O preço da Coroa Amor ,Sedução e ilusão

16 Âncoras, Promessas e Máscaras de Prata



​As semanas que antecederam o matrimônio real transformaram a rotina de Viena em um turbilhão de preparativos. Tecidos de seda trazidos do Oriente, bordados com fios de ouro, preenchiam as salas de costura; arranjos de flores secas e ramos de oliveira decoravam as galerias; e a cozinha do palácio trabalhava dia e noite para criar um banquete digno de entrar para a história da Áustria.

​No meio do caos burocrático, Sebastian tornou-se, verdadeiramente, o porto seguro de Claire.

​Em uma tarde chuvosa, enquanto a rainha revisava os mapas de assentamento das províncias, a exaustão a fez soltar a pena e cobrir o rosto com as mãos. O peso da coroa, somado à saudade esmagadora de seus pais nas datas comemorativas, ameaçava afogá-la novamente.

​Sebastian, que analisava os custos do transporte das províncias ao canto da sala, caminhou devagar até a mesa dela. Ele não fez perguntas. Apenas puxou uma cadeira para perto, sentou-se ao lado dela e pegou suas mãos gélidas entre as dele, aquecendo-as com calma.

​— Eles teriam um orgulho imenso de você, sabia? — disse Sebastian, a voz baixa e aveludada, encarando os olhos verdes marejados de Claire.

​— Às vezes sinto que estou apenas fingindo que sei o que estou fazendo — confessou ela num sussurro vulnerável, apertando os dedos dele. — Quando meu pai sentava nesta cadeira, ele parecia inabalável.

​— Ele não era inabalável, Claire. Ele apenas tinha a sua mãe para segurar a mão dele quando as portas se fechavam — murmurou o duque, inclinando-se para beijar a testa da noiva com uma ternura profunda. — E você tem a mim. Não precisa carregar o reino sozinha nunca mais. Eu não vou a lugar nenhum.

​Nesses pequenos momentos — seja compartilhando um chá rápido entre reuniões, seja caminhando à noite pelos corredores silenciosos do palácio —, eles se conheciam a fundo. Claire descobriu que Sebastian adorava ler poesias antigas em latim quando não conseguia dormir, e Sebastian aprendeu que ela odiava doces muito açucarados, preferindo frutas cítricas. A cada dia, a casca cínica do libertino de Suffolk ruía por completo diante dela, revelando um homem protetor, leal e profundamente apaixonado.

​A tranquilidade dos noivos, contudo, foi interrompida pela chegada da comitiva de Suffolk.

​Três grandes carruagens reluzentes, ostentando o brasão da família Blackwood, cruzaram os portões de Hofburg sob o toque das trombetas imperiais. No pátio de honra, a guarda real alinhava-se em formação rigorosa.

​Claire aguardava no topo da escadaria, vestindo um robe de veludo escuro e a tiara de rubis. Ao seu lado, Sebastian mantinha uma postura firme, embora a mandíbula levemente travada denunciasse sua tensão diante da presença dos pais.

​A porta da carruagem principal abriu-se, e o Duque Stefan Blackwood desembarcou, seguido por sua esposa, a Duquesa Bárbara. Stefan trazia o olhar afiado de um estrategista político que finalmente alcançara seu prêmio; Bárbara exibia um sorriso aristocrático perfeitamente calculado.

​Ao subirem os degraus, os pais de Sebastian fizeram reverências impecáveis diante da soberana.

​— Vossa Majestade — disse Stefan, a voz grave e pomposa ao pegar a mão de Claire para um beijo cortês. — É uma honra indescritível para a Casa dos Blackwood pisar em solos austríacos para celebrar esta união abençoada. O meu filho teve a sorte incomparável de ser escolhido por uma soberana tão magnífica.

​— Sejam muito bem-vindos a Hofburg, Duque Stefan, Duquesa Bárbara — respondeu Claire, a voz fluindo com uma graciosidade rainha e impecável. — É um prazer recebê-los em minha casa. A reputação da vossa família os precede, e espero que a estadia em Viena seja de vosso agrado.

​— Oh, querida rainha, o prazer é todo nosso — interveio Bárbara, passando os olhos minuciosamente pelos detalhes do palácio e, em seguida, para o filho. — Ver o nosso Sebastian tão... integrado à corte e tão devotado à Vossa Majestade aquece o meu coração de mãe.

​Sebastian apenas sorriu de forma contida, ajeitando a postura.

​— Espero que a viagem tenha sido tranquila, pai — interveio o jovem duque, o tom de voz profissional. — Preparamos os melhores aposentos da ala leste para vocês.

​— Tenho certeza de que estão impecáveis, meu filho — disse Stefan, dando um tapinha no ombro de Sebastian, o olhar brilhando com uma cumplicidade oculta que o rapaz fez questão de ignorar.

​À noite, o Salão de Jantar Privado recebeu um jantar íntimo para a reunião das duas famílias. A grande mesa de madeira polida estava posta com louças de porcelana fina, talheres de prata e taças de cristal carregadas com os melhores vinhos da safra imperial.

​Richard ocupava a ponta da mesa como Rei da Suécia e anfitrião ao lado da irmã. Ao seu lado, Genevieve mantinha um olhar atento e um sorriso sereno.

​Apesar de toda a sua desconfiança em relação aos Blackwood, Richard deu um espetáculo de diplomacia. Ele vestia seu traje de gala militar e portava-se com uma cordialidade cirúrgica, interpretando o papel de um anfitrião impecável.

​— Devo parabenizá-lo, Duque Stefan — disse Richard, erguendo a taça de vinho em um brinde elegante na direção do velho duque. — Os cavalos de raça que trouxeram na sua comitiva são exemplares notáveis. A Inglaterra continua sendo referência na criação de sementais.

​— Agradeço o elogio, Rei Richard — respondeu Stefan, visivelmente satisfeito com a cortesia. — Em Suffolk, prezamos pela linhagem e pelo vigor. Assim como na política, um bom sangue faz toda a diferença para o futuro de uma casa.

​— Certamente — assentiu Richard, um brilho afiado cortando seus olhos por um milésimo de segundo antes de ele tomar um gole de vinho. — E por falar em política, fico feliz que seu filho tenha encontrado tempo entre os negócios da sua família para se dedicar tão fervorosamente à nossa Áustria.

​— Ora, Majestade — interveio Bárbara com uma risada refinada —, Sebastian sempre foi um jovem de grandes ambições. Quando ele coloca um objetivo na cabeça, vai até o fim para alcançá-lo. Não poderíamos estar mais orgulhosos do resultado.

​A frase da duquesa carregava uma camada sutil de insinuação política que fez Sebastian apertar o cabo de seu garfo sobre a mesa. Claire, percebendo a tensão no noivo, buscou a mão dele por baixo da toalha de mesa, entrelançando seus dedos com os dele.

​— O empenho de Sebastian não foi por ambição, Duquesa Bárbara — declarou Claire com a voz suave, mas perfeitamente firme, olhando para a sogra com um sorriso doce. — Foi por amor ao nosso povo... e a mim. E garanto que o parlamento austríaco reconhece a diferença entre um homem ambicioso e um homem verdadeiramente leal.

​Genevieve sorriu discretamente, levando a taça aos lábios para esconder o contentamento diante da defesa da cunhada.

​— Sem dúvida alguma, querida — concordou Genevieve, direcionando-se à Duquesa Bárbara. — A cumplicidade dos dois é algo lindo de se ver. É raro encontrar um noivado arranjado pelas circunstâncias que floresça em um sentimento tão autêntico.

​Stefan tossiu levemente, disfarçando o incômodo com o rumo da conversa, e ergueu sua taça.

​— Que seja, então! À estabilidade da Áustria, à união da Casa de Mackenzie e da Casa de Blackwood, e ao futuro brilhante que nos aguarda!

​— À união — ecoaram todos na mesa, fazendo o tinir dos cristais ressoar pelo salão.

​Richard sorriu e bebeu seu vinho, mantendo o olhar fixo em Stefan. A cortesia do rei sueco fora impecável durante todo o jantar, mas a vigilância em suas pupilas deixava claro: ele representaria a barreira inexpugnável caso os pais de Sebastian tentassem transformar aquele casamento em uma manobra de poder.

​Quando o jantar se encerrou, os convidados começaram a se recolher. No corredor iluminado pelas arandelas, Sebastian e Claire caminhavam devagar lado a lado.

​— O seu irmão foi brilhante hoje — comentou Sebastian, soltando um suspiro longo de alívio. — Uma cordialidade tão afiada que poderia cortar seda.

​— Richard é um protetor nato — riu Claire baixinho, parando diante das portas de seus aposentos. — Mas você se saiu perfeitamente, meu amor.

​Sebastian segurou o rosto de Claire com as duas mãos, encarando-a sob a luz suave das velas.

​— O meu pai pensa que venceu um jogo, Claire — murmurou ele, a voz transbordando uma honestidade crua. — Mas a única vitória que me importa... é ter você na minha vida.

​Claire sorriu, ficando na ponta dos pés para selar seus lábios nos dele em um beijo calmo, profundo e cheio de promessas para o dia do casamento que se aproximava.