O preço da Coroa
10 Amizade improvável
Nos dias que se seguiram, o rei Dhorwack tornou-se um fantasma dentro de sua própria fortaleza. O silêncio nos corredores da Ala Leste era quebrado apenas pelo som metálico de sua armadura quando ele decidia inspecionar as tropas, mas seu olhar permanecia distante, perdido em algum lugar entre a traição de Carlos e a partida de Hadassa.
No entanto, havia um único momento do dia em que a névoa de sua melancolia parecia se dissipar: a hora do chá noturno.
— Onde está a ruiva? — perguntou Dhorwack a um guarda, com a voz ríspida, ao perceber que a bandeja fora deixada na antecâmara por outro criado. — Mande Malya trazer o desjejum amanhã. E que ela mesma prepare a compressa. Os outros pesam a mão como se estivessem selando um cavalo.
Na manhã seguinte, Malya entrou no quarto. O sol batia em seu cabelo ruivo, fazendo-o brilhar como cobre polido. Ela não parecia intimidada pelo humor sombrio do soberano.
— O senhor mandou me chamar porque os outros são brutos ou porque sentiu falta das minhas verdades, Majestade? — perguntou ela, colocando a bandeja sobre a mesa com um estalo decidido.
Dhorwack sentou-se na cama, observando-a. Pela primeira vez, ele notou como o avental verde realçava a cor de seus olhos e como a pele dela tinha o frescor do campo, longe da palidez artificial das damas da corte.
— Você fala demais, Malya — resmungou ele, embora houvesse um traço de diversão em sua voz que não aparecia há semanas. — Apenas coloque a compressa. Minha cabeça parece um campo de batalha.
Ela aproximou-se. Malya era mais baixa que ele, e para aplicar a compressa, precisou inclinar-se, ficando a poucos centímetros do rosto do Rei. Dhorwack sentiu o perfume dela — não era de rosas caras ou essências raras, mas de sabão de ervas e ar fresco.
— O campo de batalha é a sua mente, senhor — disse ela, as mãos firmes e frias tocando as têmporas dele. — O senhor ganhou um trono de volta, mas age como se tivesse perdido uma guerra. Se continuar assim, vai acabar governando um cemitério, porque ninguém aguenta olhar para essa cara de enterro o dia todo.
Dhorwack segurou o pulso dela, parando o movimento das mãos. Se fosse qualquer outra pessoa, ele a teria mandado para as masmorras por tal insolência. Mas Malya o olhou de volta, sem piscar, com uma inocência que beirava o perigo.
— Você não tem medo de mim? — ele perguntou, a voz baixa.
— Eu tenho medo de lobos e de colheitas ruins, Majestade — respondeu ela, soltando-se com delicadeza e voltando para a bandeja. — O senhor é apenas um homem com uma coroa pesada demais e pouco apetite. Agora, coma. A sopa está quente e eu não gastei lenha para o senhor deixá-la esfriar.
Ele soltou uma risada curta, a primeira em muito tempo. Malya era como uma lufada de vento em um quarto fechado por décadas. Ela não o via como um símbolo de poder, mas como alguém que precisava de sopa e de um choque de realidade.
— Fique — ordenou ele, enquanto pegava a colher. — Conte-me sobre o Oeste. Quero ouvir algo que não envolva política, traições ou casamentos por contrato.
Malya puxou um banquinho, sentando-se com uma naturalidade desconcertante. E enquanto ela falava sobre as colinas verdes e as festas de colheita, Dhorwack percebeu que, pela primeira vez, não estava pensando em Hadassa. Ele estava focado no movimento dos lábios de Malya e na maneira como ela gesticulava com as mãos.
A beleza dela estava começando a perfurar a armadura de gelo que ele construíra.
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