O poço e o abismo
1 Capítulo único.
Havia um poço ao lado do abismo, nesse poço vivia uma pessoa muito infeliz. Ela não vivia, de fato, dentro do poço, mas gostava de dançar sobre a tampa de madeira que protegia as pessoas de uma possível queda. Ela não temia cair no poço. Sua casa ficava na beira do abismo, tão na beira que, às vezes, ela podia olhar o abismo pela janela. Mas tudo dependia do quanto ela queria olhar e cada vez que ela olhava, ela via mais fundo que na vez anterior. Ela jura por deus que acha que viu o diabo. Eu acho, apenas, que ela perdeu a fé. Ela levanta todos os dias, tomava café, olhava um tempo pela janela e ia para o poço dançar. As vezes ela nem levantava, tampouco tomava café, nesses dias ela via mais fundo o abismo e a tampa do poço ficava aberta caso ela quisesse pular. Eram tristes dias, superáveis dias, insuportáveis dias que estavam sempre lá. Outras vezes ela sentia que vivia dentro do poço, era capaz de sentir a água fria até o pescoço e os olhos de pavor encaravam a escuridão. O medo de saltar para o abismo de sua sanidade, depois de olhá-lo fundo, faziam com que ela preferisse mergulhar nas águas frias daquele poço sombrio. As raras vezes que estava bem, sentia apenas vontade de dançar, tinha medo de se afastar do poço e se perder. Temia olhar para o abismo e se encontrar. Sua casa era o quarto escuro onde dormia e sonhava em ter coragem. Não fazia sentido sonhar com qualquer outra coisa, não fazia sentido querer viver. Os olhos abertos também sonhavam com o dia em que seria livre. Queria tanto que fosse ontem. Mas a coragem e o medo andam de mãos dadas, são eles juntos que impedem o salto. Assim a janela do abismo permanece fechada.
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