seu peito.

​Naquela noite, trancada em seus aposentos reais, ela havia desabado. Chorou em absoluto silêncio, abafando os soluços contra os travesseiros de pluma para que nenhuma criada ou guarda real pudesse ouvir a fragilidade da princesa indestrutível. Guardou consigo as últimas migalhas de esperança que teimava em alimentar, percebendo, enfim, que o castelo de cartas havia desabado de vez.

​Depois daquele pranto solitário, porém, nunca mais derramou uma lágrima por amor. Nunca mais pronunciou o nome dele em voz alta. Nunca mais enviou mensageiros, nunca mais buscou notícias, nunca mais permitiu que qualquer brecha de saudade interferisse em seus deveres de Estado.

​Sebastian havia escolhido o seu caminho nas brumas daquela manhã de outono, e Claire compreendeu, com a lucidez dolorosa que lhe era própria, que o havia perdido para sempre.

​Decidiu, então, carregar aquela cicatriz como uma armadura invisível.

​Jamais se casou. Embora dezenas de pretendentes de sangue azul — príncipes, duques e herdeiros de coroas importantes — batessem à sua porta implorando por sua mão em casamento em troca de alianças estratégicas, ela recusou a todos com uma altivez polida e implacável. Jamais permitiu que nenhum outro homem ocupasse sequer um centímetro do espaço que Sebastian havia deixado marcado a ferro e fogo em seu coração.

​Amara uma única vez em toda a sua vida. Um amor profundo, imperfeito, trágico e avassalador. E, talvez por ter provado a intensidade absoluta desse sentimento, nunca mais conseguiu voltar a amar ninguém. Para ela, o coração era um livro que só aceitava uma leitura.

​Enquanto Sebastian construía uma família feliz, simples e calorosa ao lado de Elin entre os vales e os estábulos da fazenda, Claire cumpria seu destino como uma soberana lendária, imortalizada nos livros de história por sua sabedoria inabalável e por sua capacidade quase desumana de manter a paz em um mundo caótico.

​Dois destinos que um dia cruzaram olhares intensos sob o mesmo teto seguiram por estradas irremediavelmente opostas.

​E, embora nunca mais tenham voltado a se ver, a se falar ou a cruzar olhares, cada um carregou consigo, até o fim dos dias, a lembrança indelével daquele amor que poderia ter mudado o curso de suas vidas... se o medo e o orgnão tivessem chegado primeiro.

​Algumas histórias terminam com o som festivo de sinos de casamento, jantares fartos e promessas cumpridas sob o altar.

​Outras histórias terminam com um adeus sussurrado na neblina, com passos distantes e com o silêncio definitivo de estradas que se bifurcam.

​A história de Claire e Sebastian terminou com uma promessa jamais concretizada — e com um amor que, mesmo perdido nas curvas do tempo, nunca deixou de existir.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.